A noite já havia se instalado completamente sobre a paisagem quando Sam e Dean chegaram à casa de Bobby Singer. A chuva encharcava a entrada de cascalho, refletindo o brilho fraco da luz da varanda, e trovões distantes rolavam pelo céu como um aviso ominoso. Lá dentro, a casa estava silenciosa, exceto pelo leve rangido da madeira envelhecida e o tique-taque constante de um relógio em algum lugar no fundo. Apenas uma única lamparina a óleo queimava na sala de estar, seu brilho dourado projetando longas sombras tremeluzentes sobre os móveis.

Bobby estava lá, curvado em sua poltrona surrada como um homem carregado de fantasmas. As mãos dele estavam apertadas, os nós dos dedos pálidos. Ele não se mexeu quando a porta se abriu, apenas observou enquanto Dean entrava, pingando da tempestade.

“Bobby?” Dean perguntou, tirando a jaqueta molhada. “O que está acontecendo? Por que você ainda está acordado?”

O velho caçador não respondeu imediatamente. Levantou um dedo aos lábios, os olhos lançando um olhar para o corredor.

“Shhh.”

Sam entrou atrás do irmão, a preocupação franzindo sua testa. “Aconteceu alguma coisa? Onde está a Amelia?”

“Ela está dormindo” disse Bobby baixinho, a voz áspera como lixa. “Mas eu preciso contar uma coisa para vocês. Antes que ela acorde.”

A postura de Dean endureceu. “Contar o quê?”

Bobby respirou trêmulo, como se as palavras resistissem a ser ditas. “Amelia... ela está morta.”

Sam piscou. “Como assim? Você acabou de dizer que ela está dormindo.”

“Quero dizer, quem quer que esteja lá em cima — não é a Amelia. Não pode ser.”

Dean deu um passo mais perto, a voz ficando mais baixa. “Você está começando a me assustar, Bobby.”

“Minha irmã, Elizah... ela teve uma filha. Amelia. O marido dela sumiu antes da criança nascer. Quando Amelia tinha doze anos, Elizah nos disse que ela havia morrido.”

A voz de Sam mal passava de um sussurro. “E a Elizah?”

“Ela morreu treze anos atrás.”

Dean franziu o cenho. “Então por que diabos você não nos contou nada disso antes?”

“Eu não conseguia...” Os olhos de Bobby brilharam com um tormento silencioso. “Na noite em que ela apareceu, eu olhei nos olhos dela, e foi como se algo tivesse agarrado minha mente. Meus pensamentos não pareciam mais meus. Eu sabia que algo estava errado — Deus, eu sabia —, mas não consegui dizer nada. Nem até agora. Enquanto ela está dormindo... é como se a névoa estivesse se dissipando.”

Dean murmurou para si mesmo, depois olhou para Sam. “Eu também senti isso. Esta manhã. Como estivesse mexendo com os meus pensamentos. Não conseguia focar.”

Sam se virou para o corredor escuro. “Se ela não é a Amelia... então quem é?”

Bobby se levantou abruptamente, a cadeira arrastando no chão. Pegou a espingarda carregada de sal da mesinha ao lado. Dean foi até o armário e puxou a Colt, conferindo as balas com um movimento hábil. Sam colocou a mão no bolso da jaqueta e tirou a faca de Ruby.

Eles subiram a escada como sombras, os pés silenciosos sobre as tábuas rangentes. A tensão pairava no ar como fumaça. No fim do corredor, a porta do quarto de hóspedes estava entreaberta, como se estivesse esperando. Dean alcançou a maçaneta e abriu lentamente.

A luz da lua derramava-se pelo quarto, prateando a figura deitada na cama. Seu cabelo ruivo espalhava-se como uma auréola sobre o travesseiro. O peito subia e descia de forma regular. Regular demais.

Dean olhou para os outros e assentiu uma vez.

Ele engatilhou a arma.

