The Conflict Between Love and Hate - (EM REVISÃO)

6 Revivendo mágoas cicatrizadas - parte 1


Notas iniciais
Bom, creio que eu deva um grande pedido de desculpas, já que somente depois de 7 MESES eu postei outro capítulo desta Fanfic. Eu peço MIL PERDÕES POR ISTO, eu ainda não acredito que demorei tanto tempo para postá-lo, mas eu realmente tive muitas complicações neste meio tempo, meu computador não se decidia se funcionava ou se morria de vez e eu tive que mandá-lo para o conserto no final das contas, e também o bloqueio que me apareceu em certas partes foi realmente angustiante, eu planejei essa Fanfic bem menos do que vocês acham e acabei tendo que reescrever esse capítulo várias vezes. E eu vou ser sincera que estive um tanto mais ansiosa para escrever outra Fanfic minha, na verdade OUTRAS porque eu planejei varias e ainda não postei nenhuma, então eu peço, por favor, para não me tacarem pedras e terem paciência, pois por mais que eu demore ABSURDAMENTE eu ainda tento trazer algo de qualidade para vocês e tenho que me conciliar com meus outros trabalhos e coisas da escola, inclusive estou aproveitando que já é férias para eu me adiantar e logo. Eu resolvi dividir esse capítulo em dois porque eu vi que estava ficando muito grande, e não queria desgastar tanto vocês para ler essa bagaça, aliás, eu dei uma leve caprichada no nível das palavras, então não estranhem tanto quanto eu estranhei no inicio please. Desculpem-me novamente, prometo que o próximo saíra em um prazo BEM MENOR, vou ficar sem internet um tempo, e isso sempre me ajuda a me concentrar mais na hora de escrever então, por favor, peçam pra esse bloqueio meu ir embora, por obséquio ;-; Porque de qualquer forma, eu me recuso e entregar algo escrito de qualquer maneira para vocês ♥ Foi revisado cerca de 5 vezes, então se ainda tiver algum erro de ortografia ou coerência me avisem por favor. Preparem os lencinhos! Alerta de possível tortura de feels ♥ Eu sei que eu sou bem humilde. Sem mais delongas boa leitura!

Não era agradável.

Não era suportável.

Não era possível.

Uma reflexão momentânea de sua mente, uma história vista pelo seu pior aspecto, uma faceta de um conflito mal resolvido.

Talvez fossem essas as descrições mais compatíveis com aquela situação.

— Por que eu me uniria a um projeto de anã mal feita como você? — ouviu-se uma risada irônica se propagar pelo lugar, vindo daquela que iniciara o dialeto doloroso.

— E quem disse que eu quero me unir a você, pernas de pau? — indagou com um olhar analítico e frio, este que fizera certo garoto meio-humano, meio- gem estremecer por dentro, tendo sido poucas as vezes que tivera a chance de vislumbrar tal opacidade nas íris alheias.

‘’ Tão seco. ’’

A mais alta cerrou levemente os olhos, uma irritação momentânea transpassando-lhe visivelmente a fisionomia pálida.

— Eu não sei por que te tirei daquele lugar deplorável, deveria ter ficado por lá, causaria menos empecilhos para nós — retrucou, sem expressar emoção alguma no tom de voz controlado.

O garoto pôde ver a arroxeada cerrar os punhos com força, mordendo o lábio inferior em seguida.

— EU NUNCA PEDI PRA SER TIRADA DE LÁ! — respondeu a menor com certa violência, elevando abruptamente o nível da conversa.

— Qual é a necessidade de gritar, anã de jardim? — indagou à menor, um sorriso cínico brotando-lhe minimamente nos lábios cor de mel.

A gem púrpura sentiu uma raiva súbita lhe invadir totalmente, tomando-lhe parte da sanidade. Rangeu os dentes com força, decerto suas mãos já se encontravam marcadas profundamente, devido à força que as unhas destas exerciam contra a palma fechada.

— VAI PRO INFERNO! — sua gem brilhou subitamente, a dona desta sacando sua arma rapidamente, a ricocheteando contra a albina, esta que, com uma percepção nata, desviou do ataque da outra antes de ser atingida em cheio.

— Você quer brigar comigo de novo?! Não tem a menor chance criatura ridícula! Desista! — ordenou com certo ar de deboche a maior, já se preparando para conjurar sua arma, caso isso se mostrasse necessário.

O garoto que apenas observava a cena silenciosamente praticamente estancou no lugar, sentindo uma onda de amargura fluir por todo o seu ser repentinamente, e também certo rancor pelas palavras duras da albina. Tentava gritar ou chamar a atenção das maiores a todo custo, em uma tentativa falha de impedir com que uma possível luta se sucedesse a seguir entre as supostas colegas de equipe.

Porém não importava o quanto tentasse, nenhum só som escapava de sua garganta, na verdade começava a duvidar agora seriamente, se as duas albinas teriam sequer notado sua presença no pequeno cômodo.

O que estava acontecendo? Por que ele não conseguia se pronunciar ou mover um músculo sequer? O que teria causado todo aquele atrito entre ambas as gems?

Sua mente dava mil voltas procurando alguma resposta lógica para aquelas indagações, mas tudo o que o mestiço conseguia, era se sentir ainda mais confuso com a situação.

Sem desistir um só momento de tentar impedir que tamanha discórdia se transformasse em algo maior, pôde apenas assistir o desenrolar dos fatos.

— EU NÃO PRECISO QUE VOCÊ FIQUE ME DIZENDO SE EU TENHO CHANCE OU NÃO CONTRA VOCÊ! EU TE ODEIO SUA INSENSÍVEL! — a menor rapidamente lançou seu chicote contra aquela a qual direcionava tamanho ódio, porém, sua tentativa sendo frustrada facilmente em seguida, pois, a maior que se encontrava agora no segundo andar da pequena casa de praia, havia interrompido seu lançamento certeiro com rapidez, conjurando precisamente a sua própria lança na direção do chicote que vinha para derrubá-la, a arma encrustada de pedras arroxeadas agora estando enrolada na translúcida lança, como uma verdadeira serpente que circunda uma árvore frondosa.

