É incrível como uma simples mulher conseguia deixar Sabo tão irritado. Já haviam se passado horas, mas seu mal-humor ainda permanecia da mesma maneira desde sua tempestuosa conversa com moça de nome peculiar no almoço.

Tentara dormir, mas havia sido em vão, já que virava para um lado e para o outro sem sucesso. "Será que é falta de algo?" ele se perguntou enquanto encarava o teto, depois virando a cabeça para sua direita e não vendo o que costumava ver: Koala.

Koala... Koala... Koala...

Sabe quando dizem que se você repetir várias vezes uma palavra, seja qual for, ela começa a soar estranho, como se pertencesse a outra língua? Isso não acontecia quando o loiro pensava ou falava o nome da parceira. Pensara nela desde o beijo, de modo que não conseguia prestar atenção completamente em nada.

Mas por que? Seria pelo fato de nunca ter beijado?

Bem, de certa forma, ele não era mais "BV" como todos os amigos pensavam — e caçoavam dele por isso -, por mais que tivesse sido há tantos anos que ele nem considerava mais. Por isso, ficou nervoso ao ficar sozinho com Koala na mesa.

Até aquilo começar.

Fechou a cara, sentindo a raiva voltar novamente. De certa forma, não estava irritado com Koala, — Ora, provavelmente, nunca ficaria. — estava irritado com o fato dela discutir com ele de modo tão petulante, na frente de todos.

— Eu é que não vou me desculpar. — murmurou para si mesmo, levantando-se da cama.

Estava sem camisa. Antigamente, antes de Koala aparecer em sua vida, costumava dormir apenas de cueca, mas com Koala dividindo quarto com ele tivera que alterar o costume para respeitá-la. Nisso, acabara por se acostumar a dormir de bermuda e sem camisa.

— Sabo? — ouviu uma voz o chamar por trás da porta. Sem se preocupar em vestir uma blusa ele a abriu, já que, pela voz, já sabia quem era. — terminou de assinar os papéis?

Sabo coçou a cabeça. Não era do feitio de Hack lhe chamar atenção por causa de trabalho, — geralmente, as broncas do tritão eram relacionadas à falta de atenção ao lutar — e isso deixou o conselheiro um tanto confuso.

— Eu li, mas não cheguei a assinar. — respondeu sinceramente, saindo da frente para Hack entrar. Ele assim o fez, e se sentou em sua cama. — eu separei uma pilha para o que eu vou assinar e para o que eu acho melhor perguntar ao Dragon. — Sabo apontou para a pilha maior em sua mesa e a menor, respectivamente.

— Achei que você fosse o conselheiro dele, e não o contrário. — Hack ironizou.

— Huh! — Sabo virou a cara, mau humorado.

Hack suspirou. Já sabia do que havia acontecido entre ele e Koala. Podiam ser revolucionários que, quase todo dia tinham que lutar para sobreviver, mas a fofoca e os boatos eram fortes em qualquer lugar; Principalmente quando se trata do segundo em comando e de sua parceira.

— Eu vou te ajudar com os que você leu. — comentou Hack, fazendo o loiro voltar a olhá-lo. — mas pelo menos se vista. Não curto ficar olhando sua barriga.

Se Sabo estivesse com seu humor normal, ele cobriria a barriga com os braços e falaria com uma voz feminina "Ain, Hack-kun, seu tarado!".

— Tá. — foi a única palavra que saiu do homem, antes de se virar para o armário.

A única coisa que se passou pela cabeça de Hack era sobre como as mulheres humanas conseguiam deixar os homens diferentes. Sempre achara que Sabo era um assexuado, e que, por isso, era uma exceção.

Mas pelo visto, estava redondamente enganado.

(...)

"Felis nevisáriu"

Essas duas palavras eram o motivo pelo qual Koala estava até aquela hora — exatamente 19:58 — ensinando Nina a escrever. A rosada havia lhe peguntado se seu cartão de aniversário para Sabo estava bonito. Koala, mesmo com raiva dele, não conseguiu dizer não para a menina, e leu seu cartão.

O desenho estava uma fofura, mas estava escrito "feliz aniversário" completamente errado, o que fez Koala perguntar para a menina se ela sabia ler e escrever.

