The Call
2 Que triste os caminhos, se não fora, a presença distante das estrelas.
Notas iniciais

Meu dia tinha sido uma droga.
Acordei às sete da manhã, comi uma maçã, tomei um energético e corri para meu emprego de meio turno em um café distante do meu apartamento — nada glamoroso — que dividia com uma louca/patricinha/filha da puta e uma aspirante a cantora que fazia bico em alguns locais nada recomendáveis. Essa última tinha se tornado minha melhor amiga, depois de duas horas conversando quando nos encontramos no apartamento que queríamos dividir. Já a patricinha nos odiava, no que era prontamente correspondida por mim, mas nem tanto pela minha amiga.
Cheguei atrasada no trabalho e levei o maior sermão.
Meu chefe era um carinha tirado a galã que se achava a última bolacha do pacote — como diria minha tia — e me convidava de duas a três vezes por semana para encontros que eu nunca aceitava.
Tenho namorado. Dizia sempre.
Mas era mentira. Ele sabia. Não tinha um namorado sério desde que me mudei há dois anos para Atlanta, oriunda de uma cidadezinha perdida no mapa, sozinha e despreparada para os desafios que iria enfrentar na cidade grande.
Frustrado com todas as minhas recusas para um encontro, meu chefe não estava com saco para ser camarada com meus problemas com pontualidade.
A noite anterior tinha sido uma das piores que passei em Atlanta. Uma tempestade devastou a cidade, muito como aquelas dos filmes de terror. E eu odiava relâmpagos e trovões. O barulho me assustava desde criança e mal consegui pregar o olho, até que a chuva diminuiu e não ouvi mais nenhum som assustador. Dormindo, só então, e perdendo a hora para o trabalho.
Meu emprego era uma versão um tanto elitizada de uma garçonete. No que tinha que lidar com todo o tipo de pessoas. Algumas eram clientes regulares, gente boa, cujos gostos eu já conhecia. Entretanto, em sua maioria, os clientes tendiam a ser pessoas mal humoradas, apressadas, que nos tratavam com a falta de educação que parecia ser o modo operante das grandes cidades.
Como uma garota vinda do interior, onde todos se conheciam e se tratavam como uma grande família, levei um bom tempo para me adaptar a essa nova realidade de minha existência.
Praticamente minha vida se resumia a trabalhar no café até as treze, depois seguir para a Universidade de Belas Artes, onde tentava aprender o que podia sobre um ramo que muitos abandonavam, porque, ou não tinham talento, ou não eram reconhecidos, e depois ir para casa.
Como adorava representar, não me importava — ainda — se isso me daria um futuro ou se tornaria uma perda de tempo.
Algumas pessoas me falavam que eu tinha talento, mas só o tempo diria se eu teria sucesso.
— Convidei alguns amigos para uma noitada lá em casa — Maggie, minha amiga/roommater, me disse parando ao meu lado e entregando o pedido de um engravatado.
— Droga, Maggie.
— O que foi? Falei a você que iria convidar algumas pessoas para algo essa sexta.
— Não, você não me falou nada — retruquei preparando um cappuccino e entregando para uma adolescente toda em rosa.
— Certo... — Ela pareceu pensar um pouco, depois deu de ombros. — Não importa. Serão alguns amigos apenas. Um pouco de cerveja, pizza, petiscos, aquele seu molho de cebola maravilhoso, minha música.
— Quem você quer impressionar dessa vez?
— Tem um carinha que se mudou há uma semana — ela ajeitava os pedidos com precisão, sem parar de falar comigo. — Ele é um gato.
— Não me lembro de ninguém novo no prédio.
— Você praticamente não tem vida, como saberia das novidades se eu não lhe contasse?
— Não me lembro de você ter me contado sobre um carinha novo no prédio — reformulei minha resposta.
— Isso porque ele é muito gato e não quero concorrência.
Maggie era linda, não tinha como concorrer com ela, mas não lhe disse nada, porque me atrapalhei com um pedido e tive que refazer tudo novamente.
Só voltamos a falar sobre o novo vizinho quando paramos para um lanche.
— Como ele é?
— Bonito, de um jeito muito nerd e jovial. — Um sorriso descarado tomou sua face. — Tem olhos rasgados maravilhosos.
— Japonês? Chinês?