Os olhos dela se abriram de repente.

Os tiros ecoaram — as armas de Bobby e Dean dispararam em perfeita sincronia. Mas acertaram apenas o colchão e a madeira. A cama estava vazia.

“Que diabos…?”

A voz dela veio por trás deles, calma e estranhamente firme.

“O que vocês estão fazendo?”

Eles se viraram juntos. Ela estava no corredor, intocada, com a expressão indecifrável.

Sam avançou. A lâmina em sua mão cortou o braço dela. A pele chiou e formigou sob o aço encantado. A ferida começou a borbulhar e ela desapareceu num piscar de olhos.

Um grito ecoou lá embaixo. Eles desceram a escada correndo.

No centro da sala, o fogo ardia em um círculo perfeito — profano e preciso — suas chamas agarrando o ar como seres vivos. A mulher estava presa dentro dele, a postura rígida, os olhos estreitados com irritação contida. A ilusão de serenidade havia se quebrado, substituída não pela raiva, mas por uma consciência aguçada e frustração. Seus lábios se fecharam em uma linha apertada enquanto examinava o limite, as narinas se arregalando levemente — menos por medo do que pela exasperação de ter perdido os sinais.

“Me tirem daqui” disse ela, a voz baixa e controlada, um fio de aborrecimento entrelaçado na calma. “Agora.”

Em frente a ela, logo fora do círculo infernal, estava Castiel. Seu casaco esvoaçava no calor invisível, o rosto indecifrável, os olhos fixos nela com algo entre cautela e determinação. Atrás dele, suas asas brilhavam suavemente, um aviso etéreo gravado no ar.

Dean exalou, a tensão aliviando o suficiente para um leve sinal de alívio arrogante. “Na hora certa, Cas.” Ele bateu no ombro do amigo, o olhar nunca deixando a mulher presa no fogo.

“Espera. O fogo sagrado… isso não faz sentido” murmurou Sam, parando ao lado de Castiel. Seus olhos permaneciam fixos na mulher cercada pelo anel crepitante de chamas. “Eu a cortei com a faca da Ruby.” Ele mostrou a lâmina, a ponta ainda molhada de sangue. Filetes carmesim brilhavam ao longo do metal forjado por demônios, chiando levemente onde pingavam perto demais do fogo.

A expressão de Castiel não mudou. “Faz sentido” disse, o tom grave. “Ela é uma Nefilim.”

“Uma o quê?” perguntaram Dean e Sam em uníssono, ambos os irmãos avançando um passo. Dean acrescentou com suspeita: “E o que exatamente isso quer dizer?”

“Descendente de um anjo e um humano” respondeu Castiel. “Ela causou a explosão. Nefilins são capazes de tal destruição. Sua natureza é volátil.”

A mandíbula de Dean se tensionou, o olhar estreitando no rosto da mulher. “Achei que você disse que vinha de Alliance”.

“Eu vim” respondeu ela com calma, o queixo erguido. “Mas escolhi descer um pouco... fora do caminho comum.”

“Como a matamos?” perguntou Dean friamente, os olhos ainda fixos nela com a intensidade de alguém traído vezes demais.

“Espere” interrompeu Bobby, com o tom afiado, os olhos estreitando sob a aba do boné. “Quero saber como ela possuiu o corpo da Amelia.”

A mulher se virou para ele, finalmente falando por si mesma, a voz clara e firme. “Eu não possuí ninguém.”

Dean zombou. “Claro… E eu sou o próximo Santo Padroeiro dos Caçadores.”

“Você ouviu o Castiel” disse ela com firmeza. “Sou filha de um anjo e um mortal. E não de qualquer anjo. Meu pai estava entre os que foram expulsos do Céu, enviados para o Sheol. Cumpriram sua penitência na escuridão. Quando alguns escaparam para a Terra, deixaram filhos para trás.”