"Sei um pouco" foi o que Nina respondeu.

E agora, lá estava Koala, numa sala usada pelos estrategistas para, obviamente, fazer estratégias, ensinando Nina a ler corretamente. A sala lhe foi bem conveniente, visto que tinha uma lousa com giz e carteiras ali.

— Então, se você juntar o "ba", com o "la"... O que sai? — Koala perguntava com toda calma do mundo.

Nina suava de tanto pensar. Depois de respirar fundo, e um pouco hesitante, ela falou:

— Ba...La... Bala... — arregalou os olhos — é bala!!! — a menina deu um sorriso de orelha à orelha.

— E aqui? — Koala escreveu outra palavra, contente pelo progresso da menina.

— Ra... Ra... To? Rato. É, é rato!

— Incrível! E aqui?

— Ro...kka! Oh, é o Rokka! — a menina apontou, com os olhos brilhando.

Ela se levantou da carteira, e foi até Koala, esticando os braços. Koala a pegou no colo, achando que a menina queria lhe dar um abraço como agradecimento. Entretanto, Nina a lambeu.

Lambeu?

Olhou para a pequena, assustada.

— Por que você lambeu minha bochecha? — indagou, colocando a menina no chão. O sorriso de Nina se desfez.

— Não gostou?

Foi nesse momento que ficou confusa. Não tinha ficado irritada com Nina, apenas não havia entendido o motivo daquilo. Não convivera muito com crianças, então será que aquilo era algo comum entre os pequenos da atualidade?

Nina pareceu deixar a própria pergunta de lado, e indagou:

— A gente pode ir mostrar pro Rokka?

— O que?

— Que eu sei escrever "Eu te amo Rokka" agora. — Nina levantou o papel que havia acabado de rabiscar.

— Claro... — Koala respondeu, ainda meio distraída.

Nina pegou-a pela mão, e foi a puxando enquanto andava até onde provavelmente Rokka estaria.

Suspirou. Planejava perguntar para Sabo no almoço sobre como Marion ficou estranho durante a aula, mas toda aquela história da Iennifer e do Liam atrapalhou todos os seus planos.

Claro, ela havia se arrependido de chamar tanta atenção dos outros, mas não de defender seus ideais. Ela ainda estava com raiva de Sabo defender o lado errado da história, e tinha certeza de que aquele papo de "acho que os dois estão errados" era apenas para disfarçar a fazê-lo parecer mais neutro.

— Ele foi lá para a sala de reuniões. — Koala ouviu um dos cozinheiros ajudantes de Rokka responder para Nina. A pequena assentiu e foi em direção ao cômodo, fazendo Koala seguí-la.

Rapidamente chegaram na porta. Até onde a karateca sabia, Nina havia sido criada desde bebêzinha ali, — igualmente a Marion. — por isso sabia se locomover facilmente. Por um momento, Koala sentiu inveja.

— Bata na por... — Koala ia dizendo, mas Nina a interrompeu abrindo a porta abruptamente, fazendo barulho. — Nina! Não pode fazer isso!

A criança apenas deu ombros, com um sorriso sapeca, e entrou. Koala ouvia umas vozes lá dentro, por isso logo entrou, cheia de vergonha, para se desculpar por Nina.

Todavia, as pessoas que estavam lá eram apenas Hack, Rokka, e Sabo. Rokka estava com uma bandeja em mãos, vazia, e na mesa havia uma xícara de café, o que indicava que com certeza havia sido levada por ele para Sabo. Igualmente na mesa havia uma tonelada de papéis, e o conselheiro e o tritão pareciam bem ocupados com todos eles.

Koala deu uns passos para frente, fechando a cara pelo fato de Sabo notar sua presença e virar o rosto de volta para a folha. Hack nem estava prestando atenção naquilo, pois ouvia a conversa entre Nina e Rokka.

— Por que Hack está fazendo o meu trabalho? — perguntou à Sabo, incrédula, ao perceber que havia uma pilha inteira de trabalho terminada. Ouvir seu nome fez Hack voltar sua atenção para os dois.

— Ah, Koala, fui eu quem...- ele tentou explicar, mas Sabo o interrompeu.

