The Captain and The Petal.
20 Nineteenth Chapter. - Intoxicated.
Notas iniciais

Intoxicada.
Uma menina de cabelos castanhos na altura das costelas se escondia atrás de uma pilastra arredondada num palácio colossal todo trabalhado em ouro. Ela ria baixinho, escondendo-se de um jovem com cabelos negros, vestido de verde e dourado.
— Lyanna? — ele questionou para o nada. — Lyanna, onde você está?
Lynna observou a menina rir baixinho e se perguntou se ela sabia que ele sabia onde ela estava escondida. Era meio óbvio, mas aquilo não era algo para se contar a uma criança empolgada.
— Te achei! — ele literalmente se multiplicou, finalmente achando seu esconderijo. A menina pequena gritou. — O que pensa em fazer agora?
Ela deu-lhe um sorrisinho travesso.
— Poderíamos assustá-lo no treino? — assustar a quem?
O homem de cabelos negros encarou-a, seus olhos esverdeados cintilaram em divertimento.
— Tem certeza de quer mesmo fazer isso? Ele vai ficar bravo com você.
A pequena garota de cabelos castanhos sorriu.
— Ele nunca fica bravo comigo.
Então, a cena mudou, ela estava de pé numa enorme arena, onde um loiro colossal enfrentava seres feitos de pedra.
Aquele era Thor?
Antes que ela pudesse responder a essa pergunta, a menina sorriu travessa, jogando uma pedrinha na cabeça do homem, fazendo-o se desconcentrar ao olhá-la, ganhando um soco potente da criatura.
Quando ele bateu na parede ao lado da menina, uma risada estrondosa se deu no local.
Caralho, é Thor! O que Thor está fazendo em minha alucinação?
— Sua pequena travessa. — ele disse levantando-a nos braços. — O que eu lhe disse sobre distrações?
Instantaneamente, o cenário mudou.
A menina estava num quarto escuro, onde uma pedra vermelha flutuava sob um campo de força. O mesmo homem de sua alucinação ao tocar Mjolnir estava lá, ele encarava-a atentamente com seus olhos castanho-esverdeados, enquanto ela parecia hipnotizada pela pedra.
— Você sabe o que isso faz, querida? — ele questionou-a. A menina negou. — Quer descobrir?
Corajosamente, a garotinha tocou a pedra.
Ela cintilou e clareou todo o quarto. A energia vinda dela atingiu Lynna em cheio, que poderia gritar, se tivesse voz. Ela viu o instante em que os cachos castanhos da pequena garota se tornaram vermelho-vibrante, para depois caírem para um tom afogueado misturado com laranja.
Lynna arregalou os olhos quando a menina olhou diretamente para ela, enviando-a em seus joelhos. Sua memória lhe mandou de volta para o porta-retratos que sua avó tinha de quando ela era criança, uma menina ruiva de vestido branco, a menina que estendia a mão para ela.
Quando seu rosto foi tocado pela pequena, tudo se apagou.
Era escuro lá fora, tudo o que Lynna podia ouvir era a canção de ninar suave que sua avó sempre costumava cantar para ela nas noites de tempestade. Ela tinha aproximadamente oito ou nove anos agora.
— Vovó, eu estou com medo! — ela murmurou, escondendo-se nas cobertas.
Dona Amber-Rose sorriu, seus doces olhos castanhos brilharam, suas feições se adocicaram ainda mais.
— Não tenha medo, meu anjo. O deus do trovão não vai te assustar. Você conhece ele, não conhece?
A menina sorriu.
— Thor não vai me assustar. Ele não seria louco!
Então, a porta da frente estrondou, pessoas entraram gritando coisas em seu idioma, mas ela não reconhecia o que eles estavam dizendo. Sua avó estava assustada.
— Droga! — ela ouviu a avó resmungar. — Eu pensei que tinha me livrado deles.
Homens vestidos de preto arrastaram-na para longe de si, enquanto Lynna se esgoelava para que eles não a levassem embora.
Não, por favor, pare! Acorde Lynna! ACORDE!
Mas ela não acordou.
A casa de fazenda da sua avó, o lugar onde ela teve a infância mais feliz, fora queimada, enquanto Lynna era arrastada pelos homens brutos, ouvindo o barulho de um tiro que determinaria o rumo de sua vida para sempre.
*
Agora ela tinha treze anos. Andava pelo corredor cinza-chumbo, quando ouviu um lamento fraco vindo de um dos boxes. Era a voz de uma das pequenas, ela tinha certeza.
Uma das garotas falara algo num idioma que ela ainda não entendia, mas as que falavam russo queriam se aproveitar de alguém.
