The Big Four - A Nova Geração

25 Tretas Intermináveis e Velhos Doentes


Talvez, só talvez o que Ceifadora disse possa ter feito algum sentido. Mesmo com ela aparentemente cooperando, eu sabia que ela ainda estava nos escondendo algo.

Admito que a visita ao Mundo Inferior foi emocionante, eu conseguiria fácil trabalhar num lugar naqueles. Bom, tirando o calor, é claro.

Meus pensamentos estavam longe, e por um segundo esqueci que estávamos passando por um portal. Cruzei os braços e esperei que a viajem terminasse. Jack ria alto e mantinha seus braços abertos.

Logo a forte ventania que só existia dentro dos portais cessou, e nós caímos bem de cara no Castelo de Norte. Gemi e levantei o meu tronco, encontrando uma Punzie e um Soluço boquiabertos.

O enorme cristal estava acesso, e mostrava uma menina pequena e de cabelos loiros.

— Mas que porra é essa? — Perguntei ainda deitada no chão. Odiava coisas que não podia controlar ou dar um soco.

— E segundo, — A garotinha disse, olhando para trás um segundo e esticando a mão pra frente. O efeito foi o mesmo de tapar com as mãos uma webcam. Por algum motivo, isso me fez rir.

Jack se levantou e me puxou junto. Com poucos passos já estávamos perto de Hic e Punzie.

— O que nós perdemos? — Perguntei cutucando Hic com meu cotovelo.

Antes que ele pudesse pensar em responder, um tremor leve sacudiu a estrutura, e a garota loira nos olhou com certo horror.

— PEGUEM AS BONECAS! — Ela gritou segurando suas marias-chiquinhas e varrendo a sala com o olhar.

Por um segundo todos ficamos parados, esperando alguma explicação, mas isso não aconteceu. Segurei o braço de Punzie e lancei um olhar meio "Não sai dessa porra de sala se não eu te mato" para os meninos.

Fomos andando pelos corredores com o passo apressado, a procura do escritório de Norte. No entanto, conversas baixas no andar que estávamos passando fez bem mais do que só chamar minha atenção.

— O que foi? — Punzie perguntou subindo alguns degraus da escada para ficar ao meu lado novamente.

— Vá até o escritório de Norte, eu tenho uma coisa pra resolver. — A garota não gostou muito da minha resposta, mas como sabia que discutir comigo não levaria à nada, acabou seguindo o seu caminho.

Agora que tinha parado um pouco, consegui perceber como o astral do castelo estava diferente. Uma penumbra se espalhava por todos os lugares, e estava tão escuro, que logo os cabelos loiros de Punzie sumiram em um segundo.

Virei a esquerda e segui o comprido corredor. No chão havia um tapete vermelho vivo, e nas paredes obras de arte recheavam o lugar. Preferi não olhar para os rostos sorridentes dos desenhos, mesmo querendo muito.

Em um determinado momento, a luz fraca de dentro de um quarto aumentou drasticamente, então eu parei. Encostei as costas bem ao lado da porta e tentei ouvir algo. As vozes eram tão baixas que nem se eu colocasse o ouvido da porta, conseguiria ouvir.

Suspirei e tentei pensar em algo para que eu pudesse ouvir. Ninguém mais vai esconder nada de mim que nem uma otária. Acabei olhando para o outro lado do corredor e dei um pulo. Em meio tantos quadros, um espelho velho e cheio de arabescos nas bordas refletia o meu rosto na escuridão.

Eu estava visivelmente cansada, meu rosto tinha um pouco de fuligem, assim como os meus cabelos, que estavam mais bagunçados que o normal. Dei a língua para o espelho e me virei para entrar no próximo quarto.

Não liguei para a decoração do cômodo. Tirei uma reta até a pequena sacada e observei o lugar de fora. O tempo estava instável, com rajadas tão frias, que quando se chocavam com o meu rosto, quase tiravam o ar.

Do lado de fora, a fachada do castelo tinha muitos detalhes, e uma faixa longa ligava todas as sacadas. Subi no guarda-corpo e estiquei a perna para me equilibrar sobre a faixa.

Ela era bem larga, então não tomei sustos quase caindo ou pisando em falso. Quando cheguei na varanda do quarto dos sussurros estranhos, pulei pra dentro com cuidado, sem fazer muito barulho.

A porta não estava trancada, mas ainda não era o suficiente para ouvir a conversa. Uma cortina vinho bem grossa ocultava o lado de dentro, então torci para que a porta velha não fizesse barulhos quando eu a abrisse.

Pela pequena fresta que abri, consegui me arrastar para dentro e fechar a porta de volta, antes que ventos mais fortes denunciassem minha entrada.