— E qual seria o problema em Hack me ajudar? — Sabo interrompeu o mais velho, olhando seriamente para Koala. — ele sempre fez isso, afinal.

— Mas agora esse é meu trabalho.

— Você não parece muito com vontade de trabalhar comigo.

— O caso... — ela cruzou os braços. — ...é que eu sou profissional o suficiente para fazer meu trabalho, apesar de quaisquer situações.

Sabo ficou quieto, piscando diversas vezes. Koala estava com raiva, mas não conseguiu deixar de notar que ele parecia com sono, ou até meio perdido. Logo se passou por sua cabeça que ele havia percebido que ela estava certa, e nenhum argumento lhe vinha mais na cabeça.

O conselheiro passou a mão por seus cabelos melados de suor. Estava se sentindo estranho. Não sabia bem o que era, a única coisa que sabia era que aquela sensação tinha tomado o lugar da raiva.

Koala bufou, e se virou saindo dali se sentindo vitoriosa. A raiva logo voltou. Não queria deixar ela ir assim, fazendo parecer que perdeu a discussão.

— Koala, venha já aqui! — ele se levantou da mesa, indo atrás dela, pisando forte no chão.

— Eu não. — respondeu ríspida, sem nem olhar pra trás.

— Koala, eu não estou b-brincando! — ele a chamou num tom mais autoritário, mesmo que estivesse se sentindo tonto.

— Eu também não! — a mulher continuou a andar. — um moleque de dezenove anos como você não manda em mim.

— Mas e-eu sou seu chefe! — ele pegou a mão dela, puxando-a e a fazendo-a ficar de frente para ele. Koala ainda estava de cara fechada, mesmo que tivesse ficado surpresa pelo ato de Sabo e pela aproximação. — você tem que me respeitar!

— Alguém que não sabe cuidar de si mesmo não pode ser tratado como um superior! — Koala disparou, mas na mesma hora percebeu o que havia dito. Aquilo era da boca para fora, mas pela expressão de surpresa de Sabo, ele havia sido atingido em cheio por aquelas palavras.

— Tudo bem... — ele deu um passo para trás, sério, arfando. Ele parecia decepcionado, mas também cansado. — não precisa ser minha assistente!

— Não, Sabo-kun, eu...!

Koala não pôde completar a frase, pois Sabo desmaiou no chão.

(...)

Liam passara o resto do dia inteiro pensativo. Nunca imaginaria que Sabo e Koala brigariam por culpa dele e de Ieniffer.

Sabo sempre foi, desde criança, um garoto que defende seu pensamento até o fim, e o azulado sabia muito bem que ele não pediria desculpas para a parceira.

Como deveria prosseguir? Estava fazendo tudo errado. Liam queria isso, mas não dessa maneira. Esperava que seu plano desse certo, e que cada passo fosse dado como havia planejado... Mas no fim, não foi nada assim. Passou por sua cabeça que o mundo poderia ser igual seus romances: tudo o que ele quer, acontece.

O tesoureiro andava pelos corredores pensando nisso, quando se deparou com Ieniffer e Koala tentando levantar Sabo — que era bem alto, consequentemente pesado -desacordado. Coberto de preocupação, ele foi até elas e colocou Sabo nos ombros.

— O que houve com ele? — pergunto olhando para Koala, já que Ieniffer não lhe dirigia mais a palavra.

— E-Ele desmaiou aqui do nada. — a voz de Koala falhava, e ela parecia nervosa. Liam reparou em suas mãos, juntas em cima do peito, tremendo. — leva ele pro quarto!

Subiu Sabo mais um pouco, segurando-o mais firmemente em suas costas, logo começando a andar. Minutos depois, já havia chegado no quarto de Sabo, e Liam o colocou na cama. Ieniffer tratou de tirar seus sapatos, provavelmente para não sujar a cama. Ele sabia mais do que ninguém que ela odiava quem subia na cama com os pés sujos.

— Ele está com uma leve febre. — Ieniffer diagnosticou, depois de afastar os cabelos dele e sentir a temperatura do loiro.

— Mas por que Sabo-kun desmaiou? — Koala indagou enquanto desabotoava a camisa dele, na tentativa de refrescá-lo um pouco.

— O que ele estava fazendo quando desmaiou? — Ieniffer perguntou, se afastando da cama e prendendo os cabelos em um coque.

