The Darkest Worlds - Livro I - Sangue & Ódio
4 Capítulo 4 - Ódio.
Notas iniciais
Os olhos de íris vermelhas de Red passavam do Lobisomem para o resto do grupo, se alternando rapidamente enquanto ele os analisava. Seus dedos permaneciam firmes sobre a Glock 18, enquanto seu rosto parecia agradavelmente surpreso, como se tivesse encontrado velhos amigos.
– Ah, BEN, Jeff, Jane e Gancho... Que surpresa agradável encontrá-los aqui. Vocês estão bem, não estão? – ele riu-se. – Mas podem ficar tranquilos... Vão deixar de estar daqui a alguns segundos!
– Ah, olá Red. – disse Jeff com a voz rouca, mas ainda com o tom irônico. – Claro que estamos. Mas podia estar melhor, por exemplo: Você poderia estar morto.
Red riu e disse:
– Concordo, mas quem vai morrer aqui vai ser você.
– Vai nos matar mesmo á sangue frio? – perguntou Jeff.
– Não, matar á sangue frio é matar gente desarmada. O tipo de gente igual á você sempre tem tanto veneno na língua que deveria ser considerada arma nacional. – disse Red.
O Lobisomem ficou impaciente com aquela conversa. O Gancho gemia de dor, mas o fazia o mínimo possível, e encarava o Lobisomem com o maior de ferocidade que conseguia reunir. Mas o Lobisomem resolveu agir.
Seu salto foi veloz, com as mãos estendidas, prontas para retalhar Red. Mas Red estava preparado. Ele alojou quatro balas em rápida sucessão no ombro esquerdo do Lobisomem.
Ao contrário de todos os outros ataques que sentira até agora, o Lobisomem uivou de dor e caiu no chão, com convulsões. A carne atingida pelas balas fervia e fazia fumaça se erguer dos buracos de bala, e Red riu enquanto o Lobisomem sofria no chão.
– Balas de prata. – disse Red, sorrindo sadicamente. Ele retirou o cartucho da arma e o mostrou para todos. Estava carregado de reluzentes balas prateadas, então Red recolocou o cartucho. – Não levem isso para o lado pessoal... Sabem, fiquei sabendo que querem me matar. Não posso deixar pessoas me perseguirem, por mais fracas que sejam.
Os olhos de Red faiscavam entre a Jane inconsciente, o Jeff semimorto, o BEN imobilizado, o Gancho com o braço completamente destruído, e o Lobisomem que arfava com os buracos de bala. Red achava que seria moleza matá-los.
O dragão atrás de Red rugiu, sedento de sangue, mas Red acariciou seu focinho, o acalmando.
– Calma, Miki, ainda não está na hora de devorarmos carne. – disse Red, olhando-a com afeição.
Pelo nome, Miki deveria ser fêmea.
Miki, a draga, rosnou, mas menos ameaçadora.
Red voltou á olhar para os que estavam ali presentes.
– Desculpem por isso, mas Miki quer comer. Sabem, faz tempo que ela não teve presas tão... – Ele sorriu malignamente. – ... Apetitosas...
– Bem, se ela me comer, vai ter indigestão. – concluiu o Jeff.
– EU que deveria devorar você. Não o contrário. – rosnou o Lobisomem.
A Jane gemeu. Ela lentamente recuperava a consciência, e o Gancho começava á se pôr de pé, assim como BEN. BEN recuou um pouco, com uma súbita onda de tontura e náusea o atingindo quando colocou os pés no chão, mas resistiu.
– Sempre soube que eu era apetitosa. – disse a Jane, ainda fraca. Ela não olhava para Red, mas escutara a voz dele. Com certeza, ela estava com a visão turva demais.
– Não se preocupe Jeff, o estômago dela está adaptado para comer qualquer coisa que seja orgânica. E, Lobisomem, se acostume com isso, pois você vai ser devorado. E vai ser lentamente, pois quero apreciar a ironia do momento. E Jane, você está certa. Sempre foi um bom prato. – Red então começou á rir. O Jeff disse:
– Olha só... O amiguinho tem senso de humor! É uma pena que seja porque vamos morrer.
