The Best Part Of Me.
8 All You Gotta Do.
Notas iniciais
Angeles Saramego.
Ao primeiro toque do despertador meu corpo vibrou sinalizando está em alerta, o desliguei lépida e levantei da cama num pulo exasperado seguindo para o banheiro, teria que acostumar minha mente tanto com o novo fuso horário quanto em uma rotina se não quisesse cair em ruínas de choros lamentados pelos traumas que German certamente me deixou. Quebrada, era isso que me definia agora. Queria um apoio, precisava conversar abertamente com alguém e falar tudo que me assolava mas sabia que se fizesse isso ia quebrar-me ainda mais, e não tinha mais nada que pudesse ser quebrado em mim.
Água gelada escorria pelo meu corpo fazendo-o tremer pelo frio em contato com a pele quente, fechei os olhos desejando voltar no tempo e fazer tudo diferente, desejei que nunca tivéssemos tido nada além de um amor reprimido por anos. Como se a água fosse minha estrela cadente, pedi com toda força que pudesse esquecê-lo de uma vez por todas. No entanto, como faria isso se agora estávamos na mesma cidade e tínhamos uma filha juntos?
Por que eu havia ficado tão deprimente depois que cheguei aqui? Odiava tudo isso, porque eu não era assim, não queria ser… Nunca fui e certamente não era essa a imagem que queria que Alice tivesse de mim, eu precisava ser forte. Por nós duas.
Terminei o banho saindo do banheiro e escolhendo um vestido azul qualquer pela frente, calcei rasteiras e, por fim, saí do banheiro. Leonardo ainda dormia todo espalhado pela cama, o deixei assim, depois do que tinha acontecido ontem eu não tinha ideia de como ia encará-lo hoje, monotonamente sai do meu quarto caminhando até o quarto de Alice, era seu primeiro dia de aula aqui e queria que tudo ocorresse perfeito.
Ao entrar em seu quarto foi como se esquecesse de todos os problemas que me rondavam, apenas minha filha me importava, um sorriso permeou meus lábios quando me aproximei vendo-a toda aconchegada abraçada no seu Sr. Puf, com cuidado passei a ponta dos dedos pelo seu rostinho minuciosamente perfeito era um amor que mal cabia em mim de tão intenso e puro que era.
— Alice… — A chamei docemente enquanto afagava suas madeixas loiras.
— Filha acorde, primeiro dia de aula.
Alice abriu os olhos com cara de sono, me encarou e em vez de abrir seu rotineiro sorriso caloroso fez uma careta de birra.
— Não quero ir mãe!
Birrou. Fiquei surpresa, mas como toda criança era normal que não quisesse ir a escola.
— Mas a senhorita vai, então pode começar a levantar. — Ordenei ficando séria.
— Não!
Teimou puxando o edredom para cima escondendo seu rosto, suspirei massageando minha testa.
— Você não vai teimar Maria Alice, levanta!
— Não quero! Não vou! — Exclamou agitada.
Sem ver outra solução sentei-me ao seu lado na cama, por que ela estava assim? A abracei meio torta, retirando o edredom de seu rosto.
— O que aconteceu meu amor? Você estava tão animada com a ideia de uma nova escola e novos amigos…
Alice me fitou e sorriu sapeca.
— Tô com preguiça mãe.
Arregalei os olhos fingindo uma surpresa.
— Tô com preguiça mãe? — Ela riu assentindo. – Agora que a senhorita vai mesmo, se não… Alguém vai fazê-la uma visitinha.
— Quem? Quem?
Percebi que ela havia se animado mais, mexi meus dedos freneticamente em sinal que ia fazer cócegas e assim o fiz. Alice gargalhava me contagiando com sua risada de criança travessa.
— Muito bem senhorita, agora vamos. Não quero que chegue tarde em seu primeiro dia.
A peguei no colo me levantando com ela que prendeu as perninhas no meu quadril, fui com a pequena até o banheiro a banhando rápido, saímos do banheiro e pus seu uniforme novo, Alice me parecia inquieta demais porém decidi não perguntar sobre, fiz uma trança em suas madeixas loiras e peguei sua mochila roxa.
— Como estou? — Perguntou-me com uma carinha sapeca que eu amava.
Ri, ela deu uma rodadinha.
— Perfeita.
