The Black Angel
5 Por que não se pode ter medo do seu próprio anjo.
Notas iniciais
Gerard não largou minhas mãos. Tentei me sentir segura. Afinal ele era o meu anjo da guarda. Mas espera. Ele me socorreu uma vez e eu já o chamava assim. Me senti triste com esse pensamento, mas de maneira nenhuma eu recusava chamá-lo ou me referir a ele de outro modo. Era como se ele fosse um anjo de verdade. E meu, só meu!
Depois de certo tempo trocando olhares, Gerard me perguntou à queima roupa:
– Como foi o seu sonho na noite de anteontem?
O olhei assustadíssima e meu corpo tremeu. Ele me olhou me encorajado e contei. Pareceu pensativo. Depois perguntou:
– E quem era o cara?
Olhei-o mais assustada. Gaguejei:
– Vo-você. Mas de cabelos brancos
Ele me olhou reflexivo. Depois, parecendo escolher as palavras certas e me contou:
– Helena, digamos que eu tenha tido um sonho parecido. Na mesma noite sonhei que eu estava tocando piano, em uma sala de espelhos. Quando eu vi, tinha uma moça dançando. Ela parou e ficamos nos olhando. E eu lhe entreguei um botão de rosa. E depois a sala explodiu.
Fiquei surpresa.
– E você sabe tocar piano?
–Eu tive aulas quando pequeno. – reconheceu.
Os garotos atrás comentavam entre si.
Gerard se levantou, anunciando que ia fazer café. Liesel juntou-se a mim, e ficamos de braços, dados, tentando nos situar. Em menos de 48 horas, eu sonhei com um cara, que encontrei horas mais tarde, me socorrendo no meio da rua, que nos levou para lanchar e agora estávamos em seu luxuoso apartamento.
Gerard trouxe sete xicarazinhas e um bule, todos de porcelana. Tomamos e lembrei que ainda não tínhamos almoçado. Olhei para Liesel, que compreendeu. Mikey seria a nossa última esperança, mas nos olhava com um rosto assustador. Gerard voltou a se sentar na cadeira e me olhava fixamente. Liesel respirava pesado. Meu lado que adorava filmes de terror pensava: Eles vão nos matar. É uma questão de tempo. Vão sacar uma arma e éramos uma vez. Virar história de primeira página de jornal.
O modo como Gerard me olhava dava medo. Os outros meninos nos rodando dava medo. Liesel em pânico me dava medo. Eu estava me dando medo.
– Helena. – Gerard me chamou, na voz dura.
– Sim? – tentei controlar a taquicardia.
– Querem almoçar com a gente? – Ele sorriu, de modo aterrorizador.
Não fiquei tranquila. Meu rosto permanecia impassível. Liesel apertava meu braço. O clima ainda estava de assassinato. Pensei: Nós somos o almoço.
Orei baixinho. Será que teria chance as últimas palavras? Gerard estava ainda com aquele sorriso de assassino psicopata homicida. Frank estava com uma faca na mão, sentado ao lado de Liesel, com o mesmo sorriso.
Eu estava em pânico.
Senti meus olhos umidecerem. Mal sentia meu braço que Liesel estava apertando. Me desculpa, amiga...
Fechei os olhos, tentando sentir a morte. O que senti foi um abraço, um abraço quentinho.
– Que meninas medrosas essas! – Gerard riu. – E você acha que eu iria fazer alguma coisa com você? – Ele disse ao meu ouvido. Tive ímpeto de me levantar, chamá-los de irresponsáveis, frescos, psicóticos, idiotas e infantis. Mas me controlei. Mas meu anjo me deixara mais calma, e meu coração voltou ao normal. Suspirei de alívio, dando graças a Deus por eles quererem só brincar com a gente.
Com aquele abraço me sentira protegida, e poderia ficar pelo resto da vida abraçada com ele. Não sei quanto tempo ficamos assim, mas ele logo me largou, e acariciou minha bochecha. Lamentei em pensamento por o tempo não ter congelado.
O sorriso do meu anjo de cabelos negros agora era suave, e sincero. Eu adorava o sorriso dele. Me dava uma paz de outro mundo.
– Agora, vai querer almoçar o quê?
– Tanto faz.
Me virei e olhei Frank, abraçando minha amiga, deixando os braços dela imóveis. Ele estava encostado no ombro dela, com os olhos fechados. Liesel balbuciou: me tirem daqui! Eu e Gerard rimos.
Ray avisou que pedira no Mc Donald’s. Catorze Big Mac’s, com Coca-Cola. E ainda disse a Frank que o dele viria com brinquedinho.
– É a princesa da Barbie? Toda rosinha? Então eu quero! – O Gnomeu respondeu, sem sair do jeito que estava.
