The Curse - Romania Selection Interativa
3 Capitulo 02 - Decisions
Notas iniciais
Era noite em Rabat. A cidade estava em silêncio, todas as residências fechavam-se para a escuridão e o frio da noite de inverno. Porém, no centro da cidade, o Palácio Real se iluminava.
Dançarinas do ventre estavam por toda a parte. Mesmo com o clima gelado, trajavam apenas uma saia fina e um corpete colorido. Seus quadris pareciam se deslocar do restante do corpo a cada movimento. E a dança completa, então, transportava seus espectadores para uma tarde de verão.
Entretanto, nem todos aproveitavam o clima caloroso da comemoração. Ao fundo do jardim, via-se um menino de aproximadamente treze anos de cabelos louros. A parede à frente dele era coberta por mosaicos em tons de azul, com uma lajota de ouro no meio. Era uma familiaridade no entre tantas coisas diferentes.
“Por que Vossa Alteza foge?” uma voz feminina desencarnada, com um sotaque árabe forte surgiu das sombras. “A comemoração foi preparada justamente para sua visita.”
Sem aviso prévio, uma mão morena, com aparência frágil, se aproximou do menino. Os dedos eram cobertos de anéis, dos mais simples aos mais sofisticados. Os braços traziam uma fartura de pulseiras de todas as pedras preciosas possíveis. E as unhas eram pintadas com um vermelho vivo.
“Não me toque!” gritou a criança, esquivando-se da escandalosa mão.
“Eu sinto o que há em você.” disse a voz. “Mas não tenho medo. Preciso ensinar-lhe algo que você não sabe.”
Sem que percebesse, a pele áspera já cobria-lhe uma das bochechas. A euforia tomou conta de seu pequeno corpo. Todos os membros estremeceram ao toque. Hesitante, ele procurou os olhos da mulher. Pensava que eles estariam como os das anteriores: gélidos, fitando o infinito para sempre. Porém aquela era diferente.
Entre as sedas e as moedas decorativas, os olhos castanhos amendoados ainda brilhavam.
“Você poderia ficar a vida toda com receio, mas eu estava próxima de sacrificar minha vida para mostrar-lhe que isso não é necessário. O controle está com você.” disse ela, saindo completamente da escuridão. “Às vezes nós temos de fazer pequenos sacrifícios para poupar grandes sofrimentos.”
A parede folheada a ouro da capela do palácio lembrava as decorações exóticas do Marrocos. Quando Stephen sentava-se ali, sentia uma forte conexão com o país há tanto não visitado e com a mulher que conhecera lá. A primeira mulher fora da família que o tocara. A mulher que lhe ensinara, mesmo que com poucas palavras, muito sobre sua condição.
Quando ela falara sobre sacrifícios, ele não entendera. Pensara que era apenas uma metáfora. Porém, naquele momento, quase dez anos depois, ele finalmente compreendeu.
O casamento e a morte precoces de Alice eram pequenos sacrifícios, que, sem saber, salvaram a vida de diversas nobres. Porque, se tudo tivesse acontecido mais tarde, os pais teriam arranjado muitas outras pretendentes, o que poderia resultar no pior. Por um lado, a escocesa preservara a vida de muitas outras garotas.
A decisão que Stephen estava prestes a tomar também era um sacrifício. Um sacrifício que poderia salvar toda a família Petruskè. Sem uma mulher, consequentemente, ele ficaria sem filhos. Com um Imperador sem herdeiros, a dinastia, construída com o suor de seus antepassados por milhares de anos, desmoronaria.
Nem tudo, porém, era positivo na seleção. A mãe, provavelmente, insistiria para que o número de competidoras fosse imenso. Isso, contudo, tornava as chances de tragédias acontecerem muito maiores. Com 103, número de cidades grandes da Romênia, por exemplo, tomar cuidado para que nenhuma esbarrasse por acidente nele era um trabalho muito mais árduo. E além do mais, estando no Palácio Real, localizado no coração de Bucareste, as fofocas correriam muito rapidamente.
Recusar a proposta não era uma opção. Ele teria de aceitar de qualquer maneira. Mas ele poderia mudar um pouco. Era a única atitude que poderia tomar. Afinal de contas, o pai, com certeza, não negaria, ele estava desesperado para resolver seus problemas.
Olhando pela última vez para a parede dourada e para as figuras sagradas da Igreja Ortodoxa ali pintadas, ele se levantou. Seus passos eram vagarosos e os pés pisavam nos tapetes como penas. Aos poucos, os afrescos do teto ficavam para trás, dando lugar para o visual aberto e luxuoso do restante do palácio.
