The Conflict Between Love and Hate - (EM REVISÃO)
7 Revivendo mágoas cicatrizadas - parte 2
Notas iniciais
E agora estavam ali, em circunstâncias muito parecidas.
Uma jogando acusações contra a outra, enquanto a mais velha da dupla tentava se desculpar pelos inúmeros erros que já havia cometido com a pequena arroxeada, porém o passado entre ambas carregava e carrega magoas demais para que fosse reparado tão rapidamente e com um simples pedido de desculpas.
Por mais sincero que fosse.
— Ametista... – estreitou os olhos, como que duas marcações sendo feitas sobre suas bochechas ao franzir o cenho debilmente – eu... posso ter cometido muitos erros com você e sido egoísta a maior parte do tempo... mas eu te dou importância sim! – retrucou inconformada, sentindo a voz já ser embargada – não exagere! – praticamente ordenou.
— Ha-ha, tem certeza? – bradou ironicamente – você nunca fez nada além de me machucar! Eu já estou cansada de tudo isso! Você não gosta de mim? Ótimo, então por que não se livra logo de mim?! Me jogue fora como o criatura desnecessária e imprestável que eu sou! E pare de pedir desculpas só pelo seu remorso porque eu sei que você faz isso só pra sua consciência idiota pesar menos! — ditou o discurso de maneira áspera, falando cada palavra com incrível tom de remorso, pois mesmo que aquilo tudo lhe doesse, não deixaria de jogar a verdadeira face da situação frente à suposta mente intelectual e racional da ruiva — você sequer tem algum motivo além desse pra me pedir perdão... até porque, eu sei que você não precisa do meu perdão, você não quer o meu perdão, porque ele não vale nada vindo de uma criatura inútil que não faz nada certo, como eu! – vociferou em altura exorbitante, enquanto seus olhos pareciam duas labaredas incandescentes, perpetuando suas chamas em completa fúria e cólera que com certeza poderiam intimidar a qualquer ser que não fosse no mínimo de caráter tão vigoroso e resistente quanto o seu, as mãos rechonchudas e arroxeadas gesticulando nervosamente, a dona destas ainda não tendo percebido que já estava a praticamente dois palmos de distância de Pérola.
Seus olhos se arregalaram pasmados e incrédulos, estando contornados por fortes linhas de expressão enquanto as íris anis tremeluziam incontrolavelmente dentro das retinas esbranquiças, seus ombros ficando mais rígidos à medida que Ametista se aproximava de si aparentemente de maneira inconsciente.
Tudo doía tanto, pensar sobre aquilo lhe dilacerava tanto, refletir sobre aquilo lhe machucava tanto, como chegaram a tal situação? Afinal, como pudera permitir com que Ametista chegasse ao ponto de ter aquele tipo de consenso sobre sua personalidade? Sobre como a tratava? Realmente agia de maneira tão desprezível assim com a pequena arroxeada? Sabia que não possuía o melhor convívio possível com ela, mas mesmo assim...
Como pudera não perceber antes? Era assim tão horrível para a menor?
Não, não, não. Não podia ser, não poderia ser tão ruim assim, talvez Ametista só estivesse exagerando....sim! Exagerando completamente! Deveriam ser algumas poucas peculiaridades e trivialidades desconcertantes de seu caráter que ela estava transformando em algo maior, que supostamente seria digno de um julgamento mais rigoroso.
É claro! Ela estava equivocada lhe dizendo aquilo, estava cega diante de outros erros que a si já cometera no passado, e com certeza não queria enxergar a realidade, a ruiva não era um ser cruel e egoísta, não a tal ponto!
Engoliu em seco, reprimindo as ondas de lágrimas que ela sabia que viria se não se controla-se rapidamente, sequer sabia o motivo exato daquela sensação arrepiante e gritante de querer chorar mais uma vez estar a ponto de lhe dominar, já o fizera tantas vezes, e por que agora se reprimia? Especialmente em uma situação do tipo. Mas não, não queria chorar na frente de Ametista, não de novo, já estava ficando cansada de chorar por tudo que acontecia de frustrante em sua vida, mas mesmo assim era difícil evitar, era quase como parte dela mesma.