“Elizah…” murmurou Sam, o nome como um fantasma entrando novamente na sala.

“Sim. Ela soube o que eu era desde o começo. Conforme amadureci, os poderes despertaram — primeiro de formas pequenas, depois de maneiras aterrorizantes.”

“Poderes?” perguntou Sam, a curiosidade piscando por trás da cautela em sua voz.

“Tanto celestiais quanto abissais” disse ela, a voz firme apesar da sombra que cruzava seus olhos. “Por causa da linhagem do meu pai. Quando completei doze anos, minha mãe percebeu que meus poderes estavam ficando fortes demais, perigosos demais para esconder. Ela fez eu me esconder, me enviou embora para me manter segura. Mas meu pai continuou me caçando. Elizah... ela já não sabia onde eu estava. Ele a matou por isso.” A voz dela baixou, quase reverente.

Dean cruzou os braços, impassível. “Então por que está aqui?”

“Para ajudar vocês” disse sem hesitação. “Vocês estão em perigo. Me tirem desse círculo…” ela gesticulou para o fogo sagrado que tremulava ao redor de seus pés, o calor se refratando na pele dela, mas sem queimar “e eu explicarei tudo.”

A voz de Dean foi gelada. “Claro. Você nos ajuda... e depois? Nos mata enquanto dormimos?”

“Dean” Castiel interrompeu, a voz calma mas firme. Aproximou-se da mulher. “Qual é a sua linhagem?”

Ela encontrou o olhar dele sem hesitar. “Os Acólitos. Bebemos fundo da essência da vida. Mas também defendemos o que acreditamos, com tudo que temos. Não vacilamos.”

O anjo encarou seus olhos. Azul encontrou verde — radiante, desafiador, antigo. Qualquer verdade ou engano que persistisse nas palavras dela estava enterrado profundamente. Mas a mente de Castiel, diferente da percepção humana, atravessava mentiras como fumaça.

Ele ergueu a mão sobre o fogo. Com um sussurro de poder, as chamas tremeram — e então se apagaram, deixando apenas tábuas queimadas e silêncio.

A mulher lhe deu um sorriso torto, sem humor. “Obrigada.”

“Agora” disse Castiel, dando um passo para trás, “explique que perigo enfrentamos.”

Ela saiu do círculo, ficando diante deles com uma determinação composta, embora o cansaço se agarrasse a cada linha de seu corpo.

“Vim trazer notícias” disse.

Dean levantou uma sobrancelha. “Boas ou ruins?”

“Se fossem boas, eu não estaria aqui.” respondeu secamente. “É o Apocalipse.”

Dean explodiu em risada — curta, seca, incrédula. O som ficou no ar como algo quebrado. Os outros o encararam.

“Você está brincando” disse, entre os risos. “Desculpa estragar pra você, querida, mas você está um pouco atrasada. Esse lance de fim dos tempos? A gente terminou isso há um ano.”

“Estou ciente” disse ela, levantando a mão quando Dean começou a falar de novo. “Sam disse sim para Lúcifer. Eles o trancaram com Miguel. Mas tudo foi prematuro. Apressado. Vocês todos esqueceram algo vital — precursores que vêm antes da verdadeira batalha.”

“Aquilo não foi o Apocalipse” acrescentou, com voz baixa. “Foi um ataque de raiva. Um ensaio. Um erro de cálculo de seres que se achavam infalíveis.”

O sorriso de Dean desapareceu.

Sam se inclinou para frente. “Que precursores?”

“As Sete Trombetas. Nenhuma foi tocada.”

“Trombetas?” repetiu Sam.

Castiel assentiu lentamente. “As Sete Trombetas” confirmou. “Depois que o Sétimo Selo é quebrado, e Lúcifer é libertado, a guerra final — o Armagedom — começa somente após o toque das Trombetas. Cada uma é seguida por devastação: fogo, sangue, fome... e pior.”