Alice me abraçou. Beijei sua testa, segurando em sua mãozinha saímos do quarto, descemos as escadas em silêncio e enquanto Alice foi até o sofá eu me dirigi mecanicamente até a cozinha pegando uma maça pra que ela se alimentasse durante o caminho. Chequei minhas notas mentais para me certificar que não esquecia de nada. Apanhei minha bolsa no aparador assim como os livros contábeis na bancada e sua lancheira, indo até Alice.
— Vamos princesa?
— Sim mãe.
Antes de sair de casa, dei mais uma analisada torcendo internamente para que Leonardo não estranhasse minha ausência tão cedo, eu realmente precisava de um tempo pra assimilar tudo que disse. Merda, como ele havia percebido tão depressa? Balancei minha cabeça, era um questionamento assim como tantos que não tinha pressa pra responder mesmo que me inquietassem mais do que deveria.
Geral.
— Está nervosa? — Angeles perguntou observando a filha pelo retrovisor no banco de trás do carro. Alice encolheu os ombros com confiança em seus doces olhos.
— Não. Mas e se não gostarem de mim?
Angie sentiu seu coração apertar, quem em sã consciência não gostaria daquela fofura de criança? Sorriu segura estendendo a mão para a pequena que logo a pegou.
— É impossível não gostar de você, meu amor. — Respondeu carinhosamente. – Mas se isso acontecer, continue sendo quem você é.
Alice confirmou com a cabeça.
— Não quero que pense nisso! Quero que aproveite bastante, faça amizades e principalmente estude. — A mais velha semicerrou o olhar na direção da pequena com um sorriso divertido.
Se sentia emocionada, era impressionante como o tempo voou. Um dia desse tinha a visto pela primeira vez, era tão pequena que tinha medo de quebrá-la, e agora já estava na pré-escola.
— Tá bem, mamãe.
Alice riu abafado.
— Bom, agora podemos ir. Não quero que chegue atrasada.
Angie desceu e abriu a porta do carro soltando a criança do banco para que descesse também junto com sua mochila, segurou na mão dela andando até o hall da creche Fairy Tale onde várias crianças brincavam, outras se direcionavam a sala. Mirou Alice que segurou firme em sua mão aparentemente nervosa, se abaixou até ficar da altura dela acariciando seu rosto.
— O que houve?
— Tô com vergonha, mãe.
— Alice, relaxe. Tenho certeza que você vai gostar, curta tudo o que está acontecendo.
Alice abre um sorriso fraco.
— Sou uma boba…
— Não, não diga isso. — Angie beijou a testa da filha, a analisou emotiva.
Tinha feito uma verdadeira princesa. Levantou-se e seguiu junto a Alice até sua sala.
— Boa aula, eu busco você mais tarde ok?
Assentiu quieta, observando alguns alunos que esperavam o professor sentados e conversando.
— Espera! — Alice pediu alarmada. – Me dá um abraço?
— É óbvio princesa, vem aqui. — Angie pegou a filha no colo a abraçando e enchendo seu rosto de beijinhos. – Te amo.
— Também!
Alice foi pro chão.
— Agora vai, divirta-se! — Angeles acenou pra filha que acenou de volta entrando na sala.
Suspirou com enfado. Como German se sentiria ao ver Alice tão esperta assim? Com certeza ficaria todo orgulhoso. Pensou desanimada.
Se dirigiu a saída, sentindo seu coração apertar ao ver outras crianças com seus pais, juntos. E novamente perguntou-se como Alice ficava em relação a isso? Balançou a cabeça negativamente tangendo esses pensamentos, definitivamente Buenos Aires não a estava fazendo bem. Angeles entrou no carro contrariada, com seus bilhões de pensamentos juntos a engolindo, acelerou o carro dirigindo sem ter um lugar certo pra ir já que o Studio ainda não abrira. Por força maior Angie estacionou o carro perto da praça do Studio, desceu do carro soltando o ar que nem ela mesmo sabia que prendia, andou pela praça escolhendo um banco pra sentar-se.
Como instinto sentiu seus olhos brilharem quando pairaram no carrinho de maçã caramelada, apesar de ser por volta das sete o que era cedo demais pra sua primeira refeição ser uma guloseima, não se conteve e riu nostálgica indo depressa até lá, precisava daquilo.
— Uma maçã caramelada, por favor. — Pediu com entusiasmo.