As pupilas da menor se dilataram de imediato, seus olhos se arregalando em conjunto. Ficou imóvel durante alguns segundos, apenas processando a presente situação.

Como errara um arremesso daqueles?

— Viu? Eu disse: você não tem a menor chance de me vencer em um duelo corpo a corpo de verdade. Você é fraca, Ametista — pronunciou lentamente tal discurso, como se desejasse torturar a menor com tais palavras, estas que demonstraram abater ligeiramente e de certa forma, desorientar a gem púrpura, que sentiu seu orgulho ferido profundamente naquele momento.

A arroxeada como num último suspiro, tentara se recompor depois de a mais velha ter cometido tal ato de crueldade consigo, porém, assim que tentara sacar novamente sua arma, sentiu as pernas bambas, estas lhe traindo a confiança, suas forças se exilando de si em um piscar de olhos.

Sentiu-se ir ao chão, perdendo a batalha para à sua própria dor, fraqueza e ressentimento, os quais ela sempre lutou para esconder de tudo e todos. Estes que agora, lhe dominavam com maestria e torturavam terrivelmente.

Steven entrou realmente em desespero naquele momento, enquanto observava a derrota da colega de equipe para seus próprios conflitos internos e as risadas cínicas e extremamente audíveis da gem mais velha se propagarem escrachadamente pelo cômodo, tudo o que pôde fazer foi desejar que tudo aquilo acabasse, que tudo se tratasse de uma brincadeira cruel e sem graça de sua mente, que tudo simplesmente ruísse e morresse num terrível passado esquecido e doloroso, um ao qual ele nunca mais desejaria rever, com certeza.

Virou-se na direção da arroxeada novamente, podendo ver nitidamente as lágrimas de derrota desabando em considerável quantidade pelo rosto corado da menor, que se encontrava ajoelhada, os extensos cabelos albinos cobrindo-lhe as íris arroxeadas.

Em um momento completamente aleatório, a gem púrpura socou o chão abaixo de si com uma brutalidade surreal, fazendo o piso roer de repente, as gargalhadas desconcertantes de certa gem branca ainda sendo o único som predominante no ambiente.

Pôde vê-la prosseguir descontando todos os sentimentos desgastantes e angustiantes que mantinha dentro de si naquele frágil chão de madeira, as gotas translúcidas deslizando silenciosamente pelos punhos cerrados, rachaduras surgindo por todos os lados, o espaço tremendo de uma maneira semelhante a como se o impacto de um terremoto os atingisse, o quadro de Rose localizado acima da porta de entrada acabando por partir-se ao meio, as pérolas lacrimosas também teimando em escorrer por seu rosto cálido, porém o garoto não concedendo esse privilégio as mesmas, não se permitiria chorar naquele momento.

— EU NÃO SOU FRACA! — Um grito quase ensurdecedor escapou dos lábios fartos da diminuta gem, fazendo um ruído agudo e extremamente alto ecoar nos ouvidos do pequeno garoto, este que agora sentia que poderia se render a inconsciência a qualquer instante, tamanha a dor que o invadia.

Mas, mesmo tal som sendo exorbitantemente doloroso, com certeza, este não era pior do que estava porvir.

Com o impacto de tal brado no local, a estrutura de todo o lugar simplesmente desabou, o piso de madeira sendo substituído por nada mais que um abismo profundo e vazio, envolto pela mais pura escuridão, este que engoliu tudo ao seu redor rapidamente, a cruel realidade vindo a baixo diante dos olhos negros e desolados.

Porém, curiosamente, aquela risada sarcástica da gem ruiva ainda era extremamente perceptível ecoando pelo breu infinito, sendo esta a única coisa que restara do cenário anterior.

Agora, permanecia caindo para o nada, desabando para aquela imensidão negra, ainda podendo enxergar a figura da arroxeada a seu lado, na mesma situação que si.

Os olhos... vazios...sem expressão... sem cor.

Ao vislumbrar aquela cena tão deplorável, sentiu como se uma verdadeira estaca lhe perfura-se o peito. Queria poder socorrer a amiga, mas não podia fazer nada além de observar a derrota desta.

A última visão que teve foi a desse mesmo olhar, agora não mais preenchido pelo costumeiro brilho que bailava a extensão púrpura diariamente e sim uma cortina apática e negra, dirigindo-se para si lentamente, se alargando em uma proporção extremamente supressa, possivelmente pelo fato da dona destes finalmente ter reparado na presença do moreno ao seu lado, tendo sido este todo o tempo um expectador silencioso de sua própria desistência.

— STEVEN?! — o grito ressonou estridente e rouco pelo espaço confuso.

.

Acordou sobressalto, despertando do sono profundo abruptamente, cortando o ar com o tronco numa velocidade espantosa, um grito desesperado escapando de seus lábios úmidos de suor, o brado involuntário invadindo a pequena casa anteriormente estranhamente silenciosa.

As íris negras se dilataram de imediato, e a respiração descompassada parecia ter falhado por alguns segundos, o garoto se concentrou em tentar entender o que se passava consigo e após longos instantes de recuperação mental, concluiu pesadamente em um fio de pensamento o que havia acontecido a si.

‘’Um sonho... não...um pesadelo, um pesadelo horrível’’

Levou uma das mãos ao próprio peito, procurando acalmar as batidas descontroladas de seu coração, que havia perdido o ritmo quase constante, por culpa da adrenalina derramada por todo o seu corpo.

Abaixou a cabeça em direção ao chão, os olhos entreabertos, e o brilho que comumente residia nestes encontrando-se em uma escassez drástica.

Meditou por alguns instantes e já com a respiração num ritmo estável levou os dedos à própria testa, massageando as têmporas gentilmente.

Quando foi que adormecera? Não... melhor... por quanto tempo havia adormecido?

Engatinhou pela cama preguiçosamente até alcançar a janela que se encontrava acima do cumprido móvel, permitindo assim o garoto de cabelos negros vislumbrar a visão que possuía através do transparente vidro.

Estreitou os olhos na tentativa de filtrar sua visão das impurezas que invadiam as íris negrumes sempre após o menino meio-gem despertar, graças a isso podendo avistar o sol alto no firmamento cerúleo, levemente encoberto pela já exígua neblina matutina.