Então, Lynna espreitou pela brecha deixada pelo trio.
Havia uma menininha encolhida num canto. Ela possuía os cabelos vermelhos e olhos tão verdes quanto às copas das árvores da casa de sua avó. Os olhinhos dela estavam lacrimejando e ela se encolhia de medo das outras, que eram gritantemente mais velhas.
— O que foi, fracote? Vai continuar roubando o que é meu por direito, sua ladrazinha de merda? — uma delas falou, apertando o pescocinho da menor, que gritou.
Ela não sabia o que a menina havia roubado, mas não iria ficar para descobrir. Ela tinha que fazer alguma coisa logo. A porta deu um solavanco contra a parede, assustando as outras meninas.
— O que você está fazendo com esse bebê? — Lynna questionou altivamente.
Todas as três eram mais velhas, mas ela era mais forte que elas. Já havia lutado com pessoas duas vezes maiores e derrotado-as com suas próprias mãos. Ela não tinha medo do olhar sujo que elas lhe davam.
— Ora, ora, se não é a putinha preferida de Zola. — uma delas zombou. — O que veio fazer aqui, Pétala?
Lynna travou o maxilar. Odiava o nome Pétala.
— Solte a menina. — exigiu.
A mais alta sorriu lascivamente.
— Me obrigue. Ela me deve e ela vai me pagar. Vai amolecer, Angianova?
Céus! Será que ela não percebia que era apenas uma criança? E que crianças faziam coisas que não sabiam, porque eram inocentes? O quão longe ia a crueldade dessas pessoas? Humanos são tão miseráveis!
Antes que uma delas avançasse para cima da pequena ruiva, Lynna chutou-a na cara, jogando-a contra a parede. Ela sabia que elas não iriam parar e só havia um único jeito de livrar a cara da pequena andorinha.
O pescoço da primeira ficou numa posição esquisita e ela caiu numa poça de sangue. As outras duas não tardaram a ter o mesmo fim.
Quando tudo havia acabado, Lynna passou por cima dos corpos para chegar até a menina, ajoelhando-se diante dela, que tremia dos pés à cabeça. A ruiva mais velha colocou uma mechinha do cabelo avermelhado dela para trás, fazendo-a tremelicar um pouco mais.
— Você veio me matar também? — ela perguntou numa vozinha frágil, fazendo-a sorrir.
— Não, pequena andorinha. — respondeu-lhe. — Eu salvei a sua vida. De hoje em diante, caminharemos juntas. — ela lhe encarou boquiaberta. — Qual o seu nome?
— Natalia. — ela respondeu timidamente.
Lynna sorriu.
— O meu é Lyanna.
As pessoas que comandavam a base se aproximaram da sala, encontrando-a ao redor dos três corpos, com Natalia no colo, caminhando para fora do local sem ao menos se importar com o burburinho. Eles que falassem.
Ela não estava se importando com as consequências. Eles não podiam atingi-la. Não podiam fodê-la mais do que ela já estava fodida.
*
— Em quantos minutos ela estará pronta? — ouviu a voz do homem. Não o reconheceu.
— Trinta minutos, senhor. — ouviu a voz de sua médica.
— Por favor... por favor... não... NÃO! — ela bradava, batendo com força no vidro da sala. — ALGUÉM ME TIRA DAQUI!
— Em suas marcas. — ouviu a voz da mulher que cuidava de seu tratamento. — 5, 4, 3, 2...
Um choque terrível a fez berrar de dor.
Lynna curvou-se, não aguentando.
Tudo piscava e fedia, e ela se sentia tão mal que poderia vomitar a qualquer momento, então, fora jogada dentro de um tanque com um líquido viscoso.
Aquilo a sufocou. Era tão pegajoso quanto graxa, numa coloração rósea, de aparência doentia. Enquanto ela estava lá dentro, o líquido borbulhava, o calor do tanque a envolvia de maneira agonizante.
*
— Levanta. — alguém disse.
Oh não, ele não! De novo não!
Ela ficou de pé com dificuldade, para depois ser jogada no chão.
Isso aconteceu mais de uma vez, até que ele a levantou com o braço de metal. Ela não tinha tanta forca para revidar seus ataques, não após ter sido jogada na porra de um tanque.
Encarou o homem com olhos azuis, eles demonstravam fúria e destruição.
— Seja bem-vinda Pétala Amaldiçoada. — ela não sabia por que eles continuamente a chamavam assim, mas também quem era ela? Qual era mesmo o seu nome? — Sou seu mentor.