— Coreano.
— São os mais bonitos — falei dando uma mordida no meu sanduíche.
— Deixa de história.
— É estatisticamente comprovado.
— Você e suas listas científicas e estatísticas.
Fazer o quê, gosto desse tipo de coisa. Talvez se não adorasse representar tivesse me tornado algum tipo de cientista.
— Não estou em clima para festas — falei voltando ao assunto da noitada que ela estava aprontando para fisgar o desavisado coreano.
— Vai ser coisa pequena. — Maggie me encarava com seu melhor olhar de garota pidona. — Convidei apenas nossos vizinhos.
— Dona Izabel?
— Apenas os abaixo dos trinta.
— E a Rosita?
— Ela avisou que ia viajar nesse fim de semana.
— Já estão se falando?
— Ela deixou um recado na porta de seu quarto.
— Bem a cara dela.
A Rosita era uma criatura estranha com a qual tínhamos o mínimo de contato.
— E aí? Vai participar? — ela me perguntou com olhar de cachorro pidão.
— Posso ficar um tempo, mas quando me refugiar em meu quarto, favor não me importunar.
— Combinado.
Falamos um pouco mais sobre o tal Glenn, depois voltamos ao batente.
Saí as treze e corri para a faculdade. Maggie foi para casa, precisava providenciar a cerveja e os petiscos. A banda dela estaria lá, já que ela queria mesmo impressionar o tal Glenn.
Como disse, meu dia não foi dos melhores.
Nas aulas, tudo foi pior. Nosso professor estava nos calos e tudo para ele estava ruim. Pediu que repetíssemos diversas vezes um exercício, um tanto complicado, dizendo que ninguém acertava o tom. Se nossa turma não fosse perseverante, muitos teriam largado o curso e tentado algo mais palpável. Mas eu podia aturar o mau humor de qualquer professor metido a estrela, porque aquilo tinha se tornado minha vida e o que desejava para meu futuro.
Cheguei ao apartamento quando anoitecia, dando graças, porque o céu estava limpo e não parecia que teríamos uma nova tempestade.
— Pensei que você nunca ia chegar. — Maggie se aproximou e me puxou em direção a cozinha. — Faça a sua mágica. — Falou colocando sobre o balcão os ingredientes para o meu molho especial.
— Posso tomar um banho antes?
— Não.
Respirei fundo e preparei a receita do molho preferido de minha tia. Coloquei as duas tigelas na geladeira e corri para o banheiro.
— Posso usar aquele seu vestido dourado? — Maggie perguntou do lado de fora da porta cinco minutos depois.
— Claro — respondi deixando a água escorrer pelas minhas costas, quente e calmante.
Teria adorado sair dali direto para a cama, mas tinha prometido a Maggie participar da festa e resolvi curtir daquilo por pelo menos uma hora.
Diferente de Maggie, escolhi algo mais casual: jeans e pulôver. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo, me maquiei levemente e corri para a sala quando as primeiras pessoas começaram a chegar.
Não foi uma festa pequena como Maggie tinha me vendido.
Logo o apartamento estava lotado. Pessoas que nunca tinha visto na vida, muito menos em nosso prédio, pipocavam em todo o lugar. A música não estava alta a ponto de incomodar os vizinhos acima dos trinta que não tinham sido convidados. Mas dentro do apartamento parecia o inferno.
— Precisamos pedir mais pizza — Maggie falou se aproximando e me abraçando, uma taça de vinho em uma mão, a outra agarrando um rapaz jovem e muito bonito realmente.
— Olá. Sou Glenn — ele disse estendendo a mão, que eu protamente apertei.
— Lane. Muito prazer — respondi.
Maggie me olhou como se me dissesse: "Eu não disse que ele era um gato?"
E era.
— Deixei o celular no meu quarto. Vou ligar de lá.
— A mesma quantidade de antes — Maggie soltou, e acenei que sim, abrigando-me no quarto.
Respirei fundo e me joguei na cama, agarrando o celular e ligando para a pizzaria que costumávamos usar, mas só dava ocupado. Cacei o aplicativo e tentei outra, mas acabei ligando para a casa de um estranho, com quem comecei uma conversa sem sentindo, apenas porque gostei do som de sua voz. E, também, porque algo me dizia, lá no fundo da minha cabeça, que não desligasse.