Quase se assustou com a posição da estrela rei no amplo céu azul, por pura dedução concluiu que de certo já passava do meio dia.

Dormira demais.

Quando se preparava para descer do móvel acolchoado, seu ato lento e ocioso foi interrompido repentinamente pelo som da porta que dava acesso ao interior do templo do cristal se abrindo, a pedra de Ametista localizada em uma das pontas da estrela que adornava a entrada interdimensional brilhando rapidamente, uma figura não muito mais alta que o próprio Steven atravessando a estranha passagem em questão de segundos, sem dirigir uma única palavra ou olhar para o outro gem presente no cômodo, se dirigindo calmamente a um dos aparelhos eletrodomésticos que se encontravam na diminuta casa de praia, o garoto no andar de cima não conseguindo enxergar o olhar arroxeado presente na face da colega de equipe, este sendo encoberto pelos longos cabelos albinos que escondiam o brilho monótono presente nas íris púrpura.

O garoto analisou a frieza existente nas ações da irmã de consideração com visível preocupação.

— Hum... Ame... tista? – tentou chamar receoso.

Os ombros da arroxeada se tencionaram rapidamente, e os lábios foram contidos numa pressão momentânea, as mãos de certo tom lilás começaram a estremecer sem um aparente motivo. Ela não estava em condições de conversar com o meio-humano, não depois do que ele possivelmente havia presenciado.

Ela odiava expor aquele seu lado para as outras pessoas.

O lado sofredor e abatido, a vítima ignorada e insignificante de uma história marcada por tragédias.

O alguém que ela camuflava com todas as forças.

Não precisava do olhar de pena de ninguém. Nem mesmo de Steven.

— Eu – respondeu curta e seca.

O garoto meio-gem sentiu certa hostilidade naquele tom de voz, mas tentou disfarçar a insegurança que o abatera.

— Tá tudo bem...? – indagou lentamente, temendo ser alvo a seguir de uma resposta negativa da parte da arroxeada.

Os olhos púrpuros se cerraram com força, a última indagação que ela queria que fosse feita a si naquele momento havia sido pronunciada cautelosamente, porém ainda de maneira desconfortável para seu consciente culpado que não desejava manifestar-se no momento, provavelmente o garoto havia percebido, nem que ligeiramente, a condição de seu estado atual.

Entreabriu os lábios, buscando uma justificativa verbal plausível para as suas ações exercidas até então. Ela sabia o que havia por detrás daquela indagação, ele percebera o seu comportamento inquieto, mas a gem roxa não sabia até onde o mesmo havia testemunhado a sua decadência extrema, então precisava disfarçar ao menos por enquanto.

— Eu... apenas... tive um sonho ruim... – tentou dizer com firmeza. Não sabia se o garoto era realmente capaz de concretizar o que demonstrou na noite em que ela e suas colegas buscaram por Malaquita no oceano, mas ele aparecer em seu sonho sem mais nem menos era realmente estranho depois de o mesmo ter tido um vislumbre da mente da própria fusão abusiva que elas caçavam há tempos, mas que felizmente finalmente se desfizera.

Soava um tanto ridícula a hipótese, talvez nem mesmo tivesse fundação, as probabilidades eram muito pequenas, mas ela sentia que a aparição dele não fora obra de seu subconsciente perturbado, não somente.

Quando Steven iria pronunciar algo, seu fio de voz preocupada fora cortado pelo rangido da porta de entrada se abrindo, revelando a figura da pálida gem com o rosto abaixado em direção ao chão, e os dedos das mãos se remexendo inquietos na palma enlaçada.

Seu olhar se expandiu discretamente, uma onda de esperança lhe preencheu repentinamente. Era possível que as duas entidades as quais ele tanto prezava pelo bem-estar e paz, naquele momento oportuno iriam fazer as pazes?

Sentiu a presença dela, sentiu-a ali, mas não se dignou sequer a doar o olhar para esta, já possuía motivos o suficiente para se torturar internamente, não estava disposta a dialogar depois do que acontecera anteriormente entre ambas.

Minutos se transcorreram enquanto os dedos de Ametista marcavam cada vez mais profundamente a porta do eletrodoméstico a que segurava, não se preocupando que possivelmente aquilo se romperia mais cedo ou mais tarde, as feições cansadas e abatidas esperando ressentidas pelo pronunciamento da que adentrara o lugar.

Por mais que não quisesse ouvir nada mais que a outra tivesse para lhe dizer, permanecia ali, aguardando que ela se dirigisse a si, tentando explicar a situação e mostrar o seu ponto de vista, implicitamente demonstrando que era ela quem estava certa e não a arroxeada, desnudando a realidade dos fatos em frente a sua concepção desinibidamente, o olhar da soberba completa sobre si presunçosamente.

Conhecia Pérola o suficiente para saber que ela faria isso, e mesmo assim continuava ali, somente para mais tarde rejeitá-la e ignorar a todo e qualquer discurso que esta tivesse preparado e elaborado em sua mente egocêntrica para dar como justificativa as palavras ditas há pouco.

Era um pensamento egoísta? Talvez fosse, mas ela não dava à mínima.

A mais velha levantou as íris anis com pesar, a culpa a consumindo dolorosamente o peito aos poucos, a cada instante que se permitia vislumbrar a figura diminuta, que inclusive emanava e exteriorizava uma aura impertinente e negativa extremamente evidente, sentiu a consciência pesar mais.

Inspirou discretamente apesar de não haver necessidade, tomando coragem e deixando a porta de carvalho escapar de suas mãos e voltar para sua posição inicial, as palmas finas e delicadas ainda tremendo pelos pensamentos arrebatadores refletidos anteriormente, as retinas esbranquiçadas contornadas por raias rubras consequentes das lágrimas derramadas a pouco, seu rosto já não era mais tão radiante quanto o qual despertara.

Os passos cautelosos eram emitidos em cadeia, sendo o único som que ousava profanar o silêncio insuportavelmente angustiante do local além das respirações originalmente desnecessária à maioria, pois não eram indispensáveis, exceto para Steven, que era meio-humano.