Ela se lembrava dele, ele era o Soldado Invernal o homem que a fizera ir parar na Sala Vermelha junto com as Viúvas Negras para que ela pudesse ser domesticada. Ele estava de volta à sua vida e isso iria doer.
*
— Tente outra vez. — a voz do Soldado a infernizava, mas ela fora veementemente instruída a não usar seus poderes contra ele. Bloqueada por um código, ou sei lá.
— Quando poderei sair? — perguntou a ele, enquanto chutava um dos bonecos de treino. Isso era ridículo! Ela já havia passado por treinamento suficiente, para quê ela precisava de mais?
— Não poderá.
Assim que o agente terminou de falar, três homens passaram com uma garota esperneando em seus braços.
Ela possuía traços fortes. Seus cabelos eram muito longos e muito loiros, que se arrastavam em seu quadril. Ela gritava muito alto numa língua que ela não reconhecera. Ainda não havia aprendido.
— Quem é ela? — perguntou para o Soldado.
— Outra Pétala.
*
— Continue. — ouviu o tom de voz irritante de seu mentor. Ela já tinha o corpo no limite por bater em sacos continuamente durante três horas seguidas. — Ainda não está perfeito.
— E quando vai estar? — ela rangeu os dentes para o agente da Hydra, odiara-o desde o dia em que colocou os olhos nele, mas havia algo no fundo daquele olhar duro e maxilar trincado, que a fazia se perguntar quem era ele, realmente?
— Eu saberei. — ele disse, como sempre.
Irritada, a Pétala girou o corpo para acertar a lateral do homem, que agarrou sua perna com o maldito braço de metal, dando-lhe um sorrisinho milimétrico e arrogante. Ela forçou a perna para trás, tentando sair do aperto, mas ele a impediu de se mexer com um micro movimento.
Grunhindo de raiva, ela começou a socar o corpo dele, ao invés do saco.
— Não comece outra vez. — ele pediu, em tom de alerta.
— Então me mate. — ela gritou, explodindo em choro. — Me mate! — finalmente conseguiu se soltar. — Eu não aguento mais. — caiu de joelhos no chão. — Eles me torturam, me fazem bater em sacos. Mandaram-me para um lugar que eu desconhecia. Fizeram-me machucar a única pessoa que eu já tive a certeza de amar. Chamam-me de Pétala, mas meu nome não é esse. Eu não quero mais isso. — agarrou a mão de metal do Soldado, que estava imóvel, então a aproximou de seu pescoço. — É só apertar, vai doer menos do que o tanque.
Havia algo nos olhos azuis do maldito Soldado Invernal que fez o coração da Pétala se aquecer.
Ao invés de enforcá-la, ele acariciou seu rosto.
— Vá para o seu quarto, boneca. — foi tudo o que disse.
Lentamente, Pétala se levantou, arrastando-se em seus músculos.
Surpreendentemente, sentiu o chão faltar, então sentiu o frio do metal em seus braços desnudos. Ele a carregou para fora da sala em silêncio, ignorando os olhares atentos dos médicos e sentinelas que guardavam a base.
A garota ruiva foi colocada em sua cama, então o homem a encarou. Seu olhar já não era mais duro. Ele a encarava com compaixão, como se soubesse pelo que ela estava passando.
— Me mate. — ela pediu outra vez.
— Eu não vou matar você, Pétala. — ele resmungou. — Mas vou protegê-la, eu prometo.
*
Gritos fortes e altos foram ouvidos do laboratório.
Uma coleira fora colocada nela, enquanto ela tentava chegar até a cadeira. A culpa era inteiramente dela.
As enfermeiras voltaram. Elas iriam colocá-la dentro do tanque outra vez, então Pétala gritou pelo Soldado. Ele estava dormindo na cela, então correu, o braço de metal reluziu e a mulher que a segurava foi ao chão. Ele a matou.
Vários agentes se aproximaram, fazendo-o nocauteá-los.
Se Pétala não tivesse sido tão fraca, eles não estariam torturando-o na cadeira.
Durou dez minutos. O Soldado mais uma vez estava olhando para o nada, com a sua expressão estoica.
— Tragam-na. — um dos chefes da base disse alto.
Um agente lhe levantou do chão, jogando a corrente para o lado. Pétala foi levada até a altura dos olhos do Soldado, que não olhava para nada em específico, se recuperando da tortura.
— Soldado, leve-a para o tanque. — o coronel disse.
Arregalando os olhos, Pétala tentou correr.
— Não! — gritou quando sentiu o braço de metal circular o seu próprio, arrastando-a. — Não, por favor, não! — a garota ruiva se debateu. — NÃO!