“Mas… como sabe que as trombetas não foram tocadas?” perguntou Sam, a voz presa entre descrença e pavor, os olhos estreitando como se tentasse enxergar uma fissura na certeza das palavras dela.

Amelia mal se mexeu, mas sua presença parecia preencher a sala inteira com um peso opressivo.

“Porque” começou, com o tom impregnado de frieza definitiva, “além do simples fato de que o mundo ainda não mergulhou em uma catástrofe absoluta… nós, celestiais e abissais, podemos ouvi-las quando soam.” Seu olhar percorreu cada um deles, como se julgasse silenciosamente a ignorância deles. “Não como mortais, não com ouvidos, mas no âmago de nossos seres. A ressonância cortaria a própria existência.” Ela fez uma pausa, deixando o peso da verdade assentar. “E enquanto os arcanjos caminharam por esta terra... nenhuma trombeta foi ouvida.”

Sam balançou a cabeça, a voz subindo em desespero.

“Mas... mas todos os selos — foram quebrados!”

“Sim, Sam” respondeu Amelia com uma compostura irritante, como se falasse com uma criança que não enxergava a verdade mais óbvia. “Mas só porque os selos se quebram… não significa que as trombetas soem imediatamente, nem que a Grande Batalha comece logo em seguida.” Sua voz baixou, mais suave, porém mais pesada, como uma tempestade que se aproxima no horizonte. “Não... até agora.”

Dean exalou com força, uma maldição escapando de seus lábios. “Merda. Você só pode estar brincando.”

Sam, agarrando-se a algo sólido em meio ao desmoronamento, insistiu: “Mas Lúcifer... e Miguel... eles estão presos na Jaula. Não tem como eles saírem, a não ser usando os anéis que estão com a gente!”

Amelia soltou uma risada amarga, sem humor. “Eles não precisam dos anéis” disse, cada palavra soando como o barulho em ferro. “Não quando têm um garoto chamado Jesse.”

Dean virou-se para ela abruptamente, a descrença lutando com a memória em seus olhos, e por um momento fugaz, pareceu que ele iria zombar — rir de tudo como uma piada ruim. Mas Amelia captou aquele olhar, sua voz se espalhando pela sala como um laço.

“Aposto que você se lembra dele... não é?”

Dean engoliu seco, já ouvindo o nome antes mesmo de pronunciá-lo. “Jesse... o Anticristo?”

Uma risada oca, quase desesperada, escapou dele, como se rir pudesse afastar a própria ideia.

“Impossível” murmurou, agarrando-se à palavra como se pudesse protegê-los.

“Impossível?” repetiu Amelia, a voz agora embebida em veneno, um sorriso sem alegria puxando o canto da boca. “É isso que você acha?” Sua risada então foi outra coisa — baixa, fria, amarga. “Não quando ele decidiu abrir uma pequena... ‘transmissão de rádio’... entre ele e seu querido ‘papai’ — Lúcifer.”

A respiração de Sam falhou. “O que... o que você está dizendo?”

Os olhos de Amelia escureceram enquanto ela dava um passo deliberado para mais perto, o ar da sala se adensando ao redor dela.

“Estou dizendo... que vocês deveriam tê-lo matado quando tiveram a chance.”

Ela avançou lentamente pela sala, sua silhueta traçando linhas afiadas contra a luz trêmula do lampião, como se a própria verdade tivesse animado seus membros. Sua voz ganhou impulso, elevando-se a cada sílaba.

“Vocês não sabiam... sabiam?” ela disse, os olhos brilhando com algo perigosamente próximo da raiva. “Os pais adotivos dele passaram meses procurando por ele. Eu os observei — de perto — enquanto a alma daquela mulher se despedaçava... a cada dia, o coração dela se partia um pouco mais, se perguntando se o filho estava morto ou vivo. Eu vi o jeito que os olhos dela se iluminavam de esperança toda vez que o marido entrava por aquela porta... apenas para que essa esperança fosse extinta de novo, e de novo, e de novo.”

