Amelia permaneceu ajoelhada no chão de madeira gasto, a respiração superficial, a mente uma tempestade silenciosa. Ela não esperava que isso se desenrolasse assim — embora, na verdade, nunca tivesse acreditado de verdade que tudo passaria silenciosamente, como o suave fechar de um livro antigo. Não, a paz era algo há muito negado a ela.

Só então ela registrou a presença que ainda pairava atrás dela, imutável como pedra. O anjo. É claro.

Ela se levantou em um único e fluido movimento — um momento ajoelhada na sala de estar abafada e sufocante de Bobby Singer, no seguinte de pé no silêncio estéril de um quarto de motel muito distante. A chuva golpeava a janela, enquanto relâmpagos rasgavam o céu escuro, iluminando o papel de parede barato em explosões sincopadas de luz pálida e violenta.

Mas quando ela se virou, não estava sozinha.

Castiel se apoiava na parede oposta do quarto, sua silhueta esculpida da sombra, o sobretudo úmido com condensação celestial, como se até mesmo o ato de segui-la tivesse torcido o próprio tecido de seu ser.

A voz de Amelia, quando veio, estava carregada de sarcasmo, embora seus olhos ardessem com uma fúria silenciosa.

“Então… agora eu tenho um cão de guarda? É isso?” Seu tom era uma lâmina afiada não para a violência, mas para o desprezo.

Sem esperar pela resposta dele, ela se moveu em direção à porta, cada passo intencional, cada músculo tensionado com a certeza de que não suportaria ser seguida como uma presa. Ela estendeu a mão para a maçaneta, determinada a desaparecer mais uma vez para dentro da noite, deixando até mesmo essa sombra divina para trás.

Mas antes que seus dedos pudessem tocar o metal frio, Castiel estava lá subitamente, parado diretamente à sua frente, bloqueando sua saída.

“Você não vai a lugar nenhum.” Sua voz não carregava raiva, apenas aquela finalização medida e imutável que tornava sua espécie tão perigosa.

Amelia inclinou a cabeça, observando-o com algo entre diversão e desdém.

“Qual o problema? Não confia em mim, anjo”

“Nem um pouco.”

Um sorriso amargo surgiu em seus lábios, mas não conseguiu ocultar totalmente o lampejo de tristeza que passou, rápido e involuntário, por seus olhos.

“Compreensível” murmurou. “Deve ser difícil… perceber que seus próprios irmãos têm mentido para você esse tempo todo.”

Ela deixou seu olhar vagar — embora não sem direção. Ela olhou através dele, além da parede e para aquele lugar que só ela podia ver, onde a aura de sua graça sangrava para dentro do próprio tecido da realidade.

“E sua aura…” ela respirou, sua voz baixando para algo íntimo, perigoso. “Ela emana ódio. Por mim, sem dúvidas.”

Sua risada, baixa e fria, ecoou fracamente contra as paredes do pequeno quarto.

“Mas não é culpa minha. Nada disso é. Tudo começou a desmoronar no momento em que Miguel foi preso na Jaula com Lúcifer. Se quer a verdade… nunca realmente acabou. Então não me culpe por trazer tudo à luz.” Seus olhos brilharam com algo afiado, quase cruel. “Um simples “obrigada” bastaria.”

Sem esperar pela resposta dele, ela deslizou por ele, entreabrindo a porta. O ar noturno a atingiu em uma investida violenta enquanto a chuva caía, encharcando-a instantaneamente, o frio mordendo sua pele quando ela pisou sob o céu quebrado.

“Tenho coisas mais importantes com que lidar”.

Mas ela mal havia dado três passos quando a voz dele veio novamente, quieta, mas inamovível:

“Eu disse… você não vai a lugar nenhum.”

Antes que pudesse reagir, ele estava lá novamente, a mão se fechando firmemente sobre seu ombro, detendo-a no meio do passo.

Amelia se virou bruscamente, sua expressão agora desprovida de toda a pretensão, a brincadeira desaparecida, substituída por algo muito mais frio — muito mais antigo. Sua voz era baixa, perigosa:

“Castiel… me solte”. Seus olhos se fixaram nos dele com uma intensidade que parecia drenar o próprio ar entre eles. “Eu não quero te machucar.”

