The Best Days Of My Life
2 1-Quando eu a vi pela primeira vez...
Notas iniciais
Obrigada!
Boa Leitura!
1-Quando eu a vi pela primeira vez
Era meu primeiro dia de aula e eu estava aterrorizado.
Tinha apenas 16 anos e me considerava um garoto ainda. Hoje era meu primeiro dia de aula no ensino médio e em um enorme colégio estadual de Niterói, no qual fui posto por motivos financeiros. Eu me sentia como uma daquelas crianças que se agarravam a barra da saia da mãe, com medo de entrar naquele lugar repleto de estranhos.
A ideia de mudar de escola não dependeu de mim, foi algo imposto e que tive de acatar como se respeita a ordem de um general. Mas ainda assim, não podia deixar de notar o quanto esse fato, que para alguns era simples e insignificante, me afetava de maneira drástica, indo contra a minha personalidade que priorizava a rotina imutável.
Era uma escola com alguns prédios e muitas escadas. Essas eram as únicas informações que sabia.
Adentrei no pátio e vasculhei o lugar.
Algumas pessoas conversavam e outras namoravam- ao menos que amigos se abraçassem tão intimamente- e o fato de não achar nenhum rosto familiar me aterrorizou ainda mais. Tinha algumas arvores, alguns bancos, o chão de cimento dava uma imagem quase antiga aquele lugar de ensino. Uma mistura de cores e sons, numa bagunça completamente familiar para uma escola.
Então a vi.
Sentada em um dos bancos sob uma enorme árvore no canto do pátio. Estávamos distantes, mas ainda assim podia ver sua pele clara e seus cabelos negros, cacheados e compridos que caiam sobre seu rosto em uma cortina. Pôs uma mecha atrás da orelha, e passou a página do livro que estava concentrada.
Eu nunca a tinha visto na vida, mas ela parecia tímida, como se tentasse passar despercebido pelas pessoas.
Pensei em ir falar com ela, fazer amizade, como a minha mãe havia me dito. Naquela época disse a mim mesmo que o meu interesse nela foi apenas um plano medíocre para me sentir melhor, mas como sempre, estava enganado. Ela parecia como eu, tentando em vão passar despercebido, tentando se ajustar aquele novo habitat.
Caminhei hesitante, fazendo minha mente formular o que dizer aquela tímida criatura quando a visse na minha frente mas o sinal tocou. Ela olhou para frente vendo os alunos se dirigindo a suas salas, guardou seu livro, arrumou os cabelos, jogou a mochila no ombro e começou a andar sem olhar para nada.
Segui-a ao ver ela se dirigir ao mesmo bloco que acreditava ser meu. Pus a mão no bolso e tirei o papel pequeno e branco com as informações necessárias para esse dia. O dobrei novamente ao ver que estava no caminho certo.
O caminho fora longo, como previa, e tive de subir dois lances de escadas em um prédio que eu não considerava recente embora estivesse bem cuidado.
Ela entrou na enorme sala de aula; a mesma que a minha constatei ao olhar o número na porta branca de madeira. A sala de aula não era tão diferente das demais que tinha visto em minha vida. Existia algumas dezenas de mesas e cadeiras que formavam conjuntos de madeira e metal em cores diversas, as paredes neutras, a janela que tomava todo o lado leste mostrava arvores frutíferas, um quadro branco tomava toda a extensão da parede de meu lado direito. Alguns murais e poucos alunos, alguns conversavam outros se mantinha quietos.
Ela se sentou em frente à mesa do professor, ao lado da janela. Jogou a mochila sobre a mesa enquanto prendi-a os fios cacheados em um rabo de cavalo alto e então voltou atenção para a janela.
Andei a passos lentos quase arrastados em direção ao fundo da sala e me sentei em qualquer cadeira que vi. Inconscientemente, aquele lugar me dava uma perfeita visão dela. Seus cabelos negros eram compridos, presos eles ultrapassavam os ombros. A pele dela não era branca, mas era de um tom bem suave de moreno. Ela vestia o uniforme da escola, jeans escuros, a blusa branca de botões azul-marinho e tênis. E eu ri, ao notar o seu gosto pelos melhores tênis do mundo, All-star.
Ela era muito silenciosa e seus olhos pareciam focados no que via, e bom aquilo me fascinava. O fato de não ter o mínimo de atenção em coisas que considerava banais, como arvores me irritava às vezes.
Fui tirado de meus devaneios, com um ranger insuportável de cadeiras contra o piso. Ela olhou para frente e eu também, vendo uma mulher jovem, menos de 30, de pele branca, loira e de olhos azuis, entrar. Era a nossa professora de inglês, pelo sotaque leve, mas perceptível, era de algum dos países do norte da Europa.
Era simpática e sua aula foi interessante o bastante para que me concentrasse por alguns minutos antes de olhar a forma como sua mãe se portava.
Ela olhava para frente concentrada, não falava, mas sua mão era ágil enquanto ela fazia anotações em seu caderno. Estava concentrada e provavelmente era boa aluna.
Algum tempo depois, não reparei quanto, o sinal tocou novamente. A professora se despediu e se foi.