Sua voz se fraturou, crua e elétrica. “Até que, finalmente... quando ela não aguentou mais... encontrou sua própria maneira de acabar com o sofrimento. Ela acreditava que o filho estava morto, então... decidiu se juntar a ele.”

Um silêncio pesado engoliu a sala por completo.

“Ela cortou a própria garganta na cozinha,” Amelia continuou, sua voz agora desprovida de emoção, relatando o horror como se estivesse gravado em seus ossos. “O marido a encontrou... deitada em uma poça de seu próprio sangue, a faca ainda na mão fria e sem vida.”

As palavras aterrissaram como marteladas. Ninguém falou.

“E o homem?” Amelia inclinou a cabeça, os olhos se estreitando. “Ele quebrou. Qualquer fio frágil de sanidade que ainda restava nele... se partiu. Me digam, Sam — Dean — o que vocês acham que acontece com um homem que perde tudo em menos de um mês?”

Ela deixou a pergunta pairar, deixando que o veneno se infiltrasse neles.

“Ele vive agora em uma instituição,” ela mesma respondeu, suavemente, “atormentado pela imagem do cadáver da esposa e pela insuportável e sem resposta pergunta sobre o que aconteceu com o filho... esperando, dia após dia, que a morte venha libertá-lo de tudo.”

Seus olhos brilharam, predatórios. “E Jesse...?” ela perguntou, então sorriu de canto. “Jesse sabe. Ele descobriu tudo.”

Ela deu mais um passo à frente, lento e inevitável.

“E adivinha quem ele culpa por tudo isso?”

A voz de Sam mal conseguiu romper o ar sufocante, mais um sopro do que uma palavra. “A... gente...”

Os lábios de Amelia se curvaram. “Exatamente, Sam.”

Sua voz mudou, transformou-se — já não era mais dela, mas como se algo antigo e ferido falasse através dela, uma voz estilhaçada pela dor e pela raiva.

Quem entrou na minha vida e me disse o que eu era?” ela sibilou, dando mais um passo à frente. “Tudo era pacífico. Eu tinha meus brinquedos, minha imaginação. Por que vocês simplesmente não me deixaram lá? Quem me fez fugir? Quem fez mamãe se matar e papai perder a sanidade?”

Sua voz se elevou a cada pergunta até não ser mais humana. Seus olhos esmeralda arderam de forma aterradora, vermelho-sangue, pulsando como brasas prontas para incendiar.

De quem é a culpa?” ela gritou, sua voz rachando as paredes, sacudindo os próprios alicerces da casa. As tábuas do chão sob eles gemeram; as paredes tremeram; livros despencaram violentamente das prateleiras, aterrissando com ruídos ocos e ecoantes.

DE VOCÊS, Sam e Dean Winchester!” ela rugiu, todo o seu ser em chamas de fúria e angústia, como se sua própria alma tivesse pegado fogo.

O chão estremeceu sob os pés deles. Dean e Sam ficaram congelados, olhos arregalados, paralisados. Bobby instintivamente sacou sua arma, apontando-a diretamente para ela. Castiel se moveu rápido, mais rápido que o pensamento, aproximando-se de Amelia.

“NEPHILIM,” ele ordenou, sua voz um sussurro baixo e resoluto em seu ouvido, espesso com autoridade angelical. “Acalme-se.”

Instantaneamente, o vermelho em seus olhos vacilou, enfraqueceu e se apagou. Seu peito arfava enquanto ela puxava o ar em respirações irregulares, os joelhos quase cedendo. Ela se apoiou no braço do sofá, sua força momentaneamente drenada.

Ela assentiu em silenciosa gratidão para Castiel antes de voltar o olhar para os outros. Sua voz estava mais baixa agora, carregada de remorso.

“Eu... eu sinto muito.”