Um senhor sorriu amável, lhe entregando o doce.
— Obrigada.
Angie o pagou e caminhou até seu banco sem parar de olhar a deliciosa guloseima coberta por caramelo e pipoca, deu a primeira mordida e mesmo sendo seu doce preferido pensou ter sentido sua boca amargar ao ser instantaneamente tomada por lembranças do dia que comeu com German nessa mesma praça. Havia sido um dia maravilhoso, nunca pensou que fosse haver tantas mudanças desse dia em diante, que envolver os sentimentos pudesse ter destruído algo tão belo que haviam construído aos poucos.
Mesmo com um nó imenso na garganta, não evitou um sorriso enquanto aproveitava pra terminar a maçã. Por mais que lembrar de qualquer coisa que envolvesse seu ex amor fosse sempre uma sensação sufocante, naquele momento não, naquele momento era apenas uma bela lembrança congelada em seus pensamentos na qual guardava intocavelmente.
— Como Buenos Aires anda mal frequentada…
Ouviu uma voz que não esperava ouvir nunca mais, entretanto que conhecia muito bem. Levantou o olhar com o coração palpitando e respiração descompassando.
— O que quer Esmeralda?
Esmeralda levantou a sobrancelha a encarando com desdém, havia deixado de ser um trabalho quando começou a ter sentimentos por seu namorado que até então, era de faixada, somente pelo dinheiro. Depois que tudo havia dado errado e que tinham descoberto como o plano foi feito e o motivo, aquela rixa havia virado pessoal. Apenas entre as duas, queria fazer Angeles pagar por cada terrível dia que passou presa, por toda vez que German a rejeitou e trocou por ela. Necessitava, seu corpo estava sedento em vingança.
— Já veio rastejar para os pés de German novamente? — Debochou.
Angeles sentira-se insultada, como assim rastejar para German? Queria o máximo de distância possível. Estreitou os olhos verdes, levantando-se. Fitou a mulher em sua frente enojada, entretanto antes que falasse besteira, riu com cinismo.
— German não me interessa nenhum um pouco, se quer saber. Agora com licença, que não tenho tempo pra malucas.
Nem dando tempo para que a morena respondesse, saiu do seu campo de visão veloz indo com pisadas duras até seu carro, irritada. O que a fazia achar que queria German? Riu sozinha balançado a cabeça negativamente, uma louca novamente era tudo o que menos precisava agora.
Esmeralda ficou ali parada no mesmo lugar, observando Angeles sair, um pequeno sorriso assombrador surgiu em seu rosto assim como um resquício de um novo plano para ver sua inimiga no chão, longe de seu amor. O anterior podia ter dado todo errado, mas ao menos Angeles tinha ido embora, e a seu ver era uma pena que tinha durado tão pouco.
— Ah Angie… Você ainda vai me pagar muito caro, vai comer na minha mão. — Esmeralda disse com uma voz sombria, olhando pra onde o carro da loira dava partida.
…
German andou até a cozinha enfadonhamente absorvido em uma pilha de pensamentos de trabalho, era seu escape nos últimos anos e nessa semana era ainda mais pois Angeles houvera voltado para Buenos Aires. Sentou-se na banqueta, não se dando o trabalho de procurar por Olga pôs um pouco de café na xícara o bebericando, desceu demasiado quente. Praguejou mentalmente.
— Está tudo bem Sr. German?
Olga o analisava preocupada, agora ainda mais por um motivo crucial, a volta de seu ex amor. Sabia o quanto seu patrão tinha ficado devastado com essa bomba no meio da semana. Ele a olhou, respirou fundo e se forçou a dar um breve sorriso.
— Sim, obrigado.
Olga abriu a boca pra dizer qualquer outra coisa, mas foi antecipadamente interrompida pela campainha.
— Eu abro. — Fez uma careta que não passou desapercebido por German que riu balançando a cabeça, enquanto bebericava mais um gole de seu café.
— Desculpa incomodar Olguinha, mas precisava vir falar com Ramallo.
German ergueu a cabeça no mento que ouviu a voz, aquela voz doce que o tirava da realidade sempre. Moveu a cabeça fitando a porta, Olga ria sem graça.
Mais de nervoso do que de sem graça, não sabia o que podia acontecer com os dois ali.
