The Best Job
21 O beijo
Notas iniciais

Koala nunca fora uma criança que tinha muitos amigos. Na época em que era criança e vivia com sua mãe, na vila, antes de se tornar uma escrava, ainda era uma criança que vivia sozinha, brincando por aí. E, quando tentava se aproximar das outras crianças, diziam-lhe coisas como "seu nome é esquisito", "sua cara é nojenta" e outras coisas que preferia nem mesmo se lembrar.
Crianças podiam ser cruéis, tanto quanto adultos. As crianças filhas dos tenryuubitos podiam ter a mesma idade que ela, mas ainda a tratavam como lixo. A chutavam, cuspiam, a usavam de banco e davam gargalhadas e mais gargalhadas ao ver que, ainda assim, estava sorrindo. "Como é tonta" diziam.
Foi apenas depois de conhecer os piratas do Sol e os revolucionários que enfim a garota aprendera a se relacionar com as pessoas de um modo mais normal, mas ainda sentia que certos fatores da socialização ainda faltavam nela, fatores esses que estavam a impedindo de saber por qual caminho deveria seguir. Estava certa? Estava errada? Deveria tanto assim estar brava com Sabo?
Ela o chamara praticamente de criança ao dizer que não conseguia cuidar de si mesmo. Mas na realidade, ela que se sentia a criança. A atitude que havia tomado em relação ao conselheiro não havia sido nem um pouco madura, e ele tinha todo o direito de estar chateado ou até mesmo bravo com ela.
Sabo não era criança. E nem adolescente. Nem ela mesma era adulta direito, afinal era seu primeiro ano como adulta realmente, e logo chegaria o dia da maioridade do loiro. Ele era engraçado, era gentil, responsável, e mesmo com 19 anos já era o conselheiro de Dragon, cargo adquirido por sua competência.
— Desculpe. Eu sou uma idiota. — murmurou com as mãos no rosto, como se estivesse cansada. Ela estava sozinha com ele ali desacordado há mais ou menos meia hora, apenas pensando e pensando sobre como era uma tonta.
— Realmente.
Levantou o rosto bruscamente, com o susto. Olhou para Sabo e ele estava acordado, com o olhar meio cansado, mirando-a com um sorriso meio de lado.
— Sabo-kun... — ela estava com vergonha. Por causa dela ele estava ali, naquele estado. Não sabia nem como começar a se desculpar. — eu... Ai, me desculpe mesmo. Eu deveria ter aceitado melhor a sua opinião, fui muito intolerante ao ficar tão revoltada com você. E também por aquilo envolvendo o Hack... Me desculpe, de verdade. Fui infantil. Mas não se preocupe, eu estava aqui pensando e cheguei a conclusão que é melhor que eu não trabalhe mais com você. Vou eu mesma pedir ao Dragon-san, desde que eu apareci sua vida virou um caos total e-
— Do que você está falando?
Ao Sabo dizer isso, Koala parou de falar.
— Koala, eu não faço a mínima ideia do que você está dizendo, mas eu não vou permitir uma coisa dessas.
A moça ficou confusa.
— Como assim não faz a mínima ideia? Você não consegue se lembrar de nada que aconteceu?
— No momento a única coisa que eu sei é que, 1º, você não vai deixar de ser minha parceira nem que eu tenha que acorrentar seu pulso ao meu, seja lá o que tenha acontecido. — ele sorriu pra ela, e a mesma corou — 2º, meu corpo tá bem dolorido, e 3º, que eu tô morrendo de fome.
Koala riu, e chorou. Os dois ao mesmo tempo. Riu por Sabo ser tão bobo, mas chorou de alívio ao ver que estava tudo bem.
— O-Oe não precisa chorar! — Sabo ficou sem jeito e se sentou na cama mexendo as mãos freneticamente, meio perdido e sem saber o que fazer. — seja o que for que aconteceu, não precisa se sentir assim. Eu sou um bobão, né? Devo ter tido culpa. Não precisa chorar.
— Eu choro de felicidade... — disse ela enquanto secava as lágrimas.