Ela fechou o caderno e pegou seu livro, aproveitando alguns minutos para ler.
Seu pé balançava, enquanto lia e a oportunidade de falar com ela naquele minuto em pareceu perfeita. Andei até ela e parei em sua frente, e fiquei estático por alguns segundos até dizer algo.
-Com licença. -disse baixo, para não assusta-la.
Ela marcou a página que lia, fechou o livro e me olhou, se não fosse extremamente feminino dizer, eu diria que perdi o ar. Sua mãe era uma garota bonita, linda para mim, sua pele morena era quase lisa embora como qualquer adolescente ela tivesse algumas pequenas marcas de espinha. Ela tinha os lábios rosados e pequenos, cheios. O nariz era pequeno e arrebitado. E seus olhos eram a coisa mais linda que tinha visto. Duas lindas pedras de ônix, num tom que mesclava entre o mel e o ouro formando uma composição única. Eles brilhavam não como ouro, mas como estrelas que tinham um brilho próprio.
Ela piscou uma vez e repousou o livro na mesa.
-Toda.-Foi sua resposta. Sua voz era baixa, quase um sussurro, linda e tranquila.
Eu não tinha a mínima ideia do que dizer.
-Sou Daniel. E você?
-Sofia. -respondeu simplesmente.
-Você é nova aqui?-questionei na necessidade de ouvir sua voz.
-Sou e creio que você também. -afirmou.
Assenti, e ela sorriu. Seus dentes brancos e pequenos.
-Gostando do seu primeiro dia?-Sofia disse para quebrar o silencio que se instalou.
-Na medida do possível.
Ela riu com a minha resposta. Um riso livre e quase infantil de tão melodioso.
-Verdade, não é fácil mudar de escola. -ela disse, ainda com um sorriso nos lábios.
O professor chegou em seguida e nós nos despedimos.
A aula de matemática não era a minha preferida, então me dediquei a observa-la. Ela estava tão concentrada quanto antes e eu mal percebi quando o sinal tocou no liberando para um curto intervalo.
Ela não saiu, pegou uma maça em sua mochila embrulhado em um papel, se livrou do papel e mordeu a maça. Ela parecia distraída olhando para frente.
Aproximei-me lentamente, ela não notando minha aproximação e disse num quase sussurro.
-Pensando na vida. -ela praticamente pulou da cadeira e eu ri da sua expressão de choque.
Ela pôs a mão no peito, tentando tranquilizar seu coração. Ela respirou fundo e rimos com o seu susto fácil.
-Desculpa. -disse, as mãos pro alto em sinal de rendição. Ela riu de mim, e eu gostei de saber que a fazia rir.
-Não, tudo bem, eu me distraio fácil. -ela deu de ombros e mordeu sua maça.
Ela mastigou rapidamente, engoliu e disse sua voz levemente interessada.
-Não vai sair para o intervalo?-ela perguntou, mordendo a maça novamente. A forma como seus lábios tocavam a maça para mordê-la, me fazia questionar o quão bom seria beija-la.
“Pare com isso”, ordenei a minha mente, eu mal a conheço e não posso ter esses tipos de pensamentos por alguém que me parece tão... puro.
-Tem gente de mais. -falei, me sentando na cadeira ao seu lado. Ela me olhou, assentiu e continuou a morder sua maça, sua vista longe de mim.
Em tese, o que disse era verdade. Eu ia a algumas festas, as vezes, e com certeza tinha muitas pessoas e aglomeradas de uma forma que elas pareciam trocar suor de tão juntas. Porém, eu sempre ia a essas festas acompanhado com amigos e amigas, pessoas conhecidas. A ideia de sair e ficar olhando e ouvindo pessoas estranhas, não me era agradável, não quando podia ficar na sala de aula conversando com a tímida e quase misteriosa Sofia.
-Sei como é. -falou ela, tempos depois.
Não sei se aquilo poderia se chamar de conversa, mas com certeza era melhor do que apenas observa-la e gastar minhas energias e neurônios tentando decifra-la através de seus gestos e movimentos, mas de alguma forma ela era um mistério.
-Você gosta de estudar?-perguntei a primeira coisa que surgiu em minha mente.
-Gosto. -foi sua curta resposta, antes de levantar e caminhar até a lixeira próxima a porta.
Antes que eu pudesse formular outra pergunta, a fim de descobrir algo sobre ela o sinal toca, ela me olhou e sentou-se em sua cadeira, virando para frente e me dando de costas. Eu me sentei no meu lugar, levemente frustado.Era uma sensação estranha o que eu sentia por Sofia. Era uma curiosidade aguçada, eu necessitava saber sobre ela, o que ela era. A forma como ela concentrava-se em tudo que fazia, a forma como sua mente parecia viajar no meio da aula, me intrigava. Naquele momento eu desejei ler sua mente.
A aula passou rápido e eu não em preocupei em saber sobre o que era a aula. Ela saiu primeiro e eu tentei segui-la, em vão, porque a multidão de pessoas se mesclaram em minha frente me impedindo de andar rápido como ela andava.
Naquele dia eu fui para casa frustrado.
Notas finais
Comentem, leiam, divulgue!
Beijos!
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