—Ametista... — emitiu ressentida – eu... eu não...quis te magoar — murmurou fracamente, os globos cerúleos nublados e buscando por um algo totalmente indecifrável para os outros presentes no cômodo.

Surpreendeu-se de leve, mas não deixou transparecer o sentimento em sua expressão impassível, apenas continuou na mesma posição em silêncio, sem dirigir o olhar entristecido para a outra.

Sentiu-se mais insegura ainda, um peso maior fazendo-se sobre seus ombros tencionados, parecia que suas palavras não haviam válido de nada. Engoliu em seco, levando seu orgulho junto, talvez a situação exigisse mais do que uma simples lamentação. Completamente incrédula de que cederia a aquilo descerrou os lábios, esperando que o que soasse por estes pudesse ao menos concertar uma pequena, quase minúscula parcela de todos os erros que ela cometera ao longo dos anos que a ligavam à arroxeada.

—Ametista... me...me desculpe...por te magoar – suspirou cansada — .... Eu sinto muito, não queria que você achasse que eu não me importo com o que você... sente – seu tom era o mais dócil e passível possível, em prol de atingir a barreira que a arroxeada construíra envolta de si com delicadeza, uma sensação estranha abatendo-a ao transmitir a última palavra através de sua voz para a menor.

Ouvira direito? Era...realmente sério? Pérola estava lhe pedindo perdão de verdade?

Desta vez seus olhos se arregalaram efetivamente, seu cenho suavizou a expressão carrancuda, e seu rosto levantou-se cauteloso, desfazendo a pose corcunda das diminutas costas, provocando um espasmo de nervosismo na albina achando ter conseguido causar alguma reação na mais nova. Teria ela se comovido ao menos um pouco com suas frases sinceras?

O fio de esperança se deteriorou rapidamente.

Uma pequena risada sofrida e sem graça se iniciou atordoada e em uma altura mínima.

Era óbvio, ela estava brincando consigo, estava usando-a, somente para expor a realidade cruel para si mais tarde, era uma clara mentira, Pérola não sacrificaria seu orgulho daquela maneira somente para desculpar-se, certo? Não teria como ela ter despertado em si mesma a compreensão de que estava errada simplesmente de uma hora pra outra.

Resolveu ignorar a voz suplicante que ecoava fracamente em sua mente, cessando a força os incessantes brados, que imploravam para que percebesse que talvez estivesse equivocada em julgar a ruiva de tal forma.

Encerrou o riso baixo repentinamente, o olhar semicerrando, concentrado nos pensamentos que vagavam para qualquer outra lugar, pelo menos qualquer outro lugar que fosse longe dali.

— E por que eu deveria te perdoar? Para depois você zombar de mim de novo? – indagou secamente – para depois você fazer exatamente a mesma coisa de novo e de novo? E ignorar a minha existência insignificante pra você?! – virou-se lentamente, o pesadelo anterior prejudicando seu raciocínio e lhe cegando para as verdadeiras intenções da ruiva, não enxergava nada se não todas as decepções que sofrera nos últimos anos, todas as discussões vindo à tona em um único momento, a arroxeada vendo que aparentemente a outra nunca se importara verdadeiramente consigo, só lhe tinha valor o legado de Rose e o bem-estar de Steven.

Um passo para trás.

O semblante rancoroso estampado na face da arroxeada por pouco não a fizera temê-la por alguns segundos, aquelas palavras mais parecidas com acusações lhe acertando o cerne da alma com perspicácia. Sabia que havia cometido muitos erros, mas agora estava confessando-se como culpada por ao menos um destes, e ainda assim a outra os negava impiedosamente?

Não merecia mais o seu perdão?

Dois passos.

— De qualquer maneira você nunca se importou quando nós brigávamos... Só se importava quando você brigava com a Garnet! – por pouco não cuspiu a sentença recriminatória, elevando o tom de voz sem se importar com a presença silenciosa do gem rosa no cômodo– já que de qualquer maneira eu não valho nada pra você! Já que fazer fusão comigo não é agradável e nem te torna mais forte, você não precisa que tenhamos uma boa relação! Não é mesmo?! – gritou fora de si, não reparando no quanto havia se aproximado da mais velha, jogando ardilosamente as arguições contra a colega de equipe.

Três passos.

Sentimentos reprimidos por muito tempo podem às vezes sair de controle em um mesmo momento de pressão, não importa o quão inexpressiva ou boa em mascarar seus afetos ou mágoas uma pessoa seja, uma hora ou outra todos perdem a dominação sobre a própria sanidade. Não é possível manter uma mesma máscara para sempre.

Estancou de repente, seu olhar se arregalou abismado, a expressão de vitimada se tornou mais evidente. Tudo parecia passar tão lentamente diante de si, tão lentamente que estava praticamente parado, congelado, como que lhe forçando a guardar aquela cena em sua memória como um trauma que apela consecutivamente para o medo irracional de um ser defeituoso.

Afinal, ela era um ser defeituoso, cheia de imperfeições e de equivocações de caráter, um ser arrogante, pretencioso, egoísta, prepotente... mas, não a única.

Gems eram e são mais semelhantes aos seres humanos do que aparentam, até porque, assim como eles, dentre a sua própria sociedade supostamente evoluída e avançada em termos de tecnologia, existiam e existem até hoje conflitos, guerras, desarmonias, discordâncias, desigualdades sociais... Todos consequências da moral equivocada ou até mesmo da falta de moral que rondava e ronda a população de Homeworld.

Ninguém além de Rose lhe ensinara a amar as outras criaturas, nunca lhe fora ensinado a respeitar alguém senão pelo cargo hierárquico elevado ao qual esse alguém supostamente pertencesse, a ruiva se vendo desde que fora criada, obrigada a venerar a figura que lhe possuísse, em troca de sua existência permanecer intacta, porém, isso nunca fora uma questão de respeito para albina, já que de qualquer maneira ela o fazia por obrigação e não por admirar as tais entidades superiores a si socialmente.

Por culpa disso, nunca fora moralmente educada, sempre fora instruída somente a seguir as ordens de sua dona sem questionamentos e a servir incondicionalmente, porque de qualquer forma fora criada justamente para isso, sua existência não serviria de mais nada para ninguém além disso.

