The Call
3 Amor é semeado de graça, é semeado no vento.
Notas iniciais

Como era sábado, e meus pais chegariam na segunda, resolvi cuidar de alguns afazeres domésticos — não queria que meus pais chegassem e a casa estivesse um inferno — o que significou colocar o Jeff para passar o aspirador na casa, e também lavar a louça que se acumulou na pia da cozinha.
Afinal, com meu pé quebrado não podia fazer muito mais que supervisionar as tarefas que meu irmão executava.
— Isso é trabalho escravo. — Ele falou quando passamos da sala para a cozinha. — Abuso de menores.
— Certo, você tem razão. Agora termine os pratos antes que eu lhe dê uma surra de chicote.
— Vou contar tudo para mamãe quando ela voltar.
Essa era sua ameaça preferida, mas ele nunca contava nada a mamãe.
— E se você continuar a reclamar, eu vou te dar ainda mais histórias para contar.
Jeff mostrou a língua, mas eu já estava satisfeito com o castigo dele, por isso não liguei. Eu tinha colocado o Jeff para executar todas as tarefas domésticas desde meu acidente. Acho que só assim para ele aprender a não fazer tanta bagunça.
Quando ele terminou, cacei no freezer algo do que a mamãe tinha deixado preparado para que não comêssemos tanta besteira — pelo menos, não no almoço — coloquei no microondas e arrumei na mesa da cozinha.
Ouvi o sinal do interfone e sabia que só podia ser o Shane. Ele sempre aparecia em nossa casa nos horários das refeições, principalmente nos fins de semana. Acontecia em Cinthyanna desde que éramos crianças, e não mudou nada desde que chegamos em Atlanta.
Escutei meu irmão falando com ele por alguns segundos e logo Shane aparecia na cozinha. Estava vestindo a jaqueta do time da universidade, com o cabelo ainda levemente molhado, um ar satisfeito, ainda que cansado.
— Como foi o treino?
— Ótimo. Mostrei serviço e o treinador disse que vou começar jogando amanhã. — Ele respondeu animado.
— Cara, isso é demais. — Falei e nos cumprimentamos com os punhos fechados.
Shane sentou no vão de nossa janela, colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e ficamos conversando sobre o treino, a boa jogada que fez para chamar a atenção do treinador, no que achava que precisava melhorar. Também me contou como o atual quarterback estava puto da vida por perder a vaga de titular, ainda que fosse por um jogo.
— E a ruiva? — Perguntei depois que terminamos de por a mesa e me sentei.
Shane se aproximou e sentou a minha frente, ia responder, mas Jeff entrou e começou a preparar seu prato, recheando-o com quase metade da lasanha. Enchi um copo com refrigerante e estendi na direção dele para que se mandasse logo da cozinha.
Ele saiu tão calado quanto tinha entrado, ainda zangado por tê-lo feito limpar a casa.
— Cara, nunca vi um garoto tão magrinho com tanto apetite. — Shane soltou quando Jeff sumiu, as sobrancelhas erguidas com surpresa, a cabeça sacudindo sem acreditar no que tinha visto.
— No último ano ele tem comido por dois. — Falei colocando uma porção em meu prato e escorregando a maior parte para o Shane.
Ele podia até falar do Jeff, mas comia tanto quanto meu irmão.
Sabe, nunca fomos pessoas ricas, mas meu pai tinha um trabalho como contador que nunca nos deixou na mão. Quando nos mudamos para Atlanta ele já tinha inúmeros clientes e várias propostas de empresas de grande porte. Mas o Shane tinha um pai aposentado do exército e uma relação nada boa com o coroa. Por isso, ele se tornou parte da minha família, e sempre estava em minha casa.
Quando nos inscrevemos para a universidade, caso ele tivesse conseguido uma bolsa parcial, meus pais estavam dispostos a convidá-lo a viver conosco, por que, pelo menos assim, ele não teria que se preocupar com acomodações e alimentação, por que seu pai disse que não tinha intenção de ajudá-lo em seus estudos.
E não ajudava.
Mas o Shane era bom nos esportes, de um jeito que poderia ter escolhido diversas outras faculdades do país, mas preferiu seguir para a mesma que eu, no que tínhamos um plano, bem mais como um acordo, para abrir uma firma juntos. Estávamos até procurando um trabalho de meio período, mas estava complicado conciliar as oportunidades que surgiam com nossos estudos.
— Vai contar sobre a ruiva, ou não? — Perguntei dando uma garfada na lasanha, enquanto ele abastecia o próprio prato.
— Não tenho muito para contar. — Disse e encheu a boca.
— Como assim? A garota parecia caidinha por você.
Shane deu de ombros.
— Ela é uma gata, e beija como uma profissional...
Ele hesitou e me olhou erguendo a sua sobrancelha, daquele jeito todo dele.
— Mas? — Perguntei arrastado, esperando que concluísse.
— Merda, Rick! De todo o campus, eu tinha que marcar um encontro com a única virgem convicta do lugar.
Quase me engasgo.
Tossi, bebi um gole de refrigerante, depois ri, gargalhei a me inclinar sobre a mesa, recebendo um tapa na cabeça de um Shane chateado.
— Não brinca com isso seu idiota. Tava com um tesão danado na garota e quase não passou de uns beijinhos.
— Deve ter sido difícil para você. — Falei e comecei a rir novamente.
Dessa vez ele riu junto e me deu um empurrão no ombro.
— Não sabe o quanto. — Suspirou. — O pior, é que quero sair com ela novamente. — Shane revelou.