— Eu estou me desculpando agora contigo! Isso não é suficiente?! O que eu tenho que fazer pra você me perdoar Ametista?! – indagou aos brados com a voz em pura amargura, praticamente chorosa e um tanto abafada, quase sufocada pela angústia, a vontade de jogar tudo para o alto e retomar seu orgulho egocêntrico e esquecer que aquela confusão havia acontecido era simplesmente incontrolável, porém já pisoteara demais sua própria arrogância para se render a seus defeitos novamente a aquela altura, tinha que fazer algum esforço, ao menos alguma vez tinha que fazer algum esforço pela gem púrpura, pois já a machucara demais, não queria continuar errando com ela, mesmo depois de perceber o quão desprezível havia sido nos últimos anos.
Simplesmente não entendia, se desculpar não era o suficiente? Não era isso o que a arroxeada queria que fizesse? Teria que Implorar-lhe o perdão?
Em seu íntimo, nos confins profundos de seus desejos, o que não admitia diretamente ou expunha para os outros de maneira alguma, ela sabia que queria deixar evidente que era dona da razão, que queria acusar em mesma altura a outra gem de erros que ela também cometera no passado, que queria revidar cada palavra em mesmo tom, que queria realçar seu ego impiedosamente sem considerar que talvez estivesse equivocada em suas opiniões, ações ou escolhas para com a outra.
Queria, mas não podia, não naquele ponto, já deveria ter se conformado há muito tempo com aquele tipo de circunstância.
—Não se trata do meu perdão aqui Pérola, e você sabe disso! Não é mesmo? – soara incrivelmente sarcástica, não se permitindo sensibilizar com as palavras da mais velha — Até porque te perdoar pelo quê? Por você não ter feito nada além do seu dever me menosprezando durante anos e me colocando em último plano até agora só para dar atenção exclusiva à algo muito mais importante? – Perguntou ironicamente com o olhar comprimido e os lábios expandidos em um sorriso sem graça e sofrido — De qualquer jeito eu não valia de nada pra você... Sou só mais uma quartzo... Uma quartzo defeituosa que nunca vai chegar aos pés da grande Rose Quartz. Uma quartzo mal feita que sequer é digna de se comparar com a figura grandiosa da líder das Crystal Gems! A Gem insignificante que jamais vai ser uma prioridade maior do que qualquer outra coisa que envolva a suprema Rose Quartz para qualquer pessoa no universo! — esbravejou entre dentes, chegando a amedrontar fortemente a figura magra mais alta que absorvia todo o discurso dolorosamente, a gem púrpura agora estando a cerca de um palmo de distância da face albina perplexa e abismada, as íris arroxeadas corrompidas pelo ódio e revolta evidentes fixando-se nos anises nebulosos sem nenhum indício de hesitação aparente, a expressão carrancuda sustentada friamente no rosto rechonchudo.
Silêncio.
Aquilo era simplesmente demais para si, era uma carga muito grande para um impacto tão direto. Então era isso? Ametista se sentia inferior a Rose só porque Pérola dava mais atenção e carinho para Steven do que para ela?
Não...não era só por isso, com certeza a arroxeada contava todos os pontos, Pérola muitas vezes chegava ao ponto de se sacrificar com relação a qualquer coisa que envolvesse a Quartzo Rosa, desde criações, objetos, posses, lembranças, tanto que quando descobrira sobre a existência do leão de Steven ficara completamente sem chão, como a sua amada líder pudera esconder alguma coisa de si? Como ela pudera não lhe revelar todos os seus segredos mais sombrios consigo, sua fiel confidente? Realmente, existia algo que ela lhe escondia? Como pudera?
Sempre acreditou que tinha uma relação diferente da das outras com relação a Rose, por isso sempre a colocara acima de tudo, absolutamente tudo, e com isso vieram junto da imagem absoluta da grande líder tudo que a renegada Pérola sabia que a rosácea atribuía alguma espécie de afeto, carinho, proteção, ou mesmo que fosse de sua criação, mesmo que equivalesse a uma fonte de lágrimas curativas, musgos incontroláveis, ou seu próprio filho, mesmo que, gerado não somente por ela, mas em parte, por um humano miserável também.
