Notas iniciais
Oi pessoal :) Muito obrigada por todo o carinho e reviews do último capítulo. Significam muito para mim e afetam na continuidade da história! Boa leitura... Nos vemos nas notas finais!

Apertou o carimbo com o selo Real firme sobre a cera quente e derretida, fechando o envelope. O fogo ardia dentro da lareira, aquecendo todo o escritório, os pés do rei pousados sobre um banquinho em baixo da mesa, os papéis amontoadas a sua frente, a carta recém-fechada sendo pousada ao lado.

Jogou a pluma que estava usando sobre a mesa e passou a mão sobre o rosto, exausto.
Mal estava conseguindo dormir há duas noites, seus horários estavam completamente mudados e os problemas do Reino pareciam estar piores ainda. Havia pulado novamente a primeira refeição do dia e agora estava arrependendo-se amargamente. Não eram nem dez horas da manhã e já era capaz de comer um boi inteiro.

Tinha que encontrar uma saída para essa situação, não podia continuar fugindo pelos cantos do próprio palácio e ser assombrado por um sonho! Por Deus! Aquilo fora apenas um sonho, nada além de uma peça que sua mente lhe pregara, não era realidade e não sabia o porque que se sentia incapaz de estar próximo a noiva do irmão se nem ao mesmo tinha certeza que era ela a lhe assombrar no sonho... Mas aquele cheiro. Era dela! Ela era a única pessoa que o usava naquelas terras.

— Isso é ridículo! — Resmungou, enfiando os dedos nos cabelos curtos. — Eu sou um Rei e estou agindo como um rato!

Tirou os pés de cima do banquinho e se levantou da cadeira, pisando forte com passos decididos a saída do escritório. Já chega! Não seria prisioneiro de um sonho insignificante.

Assim que Felicity e Barry entraram na sala onde o almoço estava sendo surpreendentemente servido mais cedo, a jovem notou que havia algo errado no Rei. Franziu o cenho caminhando ao lado de Barry até a mesa e se sentou na pesada e grande cadeira que foi afastada para si.

— Oliver, meu irmão! — Barry quebrou o silêncio que era apenas preenchido pelo mastigar faminto do irmão que segurava uma coxa bem gorda de galinha praticamente toda devorada com os dedos imundos de gordura e tempero a caminho dos lábios. Felicity não conseguiu evitar uma careta ao ver a lambança do Rei e da mesa estava que diante dele. O homem parecia que não se alimentava a anos!

— Achei que hoje também não viesse ao almoço e que comeria no escritório. — Barry falou, fazendo o mais velho erguer os olhos da comida em direção a ele.

— A comida não chegava quente ao meu escritório.... — Oliver deu de ombros e colocou novamente a coxa de galinha entre os dentes arrancando um grande pedaço. Felicity observava os dois enquanto desdobrava o guardanapo de pano, pousando-o sobre o colo.

— Como estão as coisas?

Oliver ergueu os olhos novamente para o irmão, entre uma mastigada e outra. Tinha mesmo que conversar naquele momento? Seus planos de comer o mais rápido possível para subir novamente ao escritório estavam falhando.

— Difíceis! — Respondeu jogando o osso sobre o prato. Pegou o guardanapo ao lado do prato e limpou os dedos. — Tenho um milhão de coisas e problemas para resolver. — Queixou-se, pousando o guardanapo novamente e pegando a taça de vinho, bebendo todo o conteúdo de uma só vez. — Talvez você devesse me ajudar!

O rosto de Barry tornou-se vermelho e Felicity pode jurar que se ele estivesse comendo algo teria engasgado.

— Pode ser... — O mais novo sorriu amarelo antes de desviar os olhos do irmão atentando-se ao prato que estava sendo pousado diante de si. Felicity ergueu a sobrancelha, estranhando o comportamento do noivo.

— Talvez eu possa ajudar. — Falou pela primeira vez fazendo os dois homens ergueram os olhos dos seus pratos até ela. Surpresos. — Tenho certeza que não deve ser tudo tão diferente do meu reino... — Explicou, sorrindo levemente. Oliver podia jurar que havia engolido um osso de frango, não era possível estar com tanta dificuldade de respirar.

— Não é necessário, Princesa. — Declinou a oferta sem demora. Em circunstância alguma queria uma mulher metida nos negócios de seu Reino, muito menos sendo ela futura Rainha de outras terras. — Tenho certeza que Barry deixará de ser tão atrapalhado e consegume auxiliar! — E então Felicity, entendeu e pela primeira vez desejou não ter entendido. Barry não levava jeito com os assuntos do reino.

O almoço decorreu com um sabor amargo, pelo menos ao paladar de Felicity que prosseguiu a refeição inteira focada no alimento em seu prato, trocando breves palavras com seu noivo. Oliver continuou em seu plano de comer o mais rápido possível, evitar conversas e aproximação com a noiva do irmão... Ou melhor com o cheiro dela que insistia em se sobrepor ao dos alimentos e invadir-lhe descaradamente o olfato, trazendo-lhe a memória o sonho que tanto o perseguia e que tanto ansiava esquecer.