Era tratada como um nada, uma simples serva catalogada como ‘’enfeite’’ ou ‘’objeto valioso’’. Era justamente pelas Pérolas que uma gem julgava o nível social de outra, eram tratadas como meras mercadorias que possuíam a única função de servidão absoluta e fidelidade inconteste, além de claro, doarem para suas proprietárias uma imagem de riqueza ou alto escalão imperial.

Quando encontrara sua futura mentora, nunca imaginara quantas coisas ela tinha para lhe ensinar, tantas que nem fora capaz de concretizar algumas poucas que fora incumbida por sua própria consciência de realizar, o amor que possuía pelos seres daquele planeta debilmente desenvolvido existia exclusivamente porque ela servira a Rose, portanto pôde no começo do grande conflito com a terra natal enxergar toda aquela beleza graças aos olhos rosáceos de outra gem, e assim lutar para salvá-los, mas exclusivamente porque sua ‘’dona’’ também desejava salvá-los.

Sim os amava verdadeiramente, e se fascinava com a beleza daquele planeta extremamente rico em vida, mas isso se devia em grande parte ao fato de sua mentora os considerar dignos de salvação.

Lembrava-se com perfeição de seus primeiros anos de conivência com Ametista, era prazeroso fazer companhia e cuidar da pequena em grande parte do tempo, a arroxeada desde cedo já reforçara o sentido de ‘’proteger outro ser senão a si mesmo’’ para a albina, apesar de a mais nova não viver tanto na linha quanto gostaria, mas tudo era como uma compensação, tão nova e já a fazia se esquecer momentaneamente da amargura e dor que lhe preenchiam o coração constantemente graças ao fato de ter traído sua própria espécie em prol de proteger um planeta praticamente desconhecido para si e nunca mais poder retornar para o seu próprio lugar de origem, abandonando tudo para seguir a sua nova mentora e ter as mesmas ambições que esta.

As saudades de seu povo eram imensas, sentia-se vazia por vezes, mas tudo isso parecia tão insignificante quando estava junto da pequena, esta lhe distraia facilmente e a conduzia a divagações fora de seu próprio orgulho e suas limitações, de uma maneira diferente, porém semelhante como a própria Rose fazia.

Desde que encontraram a diminuta gem, Pérola apesar de a princípio não apreciar tanto a ideia de acolher a tal criatura, fora a que mais ficara ao seu lado e a mimara, cuidando de si em boa parte do tempo e a protegendo de perigos eminentes enquanto ainda não tinha a capacidade de lutar com sua arma, dando a atenção necessária quando não estavam enfrentando alguma gem corrompida ou lidando com desastres em escala global consequenciais da ação de sua raça naquele pobre astro tão esbanjador de recursos naturais.

Porém a ruiva vivia cega pela sua quase devoção a Rose e não queria aceitar ou muito menos entender o relacionamento dela com um mísero humano que não possuía sequer propósitos na própria vida, gastando a seguir boa parte de seu tempo em tentativas inúteis de fazer a guerreira rosácea enxergar todos os motivos do mundo para desistir de Greg, rejeitá-lo ou algo do gênero, em sua própria ambição egoísta de que a líder destemida possuísse aquele tipo de relação apenas consigo e com mais ninguém.

Seu desejo de ter alguém que lhe desse ordens a consumia desmedidamente mesmo que não admitisse sequer internamente, a liberdade que Rose lhe concebia mesmo ela sendo uma Pérola sempre a fizera admirar mais e mais a grande líder da revolução que levara a própria Homeworld a uma guerra contra boa parte dos seus próprios habitantes. Sentia-se imensamente grata a ela por lhe proporcionar o direito de escolha, de escolher quem ela gostaria de ser e fazer, de pensar por si mesma e ter seus próprios ideais, sem alguém tomando intencionalmente decisões por si, podendo lutar no campo de batalha por aqueles quem prezava o bem-estar... Tantos fatores a levaram a proteger e seguir incondicionalmente a Quartzo que ela sequer poderia citar todos em um curto espaço de tempo, devia-a sua própria vida e achava que jamais fosse fisicamente capaz de retribuir tudo o que ela lhe proporcionara e ensinara.

Amava-a de verdade.

Por isso era totalmente inconcebível a ideia de perdê-la para um ser inferior qualquer, era totalmente incompreensível a ideia de que outro alguém a conhecesse tão intimamente quanto si, era completamente impossível que estivesse condenada a deixá-la ir por um propósito tão... estúpido e sem valor.

Sabia o que era o amor, sabia o que era amar de verdade alguém e não se correspondido da maneira que gostaria, sabia o que era o ‘’sacrifício pelo amor à outra pessoa’’, mas então porque ainda não era capaz de compreender perfeitamente o sacrifício que Rose fizera, mesmo sendo em função do suposto sentimento que ela possuía por aquele humano fraco e tolo?

Ao final só lhe restara o lamento, um planeta frágil para proteger junto de outras Gems tão diferentes de si, e o filho de sua mentora que teria de criar nas mesmas lições que esta a ensinara, e amá-lo independente do fato de ser por sua culpa que a grande líder deixara a própria forma física.

Mas, claro, ninguém poderia crer ou imaginar que ela precisasse necessariamente abandonar a própria existência para conceber aquele ser híbrido, porém quando perceberam já era tarde demais.

Imaginara perdê-la de todas as maneiras, mas jamais por uma consequência de um amor não planejado, talvez se o fosse no campo de batalha lhe doesse menos do que a Quartzo praticamente abandonar tudo por um novo conceito de ´´fusão´´ que poderia ter com um ser de outra espécie.

Sim, porque em certas tecnicalidades Steven era uma fusão, era a junção da aparência e personalidade de ambos os seus pais.

E ele lhe lembrava tanto a própria Rose...

Ao final sequer isso pudera impedir, falhara miseravelmente e ainda perdera o grande exemplo que tinha para seguir na vida.

Era egoísta? Era, mas não admitiria.

