The Big Four - A Nova Geração

26 O Dia em que Todos Resolveram Mentir


O escritório estava em uma enorme tensão, e eu alternava o meu olhar entre o Coelho e Merida sem entender o que estava acontecendo.

— Não me perdi, só alterei a rota. — Ela respondeu com o peito estufado e a cara amarrada. Uma discussão entre esses dois certamente não ia acabar bem. — Agora pode por favor sair da minha frente?

— Não, não posso. Eu sabia desde a primeira vez que pus meus olhos em você que seria uma encrenqueira. — Coelho respondeu apoiando uma pata de cada lado da porta.

— E eu soube desde a primeira vez que olhei para vocês quatro que eram mentirosos. Mentirosos de merda. —Merida contra argumentou posicionado o saco de presentes melhor no ombro e colocando a outra mão na cintura.

— Você não faz ideia do que está falando, garota. — Se coelhos pudessem rosnar, ele certamente faria isso agora.

— Eu ouvi sua conversa com Norte, e se quer saber, tô pegando minhas coisas e vazando. Tô nem aí pra vocês. — Merida vez uma pausa, me olhando e acenando com a cabeça. — Anda Punzie, vamos.

O Coelho não se mexeu, muito menos eu. Por mais que eu me esforçasse as pessoas simplesmente não me contavam nada, como se eu fosse uma criança.

— Não. — Eu disse cruzando os braços e olhando Merida nos olhos. — Não vou sair daqui enquanto não me explicarem o que está acontecendo. Estou cansada de correr pra cima e pra baixo sem respostas.

— Ótimo, eu falo. — Merida falou dando de ombros, visivelmente mais irritada. — Depois de sair do castelo da Fada, eu e Jack fomos parar no Mundo Inferior. Ceifadora nos esclareceu umas coisas, e se me permite dizer, foi bem mais persuasiva que os Guardiões.

— Vocês foram até a Morte? — Coelho perguntou deixando sua máscara cair por um segundo. Ele estava assustado. — São loucos? Como puderam acreditar nela?

Meus olhos voltaram a atenção para Merida. Dentro de minha cabeça eu me sentia dividida. Mesmo confiando muito no julgamento de Jack e Merida, Ceifadora não parecia ser uma boa pessoa.

— Ela nos mostrou o livro, e a história de Raoden. É ele não é? O irmão de Raoden é aquele que está causando tudo isso. — A garota disse com um sorriso triunfante. — Por que não nos falou que ele que provocou nossas mortes?

— Porque não foi ele. — Coelhão falou se direcionando a mim agora. — Vocês não podem confiar nos outros, sei que é complicado, uma vez que não falamos a verdade desde o início. Mas vocês têm que entender, fizemos isso para protegê-los.

— Nós que devemos tomar nossas próprias decisões. Isso é sobre nós também. —Merida disse dando um passo para o lado, ficando entre mim e o Coelho.

— Isso não é sobre vocês, garota. — Ele disse de modo ríspido, esticando uma de suas patas e tomando o saco das bonecas da mão de Merida. — Vocês quatro são crianças brincando de detetives.

E sem nem ao menos avisar, Merida deu o maior chute no meio das pernas do Coelho bravo a nossa frente. Eu definitivamente não esperava por isso. Com um grunhido ele caiu de joelhos, dobrando o corpo para frente.

— VAMOS. — Merida gritou pegando o saco de volta e já saindo correndo pela porta.

Eu olhei para o Guardião caído no chão e hesitei por um segundo. Qualquer um tinha probabilidades de estar errado.

— PUNZIE! — Ela gritou de novo, já do meio do corredor, e sem pensar duas vezes passei por cima do Coelho, resmungando um "sinto muito. "

Mesmo que o chute de Merida tenha sido o mais forte do mundo, logo ele viria atrás de nós.

— Pera, ela fez o que? — Jack perguntou tendo que segurar uma risada quando eu disse o que Merida fez.

Porém, do mesmo jeito que as risadas vieram, elas se foram com o entendimento da gravidade da situação. Estavam fugindo do Papai Noel e do Coelho da Páscoa, isso é insano.

— Dá pra me ajudar aqui? — Merida perguntou entre resmungos, tentando abrir a clarabóia para fora. O trenó de Norte estava com nossos objetos pessoais, assim como o saco das bonecas e Pascoal.

Soluço estava puxando a corda com Merida, mas algo parecia emperrado. Jack desviou o olhar para mim e ponderou.

— Acha que estamos fazendo a coisa certa? — Foi a pergunta dele. Entre quatro adolescentes, o Guardião da Diversão parecia ser o mais sensato.

— Eu não sei. Não sei mesmo. — Respondi vencida, já me direcionando para o trenó e sentando dentro.

Tudo parecia tão errado, tão estupidamente errado. Estava irritada por nem Merida nem Jack me explicarem como foram parar no Mundo Inferior, ou o que falaram exatamente com Ceifadora.

Pelo que ouvi lá no escritório de Norte, não foi ela a culpada de nossas mortes, mas não tinha provas disso. Eu me lembro de ver ela depois de acordar, e Soluço descreveu seus olhos prateados quando ele quase caiu do penhasco.

Confiar totalmente nessa garota e se virar para os Guardiões me parecia burrice, entretanto, o próprio Coelho assumiu que escondeu sim coisas de nós.

Não sei no que acreditar. Na melhor nas hipóteses, todos mentiram, o tempo todo.

Com um barulho alto e irritante a clarabóia se abriu, e Jack logo retornou para o trenó. As renas estavam revoltas, assim como o tempo ruim.

— Tem certeza do que está fazendo? — Questionei Jack, que já havia puxado os arreios dos animais.

— Não. — Ele disse com uma risada, passando seu cajado para que eu o segurasse. — Não vai ser a primeira nem a última vez que eu vou fugir desse castelo.

O tranco que o trenó fez ao levantar voo foi forte, e se eu já não estivesse sentada, com certeza teria caído no chão. O saco com as bonecas abriu um pouco e tombou, só o suficiente para uma das bonecas cair.

Num movimento rápido eu a agarrei no ar, impedindo que caísse. A puxei para perto dos olhos e logo identifiquei a barba branca e a roupa vermelha de Norte.

Franzi as sobrancelhas e a coloquei entre minhas pernas, para que pudesse segura-la. Em volta, eu sabia que Banguela voava perto de nós com Merida e Soluço, mas meu subconsciente simplesmente ignorava o que falavam.

Abri a primeira camada, a segunda, terceira e quarta, até que cheguei ao núcleo. O vento batia em meus cabelos, e mesmo estando amarrados, se enroscavam no meu rosto.

O centro de Norte devia ser algo parecido com "Sonhos" ou "Maravilhas" mas a palavra que estava na frente dos meus olhos não se parecia com nenhuma delas.

As letras estavam velhas e desgastadas, então aproximei a última boneca do rosto. Uma segunda palavra pairava bem embaixo da de letras velhas e douradas.

Com a palma da mão eu esfreguei a superfície da boneca, ficando surpresa ao ver a tinta brilhante realmente sair.

" Procidat Deceptionem "

Eu nunca tive aulas de latim na escola, mas por algum motivo a palavra vibrou na minha frente, revelando seu verdadeira significados.

" Ilusão "