The Best Damn Things
5 The Only Exception
Notas iniciais
P.O.V. Paulo
— E aí, Paulo? Será que a gente pode descer pra ver o filme? – Jaime me perguntou pela milésima vez.
— Não precisa arranjar desculpa, Jaime. A gente sabe que você só quer comer. – falou Davi se desconcentrando do jogo e perdendo para mim outra vez.
— Isso! Game Over, mané! — cantei vitória olhando para Davi e o vendo revirar os olhos. – Próximo! Relaxa, Jaimão, logo a gente desce.
— Acho que você devia tomar cuidado, Jaime. – disse Cirilo.
— Por quê?
— Você pode ter perdido a barriguinha que tinha, mas isso não significa que ela não pode voltar. – Cirilo respondeu sério.
— Barriguinha, não né? Barrigona, isso sim. – eu disse rindo.
— Vira essa boca pra lá, Cirilo. – Jaime falou e em seguida Mario me derrotou no jogo.
— Tá bom, vamos descer então. – disse emburrado.
Assim que descemos começamos a arrumar o nosso lado da sala e a encher colchões de ar. Pegamos as comidas na cozinha e quando tínhamos acabado de sentar para assistir, as meninas desceram.
— E aí? O que tão fazendo? – perguntou Maju nos cumprimentando.
— Nós vamos ver um filme, querem assistir com a gente? – Adriano disse sorridente.
— Pô, Adriano! – reclamei pelo convite.
— Qual o problema, Paulo? É só um filme. – disse Mario.
— É de terror, meninas. Vocês querem mesmo? – avisou Daniel após as meninas confirmarem que queriam ver.
— Melhor ainda! — disse Alicia se jogando no espaço vazio do sofá, ao meu lado. – Vamos meninas, faz tempo que não vemos um de terror… – pediu fazendo carinha de pidona e não pude evitar rir.
As meninas foram convencidas por Alicia e acabamos por juntar todos os colchões para ter espaço pra todo mundo, como eu já imaginava os casais não assumidos fizeram questão de sentar perto um do outro, enquanto eu, Alicia, Marcelina e Mario ficamos no sofá, Jaime, Laura, Adriano, Maju e Margarida em um colchão de casal antigo que meus pais deixaram. Aliás, estávamos sozinhos. Nossos pais tinham ido a uma festa da empresa e voltariam um pouco tarde, só não sei se a sorte de não estarem aqui é deles ou nossa.
O filme começou e de início foi a maior bagunça, um pedindo pro outro pegar tal comida que não alcançava, reclamando que estavam desconfortáveis e nessa ninguém ficava quieto, até que Cirilo deu um chilique e gritou com todo mundo, colocou o filme desde o começo e ficamos calados. Eu e os meninos esperamos muito tempo pra ver esse filme e agora eu via que a espera realmente valeu a pena, tirando Alicia e Maju, todas as meninas se assustaram em algum momento e a cada susto eu e Alicia dávamos risada, até perceber que estávamos rindo juntos então parávamos. Em certo momento me distrai observando Mario de conversinha com minha irmã, quando olhei de novo para a tela levei um susto e por reflexo apertei a coisa mais próximas de minha mão, a coxa de Alicia. Quando percebi o que tinha feito soltei rapidamente e pedi desculpas, eu posso ser idiota, mas não tanto assim.
— Ficou com medinho? – perguntou rindo de mim.
— Foi só um susto, Alicia, nada demais…
— Pois pode ficar tranquilo, eu te protejo do escuro – me provocou.
— Muito engraçado, porque… – parei percebendo o quão estranhamente familiar era aquela conversa, tão parecida com a que tive com a garota da boate. Olhei para Alicia, a mesma me fitava e seus olhos transbordavam dúvida enquanto sua boca…
— Perdeu alguma coisa na boca da Alicia, irmãozinho?
— Ai Marcelina, não enche! Eu nem tava olhando pra boca dela. – disse voltando a prestar atenção ao filme.
— Ah sim, deve ter sido só impressão. – disse rindo sarcástica.
— Cala a boca, Marce. – Alicia soltou revirando os olhos.
— Até tu, Judas? – disse nos fazendo rir baixo.
O filme não demorou muito a acabar e logo já era quase meia-noite, como nenhum de nós estava com sono só ficamos sentados olhando um pra cara do outro sem saber o que fazer. Até que Valéria se pronunciou.
— Eu não aguento mais, isso tá muito chato!
— Tem algo em mente, Val? – disse Leonor.
— Que tal um jogo? – sorriu maliciosa.
— Você não acha que a gente tá muito grandinho pra ficar fazendo joguinho? – perguntou Jaime.
— Não esse tipo de jogo, Jaime. – respondeu Davi por sua namorada. – Ela tá falando de um jogo pra nossa idade, tipo verdade ou consequência e eu nunca.
— Esse é meu Davizinho. – Valéria disse abraçando o namorado.
— Eu topo verdade ou consequência. – falou Alicia.
— Eu também. – Maju disse levantando.
— Vamos todos? – perguntei.
Aos poucos, Valéria foi convencendo aqueles que não queriam participar. Formamos uma roda nos colchões e alguém baixou um aplicativo para não precisarmos de garrafa. Combinamos que quem não fizesse os desafios, teria que pagar algum mico sendo gravado ou nos vingaremos enquanto a pessoa dorme.