O corredor era forrado a mármore no chão e nas colunas, sendo completado por portas pomposas de madeira escura. As paredes eram cobertas de quadros da Família Imperial e de ancestrais. Porém, tudo isso passava despercebido para Stephen naquele momento. Ele tinha apenas um pensamento: o que diria ao pai.
Sem que percebesse, a porta sempre entreaberta do escritório, que se localizava no fim do corredor, estava à sua frente. Uma luz fraca vinha da fresta, iluminando o corredor praticamente escuro. Por um momento o príncipe apenas encarou a abertura, repassando as palavras novamente em sua cabeça. Após alguns instantes, enfim, ele respirou fundo, empurrando a maçaneta.
O Imperador se encontrava em pé atrás de sua mesa, como se esperasse uma visita. Quando viu o filho, um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios. Afinal, se ele estava ali, era porque finalmente vira que a proposta irrecusável da Seleção era adequada. E seria bem melhor promover o evento com a boa vontade dele.
— Vejo que você finalmente constatou que eu e sua mãe não tomamos decisões ruins. — Articulou ele, encarando fixamente os olhos do primogênito – Você já deseja começar os preparativos?
Percebendo o convencimento do pai, Stephen sentou-se. Mordendo os lábios, ele repassou mentalmente as ideias. Tudo deveria ser dito com cautela, caso contrário, Ronan não aceitaria.
— Pois então, pai. Depois de muito refletir, cheguei a uma conclusão — disse ele com muita calma — Realmente não temos outra escolha no momento. Porém penso que devemos fazer algumas modificações no funcionamento da competição.
O monarca observou os movimentos do filho com atenção. Apesar de não serem muito próximos, ele o conhecia o suficiente para entender sua linguagem corporal. E não só pela linguagem corporal, mas também pela rapidez com que aceitara a proposta. Afinal, quando se pode confiar na obediência repentina de um filho?
— Prossiga — o mais velho pediu, omitindo seus pensamentos receosos.
— Bem, não sei qual seria o número de garotas. Acredito que, dependendo da mamãe, nosso lar lotaria — falou, juntando as mãos em cima da mesa — Eu, entretanto, não creio que isso seja uma boa escolha. Por isso, quero sugerir que o número seja reduzido para apenas doze.
Para a surpresa do príncipe, o pai não ficou com raiva ou, pelo menos, não demonstrou. Sua expressão ainda era a mesma de alguns minutos antes, séria, porém jubilosa. Até mesmos os olhos, que geralmente eram os que denunciavam suas emoções, não alteraram seu brilho. Stephen sorriu por um momento, certo de que o pai aceitaria as outras condições da mesma forma.
— Eu gostaria também de pedir o Palácio de Mogoșoaia emprestado. — Continuou ele — Lá as competidoras poderão ficar na casa de hóspedes, o que é muito mais confortável. Além, é claro, do espaço externo gigantesco. Em minha opinião, é um local muito melhor para esse tipo de evento.
A solicitação gerou dois sorrisos; o persuasivo de Stephen e o falso de Ronan. Os olhos claros de ambos se encontravam em uma guerra silenciosa. As opiniões dos dois divergiam, como sempre. Desta vez, porém, o motivo não era o dinheiro; era algo muito mais sério. E isso deixava o imperador louco.
— Menino, consegue ver estes papéis aqui? — questionou o soberano, já exaltado, apontando para uma pilha de documentos em cima da mesa — Eles são o meu trabalho. Eu, como chefe de estado, preciso cumprir meu dever para com o povo aqui em Bucareste. Não tenho como sair desse palácio! Caso você não saiba: a vida não é uma festa!
— O senhor não precisa ir junto — retrucou o mais novo — Eu já sou suficientemente crescido para administrar tudo por lá.
Ronan suspirou. O que o filho dizia não tinha nenhuma mentira. O garoto realmente precisava de um pouco de independência. Até o momento, a esposa o tratava como uma criança mimada. Era protetora de mais. Se continuasse assim, o futuro governante da Romênia estaria despreparado para o cargo.
Mas será que era uma boa decisão? Algo poderia dar errado?
Ele nunca saberia se não tentasse.
— Eu irei visitá-los em todas as minhas folgas. — Afirmou ele, firme — Porém você estará no comando. Já passou da hora de você mostrar do que é capaz.
Assim, com o peito estufado de orgulho, o príncipe deixou o escritório. Desta vez, quando chegou à frente da porta, ele a abriu sem cerimônias.
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