Mas isso não concedia a Ametista o direito de criticar ou profanar a figura da Quartzo somente para sua satisfação pessoal! Por que se compararia a ela se eram tão diferentes? É claro que ambas possuíam valores diferentes, então do que adiantava se comparar a ela? É claro que elas teriam relações diferentes consigo, e é claro que Pérola daria mais atenção a Steven e qualquer outra coisa que envolvesse Rose do que para Ametista...
Os anises se comprimiram mais ainda.
O fio de pensamento se rompeu e a albina mais alta estancou mais uma vez, não era mentira, ela realmente dava mais valor a tudo que já pertenceu ou pertence a Rose do que todo o resto, e isso infelizmente incluía Ametista.
Mas... O que ela poderia fazer?! Isso era uma coisa lógica! Rose lhe apresentara a liberdade, a liberdade de escolha, de ser quem ela quisesse ser e fazer o que ela quisesse fazer de sua vida, a rosácea a seduzira não intencionalmente ao campo de batalha para lutar por um planeta que ela mesma sequer conhecia direito, e mesmo sabendo que elas poderiam morrer ou nunca mais retornar ao próprio planeta natal, Pérola aceitara! E por quê? Simples, havia se hipnotizado completamente por aquela guerreira gem e queria lutar por ela e com ela a todo custo!
Aquela quartzo havia lhe conduzido a um caminho sem volta, o caminho da paixão. Sim! Talvez houvesse realmente se apaixonado, ou admirasse de maneira extrema a sua grande mentora, mas a exatidão de seus sentimentos nunca foi algo com o que ela verdadeiramente se preocupou, pelo menos não no começo do grande conflito! Tinha ela só para si e nada nem ninguém lhe tiraria isso, jamais!
Bom, era pelo menos isso o que ela pensava antes de conhecerem Greg.
E agora vinha Ametista questionando-lhe supostamente sobre o nível de valor que ela atribuía a sua própria salvadora? Como ela tinha tamanha ousadia? A mais nova nem deveria contestar a quem Pérola dava mais valor, pois era óbvio e nada mudaria isso, não importava o que Ametista dissesse, ela não iria reduzir ou diminuir a imagem de Rose só para que a arroxeada se sentisse melhor e como um ser de mais valor! Era de Rose que estavam falando, e não de alguém morto que deveria ser enterrado no passado e não constantemente ressuscitando no presente, pois exatamente por isso é que ninguém conseguia seguir em frente!
Não era assim, não era desse jeito.
...
Certo?
Fechou os punhos com força enquanto seu corpo de aparência frágil – somente — estremecia completamente apesar de ela tentar assumir uma postura firme repentinamente, suas íris reluziam e tremeluziam de maneira tão intensa em meio ao espaço nevado, a pupila negra e as raias avermelhadas extremamente ressaltadas em volta destas as fazia parecer realmente duas pérolas azuis, corroídas de mágoa, egoísmo e desespero, prontos para afugentar tudo o que poderia ferir a lembrança de sua mentora para longe apenas com um olhar.
Cerrou os dentes com força ao mesmo tempo em que seu olhar que anteriormente se mantinha em direção ao chão levanta-se fragilizado e lacrimejando novamente, encarando intensamente as duas incandescentes Ametistas oculares que faziam um esforço surreal para manterem-se frias e inabaláveis, para não aparentar fraqueza como a dona destas insistia teimosamente em fazer.
Enquanto ela juntava forças para falar, o peso das lágrimas se tornou insuportável, não suportava mais segurá-las dentro de si, simplesmente permitiu com que o pranto se manifestasse finalmente, irrompendo e deslizando descontroladamente sobre seu rosto delicado e ruborizado sem que a ruiva desse tanta importância, em seguida engolindo em seco, sentindo a vermelhidão tomando sua face antes albina por completo.