Com tudo isso, deixara completamente de lado a mais nova membra da equipe das Crystal Gems, ignorando o fato de ela ainda ser uma gema nova, imatura, irresponsável e ainda necessitar de alguém que a apoiasse, sendo ignorante o suficiente para esquecer-se que não era somente ela quem sentia a falta de Rose, fazendo-se de vitima injustiçada, e no cúmulo de sua irresponsabilidade na época, distanciando-se das outras e daquele novo ser mestiço, já que de qualquer maneira nenhuma delas sabia como lidar com um bebê e Greg assumiu o compromisso naquele tempo, pois apesar de ter mais experiência na teoria do que na prática, sabia mais do que elas de como cuidar de um ser humano – apesar de meio-gem — que acabara de ser concebido no mundo.

E mais uma vez a sua grande devoção e amor por Rose a cegaram para uma realidade que estava estampada em sua cara, fazendo-a deixar Ametista de lado para se afundar em seu próprio egoísmo emocional e depressão inconsequente, ignorando tudo e todos para isolar-se em cantos escuros chorando pela ‘’morte’’ de sua mestra, sempre justificando sua dor aos gritos para os que se aproximassem tentando ajudá-la, e isso incluía a pequena gem arroxeada, que já desenvolvia aos poucos certa neutralidade ao dirigir-se a ela.

Passou a abster-se a seguir de dar a devida atenção à maneira como a arroxeada estava conciliando suas relações, hábitos e personalidade, esquecendo-se que também fora responsável pela inicial criação da pequena e que agora estava supostamente e simplesmente a colocando de lado em suas prioridades, permitindo-a desenvolver-se sozinha a partir de então, sem nenhum apoio emocional no qual se basear e sem alguém para desabafar na maioria das vezes, sozinha para lidar com os seus próprios conflitos internos e com as saudades de Rose na desordem de seu quarto solitário.

Garnet a auxiliava sempre que possível, mas ainda assim não era capaz de suprir as necessidades da mal desenvolvida gem, ou diminuir a dor de ter uma das entidades que mais lhe auxiliou e lhe prestou assistência e carinho durante suas primeiras décadas lhe ignorando e repudiando, estando esta quase a beira de um colapso emocional e instabilidade mental, praticamente paranoica com tudo e extremamente sensível a qualquer lembrança da defensora da Terra.

A fusão incrivelmente bem equilibrada dava-lhe atenção quando necessitava, mas quando já mais crescida na maioria das vezes ela lidava com seus próprios problemas sozinha, principalmente os de origem mais pessoal e íntima, que na realidade nunca externara para os outros verdadeiramente, pois apesar de não demonstrar tanto, sentia-se insegura demasiadamente para fazê-lo.

Aos poucos se afastavam, desde que Rose se fora a relação entre ambas ia se deteriorando de maneira lenta e dolorosa tanto para uma como para outra, o isolamento que Pérola vinha desenvolvendo depois que sua mentora se fora era assustador, ela agia com frieza e bradava para os quatro ventos que ninguém era capaz de compreender sua dor, que ela era a mais prejudicava, pois seu relacionamento com a Quartzo era diferente da das demais, não deixando sequer a mais nova se aproximar.

Mais tarde, depois de alguns anos refletindo sozinha Pérola finalmente conseguiu definir um novo propósito para sua vida, após Garnet resolver conversar seriamente consigo, pois até aquele momento estava dando a ela espaço para lamentar-se e superar em seu próprio tempo a ‘’morte’’ de sua mentora, assim como Ametista e a si, mas aquilo já estava passando dos limites, em breve Steven teria idade o suficiente para morar com elas e Pérola sequer deixara aquela infantilidade maluca de lado e havia se responsabilizado permanentemente com o juramento que rose a fizera realizar, que era criar e proteger Steven, independente de qualquer outra coisa.

‘’Você não pode viver isolada para sempre Pérola! Isso tem afetado todas nós, não somente você! Ametista já não sai do quarto a dias graças ao que você disse quando ela tentou se aproximar de você para conversar, você tem que parar com isso e aceitar o fato de que Rose não está mais aqui para te consolar! Eu tenho apenas observado esperando que você superasse isso ao menos um pouco, mas você fica estagnada no mesmo lugar! Levante-se daí agora e vá conversar com Steven um pouco, e aproveite para pedir desculpas a Ametista. Acostume-se agora porque em alguns anos ele ira morar conosco e garanto que não vai ser bom para ele se você ficar o tempo todo assim, Rose não ia querer isso para você e nem para nós!’’

Lembrava-se com clareza das palavras de Garnet, elas haviam lhe despertado para a realidade finalmente, não poderia viver oscilando entre a felicidade fingida na frente de Steven e a solidão egoísta para com suas colegas, estava esquecendo-se de tudo que ainda era importante em sua vida, até porque Rose sempre fora o pilar supremo que ofuscava todos os outros, e agora que este se fora, mesmo que tenham se tornado mais evidentes as suas outras questões a cuidar na vida, a falta deste que governava sobre os outros fizera com que um véu espesso se colocasse sobre seus olhos, cegando-lhe para todo o resto e privando-lhe da lucidez do raciocínio lógico.

A gem fusionada também estava sofrendo, Ametista também estava sofrendo... Até mesmo Greg também estava sofrendo, e mesmo assim ela ignorou todos os outros para se vitimar intimamente como a que mais sofria e sentia a falta da Quartz.

Depois de a gem avermelhada a repreender sobre sua reação exagerada diante da tal situação, finalmente se decidira, tomaria uma atitude.

Ainda relutante, adentrara o pequeno lava-jato que Greg construirá tanto para arcar com os custos financeiros que Steven provavelmente geraria quanto para se sustentar, já que seus CD´s não vendiam tanto quanto o esperado.

O ex-guitarrista estava um tanto entretido conversando com um pescador de cabelos loiros com medianas barbas a crescer por seu rosto, portanto não notara Pérola se aproximando do pequeno berço do bebê Steven aos fundos e o fitando silenciosamente com um brilho indefinível nos globos esbranquiçados, depois de alguns segundos encarando a face adormecida do garoto, a espadachim o pegando em seus braços com cuidado, imitando a maneira como Greg o fazia, embalando gentilmente a seguir a pequena criatura, seu rosto pálido parecendo transbordar culpa e emoção ao olhá-lo, o cansaço parecendo claro em suas expressões.