— Lane — apresentei me.
— Prazer, Lane — ele disse.
— É bom te conhecer também, Rick.
Senti um arrepio tomar todo o meu corpo, como se fosse o destino que estivesse nos unindo, ali, bem naquele instante.
— A chuva piorou agora — Rick informou.
— Posso ouvir os trovões. Espero que essa tempestade não venha para esse lado da cidade. Ontem não dormi por causa do barulho assustador.
Ele riu de leve.
— Estava tão dopado ontem que apaguei e perdi a hora essa manhã.
— Esteve farreando? Bebeu demais?
— Não. — Ele riu um pouco mais, e gostei do som rouco e baixo. — Quebrei o pé e acho que o remédio que estou tomando me deixou sonolento.
— Verdade? — Interessante como podemos nos preocupar com um completo estranho. — E como está? Digo, seu pé? Dói muito? Quebrei minha perna uma vez e sofri por dias.
— Foi há três dias e nem precisei engessar completamente. Nem está doendo mais.
— E como aconteceu?
Ele pareceu se ajeitar, não saberia dizer se em uma cama, ou sofá, mas escutei o leve farfalhar de seu corpo contra o que parecia um lençol.
Acho que ele estava no quarto, como eu.
— Foi culpa do meu irmão.
— O que estava conversando com você há pouco?
Deveria ser, a voz que escutei era de um garoto.
— Sim. O Jeff. Meu único irmão. Ele tem treze e costuma deixar suas coisas espalhadas pela casa.
— Me deixa adivinhar... — Pedi. — Skate ou patins?
— Skate.
— E só quebrou o pé? Poderia ter sido pior.
— Por sorte, sei cair — ele falou e riu de leve. — Joguei dois anos no time de futebol da escola e vivia sendo o saco de pancadas nos treinos.
Foi minha vez de rir.
— Eu também nunca fui muito atlética.
— Deve estar fazendo uma imagem mental horrível de mim agora — ele falou parecendo envergonhado.
— Sua auto-depreciação está aflorando novamente.
— São anos de prática.
Ri junto com ele, mas não voltamos ao assunto das aparências. Eu não tinha uma ideia de como Rick seria, nem queria me enveredar por esse caminho. Ainda éramos apenas duas pessoas sem rosto, sem passado, sem contexto, a conversar sobre nada e isso era algo bom. Eu meio que sentia falta de pessoas legais, e Rick parecia ser um cara gente boa.
— Sabe o que isso me lembrou?
— O quê?
— Há duas semanas, quando estava no metro, vi esse rapaz... ele estava sentando e tinha um dos braços engessado.
— Não era eu.
— Acho mesmo que não.
— E o que foi interessante?
— O vagão estava lotado, e uma senhora, em pé ao meu lado, ela tinha acabado de entrar, velhinha mesmo, e a única pessoa que lhe ofereceu o lugar foi esse rapaz, mesmo estando machucado. — Me ajeitei contra o travesseiro e olhei pela janela. — Isso me fez perceber o quanto as pessoas deixaram de importar com as outras hoje em dia. O quanto perderam de educação e bondade.
— Eu só percebi isso quando nos mudamos para Atlanta. — Rick falou após alguns segundos. — Morávamos em uma cidadezinha de um Condado onde a maioria se conhece desde a infância. Acho que todos são aparentados de alguma forma. E muito de bondade ainda existi. Aqui na cidade grande isso se perdeu.
— Sei como é. Venho de um lugar assim também. — Contei. — Me mudei para Atlanta há dois anos e ainda me sinto deslocada com a forma como as pessoas são individualistas, um tanto egoístas, vivendo em uma bolha sem se importar com os outros.
— Nos mudamos há apenas um ano. — Rick esclareceu. — Meus pais resolveram me acompanhar quando entrei na faculdade. Agora estão viajando. Meu pai está de férias e eles estão em uma segunda lua de mel.
— Deve ser legal ter seus pais por perto. Mas por outro lado um pouco frustrante também.
— Bem... Eles não estão por perto. Eu moro com eles. — Ele soltou um tanto envergonhado.
— Deve ser mais frustrante ainda. — Ele riu e eu o acompanhei.
— Verdade. Mas eles me dão muita liberdade.