Mas o aperto de Castiel apenas se intensificou.

“Eu quero.”

Ela viu a tempo — a mudança em sua postura, o mais leve movimento de seu braço enquanto o aço celestial sussurrava ao surgir na existência.

A lâmina desceu, um borrão de luz santificada e intenção mortal.

Amelia mal teve tempo de reagir, sua própria espada convocada em um único pensamento, sua mão agarrando o cabo familiar enquanto a arma se erguia, interceptando a lâmina do anjo no meio do golpe.

O choque enviou uma explosão de faíscas espalhando-se violentamente pelo ar, o chiado de sua colisão momentaneamente mais alto que a tempestade lá fora.

A espada dele era como as carregadas por todos os de sua espécie: prata pura, etérea e fria, mas ao longo de sua extensão, sigilos carmesins ardiam — antigas runas enoquianas que pulsavam com propósito letal.

A dela, em contraste gritante, reluzia com um brilho totalmente seu: dourada, quase ofuscante sob a luz trêmula do motel, com intricados escritos prateados gravados na superfície da lâmina — runas tão potentes, tão imutáveis, quanto aquelas que marcavam a dele.

Por um momento eles ficaram ali, presos naquele tableau congelado, o som da chuva tamborilando contra as janelas, as únicas testemunhas dos antigos poderes se enfrentando em um canto esquecido do mundo.

O coração de Amelia batia com precisão firme e medida. Esta era a única linguagem que sua espécie realmente compreendia.

Violência.

Vontade.

E a tênue, inevitável linha entre as duas.

“Castiel, pare com isso!” Amelia rosnou, sua voz tensa de fúria e de algo perigosamente próximo ao desespero.

“Só vou parar quando você estiver morta” o anjo rebateu friamente, seu tom desprovido de misericórdia.

Num instante, ele se moveu — rolando para o lado com a graça fluida de um predador, avançando como uma besta libertada. Sua lâmina reluziu na luz fraturada, descrevendo um arco em direção a ela com intenção letal.

Mas Amelia foi mais rápida — ou talvez simplesmente mais determinada a sobreviver. Ela girou, aparando o golpe com um grito metálico agudo enquanto suas espadas se encontravam mais uma vez num choque que fez o próprio ar estremecer entre eles. Ainda assim, à medida que suas armas se travavam e deslizavam uma contra a outra, ficava cada vez mais claro que Castiel pressionava a vantagem.

Não por superioridade técnica — não, suas habilidades eram igualmente equilibradas — mas porque Amelia continha algo. Ela lutava com contenção, uma hesitação enraizada não no medo, mas no conhecimento de que cada segundo desperdiçado aqui era um tempo precioso escorrendo por entre seus dedos. Tempo que ela não podia se dar ao luxo de perder nesta escaramuça fútil, não quando a lâmina do Arcanjo permanecia escondida lá fora, esperando para ser encontrada.

A chuva continuava a martelar a terra ao redor deles, encharcando suas roupas, colando mechas de cabelo carmesim à bochecha de Amelia enquanto ela defletia mais um golpe feroz. Seu peito subia e descia rapidamente, a frustração se acendendo dentro dela. Isso não podia continuar.

Com uma respiração firme, ela fez sua escolha.

Num movimento súbito e decisivo, ela deslocou seu peso e avançou — não para se defender, mas para acabar com aquilo. Sua espada varreu em um amplo e impiedoso arco. Castiel ergueu sua arma para aparar, mas tarde demais. A força de seu golpe o desarmou limpidamente, enviando a lâmina dele voando pelo ar encharcado de chuva, até aterrissar com um pesado clangor na extremidade do pátio, sumindo nas sombras.

Antes que ele pudesse se recompor, Amelia avançou. A ponta de sua espada pressionou o vão de sua garganta, sua pegada inabalável.

“Agora… me escute” ela sibilou entre dentes cerrados, sua voz tremendo não de medo, mas de uma fria e furiosa determinação. A chuva escorria da ponta de sua lâmina até o peito do anjo enquanto ela se inclinava mais, seus olhos ardendo com algo primal e cru.