Mesmo ali, com aquela expressão chorosa e os olhos vermelhos, Sabo se estranhou por achá-la tão linda. Não deveria pensar em coisas desse tipo de sua amiga enquanto ela chorava, mas fora inevitável. As maçãs do seu rosto tinham uma tonalidade vermelha curiosa, e seus redondos olhos azulados refletiam a luz da lâmpada do quarto. O estômago de Sabo revirava de um jeito muito estranho, e pensou no momento que a fome estava fazendo isso com ele.
— Mas o que aconteceu? — ele perguntou ao ver que ela estava mais calma.
— Sabo-kun... Eu estou grávida.
— O QUE? — ele quase morreu do coração. — D-D-DE QUEM?
— Poxa... Você se esqueceu mesmo? — ela perguntou com jeitinho envergonhado. — é um bebê seu, seu bobo.
Sabo ficou branco, e Koala caiu na risada. Sabo se sentiu bem envergonhado por ter acreditado.
— É claro que não, Sabo-kun! Eu estava brincando. — disse Koala se recompondo. — eu achei que você fosse entender que era brincadeira.
— Não é justo fazer uma brincadeira dessas com um doente. — ele virou o rosto vermelho de vergonha pro lado.
— Tá bom, tá bom... — ela terminou de rir. — vou dizer a verdade. — suspirou. — foi assim...
E então, Koala explicou para Sabo, nos mínimos detalhes.
(...)
“Padomi tossia. Era inverno naquela época e a temperatura parecia ser de -10ºc, pelo menos era isso que lembrava em seus plenos 12 anos de idade. Usava apenas uma blusa masculina branca que cobria seu pequenino corpo como um vestido, e era tudo o que tinha, caso contrário ficaria apenas em roupas íntimas. Dera sorte de conseguir pegar uma das duas blusas que Rokka tinha, para que não morresse de hipotermia. Mas mesmo assim, estava morrendo de frio, e se sentindo nojenta. Não tomava banho há uns nove dias, pelo menos.
Deitou-se no canto do cômodo que estava – uma espécie de cela, como a de um prisioneiro. — abraçando as próprias pernas. Sua barriga doía, mas também estava com fome. Era contraditório.
Foi quando a menina ouviu passos vindo em direção a ela. Por um momento, se perguntou quem era, quando viu uma moça de cabelos vermelhos se aproximar da cela e abri-la.
— Venha, monstro. — disse a mulher, em um tom autoritário. Aquela era a filha do Doutor, sempre arrumada e elegante. Se virou de costas, e Padomi prontamente a seguiu. Já estava acostumada com aquele tipo de coisa.
A menina a seguiu até a seção particular da família, até que adentrou o quarto do bebê. A família dona de todo aquele laboratório tinha uma casa enorme, e o quarto do bebê não poderia ser diferente.
— As roupas dele precisam ser passadas, as roupas de cama trocadas, reponha o estoque de fraldas e quero que esterilize cada um dos brinquedos. Use luvas, pelo amor de Deus, não sei onde essas mãos andaram.
— Sim, senhora. — Padomi respondeu, sem expressão.
— Em uma hora, quero tudo pronto.
Então a mulher saiu, deixando Padomi sozinha para limpar o “palácio do príncipe”. Depois que fora atrás dos produtos de limpeza e a faxina já estava em andamento há uma meia hora, a menina ouviu passinhos pelo quarto, e logo depois duas mãozinhas encostando em sua perna direita. Desviou o olhar do armário em que guardava as roupinhas e viu seu Bocchama¹ olhando-a com um ar curioso.
Colocou a última pilha de roupinhas no armário e reparou que Rock, com seus 2 anos e meio, emanava uma aura muito mais feliz que a de sua família. Provavelmente, era porque não fazia ideia do que seus pais e avô faziam, o que não deixava de ser uma sorte do menino.
Esticou uma de suas mãozinhas gordinhas, como se tentasse pegar a orelha de lobo que tinha na cabeça da menina.