O Lobisomem lutava para se colocar de quatro, mas sequer isso ele conseguia. O ferimento no ombro fervia e fazia sangue escorrer, fervente. Até mesmo o contato com o sangue fazia o Lobisomem sofrer, como se o sangue fosse lava fervente.
Red disse, sorrindo:
– Vai ser excelente acabar com gente incômoda. E claro, o senhor Slendy não vai saber de nada... Ele não precisa saber de mortes desagradáveis para ele.
A visão da Jane foi clareando, e ela pôde discernir as coisas claramente. Ao ver o Red, ela ficou boquiaberta e levou as mãos até a boca, tampando-a.
– Ah, boa noite, Jane. – disse Red, olhando-a com um ar de surpresa. – Como você vai?
– R-Red?! – perguntou ela, assustada. Ela recuou alguns passos e tentou sacar a faca, mas então se lembrou que o tapa que recebera do Lobisomem deve ter jogado sua faca para longe. Ela xingou em voz baixa e tratou de se armar com uma pedra. Era ruim, mas melhor do que nada.
– Sim, sou eu. – A voz de Red soava agradável, embora seus olhos faiscassem malignamente. – Olha só quem temos aqui... O vovô Gancho!
O Gancho se levantou, com o antebraço esquerdo balançando-se de um lado para o outro, sacudindo-se sozinho. Apesar de toda a dor e ardência que sentia no antebraço, ele parecia indiferente, mas estava com o rosto descorado. Ele disse calmamente, com a voz rouca:
– Tenha mais respeito comigo, Red. Ou devo lembrá-lo do quê que eu fiz com o último bichinho da sua coleção que você mandou me matar? – o Gancho perguntou com a voz fria. O sorriso de Red vacilou, e então Red disse com a voz fria:
– Você não devia ter falado isso.
Então o BEN disse, indignado:
– Peraí! Ele roubou o meu jargão e modificou-o! EU PROTESTO!
Todos olharam para o BEN, perplexos. A situação estava tão tensa, e ele se preocupava que o Red tinha quase roubado a frase de efeito dele? Isso era triste.
Em seguida, Red gargalhou, o que deixou todos ainda mais exasperados. Se Red gargalhasse, não importa o motivo, é sempre uma má ideia ficar por perto dele.
– Você é engraçado, BEN. – disse Red, limpando as lágrimas que se formaram em seus olhos. A draga, Miki, parecia ter rido também. Tinha emitido uma sequência de rosnados, com um sorriso sinistro. – Quem sabe eu te deixe vivo por mais tempo para me divertir... Primeiro, vou cuidar do cachorrinho aqui.
Ao dizer isso, ele apontou ao Lobisomem. Aos olhos de todos, os pelos do Lobisomem pareceram reentrar na carne, ele parecia diminuir de tamanho, de peso. Perdia os músculos e ganhava feições mais humanas, até que eles encaravam um homem. Um homem muito forte e bastante alto para um humano comum, com 1,90 de altura. Ele era musculoso, moreno, de olhos de íris castanhas, cabelos pretos um pouco rebeldes, barba raspada preta e várias cicatrizes sobre o peitoral e as costas nuas. Ele vestia somente calças jeans velhas e surradas. O ferimento ainda parecia horrível no ombro dele.
Red se aproximou lentamente do Lobisomem e se agachou do lado dele, e perguntou:
– Dói, não é? – a voz dele estava baixa. – Sei que dói, Carlos. Mas não precisa se preocupar... A dor passa. Passa com a morte.
– Vai se... Foder. – O Lobisomem, Carlos, juntou saliva e sangue suficientes em sua boca para cuspir na cara de Red, que pareceu ficar ligeiramente irritado.
– Certo, não vou mais matá-lo... – começa Red.
– Sério? – pergunta o Jeff, indignado. O cara causara mais problemas para Red do que eles. Era injusto ele não morrer.
– ... Quem vai matá-lo será Miki. – terminou Red, com os olhos faiscando.
A draga rugiu, pronta para atacar. Carlos xingou em voz baixa e se colocou em posição de combate, sem nenhuma arma.
O Jeff se curvou e sussurrou no ouvido da Jane:
– Eu aposto que Miki mata ele, mas que ele consegue ferir Miki. E você? Aposta no quê?
A Jane lhe dá uma cotovelada com força no pescoço, sem nem olhar para ele, o jogando no chão engasgando.