“Chega dessa infantilidade.” Seu olhar o atravessava, afiado como a arma que ela segurava contra o pescoço dele. XNão tenho intenção de te ferir… ou aos Winchesters. E se é a minha morte que você deseja, saiba disto” sua voz baixou a um quase sussurro, amarga e inflexível: “eu não sobreviveria ao crepúsculo deste mundo.”

Castiel sustentou seu olhar, sua expressão uma máscara fria de desafio, mesmo com a espada dela ameaçando romper sua pele.

“Então espero que seja eu quem consiga te matar” ele cuspiu, o veneno em suas palavras respingando sobre ela como a chuva que encharcava os dois.

Um leve, triste sorriso puxou o canto dos lábios dela.

“Talvez, de alguma forma… Pare de me seguir.”

Então, tão repentinamente quanto ela atacara, o som de asas — massivas, invisíveis, antigas — cortou através da tempestade. Uma rajada de ar espiralou para fora e, num piscar de olhos, Amelia se foi, deixando Castiel sozinho na chuva, sua lâmina perdida, sua missão fracassada.


|•|


O ar na casa de Bobby Singer estava parado, pesado com poeira e o cheiro de papel antigo. As janelas estremeciam levemente enquanto o vento pressionava contra elas, mas dentro daquelas paredes, havia apenas o som quieto das páginas virando.

“Então… Bobby, você encontrou alguma coisa?” perguntou Sam, sua voz carregada de uma urgência mal disfarçada. Seus dedos tamborilavam inquietos contra a mesa de madeira enquanto ele se inclinava sobre um dos muitos tomos antigos espalhados diante deles.

Já fazia dois meses desde que a Nephilim desaparecera. Castiel havia tentado seguir, mas eventualmente… sua trilha esfriou. Desde então, nada. Nenhum sinal, nenhum presságio. Apenas silêncio.

Bobby exalou pelo nariz, fechando um dos grossos livros com um baque surdo.

“Nada. Está tudo quieto… quieto demais.” Ele se recostou na cadeira, esfregando as têmporas. “Aquela charlatã nos enganou a todos. Inventou tudo.”

“Mas… por que ela mentiria?” A testa de Sam se franziu, sua mente se recusando a aceitar a resposta simples. Não fazia sentido.

“Ela não mentiu.”

A voz cortou a sala como uma lâmina.

Ambos os homens se viraram bruscamente para encontrar Castiel parado na porta, sua presença tão repentina e sombria quanto a própria morte.

Seu sobretudo e terno estavam encharcados de sangue, rasgados em pontos onde lacerações profundas cruzavam seu corpo. O vermelho manchava o tecido outrora imaculado, escorrendo de feridas que nem sua graça conseguia conter. Seu rosto estava pálido, riscado de chuva e sangue, sua expressão esvaziada pela dor.

Ele vacilou sobre os pés e então caiu para frente.

“Cas!”

Sam avançou, o instinto assumindo o controle enquanto corria para segurar o anjo antes que ele desabasse. Mas assim que suas mãos se estenderam — a poucos centímetros da forma ensanguentada de Castiel —, o mundo ao seu redor estremeceu.

Por um segundo, tudo congelou: o ar abafado da casa de Bobby, as tábuas gastas do assoalho sob suas botas, o maxilar tenso de Bobby do outro lado da sala.

E então — nada.

O chão desapareceu sob ele, a sala foi arrancada num instante.

Sam já não estava mais lá.

Suas mãos estendidas agarraram apenas o vazio enquanto ele tropeçava para frente, caindo não na segurança da sala desordenada de Bobby, mas no meio de um vasto campo aberto.

O vento frio mordia sua pele enquanto seus olhos se arregalavam em descrença.

Um cemitério.

O mesmo…

Assim que a realização se instalou como uma pedra em seu peito, ele ouviu a voz de Dean chamando ao longe —


“Sammy…”.