— Mesmo assim. Deve ser difícil quando o assunto são garotas.
— A Lori não se importa.
Fiz silêncio e ele também.
— É a minha namorada. — Ele falou um pouco mais envergonhado.
— Calma, Rick. Só estamos conversando. Do jeito que você ficou calado, parece que começou a pensar que estamos fazendo algo errado.
— Não. Não. Sei que não estamos. Tenho amigas garotas também. Não é nada demais.
— E nem somos amigos ainda.
— Mas seremos. — Ele disse e tinha que concordar.
Era fácil conversar com ele, um estranho, mas já não tanto.
— E você? Mora com seus pais?
— Não. Meus pais faleceram quando eu tinha oito anos.
— Sinto muito.
— Faz muito tempo. — Falei sem qualquer tipo de tristeza. — Fui criada por minha tia e morei com ela até meus dezenove anos, foi quando resolvi me mudar e vir para Atlanta.
— Opa! Espera aí... — Ele disse e parecia surpreso. — Se você se mudou com dezenove, isso há dois anos, você tem vinte e um.
— Sim... O que isso tem de importante?
— Eu tenho dezoito. — Ele disse e riu.
— Agora entendi por que ainda mora com seus pais.
— Ok, ok... Não caçoa de mim. Mas achei que você fosse mais nova. Algo em sua voz.
— E eu achei que fosse mais velho.
— Isso é que dá conversar com estranhos pelo telefone.
— Vai dizer que nunca fez uma amizade do nada? — Perguntei e ele gargalhou. — Que foi?
— Não costumo fazer amizades do nada, mas o Shane é campeão em se tratando disso.
— Shane?
— Meu melhor amigo.
— Nome estranho para um rapaz. Achei que Shane fosse nome de garota.
— Serve para ambos os sexos, eu acho. E o Shane é o cara menos feminino que já existiu.
— Do tipo garanhão?
— Até o último fio de cabelo.
Havia muito de amor na forma como ele mencionou o amigo.
— Do jeito que fala, esse Shane parece ser um cara legal.
— E é. — Rick concordou. — Nos conhecemos desde sempre.
Não podia fazer uma imagem mental de Rick, não sabia como ele era, mas podia imaginá-lo como um rapaz doce e um tanto tímido, sempre a sombra de um amigo extrovertido.
— Nunca tive uma melhor amiga na infância, nem no colegial. Mas quando me mudei conheci a Maggie, uma das garotas que dividem o apartamento comigo, e ela é a melhor amiga que nunca tive.
— É bom que tenha alguém com quem contar aqui em Atlanta.
— Verdade...
Ficamos em silêncio durante longos segundos, olhei para o visor do celular e percebi que já era tarde. Lá fora, a música tinha diminuído, o que queria dizer que a festa estava terminando.
— O que foi? — Ele me perguntou.
— Acho que é hora de me despedir. — Falei.
— É... está tarde. Acho que você trabalha amanhã.
— Aos sábados trabalho o dia todo.
Ele ficou quieto e ouvi que limpava a garganta.
— Lane... Poderia me dar seu número? — Ele perguntou. — Não pense besteira, ok? Apenas para não perdermos contato.
— Eu tenho seu número.
— Mas eu não tenho o seu.
— Tem celular?
— Não. São caros. — Ele respondeu.
Um cara sem celular? Por que eram caros? Acho que a vida do Rick devia ser mais difícil do que ele deixava transparecer.
— Ok. Pode anotar meu número?
— Espere um pouco. — Rick disse e pareceu remexer alguma coisa. — Pode falar.
Passei meu número e ele o recitou para confirmar.
— Pela manhã estou no trabalho e a tarde na faculdade, mas podemos nos falar uma noite dessas.
— Podemos sim.
Ficamos em silêncio novamente. Custava me despedir dele.
— Boa noite Rick. Foi bom conversar com você.
— Foi bom te conhecer também, Lane.
— Então... até.
— Até.
Desliguei, por que parecia que ele nunca o faria.
Fiquei olhando para o aparelho e salvei o número de Rick nos meus contatos. Ajeitei-me na cama e resolvi que não me preocuparia com a bagunça da festa até o dia seguinte.
Estava me sentindo leve e feliz, por causa de uma conversa com um desconhecido.
Como a vida podia ser tão estranha?
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