– Que você morre se não calar a boca. – disse, satisfeita.
Então a luta teve início, mas para a surpresa de todos – exceto Red – quem deu a iniciativa á luta foi Carlos.
Ele rosnou, com uma voz rouca, e então correu até Miki, que pareceu espantada por ver Carlos atacar primeiro. Carlos saltou, com os punhos erguidos prontos para esmigalhar o crânio de Miki, mas ela girou e atingiu a bola de fogo do rabo dela bem no peitoral dele, provocando uma explosão de chamas e jogando-o no solo.
Carlos ofegou, com uma feia queimadura no corpo, e Red disse, satisfeito:
– Você pode até demorar para morrer assim... Eu sei, balas de prata matam rápido, mas se continuar assim, você vai morrer!
Miki rugiu, e Carlos pareceu ficar mais irritado, em vez de intimidado.
Ele correu novamente de Miki, que observou o progresso dele imponentemente, então ela disparou um jorro de chamas no corpo de Carlos.
Elas engoliram o Lobisomem, mas ele evitou qualquer grito de dor, só deixando escapar um arquejo de dor, mas ele mergulhou, ainda em chamas, e atingiu a barriga de Miki. Ela ofegou quando a cabeça do Lobisomem atingiu sua barriga, mas ela ergueu os braços com asas, e eles explodiram em chamas. Antes que Carlos pudesse fazer alguma coisa, Miki golpeou brutalmente.
Carlos gritou quando foi atingido. As chamas lhe provocaram feias queimaduras e bolhas na sua pele escavada e ferida por causa das garras de Miki. Porém, seu grito foi mais de raiva do que dor. O sorriso de Red vacilou. O Lobisomem nem parecia estar sentindo dor. Ele sabia que estava, mas o Lobisomem nem reagia como esperado.
O Lobisomem ergueu um punho fechado, atingindo o queixo de Miki. Ela sequer se mexeu, mas ela lhe aplicou um golpe fortíssimo com as asas, jogando-o no solo á frente dela.
Carlos voou dois metros antes de aterrissar, chocando a cabeça em uma pedra. Carlos parecia desacordado, enquanto o sangue escorria em um filete de seus lábios.
– Isso, isso, é assim mesmo, Miki. – disse Red, sorrindo. – Ele até que durou, com quatro balas de prata no ombro...
Mas parou de falar e empalideceu quando Carlos se levantou. Suas unhas tinham se transformado em pequenas garras negras. Os pelos lhes recobriam o rosto e a maior parte do peitoral e dos braços. A parte branca dos olhos mudara de cor, ficando amarela. Carlos rosnou.
– Agora vamos brincar. – rosnou ele, com uma voz rouca, mas firme.
Miki rugiu, um som que ecoou na clareira. Mas o Lobisomem saltou três metros de altura num único pulo, desviando da torrente de chamas cuspida por Miki. Ele girou no meio do ar e caiu nas costas de Miki, arranhando as costas de Miki com as garras no processo. Miki girou, golpeando Carlos com a bola de fogo da ponta do rabo, Carlos foi arremessado, com uma feia queimadura no rosto, além de fumaça negra e um cheiro horrível de queimado. Carlos se levantou, confiante. A carne em seu ombro tinha a aparência pior, com bolhas e calombos se formando, mas a transformação lhe dera energia extra. Ele tinha confiança que aguentaria.
Porém, Red cansara daquele joguinho. Ele grunhiu:
– Vamos parar de brincar, Miki. Esse bastardo está se mostrando resistente demais. Vamos acabar com isso logo.
Miki assentiu com a cabeça, e Red sorriu. A carne de Red começou á empalidecer, ficando tão pálido quanto à neve. Os cabelos negros dele cresceram até atingirem as costelas. Sangue começou escorrer de seus olhos, cujas íris tinham engolido a pupila, deixando somente uma grande pupila vermelha no olho que escorria sangue. Miki pareceu ficar meio transparente, mas com uma camada de carne embranquecida recobrindo o esqueleto e os órgãos dela. Os olhos tinham se tornado órbitas vazias.A bola de fogo na ponta do rabo de Miki fora substituída por um grande arpão branco-metálico.