— Ria! Ria! — ele chamou. Padomi não pôde deixar de rir de canto. O menino insistia em chamá-la de Ria desde que aprendera a falar.
Ela se agachou, permitindo que o menino brincasse com suas orelhas brancas.
— O que pensa que está fazendo, fedelha nojenta?! — Padomi gelou ao ouvir a voz da mão de Rock na porta. Olhou para ela e rapidamente se levantou, desesperada. Abriu a boca para se justificar, mas nada saía. Estava apavorada. — você está precisando de uma boa lição para aprender a nunca mais chegar perto do meu filho! Um lixo, uma falha como você deveria ter sido vendida logo!
A mulher pegou o filho furiosa, e colocou-o – chorando inclusive, por ver a mãe gritar daquele jeito – em seu berço, longe da menina. Ela saiu pisando forte do quarto, e quando voltou trouxe consigo um chicote, muito utilizado em Rokka quando era mais novo.
— Não, não, por favor! Eu juro que nunca mais faço isso! — Padomi implorava chorando. — Eu v-v-vou voltar a limpar, mas me perdoe por favor! — a garotinha se afastava aos poucos, morrendo de medo. Foi quando sentiu algo descer entre suas pernas, e mesmo com medo, olhou: sangue.
Por que tinha sangue escorrendo de sua genitália?
Por que aquilo tinha que acontecer justo naquela hora?
E pior, o sangue havia sujado o tapete do quarto.
— SUA… SUA… AHHHH! — a mulher gritou de raiva. — Hoje você vai levar a pior surra da sua vida, seu projeto de animal. — a mulher então fez a expressão de pura repugnância, rosto que ela nunca se esquecera.
Em seu quarto, Padomi dormia. Estava ali dormindo há quase um dia, e Tora a observava há uma hora pensando se deveria ou não acordá-la. Parte de seu consciente dizia que deveria deixá-la dormindo, já que a atiradora odiava ser acordada por terceiros, e a outra parte dizia que deveria acordá-la, já que ela parecia estar tendo um de seus “comuns” pesadelos. Ela constantemente acordava chorando, tinha pesadelos e durante esses pesadelos suava muito, motivo pelo qual as crianças decidiram dormir todas no mesmo quarto que ela.
Tora se perguntava que tipo de pesadelo ela estaria tendo naquele momento.
— Não… Por favor… — Padomi dizia enquanto dormia, e de seus olhos saíam algumas lágrimas.
Foi quando Tora resolveu que deveria intervir, já estava preocupada. Tentou chamar pela garota, mas ela não acordou, então a sacudiu com os braços, até que finalmente a moça de orelhas de lobo acordou.
Ela olhou para Tora meio desnorteada, e pôs a mão em seu rosto, sentindo as lágrimas. Sentou-se na cama, enquanto secava as lágrimas. Olhou em volta, reconhecendo o local, e olhou para a mais nova, que mesmo sem dizer nada, estava visivelmente preocupada.
— Por que estava chorando? Estava sonhando com algo ruim? — Tora atreveu-se a perguntar.
Padomi a encarou, parecendo pensar se deveria ou não responder.
— Com o passado. — limitou-se a dizer, fazendo Tora ficar um tanto deprimida. Com apenas essa informação, a pequena já sabia o que queria dizer.
— Mas… — a mais nova disse, depois de alguns segundos. — Sabo-san estava no seu pesadelo?
— Não… — respondeu, olhando para um ponto fixo, mesmo que não estivesse realmente prestando atenção no que estava vendo – foi antes dele aparecer… Quando a minha vida ainda era um inferno.
— Hm…
Um clima tenso se estalou no local.
Padomi olhou para Tora, claramente triste. Era estranho ver a menina daquela maneira, totalmente expressiva e emocional. Ela havia mudado bastante desde a época em que Padomi havia saído em missão.
— “Você é tão sortuda, Tora” — Padomi pensou.
E, pela primeira vez em muito tempo, Padomi deu um sorriso calmo e gentil.
(…)
— Eu realmente não sei porque isso aconteceu com Sabo dessa vez.