As feições dele lembravam- na tanto a própria Rose, aquilo sem dúvida era reconfortante para seu coração já tão machucado.

Trouxe-o para mais perto de si, conseguindo encostar sua pedra um tanto oval na pequena testa do garoto com cuidado, sentindo-se completamente arrependida dos erros que cometera nos últimos anos e prestes a desabar em lágrimas silenciosas novamente, a tristeza e a comoção mesclando-se ambos confusamente em seu âmago.

—Ah... Steven... queria que você pudesse me entender agora... eu não sei mais porque ainda estou neste mundo... ou... porque estou existindo... meu propósito na vida se foi... eu não sirvo para nada se não tiver alguém me dando ordens... está... está tudo acabado não é mesmo? – indagou aflita e chorosa, estando a ponto de colapsar emocionalmente mais uma vez, refletir sobre sua vida nos últimos anos havia se tornado um verdadeiro tormento para a defeituosa Pérola – Na-....não... eu prometi a mim mesma que iria tentar parar com isso... eu ... – suspirou, parecendo não suportar o peso das próprias palavras.

— E-eu... vou seguir até os confins da minha vida a última ordem... o último pedido que sua mãe me fez... eu protegerei você, lhe criarei nem que tenha que sacrificar meus próprios sentimentos para isso... Está bem? – perguntou como se estivesse realmente dialogando com o pequeno — ... Eu...sinceramente... espero que isso possa servir ao menos como um pedido de desculpas por tudo que eu já fiz... tudo o que eu já fiz de errado – cerrou o olhar, suspirando pesadamente e em seguida abraçando o pequeno com urgência, sua pedra encostada próxima dos cabelos negros do meio-humano começando a reluzir timidamente – me... perdoe.

Distraída com a situação, Pérola sequer notara uma pequena criatura observando-a e a escutando por detrás de uma das paredes do pequeno lava-jato, processando cada palavra que ditara com cuidado, entrando em conflito interno a cada nova informação que alcançava sua mente, sendo atingida no centro de seu ser graças a aquela última frase que soara tão embargada, que a fizera verdadeiramente crer no arrependimento da gem branca, enquanto pensava se tornava evidente sua presença ou não, bradando mentalmente e até mesmo questionando o seu próprio valor.

Sem dúvida, Steven era mais importante.

Steven era mais crucial.

Dali para frente Pérola teria razão de lhe deixar de lado, ela precisava se dedicar totalmente a Steven dali por diante, com certeza não teria mais tempo para si, precisava logo se conformar com o fato de que qualquer coisa que envolvesse Rose seria mais importante do que a si para a ruiva, mesmo que antes ela só lhe deixasse de lado por infantilidade, agora seria algo realmente sério, não poderia depender emocionalmente dela sob nenhuma circunstância.

Mesmo que devesse aceitar, que quisesse aceitar, não conseguia.

Não sabia mais o que sentir com relação a aquilo, estava perdida em suas próprias emoções, estas que brigavam ferozmente dentro de seu coração, cada uma tentando tomar o controle da situação, porém a própria ‘’razão’’, aquela que antes de agir, pensava se aquele algo realmente valia a pena, se valia o esforço, relutava fortemente mesmo que fosse o mais correto a se fazer ela se sobrepor a todos os outros.

Censurou-se internamente, por que tudo tinha de ser tão difícil? Afinal porque lhe haviam acolhido? Deveriam ter lhe ignorado quando foram até o jardim de infância, deveriam ter lhe menosprezado e seguido em frente, deveriam ter lhe abandonado ali de uma vez e esquecido de sua existência.

Deveriam mas não o fizeram.

E agora estava ali deixada de lado por um bem maior, colocada fora da lista de prioridades por questões incontestáveis, esquecida e ignorada por razões que sequer compreendia completamente.

Teria doido bem menos se simplesmente tivessem feito isso quando a conheceram, e não quando já possuíam laços emocionais consigo, dos quais de certa forma, ela dependia.

Era doloroso.

Desde que Rose se fora sua vida parecia um verdadeiro inferno.

Mas, na realidade a vida de todos havia se tornado um martírio desde que a Quartzo abandonara a própria forma física, Garnet falava apenas o necessário e raramente interagia com elas fora de uma batalha, Greg parara de esbanjar a sua tão agradável felicidade característica e só se mostrava mais contente perto de Steven, tornara-se ainda um tanto mais solitário, mas não chegando ao ponto que Pérola chegara, ela provavelmente havia sido a mais afetada... ou simplesmente a que se fazia de mais afetada e externava isso muito mais do que os outros.

Não sabia mais como expressar-se com Pérola, não sabia mais como agir com ela.

Tinha todos os motivos para odiá-la, nos últimos anos ela não fizera nada além de lhe magoar, deixar de lado, e menosprezar sua oferecida ajuda. Mas, ainda assim ela fez um papel importante em sua criação inicial e acolhimento, ela lhe dera atenção, carinho, ensinamentos, exemplos, lições, proteção, velara por si, lhe doara suas próprias forças para lhe ver progredindo como uma gem verdadeira mesmo que não demonstrasse tanto em palavras.

Quase tão presente quanto a própria Rose.

Ver o estado em que a gem branca se encontrava naqueles tempos chegava a ser agonizante, tentava se aproximar de verdade dela, esforçara-se para lhe auxiliar da mesma maneira que esta um dia fizera para si, mas a outra ainda conseguia lhe repudiar mesmo assim.

Fora um baque doloroso, horrível, pesaroso para todas elas quando a mentora da equipe havia supostamente ‘’morrido’’, porém todas procuraram superar a situação e seguir em frente o mais rápido possível, mas Pérola não queria aceitar de nenhuma maneira, e por isso demorara muito mais para se restabelecer emocionalmente do que suas colegas, o que resultara em diversas sequelas e mágoas que levaria para o resto da vida, e isso não se restringia somente a ela, como também a própria arroxeada, que perdera inclusive boa parte da intimidade que possuía com a ruiva devido as decepções que tivera com a personalidade egoísta e orgulhosa desta.