Dean e Sam não responderam; apenas a encararam, como se a estivessem vendo — realmente vendo — pela primeira vez. Bobby ainda mantinha a arma estendida, mas suas mãos começaram a tremer.

“É... difícil, às vezes... manter o equilíbrio,” ela admitiu, a voz desfiada nas bordas.

Dean finalmente se livrou do silêncio paralisante.

“Que diabos foi isso?” ele disparou, como se o simples volume pudesse afastar o medo.

Amelia se endireitou, alisando o cabelo para trás, sua compostura retornando lentamente, como uma máscara deslizando de volta ao lugar. “Vocês precisam entender uma coisa,” ela disse firmemente. “Eu sou... uma criatura tão poderosa quanto o Anticristo.”

Bobby abaixou a arma, mas não a soltou. Seus olhos se estreitaram. “Como isso é possível?”

Amelia respirou lenta e firmemente, como se estivesse se recuperando do precipício sobre o qual acabara de cambalear.

“Porque eu sou... um híbrido raro e altamente improvável,” ela explicou suavemente, sua voz se infiltrando no ar espesso. “Filha de um humano e de um anjo que caiu no abismo... e depois voltou para caminhar entre os homens.” Ela fez uma pausa, permitindo que a revelação penetrasse em seus ossos. “Só isso já me torna... desejável... tanto para o Céu quanto para o Inferno. Eles me veem como uma ferramenta, um peão... algo a ser usado.”

Ela os olhou, sua expressão sombria, quase pesarosa.

“Mas esse equilíbrio que eu caminho... é frágil. Se eu o perder, se eu pender demais... posso ser forçada a servir — ou aos céus... ou aos abismos abaixo. E acreditem...” Sua voz escureceu. “Não existe um lado que valha o preço de ser usada como marionete”.

Dean franziu a testa, inclinando-se ligeiramente para a frente. “E de qual lado você preferiria cair?”

Os olhos de Amelia se fixaram nos dele, inabaláveis.

“De nenhum, Dean,” ela disse, sua voz quieta mas implacável. “É por isso que estou aqui.”

Ela se virou ligeiramente, andando de um lado para o outro enquanto reunia seus pensamentos finais.

“O Anticristo... Jesse... ele tem falado com o ‘papai’ cada vez mais. Ele planeja libertá-lo em breve. E quando o fizer... Miguel o seguirá.”

Dean soltou uma risada amarga e vazia. “Então... toda essa merda vai começar de novo.”

Amelia parou de andar, encarando-os. “Sim,” ela disse simplesmente. “Mas desta vez... duvido que eles queiram qualquer um de vocês como receptáculos.”

A mandíbula de Dean se contraiu. “Por quê?”

Ela permitiu-se um pequeno, quase piedoso sorriso.

“Porque, Dean... vocês foram uma completa perda de tempo para eles. E acho que eles aprenderam a lição sobre tentar usar vocês como avatar.”

O rosto de Dean se contorceu com a franqueza da resposta, mas ele não disse nada.

Sam exalou pesadamente. “Então… qual é o nosso papel nisso tudo? Porque estou supondo… que se não fosse sobre nós, você não estaria aqui.”

Os olhos de Amelia se afiaram, frios e resolutos.

“Vocês vão lutar contra eles” disse simplesmente. “Não está escrito… mas, se quiserem se salvar — e a esta terra — vão ter que detê-los de alguma forma.”

Ela lançou um olhar ao redor da casa escura e trêmula, onde os ecos de sua fúria ainda pairavam como fantasmas.

“Vai causar estragos” acrescentou em voz baixa. “Mas… é a melhor chance que temos.”

A voz de Dean cortou o ar denso como uma lâmina desgastada pelo uso excessivo, seu tom impregnado de cinismo.