— Você nunca incomoda minha menina, mas é que o Ramallo ainda não chegou…
O moreno esqueceu de tudo que fazia, levantou da cadeira fugaz indo até a porta quase que tropeçando em seus próprios pés, seus olhares se encontraram e ambos ficaram ali paralisados, como se tivesse algo os prendendo. A empregada saiu sorrateiramente deixando apenas os dois, sabia que precisavam de espaço pra conversar e quem sabe resolver toda a situação.
— Angie?
Ele a chamou sem desviar o olhar da mulher que um dia foi sua, Angie não conseguia olhá-lo então o fazia para os lados claramente incomodada. Não conseguia manter contato sem lembrar de toda a dor que ele a fez passar.
— German. — Respondeu seca. A resposta havia doído nele, nunca pensou que pudesse ser tão seca.
Mas era compreensível. A decepção tornava qualquer pessoa assim.
German Castillo.
— German. — Me cumprimentou com rispidez.
Tinha que aceitar que as coisas entre nós seriam sempre assim, um verdadeiro inoportuno. De verdade? Minha vontade era lhe abraçar e acalmá-la já que era perceptível o quanto estava nervosa, meus olhos bebiam toda sua imagem ávidamente como se fosse a última vez que fosse vê-la. Estava belíssima como nunca antes, não havia mudado muito, agora com traços mais maduros pairando sobre si o que a tonava ainda mais maravilhosa. Mesmo depois de anos eu a queria, com a mesma intensidade, com o mesmo amor, a queria por completo… Queria que voltar no tempo e nunca magoá-la com fiz, agora era mais que evidente que eu merecia toda seu desprezo. Ruborizada, ouvi seu pigarreio me trazendo pra realidade como mágica.
— Quer ver o Ramallo? Ele saiu há alguns minutos, mas já deve está chegando.
— Então eu já vou, depois eu passo aqui. — Disse sem olhar-me. Aquilo me matava aos poucos.
Quando ia se virar segurei em seu braço a fazendo parar instantaneamente, ela moveu o rosto com seu olhar quase me perfurando e se pudesse, com certeza, o faria.
— Me solta!
O fiz timidamente, intimidado por ela. Pelo seu olhar frio, por seu corpo mortificado na minha porta.
— Não precisa ir. O que Ramallo pode resolver que eu não posso? Por favor, me deixa te ajudar…
Quase supliquei, meu corpo clamava por sua atenção. Por passar ao menos mais alguns minutos ao seu lado, mesmo eu sabendo que após sua partida ia ficar devastado. Angie tomou uma lufada de ar parecendo mais branda, aberta para me ouvir. Ou era apenas meu pensamento desejando que fosse isso.
— Não é nada, eu realmente preciso falar apenas com Ramallo. — Pela primeira vez nossos olhos se encontraram, verdes tão frios como nunca havia visto.
Estava magoada, podia ver em seus lindos olhos, em seus mínimos movimentos. Parei, impactado com toda a tensão que nos cercava e quase entrei em desespero só de pensar que não a conhecia mais, por não conseguir mais interpretá-la.
Não podia culpá-la, em seu lugar faria o mesmo. Mas já tinha se passado tanto tempo… 6 anos pra ser exato, precisava de seu perdão mais do que qualquer outra coisa.
— Ouvi alguém falar meu nome! — Ramallo apareceu atrás de mim, com seu cordial sorriso.
Movi meu corpo mais pra o lado dando-lhes espaço, Angie abriu um sorriso fraco e o abraçou.
— Ramallo, precisava vê-lo! — Se separaram, com sorrisos. – Quero que me dê uma mão com uns livros de contabilidade.
— É sempre um prazer ajudá-la Angie. Vamos até a sala.
Ela assentiu entrando, Ramallo estreitou o olhar pra mim como se pedisse em vão pra que me acalmasse. Quanto tempo mais poderia aguentar toda sua frieza? Por fora, não deixava transparecer mas por dentro, era como se arrancassem um pedaço de mim.
— Também posso ajudá-la se quiser, sou muito bom com os números. — Afirmei pondo as mãos no bolso da calça.
Angie mirou-me com desdém e me ignorou completamente indo até a sala. Ramallo me fitou por cima dos óculos.
— Eu sei o quanto é difícil meu amigo, mas sabe o que tem de fazer. — Voltei os olhos para ele confuso. – Precisa conversar com ela, pedir perdão pelo que aconteceu.