Red sorriu. Então disse:
– Mate ele, Miki.
Miki pareceu gostar da ordem, pois no momento seguinte, ela avançara em Carlos. Carlos mal se desviou do golpe das garras de Miki, mas o rabo dela se agitou e atingiu a parte plana dele nas costelas de Carlos, jogando-o numa árvore. Ele bateu a lateral do corpo dele com força na árvore, fazendo-a tremer. A visão dele turvou, mas ele sentiu que Miki se aproximava numa velocidade assustadora. Então ele fechou as mãos sobre um galho de árvore pontudo e puxou-o, o quebrando, e então o cravou na cabeça de Miki.
Ela urrou de dor, mas, fora isso, ela não parecia estar muito ferida. Ela soltou um jorro de chamas para cima, carbonizando o galho. Mas os segundos que ela gastou deram num triste resultado: O Lobisomem avançou e golpeou a lateral do corpo dela, arranhando-a ainda mais.
O sangue dos dois manchava o chão, em forma de poças ou simples manchas. Miki avançou novamente, mas estava confusa e irritada, o que a deixou mais distraída. Carlos lhe deu uma joelhada na barriga enquanto segurava os braços finos, que sustentavam as garras e as asas, fazendo o corpo dela se arquear por completo com a força do golpe, então lhe socou a mandíbula, fazendo-a se afastar, e terminou por arranhar o peito dela, provocando um rugido de dor.
Miki se afastou, e o Lobisomem começou á avançar, confiante. Talvez menos confiante no momento em que escutou o disparo. No milissegundo seguinte, ele o sentiu na própria carne.
Red disparara á sangue frio nas costas do Lobisomem. Ele arquejou e caiu de joelhos, tossindo sangue, e então ele caiu no chão, imóvel.
– Eu disse que cansei de brincar. – disse Red calmamente, mas com um sorriso de lado. – Agora vou cuidar de vocês.
Enquanto isso, muito longe dali...
Um mensageiro corria apressado por dentro do suntuoso castelo de tijolos de pedra. Diversas tochas pendiam nas paredes, mas não era nem de perto o número suficiente para iluminar bem o castelo. O que iluminava mais eram os diversos candeeiros de ferro com chamas azuis nos seus suportes para velas.
Por todo o castelo, guardas e arqueiros patrulhavam o local. Mas a carne dos guardas era apodrecida e verde, seus olhos eram apenas órbitas negras. Eles andavam lentamente, grunhindo ocasionalmente. Eram zumbis. Os arqueiros eram esqueletos que produziam estalidos com os ossos ou um rude som de osso batendo em algo duro, quando a armadura tremulava no corpo magro deles.
Alguns humanos patrulhavam o castelo também, mas eram humanos muito bem treinados, com os rostos duros e severos, com traços decididos. Pareciam gente que já tivessem participado de uma ou duas guerras.
Mas o mensageiro não era assim. Era um ágil humano pálido e esguio, utilizando uma simples armadura de couro pintada de branco. Na cintura dele, pendiam uma espada de ferro e uma garrucha antiga.
Ele abriu passagem entre os guardas, que o saudavam ou faziam-lhe perguntas. O mensageiro não tinha tempo pra respondê-las.
Por fim, chegou no corredor da sala do Lorde. Pelas janelas, era possível ver a tempestade de neve lá fora. Um imenso tapete vermelho guiava as pessoas até o trono, um imenso trono feito de diamante, ouro, tijolos do Nether e obsidiana. Sentado no trono, tinha uma figura de 1,90 metros de altura, vestida com um manto negro, calças negras e botas negras. O resto do seu corpo – exceto as mãos morenas – estava todo oculto pelas sombras.
Aos pés do seu trono, duas mulheres belas estavam sentadas, murmurando palavras provocantes, num tom de voz de uma amante, enquanto elas lhe acariciavam as pernas. Eram lindas, com atraentes e proeminentes curvas, vestindo somente uma frente única curta branca e as roupas de baixo. Só.
O vulto oculto pelas sombras ergueu a cabeça e encarou o mensageiro, o olhando com atenção. Então o vulto perguntou, com uma voz como se um homem de 20 anos falasse ao mesmo tempo como um homem de 35 com um amplificador de som:
– E então?