“A melhor que temos?” zombou, cruzando os braços com aquela marca registrada de desafio que mal escondia o crescente medo por baixo. “E com o que, diabos, nós deveríamos lutar? Com a Colt? Aquela coisa não serve pra nada agora.”

A expressão de Amelia permaneceu calma, quase assustadoramente assim, diante do sarcasmo dele. “Exatamente por isso que vocês não vão usar a Colt.”

Seu olhar se moveu, primeiro para Dean, depois para Sam, como se medisse o peso que cada homem podia suportar.

“Dean vai empunhar a Flagelo de Fogo, enquanto para você, Sam… ainda estou trabalhando em algo.”

O fraco crepitar da lareira foi o único som por um momento, enquanto as palavras se infiltravam na atmosfera opressiva.

“A Flagelo de Fogo?” A voz de Castiel irrompeu, afiada de incredulidade. Ele deu um passo à frente, a luz fraca capturando as bordas de seu surrado sobretudo. “E como exatamente você pretende encontrá-la?”

Amelia permitiu-se um suspiro que beirava algo parecido com um humor sombrio, embora seus olhos traíssem a dor escondida por baixo.

“Gabriel era… um querido amigo. Ele sabia que algo não estava certo. Antes de desaparecer, ele me deu algumas pistas caso um dia eu precisasse…” Ela não terminou o pensamento, apenas o deixou pairar como o cheiro de cinzas. “E, Castiel… sob nenhuma circunstância você deve voltar ao Céu.”

O anjo se endireitou, sua autoridade celestial endurecendo sua voz.

“Você está insana. Há uma guerra. Eu devo lutar.”

Mas Amelia balançou a cabeça lentamente, como se lamentasse a teimosia dele.

“Aquela guerra é uma armadilha. Uma fachada orquestrada para ganhar tempo até o retorno do Príncipe dos Arcanjos. E quando ele se erguer… eles caçarão os traidores tão impiedosamente quanto caçam demônios.”

“Eu não acredito em você.”

Sua voz suavizou, quase triste, embora a convicção não vacilasse.

“Irmão, não deixe que o orgulho consuma a sua graça.”

“Eu não sou seu irmão.” Castiel articulou cada palavra com o distanciamento clínico de quem corta um laço que se recusa a reconhecer que um dia existiu.

Os lábios de Amelia se entreabriram como se fosse argumentar, mas logo se fecharam. Ela sabia que seria inútil desperdiçar palavras com o orgulho de um anjo. Esse era o fardo deles — poder sem sabedoria à altura.

“Muito bem” disse finalmente, a voz impregnada de uma resignação silenciosa. “Boa sorte… sobrevivendo.”

Ela se virou, mais uma vez focando nos outros.

“O Anticristo está procurando por vocês… por todos vocês. Para libertar os arcanjos bem na frente dos próprios homens que os selaram.”

Ela fez uma pausa, os olhos se estreitando.

“Tentem… não chamar muita atenção.”

Dean balançou a cabeça, a frustração rompendo a fina camada de sarcasmo.

“Espera aí. Ainda não entendi. Que diabos é a Flagelo de Fogo?”

Amelia soltou o ar, sua paciência visivelmente se desfazendo nas bordas.

“Graças a Deus que, pelo menos, você é bonito” murmurou, então elaborou com mais firmeza: “A Flagelo de Fogo é a espada de Gabriel. Todo arcanjo possui uma espada própria”.

“Como a que o Cas tem?” perguntou Sam, franzindo a testa enquanto tentava montar as peças dispersas desse quebra-cabeça impossível.

Amelia olhou diretamente para ele, seu olhar pesado com o peso de um conhecimento não dito. “Muito, muito mais poderosa, Sam.”

Sam soltou o ar, passando a mão pelo cabelo. “Então… o Dean deve lutar contra Miguel com essa… coisa, e eu devo enfrentar Lúcifer com uma espada que você ainda está… trabalhando?”