Ray riu, e junto com Bob, arrumavam a mesa. Mikey não saiu da parede; o antissocial de Nova York nos olhava do mesmo modo de antes. Agora eu entendi a expressão “beleza sombria”.
Gerard ficara mexendo em meus cabelos. Ele disse baixinho que nunca vira ondas negras tão bonitas. Senti meu rosto corar. Olhei para a saia do meu uniforme, prestando atenção nos pontinhos cinza minúsculos.
Gerard nos chamou para ver o resto do apartamento, que era grande. Levantamos e Frank não saiu de trás de Lie. Ela me olhou como se estivesse enojada com o corvo, mas sei que no fundo, ela estava gostando.
As paredes do corredor eram brancas e luzidias. O chão era de granito preto, cheio de cristais. Tinha um retrato, deles vestindo o uniforme do nosso colégio. Frank era fácil de identificar. Ele era mais baixo que Mikey, mesmo sendo três anos mais velho. Gerard era lindo até naquela época, mesmo com rostinho sério e mais gordinho. Ray tinha o cabelo com menos frizz e Bob também tinha a mesma beleza que tem hoje. Todos eram lindos. E Mikey, continuava com a mesma expressão amarga que possui hoje.
O primeiro quarto era de Ray, Bob e Frank. Todos tinham colcha de seda preta e um armário feito de madeira escura e maçanetas de prata. Havia um lustre mais simples do que o da sala. No quarto seguinte, era de Gerard e seu irmão. Praticamente idêntico ao dos outros meninos, porém, neste tinha um quadro estranho. Parecia um casal de anjos, vestidos de preto numa sala escura. Não entendi muito bem. Tinha mais três quartos no apartamento, mas eles não nos mostraram. Ray avisou que nosso almoço estava pronto e colocou mais uma cadeira, idêntica as outras. Os pratos eram de porcelana, com florezinhas lilás em toda borda. E tinha copos de cristal, com Coca. Gerard puxou uma cadeira para mim e Frank fez o mesmo com Liesel. Na ponta sentou Gerard; do lado direito, Mikey, Ray e eu. Na esquerda, Bob, Frank e Liesel. Almoçamos, conversando animadamente sobre o verão que estava próximo. Ray tinha planos para ir para a América do Sul, passar as férias lá. Gerard disse que achava o Rio de Janeiro muito bonito, mas preferia um lugar menos cheio. Citou estados chamados Minas Gerais e Paraná. E também tinha vontade de conhecer Brasília, a capital do Brasil. O gigante do Sul. Frank perguntou a Liesel com um olhar sedutor:
– Você já foi à Bahia?
Ela o olhou e negou, enquanto tirava os picles. Gerard disse que se nossos pais deixassem, nós poderíamos passar umas semanas com eles. Ray achou uma ótima ideia e disse que convidaria Fernanda, uma garota descendente de brasileiros que trabalhava com ele. Bob disse que sentia cheiro de paixonite e Ray riu. O louro anunciou que se era assim, chamaria Julie, uma moça que trabalhava numa loja de joias.
Frank deu uma mordida em seu sanduiche, e após um tempo, se dirigiu a Mikey:
–E a Stefani, Mikey?
Mikey o olhou de um jeito que colocava até os fortes para correr. Os meninos riram com gosto. Olhei Liesel, que retrocou o olhar interrogativo. Gerard, notando nossa ignorância no assunto, explicou:
– Stefani Germanotta, uma garota que mora sozinha num prédio. Era da escola de vocês, tem a mesma idade, mas é adiantada. Prefere que chamem ela de Lady Gaga. E Mikey morre de amores por ela.
– Mentira, calúnia! Cala a boca, Gerard! – Mikey se exaltou. Ray, Frank, Bob e Liesel riram. Fiquei sem ação.
– Me explica então, maninho, a foto dela no seu criado mudo? Eu sei que vocês trocam mensagens toda a noite. – E pegou o celular do irmão no ato – “Boa noite, meu unicorniozinho. Sonhe com a Princesa Celeste. E eu aposto que sonharei também.” Aaaawn, que meigo – Gerard fez beicinho.
Mikey tentou pegar de volta o celular, mas Gerard alegou que devolveria se o caçula admitisse que gostava da tal Lady Gaga. Mikey cruzou os braços e sentou.
– Talvez eu goste dela, sim, mas qual é o problema? Pelo menos eu admitiria.
–E você admitiu. Ou vai se contradizer?
– Tá... Eu gosto dela. Gosto muito. Mas não é da conta de vocês! E pelo menos EU posso pedi-la em namoro, né, Gerard? – Olhou furioso para o irmão. Gerard olhou para mim, suspirou e disse:
– Tudo ao seu tempo, Mikey.
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