O mensageiro se curvou e saudou:
– Milorde, desculpe-me sobre minha intromissão, mas devo alertá-lo que duas pessoas pretendem falar com você.
O homem sentado no trono considerou, então perguntou:
– Quem são eles?
– Bloody Mary e Wendigo. – o homem falou o nome dela sem temor. Não era nenhum ser poderoso para chamar atenção especial dela por falar o nome dela, portanto, estava relativamente seguro. Mas ainda assim, a simples menção do nome de Wendigo faz a luz das velas tremularem por um instante, e puderam ouvir uma gargalhada distante ao falarem da Mary.
– Eles estão chegando ou já chegaram? – perguntou o homem, intrigado
– Já chegaram, Milorde. Mas querem falar com você sobre algo urgente.
O homem considerou, e então se levantou bruscamente e empurrou brutalmente as mulheres, uma para cada lado. Elas estavam acostumadas com esse comportamento do homem para se sentirem ressentidas, mas não podiam evitar uma pontinha de mágoa. Para elas, ele era um homem fascinante, mas rude. Elas sabiam um pouco sobre a história dele, então se apiedaram o suficiente para não sentirem tanto ódio dele.
Porém, para todas as outras pessoas, ele era alguém á ser respeitado. Alguém á ser temido.
Alguém á ser odiado.
Ele caminhou, sendo saudado com reverências enquanto passava pelos seus guardas e arqueiros, além de aranhas tão grandes quanto bicicletas de criança, criaturas verdes de quatro patas, com rostos em eterna tristeza, e também seres altos, da cor negra, com olhos lilases com somente pupilas roxas intensas. Eles desprendiam partículas roxas. Esses seres mediam dois metros, o que garantia que eles eram ainda mais altos do que o Lorde dos Mortos, mas ele não se importava. Contanto que aqueles Endermen se mantivessem fiéis, a última coisa que se preocuparia deles seria a altura.
O mensageiro o guiava até a cozinha. Chegando lá, o mensageiro foi recompensado com uma pepita de ouro e um pedido:
– Saia daqui. O assunto deve ser particular.
O mensageiro deu mais uma reverência e saiu.
O homem empurrou a porta de carvalho escuro, e encontrou a Bloody Mary vestindo um pesado casaco de pelo, e um Wendigo coberto de faixas e ataduras. Ele praticamente fora carregado pela Bloody Mary. As ataduras estavam manchadas de vermelho, e ele estava praticamente todo recoberto delas, mas por algum milagre, ele ainda conseguia se mexer.
Mary ergueu os olhos até o Lorde dos Mortos e disse:
– E aí, tudo ok?
O homem olhou-a friamente e disse:
– Não. Afinal, vocês estão aqui sem nem mesmo me darem um aviso prévio.
Mary mordeu o lábio inferior. Péssimo começo de conversa com ele. E isso era a última coisa que ela desejava no momento.
O Wendigo resmungou:
– Dê uma folga para a gente... Estava difícil te contatar, com todas as novas medidas de segurança para impedir que qualquer um – em especial a Mary – possa te achar.
O homem considerou e disse:
– Verdade, verdade... – então perguntou, com o olhar vago: — Querem algo?
– Eu quero. Um scotch vai fazer bem para mim. – grunhiu Wendigo.
– E quero uma tequila. – disse Mary, cautelosa. Ela preferia contradizer o Zalgo do que aquele homem. É verdade, o Zalgo era mais de um milhão de vezes mais poderoso do que aquele homem, mas o Zalgo não era nem de perto tão imprevisível quanto aquele homem, nem mesmo Cthulhu era tão perigoso quanto aquele homem. Até agora, a única pessoa mais perigosa do que ele era Red, e mesmo assim, pelo menos Red era mais previsível.
O homem bateu palmas. Um serviçal empurrou a porta. Parecia ser um humano comum, e ele perguntou educadamente:
– Deseja algo, Milorde?
– Um scotch, uma tequila e uma maçã dourada. – disse o Lorde, olhando para o serviçal.
O serviçal disse educadamente:
– Como quiser.
Ele saiu pela porta, e no momento de silêncio que se deu á seguir, Mary disse:
– Sua vida vai boa.
O homem deu de ombros.
– É o melhor que posso fazer, por enquanto.