Mirei o chão com um nó na garganta.
— Angie nunca vai me perdoar Ramallo. Fui um completo idiota com ela.
— Isso é verdade, mas tem que tentar. Pode se surpreender German! — Respondeu otimista.
Já eu não estava tanto assim, conhecia muito bem Angie pra saber que não cederia com uma simples conversa, ou talvez nem a conhecesse mais.
— Preciso ir, depois te passo a situação.
Assenti. Ramallo me deu as costas.
— Ramallo. — O chamei, ele se virou me fitando calmo. – Faça tudo que puder pra ajudá-la.
Ele concordou com um pequeno sorriso.
— Pode deixar.
As palavras de Ramallo ainda ecoavam frescas em minha mente fazendo um eco, ele tinha razão, precisava explicar o que passou há alguns anos. Mas como o faria se Angie parecia não querer me ver nem pintado de ouro? Pensei em pedir ajuda pra Violetta, porém o melhor a fazer era não envolvê-la nisso. Algo me diz que estou fazendo tudo errado com ela, Angie carecia de espaço.
Era melhor pra nós dois, se eu desse um tempo, minha mente repetia incessável. Ainda sim meu coração me pedia outra coisa, fechei meus olhos sendo afastado da realidade, o melhor a fazer por hora era voltar ao trabalho.
Geral.
“Onde você está?’’
Angeles pegou seu telefone apressada, quando parou o carro no estacionamento do Studio, não havia saído da mansão com notícias muito boas por parte de Ramallo, precisavam agir ou o Studio entraria em falência.
“Estou chegando, espero que estejam todos aí. Tenho que falar uma coisa importante!”
Respondeu para Pablo afita, porém agradecida por ter outra coisa que pensar que não fosse sua péssima relação com German, ou sua conversa com Leonardo. Ao menos tinha algo que pudesse a distrair de tudo o que acontecia, pegou os papéis meio desengonçada e saiu do carro com pressa enquanto apertava os passos em direção a sala dos professores. Cumprimentou alguns alunos na porta com um breve sorriso e um “bom dia, como estão?” amistoso, fechou os olhos inspirando profundamente e abriu a porta azul entrando.
Na sala se encontravam sentados Pablo, Gregório, Beto, Antônio e Violetta que estava em pé ao lado da cafeteira, disso havia puxado a tia que também adorava um café pelas manhãs.
— Bom dia! — Cumprimentou a todos. Foi até Vilu dando-lhe um beijo na testa da sobrinha.
— O que houve tia? Parece tensa…
Violetta murmurou analisando a tia, conhecia-a de ponta a cabeça para saber quando tinha algo errado, e foi exatamente o que sentiu.
— Angie? Por que nos chamou aqui com tanta urgência? — Antônio questionou tirando os óculos.
A loira respirou fundo, o que tinha pra contar não seria nada fácil. Colocou os dois livros de capas pretas em cima da mesa e se apoiou olhando pra eles que a observavam curiosamente.
— Bem… Acabei de sair de uma reunião com Ramallo. – Violetta mirou a tia confusa. – E não tenho boas notícias.
— É tão grave assim? Pela sua cara… — Beto tentou brincar, porém ao fitar a amiga voltou a ficar sério.
— Sim, na verdade sim. Se não conseguimos fazer nada, o Studio terá que decretar falência e fechar.
Se entreolharam, Violetta sentiu seus olhos marearem, não podia deixar aquele lugar fechar. Era sua vida toda, suas lembranças que estavam espalhadas por cada parede desde o primeiro dia que pisou ali, tinha de fazer alguma coisa.
— O Studio não pode fechar! — Gregório protestou batendo fortemente as mãos na mesa levantando-se nervoso, todos o olharam assustados.
Mesmo fazendo terapia ainda, não conseguia evitar alguns impulsos. Arrumou o suéter envergonhado, coçou a garganta sentando-se mais calmo.
— Não podemos deixar o Studio fechar!
Todos concordaram.
— O Gregório tem razão, não há nada que possamos fazer tia?
Angie coçou a testa, como explicaria pra Violetta o quão complicada era a situação?
— Angie, pode falar tudo. Precisamos achar uma solução rápido. — Pablo argumentou decidido.