O encarei e me lembrei de que a ruiva tinha dado em cima do Shane por tanto tempo, que nunca imaginei que ainda fosse tão antiquada.
— Tenho certeza que consegue fazer a garota mudar de opinião. — Disse brincando, e ele abanou a cabeça em uma negativa.
— Talvez. Mas não quero me aproveitar de ninguém, como se ela fosse um desafio, ou algo assim.
Sabia do que ele estava falando. Já tinha desistido de alguns namoros por esse mesmo motivo. Preferia não tomar nada de uma garota se fosse apenas para sentir que seria para alimentar meu orgulho masculino.
Assim como o Shane não sou santo, mesmo que muito tímido. Claro que não sou pegador como ele, mas já tive meus momentos.
A Lori era a minha namorada atual, mas eu não estava apaixonado. Seguíamos juntos há quase seis meses e ela não era nenhuma virgem. Estávamos dando um tempo. Coisa dela. Ainda assim, não sentia que estava livre para tentar nada com ninguém.
Quanto a ruiva, ela tinha entrando na nossa turma há pouco mais de seis meses também, por que foi na mesma época que comecei a namorar a Lori. Ela tinha chamado a atenção do Shane logo no primeiro dia, mas ele estava em um relacionamento firme com a Andrea, e isso acabou o mantendo afastado da tentação.
— Ela é muito engraçada. Acho que nunca saí com uma garota que pudesse me fazer rir tanto. — Shane continuou, enquanto devorava o almoço. — Não marcamos nada, mas acho que vou ligar pra ela e convidar para uma saída amanhã, após o jogo. — Olhou para mim. — O que acha?
— Que nunca te vi tão inseguro. — Respondi um pouco mais sério.
Shane passou a mão pelo cabelo e me encarou.
— Ok, não começa. — Ele disse e respirou fundo.
— Parece que essa te fisgou. — Disse, ele riu e tomou um pouco do refrigerante.
— Ela me deixou frustrado pra porra ontem, mas um encontro nunca foi tão gostoso.
— Se foi tão bom, deveria investir. Namoro não é só sexo, Shane. — Falei e tentei me levantar, mas Shane não deixou.
— Cuido disso. — Disse e levou a louça para a pia, lavou tudo e guardou todo o resto.
Me virei e fiquei observando ele cuidando em lavar os pratos. Pensei na garota da noite anterior. Daquele estranho telefonema que não me saía da cabeça.
Não que eu pensasse na garota de uma forma amorosa, nem nada disso. Mas se não tivesse sentido algo mais, teria contado ao Shane sobre o ocorrido assim que ele chegou. Entretanto, demorou anos para que eu contasse para meu melhor amigo algo sobre a Lane.
Fomos para meu quarto e passamos o resto do dia a estudar. Geralmente nossas tardes de sábado ficavam reservadas para isso. Antes, durante a semana, participávamos de um grupo de estudos na biblioteca da faculdade, mas o Shane não gostava muito. Nos estudos ele era tímido e inseguro — algo que ninguém acreditaria — e preferia muito mais nós dois sozinhos a repassar as matérias.
Convidei para que passasse a noite, e ele recusou. Nos despedimos à porta com um abraço e ele sumiu escada abaixo.
Shane não gostava muito de elevadores.
No jantar, deixei o restante da lasanha para o Jeff, e me contentei com um dos sanduíches que sobrou do lanche que o Shane preparou para nós enquanto estudávamos, depois e rumei para o quarto, onde fiquei assistindo The Practice, imaginando se ligava para a Lori, ou esperava que ela me ligasse.
Mas o que queria mesmo era ligar para Lane. Estava louco para ouvir a voz dela novamente.
Resolvi que ligaria para a Lori e agarrei o aparelho, era um modelo sem fio e o carreguei para a cama, onde me ajeitei a olhá-lo sem saber o que fazer.
Como disse, meu relacionamento com a Lori não estava de todo bem. Algo que não contei a Lane na noite anterior, por que não queria que ela entendesse errado meu interesse. E eu ainda me sentia atado a Lori, mesmo separados.
Antes de pedir um tempo, ela andava um tanto estranha, cancelando compromissos, irritada comigo e com o mundo. Dizia-me que estava preocupada com os pais, já que eles estavam tendo problemas e talvez um divórcio acabasse sendo inevitável.
Mas eu não namorava com Lori para que ficássemos próximos apenas nos bons momentos. Se ela estava tendo problemas, gostaria que me contasse e me deixasse lhe ajudar no que fosse possível. Por que, se fosse o contrário, desejaria o apoio dela.
Como ela não parecia disposta a conversar, ou estar comigo — dando um tempo — acabei desistindo de ligar. Afinal, Lori que fizesse o primeiro movimento, já que foi ela quem tinha sugerido que ficássemos afastados.
Peguei o aparelho e coloquei novamente no criado mudo. Deitei e fiquei olhando para o teto. Pensei, não em Lori, mas em Lane. Imaginando como ela seria: Ruiva? Morena? Loira?
Eu gostava de morenas.
Vinte e um anos. Três anos mais velha que eu. Alguém independente, que tinha um emprego, morava por sua própria conta e dependia apenas de si mesma para sobreviver.
Merda! Não imaginava que uma garota assim, praticamente uma mulher, se interessaria em conversar com um rapaz de dezoito anos, que ainda morava com os pais, e dependia dos coroas pra tudo.
Mas, como para me mostrar que a vida tem razões que a própria razão desconhece, o telefone tocou.
Era Lane.
Eu sabia disso antes mesmo de atender.
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