´´I-idiota...! Por que você tinha que fazer isso?...Imbecil, imbecil, imbecil, imbecil... ´´ esbravejou mentalmente, levando as mãos rechonchudas à cabeça e as pressionando fortemente, como se pudesse fazer seu cérebro compreender a situação, obrigando-lhe a entender que não tinha o direito de interferir naquilo, o forçando a tomar uma decisão logo.

Não pôde evitar com que aquela pequena lágrima escorresse por sua bochecha corada, irrompendo de seu olhar que exclamava uma clara suplica, uma suplica à seu coração, uma suplica de que aquela dor em seu centro simplesmente desaparecesse, que deixasse de existir, que evaporasse de seu ser e simplesmente parasse de lhe martirizar.

Mas não importava quanto esforço fizesse, aquela sensação nunca a abandonava.

E para a sua infelicidade, o embargo de sua voz junto aos soluços descompassados que soavam por sua boca, ecoaram longe demais, atingindo sorrateiramente os ouvidos da Gem ruiva do outro lado, que ao captar os mínimos sons assumira uma posição defensiva enquanto ainda possuía Steven nos braços, ao reconhecer a direção de onde vinha o possível choro se aproximando cautelosa, tentando não fazer muito barulho ao caminhar.

Ametista distraída com seu lamento, não sentiu a outra se aproximando e só a percebera quando já era muito tarde. Ela estava bem ali, lhe observando com o olhar penoso e surpreso ainda com a pequena criança junto de si, as íris anis tremeluzindo quase emocionadas, decerto sua expressão era lamentável.

— A-....Ametista? – indagou, já que a penumbra da noite não lhe permitia enxergar tão perfeitamente quanto desejava, e na verdade implorava internamente para que não fosse a pequena arroxeada aquela criatura que se encontrava naquela situação quase sofrida, simplesmente não queria acreditar que aquele rosto banhado em lágrimas pertencia a pequena criança que criara e cuidara desde que lhe acolheram, aquela face que derramava gotas translúcidas em abundância a fazendo desejar imensamente abraçá-la e não soltá-la mais até que não parasse de chorar – o que aconte-.... – tentou perguntar, enquanto levava uma das mãos até a face da outra, porém fora interrompida rapidamente.

— Não. Me. Toque. – falou pausadamente e com a voz incrivelmente seca, após desferir um tapa de força mediana na palma pálida e magra da mais velha que tentara se aproximar de si através de contato físico.

Não queria que ela lhe tocasse, falasse ou sequer olhasse para si, não queria mais nada que viesse dela.

O olhar arroxeado tornou-se impiedosamente nublado naquele momento.

Congelou na mesma posição, esperava qualquer reação da mais nova, mas não uma tão insensível a si, o local aonde a outra lhe acertara com a mão agora formigava irritantemente, os globos esbranquiçados que lhe preenchiam o olhar estavam paralisados de surpresa e até mesmo incompreensão.

— Ametista o que- tentou sem sucesso indagar-lhe sobre sua atitude.

— Não fale comigo idiota! Não olhe pra mim! Sequer pense em mim! Entendeu?! Fique longe de mim! – falou-lhe aos gritos, fazendo a mais velha dar passos para trás receosa com as ações da outra, a pequena após perceber o que dissera abaixou a cabeça rangendo os dentes, permitindo com que mais lágrimas escorressem por sua face extremamente avermelhada.

— Eu te odeio – falou por fim aos prantos e com o tom puramente embargado, e sem pensar nas consequências saiu correndo sem rumo, apenas se afastando desesperadamente de Pérola, não queria tê-la presente me seu campo de visão sob nenhuma circunstância.

Sentiu quase um baque ao ouvir aquelas palavras soarem através do timbre desconcertado da menor, sua garganta parecendo dar um nó, privando-lhe do direito de ditar qualquer palavra compreensível, e sua alma quase ser engolida pelo remorso, as sensações extremamente incomodas a fazendo estagnar no mesmo lugar e consequentemente demorar certo tempo para reagir à fuga repentina da gem arroxeada, percebendo-a longe somente quando esta já estava próxima da praia.

— Ametista! – gritou tentando chamá-la de volta, porém não obtendo sucesso, apenas podendo observar a pequena figura sumindo de sua vista aos poucos.

Contorceu-se nervosamente, sentindo-se ser desamparada pelas suas próprias forças, que a pouco estavam retornando-lhe ao corpo e mente de maneira lenta, porém que agora lhe abandonavam mais uma vez de uma maneira inexplicavelmente tortuosa.

Mirou o chão, não podendo mais permanecer com a cabeça levantada, caindo de joelhos em seguida enquanto os prováveis gritos de Greg se aproximam de si devido à alta discussão que se decorrera há poucos instantes, porém a albina não conseguindo ouvir mais nada estando imersa nas suas próprias linhas de pensamentos imprecisos e desorganizados, completamente borrados pela culpa e sentimento de padecimento que a tomavam sem dó.

E como num último suspiro apertou mais o filho de Rose Quartz nos braços, enquanto estremecia impiedosamente.

—A...A-ametista... – sussurrou já machucada demais para ter qualquer reação mais drástica – me desculpe... – pronunciou quase como um clamor, rezando para que aquela situação detestável pudesse se resolver o quanto antes e que seu peito pudesse se livrar daquela sensação horrível de perda que o envolvia em todos os sentidos.

...

E agora estavam ali, em circunstâncias muito parecidas.

Uma jogando acusações contra a outra, enquanto a mais velha da dupla tentava se desculpar pelos inúmeros erros que já havia cometido com a pequena arroxeada, porém o passado entre ambas carregava e carrega magoas demais para que fosse reparado tão rapidamente e com um simples pedido de desculpas.

Por mais sincero que fosse.

Notas finais
E aí, sobreviveu pra deixar um comentário? Digam o que acham da minha escrita atual, por favor, e do rumo que a história está tomando se for da vontade de vossas senhorias. Eu acho que vou maneirar um pouco no drama a partir desse capitulo, tá demais né? :p Agora vai lavar aquela louça que eu sei que você deixou na pia pra fuçar na internet, ou dormir mesmo, depende do seu horário ;3 hehe Obrigada por ler até aqui! Kissus e até a próxima!