—... dos quatro. Jack já não conta mais, mas Rapunzel e Soluço não fazem ideia de seu centro ou qual é o objeto deles. — Coelho comentou, com sua voz vindo do outro lado do cômodo.

— Mas e a Merida? Ela tem a boneca e o arco. — Norte falou, dando umas tossidas em seguida.

— Ela é quem eu menos me preocupo, vai demorar muito para controlar os seus poderes. — Coelho falou de novo, como de desse de ombros.

— Mesmo assim, isso... — Uma nova crise de tosse impediu o velho de terminar a frase.

— Ei, segura o pouco a onda, Norte. Se continuar assim, todos os Guardiões em um raio de quilômetros vai saber que está doente. — Pelo visto só havia eles dois mesmo dentro do quarto.

Um silêncio estranho se instalou no lugar, e pensei que tivessem me notado ali. Um suspiro alto soou, e Norte não tossiu novamente.

— Bom, só tente melhorar disso. Eles não podem saber, principalmente o Jack. — Depois de um tempo Coelho quebrou o silêncio, andando para perto de mim.

— Não deixe eles saírem, não podem descobrir o que está acontecendo, nem pegar as bonecas dos outros. — A fala de Norte me acertou em cheio, e tive que me segurar muito para não falar meia dúzia de palavrão para eles.

As cortinas foram agarradas e abertas, por alguns centímetros não fui descoberta. A respiração do Coelho chegou até a embaçar o vidro, de tão perto que estava.

— A tempestade está pior, você sabe o que isso significa. — O Coelho disse fazendo uma pausa. — Ele está tomando as Sombras.

Norte não comentou nada, nem Coelhão, e este logo saiu do quarto. O lugar mergulhou num silêncio de novo, e por mais que minha curiosidade fosse enorme, não tentei ver o velhote.

Saí do quarto do mesmo jeito que entrei, assim como atravessei a faixa sem grandes problemas e cheguei da varanda do outro lado.

— Merda. — Falei passando a mão no rosto e esperando uns segundos, para que desse tempo de Coelhão sair do corredor.

Abri a porta e encontrei o corredor vazio, ainda bem. Fiz meu caminho até as escadas, e assim que virei em uma curva, dei de cara com o Coelhão. Ele me olhava com uma de suas grossas sobrancelhas levantadas, num questionamento.

— Merida, você e Jack voltaram há muito tempo? — Ele perguntou casualmente, já subindo de volta as escadas.

— Sim, quer dizer, não. Tem alguns minutos. Eu estou procurando o Angus, viu ele? — Eu tenho que achar a Punzie.

— Acredito que esteja nos estábulos. Mas vai lá fora nessa tempestade?— Ele respondeu com um tom extremamente desconfiado.

— É, deve ser. Aposto que ele está assustado. — Comentei tentando pensar em qualquer coisa para tirá-lo da minha frente. — Fada e Sandy estão por aqui?

— Sim, estão no escritório de Norte. — Logo ele deu de ombros, perdendo o interesse em mim.

Respondi com um resmungo qualquer e segui para onde Punzie estava com passos rápidos. Vai dar merda.

Cheguei no escritório e fiquei aliviada de encontrar só Punzie lá dentro.

— Achou? — Perguntei fechando a porta atrás de mim e indo ajudá-la com as caixas e gavetas.

— Nada, nem sei onde procurar. — Era respondeu passando a mão na testa e fechando uma gaveta cheia de papéis.

— Temos que pegar essas coisas e vazar, aqui não é mais seguro. — Falei indo até a escrivaninha de Norte e tentando abrir uma das gavetas. Ela estava trancada.

Forcei umas duas vezes, até que dei um chute em baixo, abrindo um buraco nela. Punzie me olhou com certo horror, até que enfiei a mão dentro e fechei meus dedos ao redor de uma boneca. Quando puxei para fora vi que era na verdade, de Norte.

— Mas que merda! — Me joguei na sua cadeira e suspirei. Um gritinho de comemoração veio de Punzie quando ela levantou uma boneca que era literalmente a cara dela.

— Tem do Soluço também. Olha, existem umas em branco também. — Ela disse maravilhada, levantando o grande saco de presente onde elas estavam.

— Ótimo, pega isso e vamos atrás dos garotos. — Comentei já me levantando e jogando o saco sobre os ombros.

Punzie acenou com a cabeça e andou junto a mim até a porta. Pena que nossos planos não foram tão como o planejado.

Um Coelho irritado estava do outro lado da porta, de braços cruzados e olhar penetrante. Ele olhou Punzie dos pés até a cabeça e depois desviou o olhar para mim, focando no saco das bonecas.

— Se perdeu no caminho para os estábulos? — Seu tom era seco e amargo, assim como minha boca nesse exato momento. Eu estava definitivamente muito fodida.