“Por enquanto, sim.” A voz de Amelia era aço sob seda. “Mas estou procurando outra coisa. No final… pode ser que tudo pareça bem diferente.”

Sam engoliu em seco, mas Dean interveio com a mesma força bruta que sempre usava como arma.

“E o Anticristo? Jesse. Quem diabos vai lidar com ele? Nem conseguiremos chegar perto dos arcanjos se ele estiver de guarda.”

Os olhos de Amelia se obscureceram, uma tempestade se formando atrás deles.

“Por isso… eu serei quem vai matá-lo… na batalha final.”

Suas palavras caíram como ferro no ambiente, e por um longo momento, ninguém ousou falar. O único som foi o suspiro exausto de Bobby ao finalmente colocar a arma sobre a mesa de madeira marcada e afundar-se numa cadeira, enterrando o rosto nas mãos. Seus ombros cederam, como se os anos de guerra e perda tivessem finalmente quebrado algo nele que nem o tempo poderia consertar.

Amelia se aproximou de onde ele estava sentado, ajoelhando-se para que seus olhos ficassem no mesmo nível. Sua voz suavizou, esgarçada nas bordas por algo velho demais para palavras.

“Tio… me desculpe. Você não faz ideia do quanto eu queria que as coisas fossem diferentes. Que a mamãe ainda estivesse aqui. Que nós… nós pudéssemos ter sido uma família. Ela ficaria tão feliz em te ver… só mais uma vez…”

Mas Bobby ergueu a cabeça bruscamente, o rosto distorcido em algo entre fúria e repulsa.

“Pare de falar dela.” Sua voz era como cascalho, áspera e fria. “Você pode ser muitas coisas… mas família? Você não é isso. Você é um parasita. Eu queria que você tivesse continuado morta… como a Elizah disse que você estava.”

Ele se levantou abruptamente, empurrando a cadeira com um rangido contra o chão gasto, tomando cuidado para não tocá-la ao passar.

“Vamos aguentar você até essa bagunça acabar. Mas depois disso… não quero ver sua cara nunca mais.”

As palavras dele caíram como golpes, e Amelia pôde sentir os olhos deles sobre si — a piedade de Sam, a hostilidade cautelosa de Dean, o distanciamento indecifrável de Castiel. Seus olhos marejaram, tornando a visão turva, mas ela conteve as lágrimas. Engoliu em seco, lutando contra a ardência na garganta, enquanto seu lado humano — frágil, fraturado — ameaçava romper o já tênue controle.

Seus olhos começaram a escurecer, o negro abissal de sua natureza emergindo, sinalizando o perigoso desequilíbrio interno. Ela cerrou os dentes, forçando a escuridão de volta, um suspiro irregular de cada vez.

Bobby parou a meio caminho da porta, virando-se uma última vez, sua voz desprovida de qualquer calor.

“E você pode ficar em qualquer lugar desta maldita cidade… mas não na minha casa.”

Seu olhar deslizou para Sam e Dean, gesticulando bruscamente.

“Vamos.”

Dean mal lançou um olhar para Amelia, sua expressão travada num cenho fechado enquanto passava por ela. Sam hesitou por um momento, os olhos cheios de algo parecido com tristeza — mas não disse nada. Dean deu um empurrão brusco no ombro do irmão, puxando-o em direção à porta.

E, assim, a casa esvaziou-se, deixando Amelia sozinha nas sombras trêmulas da sala de estar, o silêncio pressionando-a como um túmulo.

Ela não se moveu por um longo tempo, nem sequer respirou, os punhos cerrados tão firmemente que as unhas se cravaram nas palmas, ancorando-a no aqui e agora.

Uma tempestade estava chegando — uma que ela ajudara a pôr em movimento — e, quando explodisse, não haveria misericórdia para ninguém apanhado em seu caminho.

Nem para eles.

Nem para ela.

Nem para ninguém.

Notas finais
Deixem o seu comentário!