— Não é nenhuma mentira – começou, a voz embargada e em indescritível remorso manifestado — o que você sabe sobre Rose para querer se comparar a ela?! Você sequer conviveu tempo o suficiente com ela para conhecê-la como ela realmente é! EU REALMENTE VIVI COM ELA! Lutei ao seu lado na guerra, a salvei e ela me salvou inúmeras vezes da morte certa! Como você quer que eu não dê valor a tudo que é dela se ela já se foi?! Você quer o quê Ametista?! Que eu deixe de lado tudo o que sobrou dela para eu me consolar, só para você se sentir mais amada?! Eu não sou uma máquina sem sentimentos, eu sinto a falta dela! Não posso abandonar tudo o que ela deixou para trás assim de uma hora pra outra nem que isso custasse a minha vida! – retrucou nervosamente aos brados, sentindo a água quente molhando as linhas de expressão de seu rosto corado interminavelmente, enquanto gesticulava precipitadamente e de maneira inconsciente, levando seus finos dedos pálidos em constante tremedeira as próprias madeixas ruivas em sua cabeça que eram puxadas e forçadas para todas as direções possíveis pelas franzinas extensões de sua mão. A revolta tão bem conjurada em suas falas, a incompreensão, descrença, inconformação, tudo tão alinhado perfeitamente naquele fio de voz emocionado e inconsolável, que clamava, sentindo-se injustiçada pelas acusações da gem a sua frente.
A face de Ametista tornara-se sombria, ideias detestáveis passavam por sua mente rapidamente, sua expressão era tão fria e parecia guardar tanto ódio sob a máscara raivosa que transparecia em suas feições que fizera Pérola sentir inúmeros espasmos por seu corpo, quase chegando a recuar, de repente sentindo medo do que a outra poderia fazer a seguir.
Orgulho e egoísmo, esses com certeza eram os principais defeitos de Pérola e sem dúvida os que a arroxeada mais abominava em seu caráter, a tal ponto que ela sequer percebesse ou quisesse enxergar que também os tinha em seu cerne em quantidade quase tão assustadora quanto a ruiva.
— Era pra ser engraçado por acaso? Era pra ser uma piada? Porque sinceramente não foi pra mim. – disse indiferente e um tanto irónica, apertando os olhos levemente — Você sempre interpreta e distorce as palavras das outras pessoas pra que elas sejam convenientes pra você e pra o que você pensa Pérola! – apontou para ela novamente com o olhar acusador e a cólera parecendo dominar cada milímetro de sua figura diminuta, enquanto parecia prestes a esbravejar as palavras — Em nenhum momento eu te pedi pra abandonar qualquer coisa da Rose só pra eu me sentir melhor ou mais ‘’amada’’. Eu não disse que você é uma máquina sem sentimentos, eu acho que você os demonstra até demais! – esclareceu, já impaciente com as perspectivas da situação que eram distorcidas ao próprio bel-prazer da gem alva — Não reduza ou aumente o que eu digo... É claro que você conhece melhor Rose... Afinal sua obsessão por ela nunca permitiu você deixar algo sobre ela passar despercebido, pelo menos foi isso que você sempre acreditou, não é? — pronunciou todo o discurso em tom ácido, desprovida de qualquer remorso que pudesse sentir pela mais velha, como se a empatia que já sentira por aquela Pérola esbranquiçada já tivesse morrido há muito tempo em seu coração — Mas no final, ela escondeu o leão de você, a Bismuto de você, igual como ela fez com todas nós. Se escondeu coisas do tipo não duvido que tenha guardado inúmeros segredos só para si ou os deixado para Steven descobrir, porque não podia confiar o suficiente na defeituosa e ciumenta Pérola, que não tinha nada de diferente de qualquer outro membro das Crystal Gems...!
Um baque relativamente grave fora ecoado por todo o local, um som detestável já conhecido dos presentes ali, originado do golpe pesado que fora desferido na frágil estrutura de madeira que quase se rompera com o impacto de força desmedida do punho cerrado.
Com a ação brusca efetuada pela outra, Ametista calou-se, encarando a gem branca por alguns instantes, conseguindo discernir de sua postura curvada o sentimento de fracasso e de impotência que se apoderava da outra, como se tivessem tocado em uma de suas velhas feridas, fazendo feições de leve surpresa invadirem a face púrpura e uma pontada de culpa atingir-lhe no âmago, mas não culpa o suficiente para lhe fazer se arrepender do que dissera, adquirindo a seguir uma expressão dura e insensível.