— Eu sei, só que os números estão em vermelhos. Ramallo tentou de todas as formas achar uma brecha pra que possamos reverter a situação rapidamente, mas os números são altíssimos! É uma dívida gritante que com os juros só aumenta a cada minuto, teríamos que revisar livros mais antigos, cortar muitos gastos e tentar arrecadar dinheiro pra parcelar a dívida e conseguir pagar.
— Isso seria uma grande mudança, não sei se o Studio pode aguentar querida.
Antônio expressa-se com pesar, na sua idade o que fazia era por amor, já que nessa fase sua vida exigia descanso.
— Precisa aguentar, se não quiser fechar.
Pablo diz passando as mãos pelo rosto aflito.
— Falando em cortar gastos, eu prometo não quebrar mais nada daqui pra frente! — Beto diz sorrindo.
Todos riem, aliviando a tensão que cercava o ambiente.
— Já é um bom começo Beto! — Vilu se pronuncia entre risos. Angie concorda.
— Será uma grande economia. — Angie ri gesticulando.
— Não sei o que podemos fazer para arrecadar os fundos.
Angie morde os lábios mortificada, na verdade tinha ideias, só não sabia se funcionaria à essa altura do campeonato. Fixou o olhar na sobrinha que parecia pensativa.
— Vilu?
A chamou, Violetta pareceu despertar de um transe.
— Eu tenho uma ideia! — Disse com um sorriso.
— Pode falar querida, estamos atentos. — Antônio brandou.
— E se fizermos um baile? Como nas festas americanas, com tema e tudo? Faríamos uma grande divulgação, e as entradas seriam cobradas.
— Como um show? — Beto questionou confuso. Vilu sorriu assentindo com uma cara sapeca.
— Sim, só que bem mais atrativo. Atraindo público jovem e adulto.
— Amei a ideia! Com certeza essa inteligência puxou da tia.
Angie se anima, vai até Vilu a rodando e a envolvendo num abraço pela cintura. Violetta riu se contagiando.
— E então… Concordam?
Fez sua carinha de gatinho que caiu do caminhão de mudança, era impossível de resistir.
— E pra quando seria isso?
— Organizaríamos o mais rápido possível, Pablo.
— Tem minha aprovação, Vilu. — Angie deu um beijo na testa da sobrinha.
— A minha também, eu adorei a ideia! — Beto se manifestou fazendo a mais nova saltitar no colo da tia.
— É claro que tem o meu sim!
Pablo e Violetta tocaram as mãos, num sinal animado.
— E você Gregório?
Gregório bufa, balançando os ombros.
— Qualquer coisa pra tirar o Studio da lama que estamos metidos! — Disse arrogante, todos voltaram a atenção para sua petulância o repreendendo com um olhar sério.
— Antônio…?
Angie chama sua atenção com um sorriso terno, ele a olha e sorri passando a mão pelos cabelos brancos.
— Se todos estão de acordo, quem sou eu pra descordar. Teremos um baile! — Antônio entonou animado, sorrindo de canto.
— Isso. Termos um baile!
Violetta e Angie se abraçaram emocionadas, era uma causa mais do que pessoal pra ambas.
…
German caminhou em direção ao Studio, tanto tempo sem pôr os pés ali e agora quase seis anos depois já havia vindo duas vezes em uma semana. Sacudiu a cabeça evitando seus perturbadores pensamentos, a única coisa da qual tinha certeza era que ia tentar conversar com a mulher que magoou mais do que a si mesmo e ter o seu perdão. Era tudo que almejava nesse momento.
Ao chegar na porta da sala dos professores, seu coração palpitou. Hesitou antes de entrar se perguntando se seria uma boa ideia concluir o que havia pensando em casa, na hora parecia uma ideia tão graciosa que lhe enchia o peito só de pensar em ter Angeles na sua vida novamente, mas estando bem ali agora, a ideia havia ficado tão estúpida. Era só lembrar como ela o tinha tratado em sua casa mais cedo, e considerando tudo o que passou, ela possuía toda razão… Se sentira magoada ainda.
Recuou um passo, mas seria idiotice não tentar já que se encontrava bem na frente da porta. Um risco calculado, pensou. Sua mão voou no trinco e logo abriu a porta fixando seu olhar obsessivamente na bela figura loira sentada na cadeira á sua frente concentrada no notebook. Seu pensamento titubeou desviando do foco por alguns milésimos de segundos.