Em outro lugar…


Dean saiu do pequeno restaurante de beira de estrada, um saco de papel apertado em uma mão, um sanduíche meio comido na outra. O ar da noite estava fresco, impregnado com o cheiro de asfalto molhado e pinho. Ele puxou as chaves do carro do bolso, caminhando em direção ao Impala estacionado sob a placa de néon trêmula.

Deslizando para o banco do motorista, ele enfiou a chave na ignição — mas antes que pudesse girá-la, tudo ao seu redor desapareceu.

Num instante, o mundo se dissolveu no nada.

Ele piscou — e se viu parado em um campo aberto.

Não… não apenas um campo. Um cemitério.

O mesmo cemitério.

Sua respiração ficou presa na garganta. Ele conhecia esse lugar. Um ano atrás, ele estivera exatamente ali… quando ele e Sam selaram os arcanjos na Jaula.

Mas como diabos ele tinha voltado ali?

Enquanto o peso da memória se assentava sobre ele como um sudário, a respiração de Dean ficou presa na garganta.

Então, pelo canto do olho — movimento.

Ele virou bruscamente a cabeça, os olhos se estreitando, a mão instintivamente indo para onde sua arma deveria estar, mas tudo o que viu foi uma figura parada ali, no meio do campo aberto.

“Sammy…”

O nome escapou de sua garganta antes que pudesse contê-lo, meio alívio, meio descrença.

Sam se virou, a confusão escrita em todo o seu rosto como se tivesse sido arrancado de outro lugar e jogado ali sem aviso.

Dean deu um passo mais perto, suas botas afundando levemente na terra úmida.

“Sam… que diabos? Você simplesmente… apareceu”, ele disse, a voz áspera, baixa, como se dizê-la muito alto pudesse quebrar o frágil controle que ainda tinham sobre a realidade.

Sam olhou ao redor, seus olhos vasculhando as lápides, a extensão sombria do cemitério, e então se fixaram de volta em Dean.

“O que diabos está acontecendo, cara?”

Dean engoliu em seco, o maxilar se apertando enquanto exalava pelo nariz, seu pulso martelando nos ouvidos.

“É… queria saber.”

O ar se adensou ao redor deles, frio e pesado com algo que nenhum dos dois conseguia nomear.

Dean exalou, passando a mão pelos cabelos.

“Filho da mãe.”

Um aplauso lento e zombeteiro ecoou atrás deles.

“Ora, ora, ora… olhem só o que temos aqui.”

Ambos os irmãos se viraram bruscamente.

Um homem estava parado a poucos metros de distância, braços cruzados, um sorriso curvando os lábios. Não podia ter mais de vinte e cinco anos, com cabelos negros como azeviche e olhos que brilhavam com algo inumano.

Dean estreitou os olhos, tentando reconhecer o rosto.

O estranho inclinou a cabeça, fingindo decepção.

“Ah, qual é, Dean… não me diga que não me reconhece. Claro, eu cresci um pouco — decidi envelhecer, sabe? Não queria ficar criança para sempre. Mas não mudei tanto assim.”

Os olhos de Dean se arregalaram.

“Jesse…”

“Bingo”. O homem estalou os dedos. “Muito bem, Dean. E Sam… como você está? Parece que finalmente venceu aquele probleminha do Grande Muro de Sam na sua cabeça, hein? Tá bem melhor que meu pai… coitado, ainda preso naquela Jaula com o irmão. Mas não por muito tempo… certo?”

“Seu filho da…”

Dean avançou, mas Jesse levantou casualmente a mão, e a voz de Dean desapareceu antes que a última sílaba pudesse sair de seus lábios.

“Vamos esclarecer uma coisa primeiro, sim?” disse Jesse calmamente.

“Você não precisa dizer porra nenhuma!” latiu Sam, avançando contra ele.

Mas antes que pudesse alcançar o Anticristo, seus pés se enraizaram no chão, como se a própria terra decidisse mantê-lo cativo. Ele lutou contra a força invisível, os músculos se contraindo, mas não conseguiu mover um centímetro sequer.

Jesse riu suavemente, observando a frustração deles com um brilho de diversão nos olhos escuros.

“Agora… onde estávamos?”