Liam estava extremamente sério. Depois de terem discutido na dispensa de frutas do Quartel General, de muito conversar e de muito chorar também, Iennifer e Liam resolveram ir até o quarto de Liam, já que o mesmo dissera que queria mostrar algo à sua cônjuge.
— Ele teve o mesmo efeito colateral de antes – o azulado continuou a dizer, enquanto falava mexia nas gavetas de sua escrivaninha. — mas por algum motivo agora foi totalmente involuntário. Eu nem mesmo estava no local. E olhe só isso.
Ele tirou de uma das gavetas dois jornais. O primeiro falava sobre o aumento absurdo na recompensa de Luffy do Chapéu de Palha, cuja cabeça agora valia 300 milhões de Berries, ao lado, com 120 milhões, o Caçador de Piratas, Zoro, e os demais membros do bando, causada pelo ataque do bando do Chapéu de Palha à Enies Lobby. Já o outro jornal falava praticamente sobre Ace dos Punhos de Fogo, que tem a recompensa de 550 milhões. Também falava sobre Marshall D. Teach, sua luta com ele, e além disso…
Uma notícia que chocou a moça. Como ela não sabia daquilo? Olhou a data do jornal, e continha a data do mesmo dia em que estavam – logo, era muito recente. — por isso ainda não estava sabendo. As cabeças por trás do exército revolucionário com certeza já sabiam daquilo antes de sair no jornal, e não tardaria até que todos os membros soubessem daquilo.
Era oficial: Portgas D. Ace havia sido preso.
Sabo, como conselheiro de Dragon já deveria estar sabendo daquilo, não deveria?
— O Sabo… Já sabe? — Iennifer perguntou sentindo um frio na espinha só de pensar na reação do rapaz.
— Não. — o Mahara respondeu com muito pesar. — mas eu… pensei num jeito de resolver toda essa confusão. E não vai ser nada fácil.
Liam não precisava nem mesmo ter dito isso. A médica sabia muito bem disso.
(…)
Enquanto falava ao superior sobre tudo que havia acontecido e que, por algum motivo, havia esquecido, Koala reparava no quarto de Sabo. Era um quarto mais simples que o anterior, que dividia com ele no navio. Não tinha aquela aparência de apartamento como tinha no outro, era comum e tinha um banheiro que não conseguira deduzir se era grande ou pequeno, e as paredes eram um num tom azul-escuro, cor que parecia ser a preferida dele.
Deu uma olhada, de longe, em sua prateleira de livros. Entre os livros, havia seu diário e… Ué, onde estava seu diário de aventuras da infância?
— Entendo, então foi isso que aconteceu. — Sabo finalmente respondeu, cortando seus pensamentos, depois de um longo período de silêncio após a explicação da mais velha. — você é bem invocada, hein? — brincou, fazendo uma veia saltar na testa de Koala. — me desculpe também… Eu não gosto de brigar com você, Koala. Eu gosto muito de você. — ele desferiu um sorriso para a garota.
Santo Deus, como aquele sorriso era lindo. Sabo sabia ser chato quando queria, mas quando era gentil até mesmo a mulher mais fria das mais frias se derretia. Será que era de família? Sabia bem que seu irmão tinha fama de ser um dos piratas considerados mais bonitos. E Sabo, do mesmo modo, era considerado – por meio de um estudo feito dentro dos revolucionários mesmo – que era um dos mais belos, isso se não fosse o mais belo.
Suas bochechas certamente estavam coradas, seu coração palpitava e sem dúvida alguma fazia uma cara esquisita ao vê-lo daquela maneira. – com aquele sorriso, cabelo bagunçado e com as bochechas avermelhadas por conta da febre. -
Koala nunca fora uma criança que tinha muitos amigos, por isso, não havia tido nenhum namorado em sua vida inteira e nenhuma experiência romântica ou sexual com ninguém além de Sabo – e, obviamente, era virgem ainda – mas mesmo assim, ali, naquele momento, até mesmo ela sabia o que seus instintos falavam que ela deveria fazer.
E ela o fez.
E beijou Sabo, seu superior, ali mesmo.
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