O jogo começou e por incrível que pareça todos estavam escolhendo desafio, a maioria era desafios fáceis e leves, outros preferiram pagar mico. Não consegui evitar o pensamento de que se todos estavam evitando a verdade, nossa turma não estava cheia de corajosos dispostos a enfrentar qualquer desafio, mas de covardes que não conseguem chegar nem perto da possibilidade de terem que revelar seus segredos. Voltei a mim, assim que a palavra saiu da boca de Alicia me deixando surpreso.
— Verdade. – todos ficaram em silêncio, sabendo que agora se sentiriam obrigados a dizer o mesmo.
— Tem certeza mesmo? – disse Jaime com cara de decepcionado.
— Sim.
— Ah, eu já tinha até planejado um desafio pra você. – disse cruzando os braços.
— Vai logo, ex-gorducho. – disse sem paciência.
— Tá, só deixa eu pensar em uma boa. — disse colocando a mão no queixo como se estivesse pensando. – Você…
— Sim…
— Alicia…
— Eu mesma.
— Já quis ficar com alguém desta sala?
— Sim.
— O quê? – disseram os meninos enquanto eu apenas observava.
— Você perguntou, e eu respondi, ué. – disse dando de ombros, logo em seguida Valéria e Marcelina se esticaram por trás de Alicia, que estava no meio delas, sussurraram algo que não pude entender e deram risadinhas fazendo a moleca revirar os olhos. – Nossa, essa vocês tiraram do fundo do baú hein? Se eu escutar esse shipp de vocês de novo, eu revelo seus segredos mais profundos agora mesmo. – resmungou fazendo as duas se calarem e voltarem ao normal.
— Laura pergunta pro Paulo. – disse Daniel após a garrafa digital ter parado.
— Verdade ou consequência, Paulo? – Laura disse olhando para mim o mais séria que já a vi em todos esses anos.
— Verdade. Manda uma boa, Laurinha.
— Paulo… – iniciou e em seguida trocou olhares com as meninas. – Você já se apaixonou?
P.O.V. Alicia
Ficou claro para mim que Paulo não esperava ouvir tal pergunta. Em vez de responder logo, ele permaneceu alguns segundos parado e sem nem mesmo piscar respondeu.
— Não.
— Quais são as punições para quem mente, mesmo? – Koki disse sorrindo maroto para Paulo.
— Fica quieto, sashimi de abóbora. – Paulo resmungou emburrado.
— Paulo… Se você estiver mentindo, os meninos terão o total direito de zoar com você enquanto dorme. – Marcelina disse com a voz calma.
— Que droga de jogo. – respondeu revirando os olhos – Sim. Eu já me apaixonei, felizes? – falou direcionando um olhar raivoso na direção de Koki que parecia se divertir com a situação.
— O Paulo apaixonado, essa eu queria ver! – disse Bibi rindo.
— Eu não sabia nem que ele tinha coração pra se apaixonar. – continuou Valéria, puxando a risada do resto das meninas, inclusive a minha e de alguns dos meninos. Nossas risadas foram cortadas quando Paulo se levantou rápido e saiu da casa batendo a porta, nesse momento todos nos olhamos e percebemos a cagada depois de feita. Mesmo sendo muito idiota a maioria das vezes, ele ainda era humano, ainda tinha pontos fracos e inseguranças. E nós tínhamos acabado de passar dos limites demonstrando total falta de respeito a ele e seus sentimentos.
— A gente realmente passou dos limites. – disse Marcelina tirando as palavras da minha boca.
— Alguém devia ir lá falar com ele. – falei.
— Por que não vai você, Alicia? – disse Koki.
— Justo eu? Ele me odeia!
— Acho que você é a única que ele vai ouvir. – Koki respondeu e Mario concordou com a cabeça.
Desisti de tentar argumentar e tomei o mesmo caminho que o vi fazer, não demorou muito e o achei sentado na calçada com um gato que estava passando por ali.
— Não sabia que gostava de gatos. – disse me sentando ao seu lado.
— Alicia, se você veio pra continuar rindo de mim…
— Eu não vim pra rir de você. – o interrompi.
— Tá aqui por que então? – disse ainda sem olhar pra mim.
— Não sei, conversar talvez. – falei e o vi rir sem voz.
— A gente conversando?
— Acho que você sobrevive a alguns minutos comigo, não? Vamos, é uma pequena trégua. – disse encostando em seu ombro.
— E o que eu ganho com isso? – perguntou agora olhando pra mim.
— Minha amizade, por algumas horas. Ou prefere continuar falando com o gato? – respondi vendo o gato tentar fugir de suas mãos.
— Tá bom…
— Obrigada. – sorri. – Desculpa as piadinhas e risadas, não era nossa intenção te afetar de qualquer forma que fosse.
— Tudo bem, eu sempre soube que era isso o que pensavam de mim. – falou com o olhar distante.
— Posso fazer uma pergunta?
— Já tá fazendo. – me olhou sorrindo. – Fala.
— É verdade o que você disse lá dentro? Sobre ter se apaixonado uma vez…
— Sim, mas já faz muito tempo.
— Ela não correspondia?
— Eu nunca contei ou descobri, mas provavelmente não. Eu só a perturbava.
— Você tem certeza que a superou? Ainda parece tão triste com isso.
— Acho que eu só digo a mim mesmo que sim, mas nunca parei de gostar dela, nem por um segundo sequer.
— E que tipo de garota faz Paulo Guerra se sentir fisgado por tanto tempo, hein? — brinquei.
— Ela é diferente. Não tem nada que mexe comigo desse jeito, exceto ela. — disse olhando em meus olhos.
— E eu a conheço?
— Ela é da turma. – respondeu, fazendo mais um milhão de perguntas surgirem em minha cabeça.
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