“Olha, Sam… nada disso teria acontecido se você não tivesse aparecido na minha casa” sibilou Jesse, sua voz carregada de veneno e traição. “Se você não tivesse me dito que eu era… anormal.”

“Você não é anormal, Jesse” começou Sam, a voz gentil, quase suplicante.

“Não me interrompa.” Com um sutil movimento da mão, Jesse arrancou imediatamente a voz de Sam, sua boca se movendo mas sem emitir som. O silêncio, pesado e sufocante, se impôs.

O olhar de Jesse endureceu, sua expressão distorcida de dor e fúria.

“Minha mãe… ela tirou a própria vida. Não como a sua, que foi queimada até virar cinzas por outra coisa. Não. Ela escolheu morrer. E meu pai? Perdeu a sanidade. Eu queria… queria que ele também estivesse morto.”

Ele fez uma pausa, os olhos distantes por um momento, antes de se estreitarem com uma certeza maliciosa.

“Mas agora… meu verdadeiro pai está voltando. E vocês…” ele zombou, deixando as palavras pingarem como veneno “vocês dois finalmente estarão mortos.”

Dean, forçando-se contra a força invisível que o prendia, rosnou:

“A única maneira dele voltar é passando por cima dos nossos cadáveres.”

Jesse sorriu, frio e seguro.

“Se isso te conforta, Dean, então fique tranquilo… porque ele vai mesmo caminhar sobre os seus cadáveres.”

Sem hesitar, Jesse se aproximou, seus movimentos suaves e deliberados, erguendo uma lâmina esguia e perversa. Ele a deslizou pela bochecha de Dean, o metal cortando a pele com facilidade. Uma linha fina e vívida de sangue brotou e traçou a borda da lâmina enquanto Jesse se virava, carregando a arma reverentemente para o centro do campo. Ali, com uma calma sombria, deixou o sangue pingar — gotas lentas e pesadas salpicando a terra enquanto começava a traçar um círculo.

O peito de Dean arfava enquanto ele lutava contra as amarras invisíveis.

“Droga, Sam… estamos ferrados. Pensa em alguma coisa!”

“O quê, Dean?” retrucou Sam, a frustração e a impotência brilhando nos olhos. “Estamos presos!”

Enquanto isso, a voz de Jesse começou a tecer pela noite, entoando sílabas antigas enquanto o sangue se expandia, formando padrões precisos e intricados — um sigilo de invocação desenhado com a essência da vida.

“Em breve… meu pai estará aqui” prometeu Jesse, sua voz agora espessa de reverência sombria, os olhos brilhando com fanatismo. “E vocês terão a honra de recebê-lo.”

Uma nova voz ecoou pelo campo, calma e resoluta.

“Acho que não, Jesse.”

A cabeça do jovem se virou bruscamente, as sobrancelhas se unindo em descrença. Parada na extremidade oposta do campo estava uma mulher — ruiva, serena, deslocada entre o caos e o sangue.

“Só pode ser brincadeira” murmurou Jesse, zombando. Ele inclinou a cabeça enquanto caminhava em direção a ela, os olhos se estreitando como se tentasse decifrar o que exatamente ela era. “Lugar errado… hora errada, querida.”

Com um estalo preguiçoso dos dedos, ele tentou liberar a mesma força silenciadora que usara em Sam — mas nada aconteceu. A mulher nem sequer se mexeu.

“Boa tentativa” respondeu ela, a voz quase divertida, mas carregada de algo antigo e perigoso.

Então, num instante, grandes asas irromperam de suas costas — brancas como osso, vastas como nuvens de tempestade, se abrindo com uma rajada de ar celestial. O chão pareceu estremecer sob seu poder.

Jesse deu um passo atrás, os olhos arregalados em descrença… então se estreitaram, um lento e sardônico sorriso se espalhando por seu rosto.

“Bem… quem diria? Uma Nephilim.” Sua voz se tornou um canto zombeteiro enquanto ria — um som baixo e malévolo. — Se não é minha irmã… Amelia. — Seu sorriso se afiou num olhar predador. “Veio testemunhar o grande retorno do Pai?”

