The Change In The Game
24 Passado que pode condenar.
Notas iniciais
Assim que me recuperei, ao máximo que pude, sai da minha sala. Respirando fundo, andei no corredor em direção à sala de evidências, onde, provavelmente, haveria de encontrar todos, inclusive Gil.
CW: Bom dia.- Adentrei, com um sorriso no rosto. Gil me olhou por alguns segundos, então, logo virou o rosto.
TB: O que você faz aqui?- Questionou-me.
CW: Eu voltei para o caso.- Respondi. Brennan me encarou e logo voltou-se aos ossos. Ela não parecia decepcionada com a minha volta, mas também não pulará de alegria. Estava apenas “ meio termo”, para ela, tanto fazia.
TB: Creio então que aceitou o fato de que ossos serão devidamente tranportados ao Jeffersonian.- Falou baixo, vidrada nas suas evidências.
GG: Não, eles não serão.- Falou na minha frente. Tinha a encarado pela primeira vez desde que estavamos juntos nesse caso, deixando todos ali, inclusive eu, um pouco surpreso.- Os ossos foram encontrados aqui e o corpo ainda não está completo, possivelmente encontraremos mais por aqui, em Las Vegas. Seria ruim para a minha equipe manter um contato tão longe, entre o Departamento de Las Vegas e o Jeffersonian.- Falou firme, dando um ponto final de vez a situação.
Criamos uma pequena troca de olhares entre mim e ele, porém o mesmo desfiou o seu olhar do meu. Sentia que ainda estava chateado e ferido com tudo que eu disse minutos atrás à ele, sabia que não esqueceria tão cedo, alias, sabia que ele não esqueceria.
J: Senhor Grissom!- Entrou na sala, quebrando o incomodo silêncio que estava ali.- Acabamos de receber uma ligação sobre um corpo desmembrado encontrado.
GG: Onde?
J: Em clube de stripper.- Deu o endereço na mão de Gil. O mesmo o leu e logo se virou para mim.
SB: Seria melhor que eu e o Gil fossemos lá, já Catherine e Bones se ficasse aqui.
CW: Não mesmo. — Puxei o endereço da mão de Gil, passando a frente deles.
Booth olhou para Brennan assustado, com o meu interesse de ir ao clube de stripper.
TB: Algumas mulheres gostam de explorar o corpo de outras mulheres. Observar, tocar ou experimentar.- Falou naturalmente, fazendo-me ri.
SB: Ok Bones, eu já entendi.- A interrompeu.
TB: Por um momento esqueci que você é puritano, mesmo tendo filho fora do casamento. Crer em crenças como “ o homem foi feito para a mulher e a mulher foi feita para o homem”- Continuava a falar, em um tom indiferente. Tão normal, sem ser nem um pouco sarcástica.
SB: Isso não é uma crença, isso está na bíblia.
TB: Claro, um livro escrito por homens, tirado inúmeras cópias ao redor do mundo, no qual dizem que “Deus” existe.- Olhou para ele, que estava ficando um pouco fora de controle.
SB: Olha...
CW: Vamos, Booth.- O interrompi antes que a disputa por religião continuasse. O puxei pelo braço, saindo da sala junto à ele.
Íamos em direção à saída do departamento, lado à lado. Andávamos, ainda na mesma sintonia, em direção ao estacionamento. Entrei no seu carro, pelo banco do passageiro. Já Booth, entrou no do motorista. Colocamos o cinto e ele começou a dirigir, em direção ao endereço que estava no papel.
Chegamos minutos depois. Saímos juntos do carro. Enquanto Booth andava, eu parei por instantes, olhando a porta da frente. Estava cheia de lembranças que estava na minha cabeça. Estava dividida. Por um lado, sentia saudades daquele clima “alegre” se eu posso colocar desse jeito. Do outro, sentia alivio. Aliviada de ter conseguido sair de um lugar desses, onde várias mulheres morrem e são tratadas com lixo. Estudado e conseguido uma profissão decente e respeitada, onde eu tinha certeza que a minha filha tinha orgulho de mim.