Mary assentiu, e então disse:
– Err... Cara... Hum... Precisamos te avisar que... Um grupo de gente está atrás de você.
– Já esperava por isso. – ele disse, sem surpresa. – Jeff, Jane, BEN e O Gancho. Acertei?
Mary assentiu, admirada.
– Como você sabe? – então ela revirou os olhos, se lembrando que ele sabia o que acontecia com cada pessoa no universo. Ele tinha uma espécie de onipotência e onisciência, em que ele vê tudo da vida da pessoa. Então ela disse: — Esquece.
O homem assentiu vagamente, esperando que Mary terminasse de falar.
Mary empertigou-se e disse:
– E preciso da sua ajuda para curar Wendigo. Como você pode ver, ele não está nada bem...
Nesse momento, o serviçal chegou, depositando a bandeja de prata sobre a mesa refinada de ébano. Mary pegou a tequila, Wendigo o scotch e o homem a maçã dourada.
O homem deu uma mordida na maçã, e então perguntou:
– O que saio ganhando com isso?
– Bem, podemos nos divertir muito por aqui... – Mary disse, maliciosamente. O homem retribuíra o sorriso.
– Com certeza, mas preciso mais do que isso... Sabe, isso não basta.
– Bem, posso providenciar um assassinato de alguém. – disse Mary, razoável. Não tinha sentido mexer com a ambição do cara, pois ele podia materializar objetos, o que tornava a riqueza um fator inútil para ele.
O homem assentiu. Suas feições eram bonitas, com um rosto moreno, barba castanha que circundava seus lábios, cabelos castanhos um pouco curtos, mas rebeldes, além de olhos completamente brancos. Olhos amaldiçoados, mas que não prejudicava em nada seu rosto duro. Ele tinha ombros largos, um porte muscular que faria inveja ao Mike Tyson, bíceps proeminentes e pernas grossas. Um soco daquele homem teria poder suficiente para quebrar uma pedra ao meio.
– Certo, é um bom preço... – considerou o homem. – Aceito o trato.
Mary sorriu e disse:
– Você não vai se arrepender, Herobrine.
O Herobrine olhou para ela, como se lesse o fundo da alma dela. Mesmo que ela não sentisse medo de quase nada, ela se encolhia de medo quando ele a olhava daquele jeito. Ela revivia os piores momentos da vida dela. O marido a traindo. Ela sendo torturada. Ela sendo linchada. Ela sendo violada, abusada por várias pessoas...
O único medo dela era daquele homem na frente dela. Herobrine Persson, senhor dos pesadelos, lorde dos mortos, senhor de todas as entidades fantasmas, lorde do Nether, parte do inferno que nem Lúcifer tem coragem de se aventurar, e o portador do maior ódio existente da face da terra.
– Quero vê-los. – disse Herobrine.
Mary não acreditou.
– Como disse? – perguntou ela, indignada.
Ele apontou o dedo indicador para ela, e Mary se encolheu, assaltada por visões dos piores momentos da sua vida.
– Primeiro, você está em meu reino. Não deve questionar nenhuma ordem minha. Segundo, vou ajudar seu amigo. Considere isso como parte do pagamento. Terceiro, ou você os busca, ou você vai os encontrar no inferno, pois eu mesmo te mandarei para lá. Fui claro?
Mary ficou aturdida, então perguntou, confusa:
– Como assim, “encontrá-los no inferno”? Eles estão mortos?
– Não, mas vão ficar em breve. Estão lutando contra Red.
Mary ficou ainda mais descrente.
– Quem é tão louco ao ponto de enfrentar Red?
O Herobrine deu um sorriso seco.
– Eu. – disse, olhando para Mary. – Enfim, quero que você os traga aqui em segurança. Daqui á meia-hora vou te invocar pelo espelho. NÃO me desaponte.
Então o Herobrine a dispensou, e Mary andou até uma janela fechada. Seu reflexo era reduzido, mas bastaria. Se tivesse reflexo, daria certo.
Ela tocou a janela. Sua mão começou á afundar como se a janela fosse feita de água, então seu antebraço afundou por completo, em seguida o braço, depois o ombro, até que, de pouco á pouco, seu corpo inteiro foi engolido pelo vidro.
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