— Cala. A. Boca – disse pausadamente em tom embargado e rouco após o som emitido pelo seu anterior movimento se esvair do cômodo completamente, todo o seu corpo parecendo imerso em seu próprio pranto, como se as gotas translúcidas não escorressem somente através de seus olhos, mas sim de toda sua alma, seu rosto deixando perfeitamente exposto seu absurdo aborrecimento e demonstrando com clareza a sua absorção em um estado simplesmente deplorável naquele momento, parecia que poderia se afogar em suas próprias lágrimas a qualquer instante, sua face nunca expressara tão bem a sua incredulidade, mágoa e decepção perante as palavras ditas anteriormente pela arroxeada.
Ergueu a cabeça novamente, encarando Ametista como se ela tivesse lhe provocado uma ferida irreparável diretamente no coração.
O que na verdade, não era exatamente uma mentira.
— Eu posso não ter valido pra ela o mesmo que... Greg tenha valido ou significado... – iniciou amargamente, com a lástima manifestada dolorosamente em suas falas — Eu posso não ter sido diferente e não ter tido nenhum valor além do de uma Crystal Gem qualquer para Rose... mas eu... sempre fiz de tudo por ela...! – proclamou convencida, suspirando entre uma frase e outra, a voz carregada, como se tivesse feito um grande esforço por algo durante muito tempo, mas que no final aparentemente não havia valido de nada, servindo apenas para colocar mais peso sobre seus ombros — Eu dava meu corpo e alma para protegê-la nas batalhas! Eu era pufada inúmeras vezes por um golpe que era para ela! Eu me sacrifiquei e me sacrífico até hoje por tudo o que ela amava, acreditava ou achava que era digno de proteção! – bradou emocionada, tentando demonstrar o quanto ela tinha se dedicado a aquela Quartzo Rosa, apenas para no fim ela lhe abandonar sem mais nem menos por um filho – mesmo com tudo isso... Eu nunca fui grande coisa pra ela... eu nunca tive o amor dela de verdade, não o que eu tanto almejava! E aí aparece um simples humano e a tira de mim completamente!!! Ele nunca sequer se sacrificou por ela em nenhum sentido! Como ela pôde amar a ele mais do que a mim??!!! – disse tudo de uma vez sem pensar, clamando em alto volume toda a sua inconformação que carregara nos últimos anos, desabafando em um momento extremamente inconveniente, deixando as palavras amargas há muito presas em sua garganta fluírem rapidamente — VOCÊ NÃO PODE ME JULGAR POR NÃO CONSEGUIR ESQUECÊ-LA AMETISTA! – gritou para a outra no ápice de seu desespero e profundo desconsolo.
Antes que Ametista pudesse ter qualquer reação, o gem rosa no segundo andar foi mais rápido, cansando-se de ouvir todos aqueles discursos de ódio e auto piedade finalmente, estava fazendo o que Garnet lhe pedira, não deveria interferir na situação entre as duas segundo a fusão imponente, mas simplesmente não conseguia continuar assistindo aquilo sem se impor entre as ofensas indiretas e defesas evasivas de palavras, não suportava ver ninguém que amasse naquela situação, as palavras também o atingiam isso era verdade, mas também era o de menos, vislumbrar tamanha troca de olhares vorazes era muito mais detestável para si.
A seguir resolveu tomar uma atitude, levantando-se então de sua cama, descendo as escadas ligeiramente, botando-se entre ambas as gems em questão de segundos.
— Parem! Já chega! – chamou-as a atenção com convicção apesar do tom um tanto embargado, já também se permitindo chorar (praticamente de maneira inconsciente) sem restrição alguma apesar da expressão que implorava para que elas encerassem com toda aquela discórdia – Parem com isso, por favor! Quantas vezes vamos ter que passar por essa situação até que vocês façam completamente as pazes?! Eu entendo que vocês têm suas diferenças, mas não precisa ser sempre assim! – pediu quase desesperadamente para as duas, intercalando o olhar triste e cheio de lágrimas entre uma e outra gem – Por que vocês não conseguem simplesmente viver em paz? Por que tem que discutirem desse jeito? Se a culpa é minha me desculpem, por favor! Mas não façam isso! Não fiquem se acusando dessa maneira! – disse em um fio de voz comovente, fazendo ambas as Crystal Gems sentirem-se constrangidas de repente por terem discutido daquela maneira, principalmente por o terem feito na frente de Steven, que não era culpado de nada, não importava quantas vezes as circunstâncias tanto presentes quanto passadas fossem analisadas.