SB: Quer me esperar aqui fora? – Perguntou, ainda aterrorizado por eu estar ali.
CW: E tirar toda a diversão de mim?- Sorri, passando a sua frente e entrando no clube.
Apesar de ser cedo, já havia algumas meninas no palco. Todas seminua. Tinha alguns homens, não muitos, com copos em suas mãos, olhando claramente enfeitiçados para as garotas, bem novas, que ali dançavam. Eles babavam só de vê-lás, a metros de distâncias deles. Alguns, com dinheiro a mais, andava para salas atrás do palco, para uma dança particular.
Olhava em volta daquilo tudo com um sorriso que não conseguia esconder. Via que nada tinha mudado deste então, nem mesmo a decoração.
Andamos em direção ao bar, que ficava há uma distância considerável do palco.
Encarei Booth, que recusava-se a olhar insinuado para as meninas no palco.
CW: Se você não tivesse um filho, eu diria que você é gay.- Ri. Ele virou-se para mim, sério.
SB: Você acha isso bonito?- Apontou para o palco.- Mulheres se oferecendo desse jeito e metade desses homens, que devem ser casados, aqui bebendo e babando por garotas que tem idade para ser suas filhas.
CW: Qual é, isso é Las Vegas. Ainda é o normal da cidade.- Respondi.- Além do mais, eu tenho certeza que nenhuma dessas garotas estão ali, dançando para esses tarados, porque querem.
SB: E como você tem certeza?- Virou-se para mim.
CW: Eu apenas sei.- Sorri.- Essas meninas não são de Las Vegas. Elas vêem aqui para se tornar uma modelo, uma atriz, até mesmo uma cantora. Nunca, se tornar uma stripper.- Booth me olhava, curioso. Eu não dei importância.
Xx: O que vocês irão beber?- Falou o barman, com o pano no ombro e dois copos na mão.
SB: Nada, estamos à serviço.- Virou-se para ele.- Eu sou o Agente Especial Seeley Booth e essa é a...
Xx: Catherine!- Escutei uma voz – que não era nem um pouco estranha — completando Booth. O homem estava logo atrás de nós. Virei-me, percebendo que o mesmo estava de braços abertos, sorridente a me ver.
CW: Joey!- Levantei da cadeira, indo ao seu encontro. O abracei, com um sorriso no rosto.
JM: Cada vez mais linda. — Segurou a minha mão, olhando-me da cabeça aos pés.- Meu pai teria orgulho em vê-la hoje em dia.- Sussurrou.
CW: Eu sei Joe. — Sorri, olhando nos olhos.
Booth começou a bater o copo na mesa devagar, até que ganhasse a nossa atenção.
JM: Quem é ele?- Falou baixo, ainda próximo a mim.
SB: Eu sou amigo da Catherine.- Respondeu antes que eu falasse algo, levantando do banco.- Seeley Booth.- Mostrou a sua carteira de identificação do FBI.
JM: Do departamento de Las Vegas ao FBI, parece que conseguiu a carreira que queria. — Virou-se novamente para mim.
CW: Não, não. — Ri, espantada com a sua suposição. — Eu ainda sou uma CSI. Mas, o caso que estou trabalhando recebeu uma grande importância, então, Booth e sua parceira tiveram que vir a Las Vegas, apenas isso. — Expliquei. Percebi que Joe me encarava de uma maneira diferente, semelhante como os homens me olhava quando eu estava naquele palco. Olhava para mim, como se ainda me desejasse, sem pudor algum.
SB: Devo chamá-lo de Joe, também?- O empurrou pelo ombro, ficando em meio de nós.
JM: Não, só a Cath pode fazer isso. Para você, é Joey ou Joey Mills.
SB: Então Joey, que tal você mostrar o porquê de nos chamar aqui?- O segurou pelo ombro, fazendo com que fosse à nossa frente, o mantendo um pouco afastado de mim.