A expressão de Amelia estava gélida, inflexível.

“Não dessa vez. Desculpe desapontar.” Seu tom era carregado de desprezo, seus olhos esmeralda faiscando. “Não tenho nada além de desprezo por essa… praga.”

A cabeça de Jesse inclinou, fingindo curiosidade.

“Mas seu pai também está vindo, não está? Junto com Lúcifer?”

As asas de Amelia se ergueram mais alto, seu olhar se endurecendo.

“Miguel não é meu pai. Nunca foi. Nunca será.”

“Exatamente!” A voz de Jesse se elevou com entusiasmo maníaco enquanto começava a circulá-la lentamente, como um urubu. “É perfeito.”

Ela o seguiu com um olhar firme.

“Perfeito?”

Ele parou logo atrás dela, se inclinando, sua respiração fria contra sua orelha.

“Pense bem, Amelia… pense de verdade.” Sua voz caiu para um sussurro insidioso. “Você odeia Miguel. Nós dois odiamos Miguel. Imagine… lutar contra ele juntos. Afinal… é culpa dele. Ele exilou o anjo que matou sua mãe. Toda a sua dor… toda a sua fúria… siga os fios — eles sempre levam de volta a ele.

Ele deu outro passo, se posicionando ao lado de seu ombro, sua voz agora um murmúrio venenoso.

“É isso que você quer, não é? Vingança. Ninguém te quer… nem seu suposto tio, que acha que você é uma aberração. Nem sua mãe — ela te largou, te deixou apodrecer. E o anjo em quem você achou que poderia confiar?” Seu riso foi amargo. “Ele quer você morta.”

A mandíbula de Amelia se apertou. Suas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo enquanto um tremor sacudia o chão sob ela. Suas asas estremeceram, o ar crepitando com poder crescente. Suas íris sangraram para um vermelho violento, fundido e furioso.

“Merda… merda… merda” sibilou Dean, lutando em vão contra os laços sobrenaturais que o prendiam. XAmelia — não escuta ele!”

Por uma fração mínima de segundo, sua mente clareou, como a calma no centro de uma tempestade. Foi o suficiente.

Com um grito de fúria, ela sacou sua lâmina e golpeou — mas sua espada não encontrou nada além de ar vazio. Ela girou selvagemente, procurando.

Ele havia sumido.

O círculo no chão se completou, o sangue selando a linha final do sigilo com uma solene inevitabilidade. Sam e Dean trocaram um olhar horrorizado — um eco quase perfeito de outro pesadelo, um ano atrás, nas ruínas de um convento abandonado.

A terra começou a estremecer violentamente, pedras e terra chacoalhando, gemendo sob uma força invisível. Do centro do círculo de sangue, uma luz branca ofuscante explodiu para cima, acompanhada por um uivo estridente e sobrenatural que parecia rasgar seus crânios.

Amelia correu até os irmãos, sua voz subitamente se elevando acima do ruído enquanto recitava uma invocação em latim rápido. As amarras invisíveis que os prendiam se romperam, desaparecendo como névoa.

Sam cambaleou para ficar de pé.

“Onde está o Anticristo?”

Os olhos de Dean permaneceram fixos na terra convulsiva, sua voz grave.

“Acho que temos um peixe bem maior pra fritar, Sammy.”

Amelia mal olhou para eles, a urgência dominando seus movimentos.

“Encontro vocês na casa do Bobby.” Sem outra palavra, ela tocou suas testas com precisão rápida — e com um clarão, os irmãos desapareceram, levados para a segurança.

Ela se virou de volta, agora sozinha, encarando a boca escancarada do círculo de invocação enquanto ele se abria ainda mais. A antiga porta-trapaceira para algo que nunca deveria ter sido libertado.

Erguendo as mãos, Amelia começou a entoar novamente em latim desesperado e fluente, despejando todo o seu poder para fechar a brecha — mas a magia se fraturava contra a força agora surgindo de dentro.

A luz se expandiu, devorando o limite do sigilo, estendendo-se até ela, engolindo tudo numa enchente de brilho ofuscante e um rugido que despedaçou a noite.

E então… tudo foi consumido.