Pérola surpreendeu-se, adentrou o cômodo de maneira tão imersa em seus pensamentos e tão desligada de praticamente tudo o que acontecia ao seu redor que mal percebera a presença de Steven na casa de praia, tudo o que tinha conseguido realmente enxergar desde então fora Ametista, sequer se dera conta de que o pequeno gem estava ali, se não teria tido um autocontrole no mínimo melhor, e não esbravejado todas aquelas palavras que sem dúvida alguma parando para pensar machucaram Steven.
Ametista sabia que ele estava ali, mas se envolvera tanto no diálogo ácido que travava com Pérola que sequer o havia dado atenção, esquecendo-se da presença do mais novo de tão imersa em seus conflitos que se encontrava, permitindo-se falar diversas coisas que sempre quis gritar aos quatro ventos com toda a força, apenas para a gem branca ouvi-los com a maior clareza de que se era possível exercer, para sua mente perfeccionista e ‘’sem defeitos’’ processar sem problemas.
— S-.. Steven... — murmurou surpresa a ruiva, enquanto levava rapidamente suas mãos à boca, abafando o nome do garoto moreno ao pronunciá-lo, seus olhos se arregalando ao mesmo tempo em que seus anis arrebatados se encolhiam, temerosos de que tivesse realmente ferido o sentimental de Steven com a escolha terrível que havia feito de suas palavras anteriores, seu corpo projetado por sua preda estremecendo de repente, o arrependimento vindo com toda a força, atingindo-a sem aviso prévio, enquanto esta amaldiçoava internamente suas ações impulsivas de há pouco.
Encarou Ametista sem mais nenhum rancor ou mágoa no olhar, sobrando apenas minúsculos resquícios da neblina que se colocara sobre eles outrora, isso graças à imagem de Steven chorando com as pálpebras cerradas enquanto colocava-se entre elas com cada uma de suas mãos apontadas na direção das duas, como que impedindo que se aproximassem mais e ferissem fisicamente uma a outra — o que até então por um milagre não ocorrera — fazendo a albina mais alta arrepender-se profundamente de tudo o que fizera desde que entrara naquele cômodo, esquecendo-se da desavença brutal anterior com a arroxeada e alcançando-lhe rapidamente as íris púrpuras com o olhar, por um momento parecendo indagar somente com as auréolas azuis algo como: ‘’o que nós fizemos?’’, olhar o qual fora retribuído sem demora pela mais nova que também colocara a situação entre ela e Pérola de lado por instantes e priorizara Steven e o quanto ele havia escutado, apesar de ainda guardar algum ódio no olhar, sua face se retorcendo em preocupação e espanto, fazendo as linhas faciais abaixo de seus olhos se destacarem e seus dentes se cerrarem com força, seus punhos fechando-se ao mesmo tempo em que ela própria se auto-depreciava e esbravejava palavras de baixo calão terrivelmente em seus pensamentos, justamente por ter feito algo tão estúpido.
Quando ambas iriam dizer algo, um verdadeiro tremor se apoderou de toda a estrutura do lugar, não somente ele, como toda a superfície da região, porém este, diferente do pesadelo de Ametista invadido acidentalmente por Steven era perfeitamente real, fazendo os presentes ali quase perderem o equilíbrio por segundos, Ametista apoiando-se em uma das vigas perto da cozinha, Steven caindo de costas no chão e Pérola sendo a única que conseguira ficar de pé, porém ainda com grande esforço, por um momento quase tomando para frente.
— MAS QUE DROGA TÁ ACONTECENDO?! – gritou Ametista para os outros enquanto o forte terremoto ainda abalava completamente o local, e embora não soubessem, toda a cidade também.
— EU NÃO SEI! – respondeu na mesma altura o garoto de cabelos negros com tom choroso, enquanto abraçava-se em posição fetal a uma almofada que havia caído no chão graças ao grande reboliço, assim como vários outros objetos da casa que simplesmente se não se partiam em pedaços ao ir em direção ao chão, sacodiam-se interminavelmente e ainda rompiam-se ao meio.