Angie levantou a cabeça com uma expressão leve ao pensar que deveria ser Vilu, Pablo ou qualquer outra pessoa. Não esperava vê-lo ali, sua expressão calma logo se tornou surpresa. Não sabia como agir, coçou a garganta quase que inaudivelmente tomando uma expressão séria.
— Olá…
German a cumprimentou receoso fechando a porta atrás de si e se aproximando. Era a decisão certa? Não sabia. Angeles voltou sua atenção para o notebook com diversas abas de contabilidade abertas.
— O que quer? — Interrogou rude, estava demasiadamente ocupada, não tinha tempo pra nada que German quisesse. Nada que o envolvesse.
A não ser que fosse Violetta, ou se ele soubesse da paternidade de Alice. Entretanto descartou a última possibilidade, ele não estaria tão calmo se soubesse.
— Angie, nós temos que conversar. — Seu tom era firme, porém apelava. – Por favor.
Sua voz saiu em um fio de um baixo murmúrio.
— Eu acho que não. Não é uma boa hora, além do mais já dissemos o suficiente por esses anos. — Angie declarou o observando séria. Como era possível ser tão cínico a esse ponto? Como as coisas chegaram a essa fase?
— Angie, por favor… Tem algo que eu quero te falar. — Suplicou sem tirar os olhos dela.
Angeles pondera por alguns instantes, suspirando pesado e se levanta apoiando as mãos na mesa.
— Tá, fala.
— Me perdoa por tudo o que eu te fiz passar? — German murmura com um olhar triste, mesclado de culpa e dor, era dolorido demais… Para os dois.
Ela fica pasma, uma chama indecifrável deixou seus olhos mais escuros. Logo se dá conta do que acontecia e solta um riso sarcástico.
— O que você está pensando? — Angeles o encarava friamente.
— Acha que depois de ter me destruído, ter me feito sofrer como nunca antes, pode chegar e pedir perdão achando que eu vou te perdoar assim tão fácil? — O deboche na voz de Angeles era notável, ela não queria está tendo essa conversa e tampouco o ver.
— Então me diz, o que eu preciso fazer para ter o seu perdão de volta? Fala qualquer coisa que eu faço. — German implorou a olhando profundo e intensamente.
Angeles saiu detrás da mesa se aproximando lenta e riu alto como se tivessem acabado de lhe contar uma piada hilariante.
— Não sei se posso te perdoar, ou se quero te perdoar o que é bem pior. — Angeles desferiu as palavras.
Havia ficado surpreso na mulher indiferente e fria que havia ser tornado, contudo sabia que era apenas com ele.
— Você me fez sentir horrível desde que saí de Buenos Aires, a primeira semana foi péssima pois eu fazia tudo obrigada já que você acabou com todas as minhas forças de viver, eu estou enfim me reerguendo com a ajuda de uma pessoa que me ama e faz de tudo para não me ver sofrer. Nós estamos construindo algo muito bonito e eu não vou deixar que você com o seu perdão, estrague tudo! — Angeles balbuciou nervosa, sua voz embargada como nunca antes, uma lágrima rolou pelo seu rosto alvo e ela tratou de limpá-la com rapidez para que German não percebesse qual o efeito que ele causava nela.
Tinha revelado muito mais do que queria, German mesmo depois de anos ainda mexia com seu psicológico de formas inexplicáveis.
— Então não, eu não quero te perdoar e muito menos quero te ver.
German baixou a cabeça, devia ter ouvido sua parte racional que estava certa. Os dois precisavam de um tempo, para se ressarcirem das mágoas, era como se tivesse levado um soco com o que Angeles dissera e talvez se tivesse levado um teria sido bem melhor e menos dolorido do que escutar o quanto esteve mal por sua culpa. Era demais. Angie suspirou percebendo o quanto tinha pegado pesado com German, o quanto havia sido inconsequente dizendo todas aquelas coisas. Coisas que nunca poderiam ter sido ditas, por um lado havia posto tudo pra fora e por outro ver German ali assolado tinha abalado o seu interior.
Não que tivesse sentindo algo, mas porque German é o pai de sua filha querendo ou não e o pai de Violetta. Não podia ter falado assim.
— Eu te disse que não era uma boa hora, acho melhor você ir. — Pediu com a voz mais baixa praguejando mentalmente por tudo o que acontecia, enquanto tentava acalmar-se.
— Tem razão, com licença.
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