O mais alto a jogou nas costas, fazendo com que ela batesse em todos os lugares que conseguia atingir, mesmo que isso fosse impossível, ele era um trator.
O pânico aumentou em seu peito quando ela sentiu o cheiro enjoativo de flor de cerejeira. A fórmula dentro do tanque era viscosa e borbulhante, na cor mais doentia de rosa.
O Soldado colocou-a no chão, sem expressão alguma.
— Soldado, por favor. — pediu murmurante.
Ele empurrou-a suavemente, fazendo-a deslizar para fora da superfície de ferro. Antes que pudesse cair dentro do tanque, ela agarrou teimosamente uma barra solta.
— Me ajude, Soldado! — gritou, estendendo a mão. — Por favor, eu não aguento mais. Me ajude!
Aquele gesto pareceu despertar algo no seu mentor. Ele tinha os olhos claros muito arregalados, a respiração estava descompassada, seu peito suado subia e descia violentamente.
— Steve?
Aquele nome a fez franzir a testa.
O que é esse Steve? É de comer?
Antes que pudesse dizer algo, a barra descolou, arrancando um grito alto de sua garganta.
Ela nunca chegou a sentir o líquido viscoso, sentindo a mão áspera e quente de carne do Soldado segurá-la, içando-a para cima, de volta para onde ele estava na plataforma de ferro.
— Você vai se matar, seu punk. — ele murmurou para ela em inglês, encostando ternamente a cabeça dela em seu peito.
*
Os gritos da menina a assombravam de noite. Ela era décima? Ou seria a vigésima? Ela já havia perdido a conta.
Decidida a escapar daquele tormento, pelo menos por hora, ela resolveu se juntar ao Soldado na sala de treino. Sentou-se ao seu lado, encontrando-o imóvel, encarando o nada.
— Ela não para de gritar, não é? — ele perguntou para ela, em inglês.
Ela se surpreendeu com a abordagem dele, acostumada a “conversar” com ele apenas em russo. Tirando aquela vez no tanque...
— Não. — respondeu com o sotaque carregado. — Ela vai sobreviver?
O Soldado olhou para o chão.
— Espero que sim... — murmurou. — Ou senão, espero que ela tenha uma morte rápida. Que eles não consigam entrar na mente dela...
Lynna refletiu.
— É verdade.
Eles ainda não haviam entrado em sua mente, mas com certeza haviam feito coisas terríveis com ele.
— Quem é você... de verdade? — perguntou, encarando a melancolia nos olhos do mentor. Não era primeira vez.
— Meu nome é Bucky. — ele disse, como se aquilo fosse um mantra.
— O meu é Lyanna. — ela fez uma careta. Odiava aquele nome, ele não parecia pertencer a ela. Não mais. — Lynna. Eu gosto mais de Lynna.
Ele deu um sorriso torto.
— Lya. Seu nome combina mais com Lya. — ele murmurou, fazendo-a intensificar a careta. — Você me faz lembrar de alguém que eu conheço.
— Alguém? — sua voz soou como um eco metálico. — Quem?
— Meu amigo Steve. — ele disse ah, então ele não era de comer. Sua voz soou distante. — Pequeno e teimoso igual a você.
*
“Mostre a eles, mostre a eles quem você é”.
Ela nunca havia se sentido tão poderosa quanto agora, tudo nela vibrava, seus cabelos chicoteavam no ar, enquanto a luz vermelho-sangue saia de dentro de si, seus braços se envolveram em vinhas, e delas brotaram flores de cerejeira rosadas, as mais lindas que ela já havia visto.
Seu coração palpitava no peito, enquanto ela lentamente pousava no chão, todos a encaravam como se ela fosse o fantasma do natal passado.
“Essa é você, você finalmente se aceitou do jeito que é”, disse uma voz feminina em sua mente, completamente diferente da Pétala.
— Mama? — ela questionou.
O cenário mudou, agora ela estava diante de cortinas suaves, a brisa leve de verão era tão aconchegante que a fez chegar mais perto do peitoril para senti-la. Seu sorriso aumentou ao escutar um barulhinho de risada de neném.
Lynna aproximou-se de um berço branco, onde uma criança de cabelos e olhos castanhos jogava as pernas para o ar, tentando veementemente comer seu pé.
— Oi linda. — ela murmurou para a pequena, fazendo cócegas suaves em suas perninhas. — Não faça isso, princesa, você vai se machucar!
A criança riu, agarrando uma mecha de seu cabelo e puxando-a até a boca. Um sorriso carinhoso escapuliu de seus lábios, então, a expressão da menina mudou, e ela não viu mais nada.
Tudo ficou escuro.
Então, um barulho a fez acordar.
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