— ONDE ESTÁ GARNET?! ELA DEVE SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO! – retrucou Pérola também aos gritos para conseguir ser escutada, desistindo finalmente de tentar manter-se em pé e apoiando-se na parede mais próxima, a atrás de si depois de quase cair.
Permaneceram mais alguns segundos naquela mesma situação até os tremores de alto nível acabarem finalmente, de uma maneira assustadoramente repentina, surpreendendo ainda mais os presentes ali que haviam assumido posições quase defensivas enquanto mantinham os olhos fechados institivamente, mas logo após o encerramento de todo o intenso reboliço tendo ficado estáticos por instantes, unicamente para processar a situação que parecia ter acontecido rápido demais, em seguida ao se verem novamente na realidade que havia fora de seus pensamentos Pérola e Steven começaram a se levantar do chão lentamente e com certa dificuldade por ainda estarem um tanto desorientados, enquanto Ametista soltava-se da viga a qual agarrara-se e dava um salto em direção ao chão também um tanto desnorteada, colocando-se em sua posição anterior mais rapidamente, porém antes que efetuassem ações além destas ou trocassem uma única palavra, o transportador mais no fundo do cômodo fora rapidamente acionado, os ligeiros feixes de luz surgindo a partir da base, subindo em milésimos de segundo até o topo, revelando instantaneamente a imagem alta e quase intimidadora da Fusão avermelhada que se encontrava com os punhos fechados em pura cólera e ostentava uma expressão frustrada e que aparentava preocupação, uma preocupação alarmante, aparentando urgência em seu meio sorriso de provável descontentamento.
— Uma gem corrompida surgiu repentinamente perto da praia da região leste, precisamos ir pra lá antes que algum cidadão se fira gravemente! — ordenou em tom autoritário e praticamente inquestionável a imponente fusão – vamos gems! Movam-se! – bradou mais seriamente, não deixando brechas para recusas ou indagações.
E naquele momento os olhares arroxeados e azuis se encontraram mais uma vez quase por magnetismo, cruzando-se entre si ao acaso em duvidosa coincidência, fixando-se um no outro em um momento curiosamente aleatório durante rápidos segundos como se suas donas se esquecessem de tudo, as distintas auréolas preenchidas estando contornadas evidentemente pelas expressões ainda de ligeira surpresa e talvez até mesmo de desespero, provavelmente pelas duas gems sentirem como se estivesse acontecendo tudo de uma vez, como se a vida realmente não quisesse esperar por elas, ou ajudá-las a acompanhar seu ritmo ligeiro e quase inconsistente de tão repentino por vezes, deixando-as a deriva de situações que as oprimiam sem dó, ou não deixavam sequer tempo para que repensassem antes de fazer algo.
— O QUE VOCÊS ESTÃO ESPERANDO? A ILHA SER DESTRUÍDA PARA VOCÊS FAZEREM ALGUMA COISA?! – gritou para elas impaciente a líder atual do grupo.
Ao voltar à realidade graças aos brados de Garnet, que chegaram a amedrontá-la por instantes, a face púrpura e rechonchuda exprimiu feições de ódio e quase asco para Pérola, logo desviando o olhar, sendo seguida da outra que olhara também para qualquer outro canto após seu medo se esvair, porém diferente da outra acabara não exibindo sua raiva ou rancor gratuitamente, e sim expressara sua típica cara de arrependimento e aflição mistos enquanto apertava os olhos quase dolorosamente.
Correram com pressa uma seguida da outra, juntando-se ambas a Garnet logo no transportador, podendo observar Steven se aproximar e subir também no portal tecnológico de teletransporte ainda de pijama um tanto desajeitadamente ao mesmo tempo em que elas o fizeram, possivelmente o moreno estando ainda desorientado pelo combo de emoções que já o atingiram somente naquele curto de espaço de tempo que se decorrera desde que amanhecera ou mesmo pela maneira repentina como os acontecimentos estavam se desenrolando, não se sabia, mas não era por isso que sua expressão deixava de ser determinada, especialmente se tratando de uma missão, apesar da visível tristeza e inquietação esboçada em seu cenho infantil.
Sinceramente, temia o que podia acontecer.
Só podia pedir para que tudo desse certo enquanto o transportador era acionado.
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