Ele seguia em frente, às vezes olhando para trás, aliás, olhando para mim. Booth percebia o que estava acontecendo ali, e sempre colocava a mão em seu ombro, o obrigando a seguir até o local.
Enfim chegamos, era atrás do clube, um ligar vazio que eu não me recordo em ter visitado no meu tempo de dançarina. Ele abriu a porta, deixando que eu passasse a sua frente. Porém, Booth, segurou a minha mão, como se estivesse me escoltando. Joey, por sua vez, o olhava um pouco irritado.
Peguei a minha lanterna, que estava no meu bolso e, a segurei com os dentes, enquanto colocava as luvas em minhas mãos. Abaixei devagar, não querendo chamar muita atenção de Joey, pois já estava ficando assustada com o seu jeito de me olhar. Encarei o corpo, enojada
SB: O que temos ai?- Aproximou-se de mim, olhando para o corpo.
CW: Um corpo, não está totalmente em ossos, sua carne está se desfazendo aos poucos. – Manuseava a lanterna. – Cabeça decapitada, braços e pernas também... Isso está ficando cada vez mais macabro.
SB: Esse é o nosso corpo?
CW: Eu não sou legista, mas eu creio que seja. – Virei-me, tampando a minha boca. Dei de cara com Joe, que estava encostado na porta.
JM: É disso que você vive?- Perguntou.
CW: Desculpe, como?
JM: Uma mulher como você, tão linda, tão sedutora. Que poderia está aqui, dançando perfeitamente naquele palco e deixando todos os homens caídos à seus pés, a idolatrando, a querendo, a desejando como algo que jamais teriam.- Falou com um voz franzina, colocando a sua mão no meu rosto.
SB: Ei!- Aproximando-se de nós, o empurrando devagar.- Trate a Catherine com mais respeito, ela não é uma das suas garotas que você pode enganar.- Defendeu-me, olhando para Joey seriamente. Joe, ao contrário de qualquer homem em sua posição, riu, deixando Booth sem reação.
JM: Nunca tentei enganar a Catherine, não se pode fazer isso com a pessoa que era o maior lucro do meu pai.
SB: O que?- Virou-se para mim.- Do que ele está falando?
CW: Eu fui uma dessas meninas... Eu fui uma stripper.
JM: A melhor de todas.- Completou-me, orgulhoso. Booth virou-se para ele, sério. Via raiva em seu olhar. Joey se afastou, encostando-se na porta novamente.
Booth voltou a olhar para mim, com o mesmo olhar de seriedade que estava para Joey.
SB: Pegue logo isso, temos que voltar ao laboratório.- Falou com a voz grossa, encostando-se na parede e não me encarando mais.
Peguei a sacola e sozinha, cobri o corpo. Quando eu acabei, Booth ajudou-me a pegar, agindo estranhamente.
Saímos daquela sala, porém Joey ainda estava encostado na porta.
JM: Se um dia você cansar dessa sua vida, tão correta, tão presa... Você sabe que eu sempre estarei aqui. Sabe que esse clube é como uma monarquia.- Falou, com um estúpido sorriso no rosto. Booth estava diante da porta, só nos encarando.
Não respondi, apenas o olhei com menosprezo, seguindo em frente junto à Seeley. Saímos pela porta dos fundos, aproximando-se do carro em seguida. Colocamos o corpo na porta malas, e voltamos a parte da frente do carro.
CW: Quer dirigir?- Falei agradável, mostrando o molho de chaves à ele.
SB: Tanto faz.- Pegou das minhas mãos, entrando no carro em seguida. Olhei para ele um pouco decepcionada, afinal, já tinha destruído em apenas duas horas.
Entrei no carro, no banco do passageiro, colocando o cinto em seguida. Booth arrancou o carro, o mais rápido que pode. Ele dirigia em silêncio, absoluto silêncio. Não olhava para mim, parecia que estava com nojo.
CW: Não quer uma explicação?- Perguntei, o olhando.
SB: Por acaso, você me deve uma?- Respondeu com uma pergunta, olhando diretamente para frente.
