The Cullen's

13 Capítulo 14


O lacre vermelho da carta real parecia mais pesado do que deveria ser.

Alice Cullen permaneceu alguns segundos imóvel diante da escrivaninha, os dedos suspensos no ar, como se romper aquele selo pudesse alterar o curso do mundo. O brasão da rainha Charlotte reluzia à luz da manhã, imponente, definitivo. Jasper observava a esposa do outro lado do quarto, sentindo no silêncio dela um presságio que não ousava nomear.

— Alice… — chamou ele, com cuidado. — Não precisa abrir agora, se não quiser.

Ela fechou os olhos por um instante, respirou fundo e, com um gesto firme demais para alguém tão pequena, rompeu o lacre. Leu a carta uma vez. Depois outra. A cada linha, o sangue parecia abandonar-lhe o rosto.

— Ela sabe — murmurou.

— Sabe o quê? — Jasper se levantou de imediato.

Alice dobrou a carta com mãos trêmulas.

— A rainha exige um novo panfleto da Lady Whistledown. — A voz saiu baixa, mas carregada de um medo contido. — Não é um pedido. É uma ordem.

Jasper entendeu naquele instante o tamanho do abismo à frente deles.

— E se você se recusar?

Alice ergueu os olhos para ele, marejados.

— Então ela descobrirá sozinha. E quando isso acontecer… não haverá proteção, nem perdão.

Enquanto isso, Londres fervilhava. As costureiras não davam conta dos pedidos, floristas disputavam importações raras, joalheiros trabalhavam noite adentro. O casamento de Edward Cullen e Isabella Swan não era apenas um enlace — era um acontecimento social. O mais aguardado da temporada. O mais comentado. O mais observado.

Ainda assim, a tensão era palpável.

Convites eram analisados com rigor excessivo. Listas refeitas. Comentários sussurrados em salões elegantes falavam de redenção, escândalo, sobrevivência. Alguns desejavam a felicidade do casal. Outros, sua queda.

Naquela tarde, Bella e Edward tomavam chá na sala de estar da casa dos Swan. O ambiente era sereno demais para o turbilhão que se aproximava. Renée organizava flores ao fundo, Charles lia o jornal, fingindo desinteresse.

Foi quando o criado entrou apressado, segurando um papel recém-impresso.

— Chegou agora, senhorita.

Bella reconheceu o formato antes mesmo de tocar.

O panfleto.

Lady Whistledown.

Seus dedos hesitaram por um breve segundo antes de abrir o papel. Edward observava cada microexpressão no rosto da noiva, atento demais para não perceber o que ninguém mais via. À medida que Bella lia, seus ombros relaxaram — mas seus olhos se entristeceram.

Aquele panfleto era diferente.

Não havia sarcasmo. Não havia veneno. As palavras eram firmes, quase solenes. Lady Whistledown falava sobre erros, sobre responsabilidade, sobre como a verdade nem sempre nasce da maldade, mas da necessidade de sobreviver em um mundo que não perdoa mulheres que veem demais. E, ao final, elogiava o casamento iminente de Edward e Bella como um símbolo de renovação para a sociedade.

— Ela está… sendo gentil — Edward comentou, cauteloso.

Bella assentiu, dobrando o papel com cuidado excessivo.

— Gentileza tardia também pesa — respondeu.

Houve um silêncio estranho entre eles.

Edward apoiou a xícara, o olhar distante.

— Alice não tem dormido bem — disse, como quem testa terreno. — E sempre que o nome de Lady Whistledown surge… você muda.

Bella sentiu o coração errar uma batida.

— Edward…

— Desde o início, tudo girou ao redor da nossa família. — Ele falava baixo, mas com uma clareza dolorosa. — Os panfletos sabiam demais. Antecipavam movimentos. Conheciam sentimentos.

Ele a encarou, sério.

— Você sabe quem ela é.

Bella respirou fundo. Não havia mais para onde correr.

— A verdadeira Lady Whistledown sempre esteve perto de você — disse, com voz firme apesar do nó na garganta. — Observando, ouvindo… escondendo-se atrás de nomes, títulos e jantares familiares.

Edward empalideceu.

— Alice.

Bella não confirmou. Não precisou.

O caminho até a mansão Cullen foi silencioso. Cada quilômetro parecia um ensaio para o que viria. Ao chegarem, encontraram toda a família reunida na sala principal, como se o destino tivesse alinhado as peças.

Edward não perdeu tempo.

— Precisamos conversar — disse, a voz ecoando mais alta do que pretendia.

Alice levantou-se imediatamente. Os olhos encontraram os dele, e ali não havia mais como fingir.

— Edward… — começou.

— Você é a Lady Whistledown? — perguntou ele, direto, cruel na honestidade.

O silêncio caiu como um golpe.

Esme levou a mão ao peito. Emmett franziu o cenho. Rosalie ficou imóvel, protegendo instintivamente o ventre. Jasper deu um passo à frente, mas Alice o impediu com um gesto.

— Sim — respondeu ela, finalmente. — Sou eu.

O mundo pareceu parar.

— Tudo isso… — Edward passou a mão pelos cabelos, desnorteado. — As humilhações, os escândalos, o sofrimento… fomos nós?

— Não — Alice disse, com lágrimas escorrendo livres agora. — Foi a sociedade. Eu apenas escrevi o que ela sussurrava. E muitas vezes… o que precisava ser dito.

— Você brincou com vidas! — Edward explodiu.

— Eu sobrevivi! — Alice respondeu, com a mesma intensidade. — Em um mundo que não escuta mulheres, eu fiz com que lessem.

Jasper segurou sua mão.

— Ela não esteve sozinha — disse, firme. — E não se arrepende de quem é. Apenas do que feriu.

Edward respirava com dificuldade, dividido entre raiva, amor e traição.

— A rainha sabe — Alice continuou, a voz mais baixa. — E agora exige que eu continue.

O peso daquela revelação caiu sobre todos.

Não havia mais volta.

E, enquanto Londres lia palavras mais suaves de Lady Whistledown naquela manhã, dentro da mansão Cullen a verdade finalmente fora dita — crua, irreversível, prestes a mudar tudo outra vez.