Estaria mentindo se negasse que o maldito sonho havia pairado na sua mente durante várias vezes. Também não seria justo negar a si mesmo que havia reparado tempo demais nos cabelos dela, tentando encontrar algo que os diferenciasse dos cabelos de seu sonho, louco por algo no qual fizesse sua mente perturbada acreditar que aquela mulher que tanto lhe havia envolvido em um momento de inconsciência não se tratava da mulher que está próxima a si, noiva de seu irmão. Aquilo estava tornando-se ridículo e ele, o Rei Oliver Dearden Queen não permitirá aquela situação prosseguir.

Felicity encostou a porta do quarto e viu-se envolvida pela conversação alta e animada que suas damas de companhia estavam tendo, rodeadas por vestidos, casacos, acessórios, malas e baús completamente abertos e espalhados pelo quarto.

— O amarelo parece tão inapropriado para o inverno... — Caitlyn comentou, abraçada a um lindo vestido de mangas e bordados em um amarelo vivo. — Esse definitivamente não é um vestido para se usar no alto inverno. — Suspirou alisando o tecido dele. — Infelizmente terei que esperar uma outra ocasião, na qual o tempo esteja mais ensolarado e quente.

— Ouvi dizer que aqui não tem tido verdadeiro verão nos últimos anos. — Marie falou, dobrando uma blusa de seda. — Até o verão está bem frio. Algo haver com o girar da terra! — Franziu as sobrancelhas, confusa. — Não entendo nada disso mas Lord Brice disse que estava nos livros. — Explicou, tentando clarear os pensamentos e se lembrando da explicação de seu cunhado.

— Acham que Barry será um bom Rei consorte? — Felicity interrompeu a conversa das duas, desencostando-se da porta e invadindo mais o cômodo, fazendo-as virarem o rosto para olhá-la.

— Barry? Um bom Rei consorte? — Marie repetiu as palavras dela, apenas para confirmar que havia ouvido bem. A princesa assentiu.

— Tem alguma dúvida? — Caitlyn se intrometeu, girando o corpo totalmente e ficando de frente para onde a Princesa estava em pé. — Ele é um Príncipe maravilhoso, tem tudo o que você precisa, tenho certeza que vocês juntos serão capazes de fazer nosso Reino crescer ainda mais!

Felicity mordeu os lábios e cruzou os braços inquieta. Seria aquilo o suficiente?

— Qual é o problema? — Marie quis saber. — A alteza acha que vosso pai seria capaz de escolher um marido para você incapaz de se tornar um Rei? — Insistiu, sem entender a repentina dúvida da Princesa.

— Ele me parece muito... — Felicity tentou explicar, exasperada, descruzando os braços e os deixando cair ao lado do corpo. — Esqueçam. É bobagem minha! Estou com saudades de casa, aí fico vendo defeito em tudo. — Sorriu fraco, desistindo de tentar explicar, pois sabia que eram pensamentos complexos demais para Caitlyn e Marie. Elas nunca entenderiam a preocupação e o receio dela. Afinal, elas não tinham sido criadas para pensar primeiro no Reino e depois em si próprias. Elas não tinham saído dos braços de suas mães com uma coroa na cabeça e o caminho de um futuro poderoso debaixo dos pés.
– Caitlyn, posso ir até os seus aposentos? Quero respirar um pouco de ar puro e me exilar por alguns minutos, estou com uma enxaqueca horrenda. — Pediu, direcionando-se a amiga.

— Se preferir mandaremos arrumar tudo para que possas ficar por aqui me…

— Não, não! — Felicity interrompeu, erguendo a mão. — Isso vai demorar algum tempo, podem acabar de decidir isso e daqui a alguns minutos estarei de volta e aí sim gostaria de ver meus aposentos em ordem. — Explicou, dirigindo-se a porta. — Apenas descansarei um pouco. — Voltou a sorrir para elas antes de dar as costas e sair de seus aposentos indo em direção ao de Caitlyn.

O rei deu dois toques seguidos com os nós dos dedos na porta, aguardou uma resposta mas apenas o silêncio permaneceu, voltou a insistir batendo com mais força e a porta abriu-se levemente, dando-lhe uma boa visibilidade do lado de dentro do quarto. Espreitou o interior e viu que estava vazio, estalou os lábios e quando estava virando o corpo para sair dali notou que a porta da varanda estava aberta.

— Lady Caitlyn? — Chamou, voltando completamente a porta, desta vez deixando o rosto visível na brecha. As cortinas esvoaçaram e nenhuma resposta foi ouvida. Franziu o cenho confuso. Por que as portas da varanda estavam abertas com o frio que estava fazendo do lado de fora? Não fazia sentido, principalmente com o quarto vazio.