CW: Eu estou começando a achar que sim.- Sussurrei.
SB: Você faz da sua vida o que quiser.- Falou, um tanto grosso.
CW: Não foi bem assim, eu não parei lá porque quis.- Respondi.- Eu era apenas uma garota, inconformada por nascer em um lugar em que dominava como um “fim de mundo”. Eu não era uma menina do campo, não nasci para ficar cuidado de fazenda ou algo do tipo. Eu era mais que isso, modéstia parte, eu era uma linda adolescente, que poderia ter qualquer menino que quisesse. E, eu aproveitei isso. Eu queria vim para Las Vegas, fazer dinheiro, era basicamente isso. Eu tinha 16 anos, Booth. Era eu e mais um namoradinho que me largou pela primeira que viu. E novamente, era apenas eu. Eu tinha que me virar, não importava como, eu tinha que sobreviver a essa cidade. Tentei fazer isso da melhor forma possível, como uma garçonete. Mas, você já enxergou quantas lanchonetes há por aqui? Isso não dá dinheiro. Eu precisava de mais, repetindo, eu era uma linda menina e me aproveitei disso. Eu conheci Matt, o pai do Joey, ele simplesmente babou na primeira vez que me viu. Não foi nada difícil conseguir um emprego naquele clube. – Sorri, enquanto relembrava os momentos – Eu me lembro bem o que Matt me falou “ Meu anjo, você tem que subir ali em cima e dar o seu melhor. Tem que fazer com que os homens virem a noite aqui, joguem até as suas carteiras só com os documentos naquele palco apenas para ver você dançar.” E, isso não foi nada difícil. Em pouco tempo, eu me tornei a menina que mais deu dinheiro para aquele clube.
SB: E depois? – Perguntou curioso, olhando pela primeira vez para mim.
CW: E depois, eu percebi que aquilo não era a vida que eu realmente queria para mim. Eu conheci o pai da Lindsey, apaixonei-me por ele, queria uma família como qualquer adolescente sonhadora quer. Logo depois, conheci Johnny, um detetive que ia para o clube e me “ contratava” sempre. E não para relaxar com uma dança particular, mas sim para que eu o ajudasse em casos que ele levava para lá. Isso tudo me fez pensar o que eu realmente deveria fazer, eu aprendi a amar a ciência. Então, me mantive lá só para conseguir pagar a minha faculdade.
SB: E você só... dançava?- Perguntou cuidadoso, olhando para mim novamente. Não escondia a curiosidade em saber sobre o meu passado.
CW: Sim.- Respondi, rindo.- Eu não cheguei a me prostituir, mas se o Johnny não aparecesse na minha vida... Eu não sei o que aconteceria. Eu devo muito à ele.
SB: Onde ele está agora?
CW: Preso.- O lindo sorriso do meu rosto, tinha desaparecido. Virei-me para frente, acompanhando a direção junto a Booth.- Eu o prendi.- Sussurrei. Booth não perguntou mais nada, porém eu disse assim mesmo.- Ele cobriu o assassinato de uma amiga minha, forjando provas, para que o homem errado fosse preso. Por culpa dele, eu nunca consegui achar o seu verdadeiro assassino.
SB: Deve ter sido difícil. – Falou no mesmo tom que o meu.
CW: Mais um detalhe na minha vida. – Sorri, olhando para ele novamente.
Pela primeira vez, desde que o primeiro dia que ele trabalhou comigo, enxerguei Booth de uma forma diferente. De um jeito ou de outro, não queria mais viver em constantes discussões, elaborar todo o meu dia de trabalho ao seu lado com comentários sarcásticos e irônicos. Pela primeira vez que posso me lembrar, o enxerguei como um homem com princípios, com argumentos, com inteligência, com educação, com carinho. Não sei se havia algo de errado comigo, mas me sentia bem conversando com ele, por mais que eu escondesse isso, por mais que eu negasse, me sentia confortável ao seu lado. Só sei que senti isso com um homem, e esse homem, foi Gil Grissom.
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