— Bem, ele... — Koala hesitou em dizer, olhando para o chão. — nós estávamos discutindo.

Uns segundos de silêncio se instalaram no quarto.

— Pode ter sido por stress emocional. — explicou. — emoções como medo, ansiedade, dor ou choque pode afetar o sistema nervoso do corpo, causando a queda da pressão arterial. Já a febre deve ser dele. Sabo fica com febre ou resfriado muito facilmente.

— É verdade, ele ficou doente antes de chegar aqui... — murmurou Koala, meio que para si mesma. Liam reparou que ela tirou uma mecha do cabelo de Sabo que estava no meio de seu rosto, e que a moça deu um sorriso meio tristonho.

Como se fosse para o despertar, Ieniffer se levantou bruscamente e foi em direção à porta, puxando-o pelo pulso. Por instinto, ele a seguiu, mas logo os passos foram diminuindo até ficamos parados no corredor olhando um para a cara do outro.

— Vem cá! — Ieniffer puxou mais forte, mas ele não se moveu, olhando-a confuso. — não quero conversar aqui. — se viu obrigada a explicar.

O azulado relaxou os músculos, e percebeu que ela o levara até o depósito de frutas. Ambos sabiam que aquela hora não havia ninguém lá, por isso poderiam conversar sem interrupções externas.

— Isso não tem graça nenhuma. — ela disparou logo de primeira, assim que se virou de frente para o antigo marido. — o que você fez? Mudou as memórias de Sabo outra vez?

— O-O que? — Liam se mostrou incrédulo, e realmente ofendido pelo o que a morena lhe disse.

— Não sei porque está tão ofendido. Eu sei que está interessado em Koala. Só não sabia que era capaz de mudar as memórias do Sabo para fazê-los brigar.

— E o que te faz ter tanta certeza assim que eles brigaram por isso? — Mahara retrucou.

— Da última vez foi a mesma coisa, Ma-ha-ra-san. — ela ironizou o nome dele, já que antes o chamada de Liam. — o estado em que Sabo ficou antes e depois do desmaio é exatamente igual a como ele ficou quando você tentou mudar as memórias dele. Todos sabemos que ele paga pelas consequências até hoje!

— NÃO PRECISA ME LEMBRAR DISSO! — ele gritou, batendo o punho na parede forte o suficiente para ela estremecer.

Por alguns segundos, Ieniffer se sentiu ameaçada perto dele. Nunca havia vista Liam tão irritado assim em toda a sua vida, e o fato dela estar prensada na parede, sendo presa pela direita e pela esquerda pelos braços dele não ajudava muito. Ela abaixou a cabeça, olhando para o peito dele, já que era bem mais baixa.

Liam percebeu que aquela era uma das poucas situações em que gritou com ela.

— Eu me arrependi. — ele disse, quase como um suspiro. — e você sabe disso.

— Não adianta nada você se arrepender se pensa que o modo de consertar as coisas é fazendo esse tipo de coisa, Liam! — ela aumentou o tom, tentando convencê-lo. — nós estamos atrapalhando Sabo e Koala!

— Eu sei! E eu estava tentando ajudá-los! — ele pôs as mãos nos ombros dela. — Ia me fazer de vilão pra eles ficarem juntos, Ieniffer! Eu não ligo! Tudo, absolutamente tudo é sempre culpa minha! É culpa minha por Sabo ser assim, é culpa minha por ele ter se separado dela, é culpa minha por termos perdido nosso filho, é culpa minha por...

Ieniffer levantou o rosto ao sentir algo molhado escorrer em seu rosto.

Era uma lágrima de Liam.

— ...É culpa minha por eu não ter mais você. — completou.

Ieniffer nunca havia visto Mahara chorar tanto assim. Desciam lágrimas extremamente grossas e suas bochechas estava extremamente vermelhas. Parecia até uma criança chorando.

— Desculpe por ser uma fracassado. Desculpe por te trair. Desculpe... Desculpe... Desculpe... Des-

— Liam... — ela interrompeu.

Ieniffer passou os braços pelo tronco do azulado, afundando o rosto no peito dele.

— Você me ama?

— Amo.

— Coloca um band aid no meu coração partido?