Varreu o lugar mais uma vez com os olhos antes de empurrar a porta e adentrar no cômodo que estava absurdamente gelado. Resmungou baixinho e se apressou a ir até as grandes portas da varanda para fechá-las. Entretanto, seus movimentos foram interrompidos ao ver a figura sentada no banco de madeira, olhando para o céu. Como se tivesse sentido a presença dele ela virou o rosto olhando para trás e os olhos azuis se arregalaram ao vê-lo.

— Majestade! — Levantou-se rapidamente, olhando-o curiosa.

— Princesa... — Oliver deu dois passos adiante se expondo ao frio da varanda. — Está tudo bem? — Perguntou notando o rosto avermelhado e as grossas marcas de lágrimas que lhe manchavam a pele.

— Sim, sim. — Respondeu, passando a mão sobre as bochechas e fungando. Não devia demonstrar fraqueza alguma. — O frio fez meus olhos ficarem sensíveis. Lacrimejando por qualquer coisa... — Deu um sorriso forçado.

— Por que está aqui no frio? — Ele perguntou. — Pode ficar doente, gripes fortes são muito comuns nessa época do ano.

— Apenas queria tomar um pouco de ar. — Respondeu, dando de ombros e voltando a se sentar no banco. A verdade é que já estava ali há mais de cinco minutos, o frio já estava começando a lhe incomodar mas seus pensamentos estavam a sufocando.

— Posso sentar-me? — Oliver pediu indo até o banco e parando ao lado dela. Felicity o observou pelo canto dos olhos alguns instantes e assentiu, gesticulando para que ele sentasse. — Não deve estar sendo fácil estar longe de seus pais... — Comentou, ocupando o lugar ao lado dela. De repente o banco ficou minúsculo e ela sentiu como se o ar tivesse sido reduzido e tudo pela presença imponente dele. O vento soprou forte, envolvendo o corpo deles, fazendo os longos cabelos dela voarem e o corpo estremecer.

— Eu já estive longe dos meus pais. — Falou, sem olhá-lo. — Sinto falta do meu reino. É estranho olhar o horizonte e saber que não conheço as terras além dele.

Oliver assentiu, coçando a barba. Também se sentia assim quando visitava outros reinos, principalmente quando era mais jovem. Era uma sensação estranha e desconfortável, principalmente para eles que nasceram e foram criados sabendo que eram donos de cada grão de areia à sua volta.

— Você sente falta da segurança de saber que o lugar é seu e sua palavra é lei. Sente falta de saber que conhece como a palma de sua própria mão cada milímetro lugar. — Falou após alguns minutos de silêncio, surpreendendo-a.

— Não sei se a sensação estranha que me acompanha nesses últimos dias seja por isso… — Confessou, balançando a cabeça.

— Sensação estranha?

— Sim... — Confirmou, virando o rosto para olhá-lo. Como tinha os olhos tão azuis? Se perguntou sendo examinada pelo olhar atento dele. Tão azuis que tinha certeza que no sol seria capaz de cegar. — Tem alguma coisa aqui…

— Não gosta do meu reino, Princesa? — Perguntou com a voz pingando ironia erguendo a sobrancelha. Ela arregalou os olhos, sentindo o rosto ruborizar diante das palavras dele e refletiu se tinha usado as palavras erradas sem querer o ofendendo.

— Em nenhum momento, Majestade! — Negou balançando a cabeça veemente. Oliver estreitou os olhos em direção à ela, sentindo um calor bem próximo a irritação. Aquela criança minúscula mal havia chegado, que só lhe tinha trago dor de cabeça, ainda tinha a audácia de dar a entender que havia algo errado com seu reino. Como ela ousava? Como tinha a coragem de falar aquilo quando o Reino dele era um dos melhores reinos existentes?

— O Rei deve ter compreendido mal minhas palavras, em momento algum tive o intuito de lhe ofender... — Ela prosseguiu, passando as mãos nervosas sobre o vestido, completamente desconfortável e envergonhada. Ele correu os olhos pela face dela notando o rubor que lhe cobria as bochechas, os cabelos rebeldes voando, os olhos de um azul límpido, as pequenas sardas sobre o nariz. Os dedos dele coçaram querendo apertar-lhe as bochechas como se fazia com as crianças. De alguma forma aquela garota era adorável em sua confusão.

— Princesa! — Interrompeu-lhe, pousando a mão nos ombros dela fazendo-a parar de tagarelar na mesma hora. Os rosto dela virou-se levemente e os olhos pararam em uma das grandes mãos dele sobre si. — Pode ter cer…

— Felicity! — A voz animada de Barry interrompeu-lhe quando o mais novo entrou animado na varanda e parou ao lado da noiva com um sorriso no rosto, mas logo os olhos viram a figura ao lado dela. — Oliver! — Exclamou surpreso, deixando o olhar cair do rosto do irmão até onde a mão do mesmo continuava pousada. — O que você está fazendo aqui?

Notas finais
E ai gostaram? Espero que sim :) Não esqueçam de deixar o review e a opinião de vocês sobre a história e sobre o que esperam que aconteça nos próximos capítulos. Beijos