Notas iniciais
Eu estava indo em direção a minha sala de aula, não havia visto Chanyeol o dia inteiro. O havia procurado em todos os cantos possíveis e impossíveis. Mandei mensagens para seu celular e até liguei para ver se ele dava algum sinal de vida, mas não obtive nenhuma resposta. Nós não estávamos brigados nem nada, talvez fosse só apenas uma pequena falha de comunicação, isso sempre acabava acontecendo, ou eu preferia acreditar que era.
Adentrei em minha sala e o professor ainda não havia chegado. Suspirei até aliviado com isso. SuHo também não havia chegado, mas era um pequeno atraso dele, geralmente quando mudávamos de sala, ele demorava demais para arrumar suas coisas e eu gostava de sentar na frente para garantir algum tipo de concentração de minha parte, se é que ainda era possível.
Assim que sentei na minha carteira, pude sentir meu celular vibrando e quando olhei no visor o nome de quem era, saí da sala rapidinho com um sorriso no rosto.
- Yeollie, onde você está?
- É o senhor Baekhyun? – Aquela não era voz dele, o meu sorriso se desfez.
- É ele sim. Aconteceu algo?
- Ele sofreu um acidente e está aqui no hospital.
As únicas palavras que eu achava que nunca estariam juntas em uma frase seriam: Chanyeol e hospital. E hoje o que eu menos queria aconteceu. Senti um bolo se formar em minha garganta e minhas mãos tremerem. Eu não consegui formular uma frase decente que fosse quando o homem disse o local do hospital e que eu fosse lá o quanto antes. Estava estático, encarava o nada. Eu queria chorar, mas minhas lágrimas não saíam. Continuava com o aparelho na orelha e aos poucos descia o braço, e quando o mesmo ficou suspenso no ar, minha mão se abriu, deixando meu celular cair no chão. Para mim soou como um baque surdo, em minha mente ainda ecoava aquela frase.
Não, eu não queria acreditar que Yeollie estava em um hospital. Que meu Yeollie estava machucado, que havia sofrido um acidente. Não! Eu não conseguia imaginá-lo sendo levado em uma maca, sangrando para um quarto de hospital, ou pior uma sala de cirurgia. Não, meu Chanyeol, não.
- Baekhyun? – SuHo havia chegado e eu nem havia notado. – Baekhyun, olha para mim!
Ainda fitava um ponto qualquer, a angustia me consumindo a cada instante.
- BAEKHYUN!
- Yeollie... Hospital...
- O que? Me explica melhor, Baekhyun.
Meneei a cabeça para os lados para tentar formular melhor alguma coisa para dizer a SuHo.
- Chanyeol está no hospital. Por favor, SuHo me leva lá, por favor!
Minha voz saía chorosa, mas em momento algum uma lágrima fora derramada. SuHo via meu sofrimento, mesmo que me mostrasse incapaz de demonstrá-lo. Ele não esperou muito tempo e saiu me arrastando dali para dentro de seu carro. Me perguntou qual era o hospital e falei qual era rapidamente. O que mais me preocupava era a hora que iríamos chegar e como Yeollie estava. Me doía pensar na possibilidade de ele estar lá naquele hospital sofrendo de dor, me doía mais ainda saber que a causa de seu acidente poderia ter sido eu. Depois de termos conversado, ele saiu numa expressão tão chorosa, tão tristonha, que senti um aperto em meu coração.
Podia ser culpa minha. Podia ter sido eu a causa daquele maldito acidente que ocorrera com ele. Por que eu tinha que ser tão idiota? Pensei mais em mim do que nele e agora estava tudo refletido no que acontecera a ele.
Chegamos ao hospital e desci do carro na maior velocidade que podia. Não me importei muito de ter deixado SuHo para trás, mas eu sabia que ele viria atrás de mim. Assim que cheguei na recepção perguntei rápida e desesperadamente a moça que ali estava sentada onde ele se encontrava. Ela ficou nervosa com toda aquela angustia minha e meio tremula me disse onde o número do quarto que ele se encontrava. Na mesma velocidade que saí do carro foi a mesma para que corri ao andar superior.
Ele estava no primeiro andar, no quarto 104 e assim que avistei aquela porta. Senti meu coração falhar uma batida e logo minha mão tremula encostou-se no trinco. Girando-o e engoli em seco, assim que abri a porta me deparei com um Chanyeol totalmente machucado. Ele estava com algumas partes ainda ensangüentadas e aquilo me doeu. As lágrimas que não tinha antes, agora haviam vindo à tona. Meu rosto estava totalmente molhado, minhas pernas perderam a força e eu me vi caindo de joelhos ao chão.
Minha vista estava embaçada de tantas lágrimas que escapavam de meus olhos. Nunca achei que veria meu amor naquela situação, aquilo era mais do que eu poderia agüentar, bem mais do que podia. Ah Yeollie, por que eu fiz aquilo? Por que te deixei tão mal? Que tipo de ser humano eu era? Passava a me odiar a cada segundo que passava. Levei a minha mão livre até a minha boca, contendo qualquer tipo de som alto que pudesse escapar de meus lábios.
Tão logo eu pude sentir ser envolvido por alguém e esse alguém não era Yeollie. Era SuHo. Virei-me de leve para ele, com os olhos cheios de lágrimas e ele pareceu assustado. Me abraçou mais forte e eu segurava o tecido de sua camisa com força, me debulhando em lágrimas.
- Shh... Vai ficar tudo bem!
- Ele ta assim por minha causa, SuHo. Por minha causa!
- Não se culpe, Baekhyun. Acidentes acontecem.
Eles não acontecem simplesmente, o dele tinha uma causa, uma razão. Éramos eu e meu egoísmo. Eu chorava demais. Chorava como uma criança que necessitava do colo da mãe. Chorava porque necessitava do colo dele. Precisava dele acordado comigo, dizendo que estava tudo bem, que ele ficaria bem logo.
- Por que tamanha choradeira? – Era a mesma voz que falou comigo no telefone.
- Desculpe por isso. Eu tentei contê-lo, mas foi meio impossível. – SuHo parecia sem graça.
- Mas está tudo bem. Ele só está descansando.
Senti meu coração ficar pouco mais aliviado e soltei-me do abraço de SuHo, finalmente levantando-me do chão e indo de encontro a maca que Chanyeol se encontrava. Me sentia como aquelas senhoras que visitavam seu marido no hospital. Chorava tanto que parecia até que a situação dele era grave em demasia. Recostei-me na beirada daquela cama e curvei-me um pouco para frente, encostando a ponta do meu nariz na bochecha dele, acariciando ali.
- Vai ficar tudo bem, Yeollie. Eu to aqui. – Sussurrei à medida que minha mão buscava a sua.
Mas havia algo grosso que a envolvia e me que causou uma leve cócega na palma da mão, foi então que percebi que seu braço direito estava engessado, provavelmente havia quebrado o mesmo. A única parte que se encontrava descoberta daquele gesso eram seus dedos, que de maneira precária envolvi com os meus, fazendo uma carícia no polegar dele com o meu.
A partir daquele momento passei a notar os ferimentos que ele tinha. Tinha um na testa, que devido ao curativo que havia ali, provavelmente havia levado pontos. Alguns leves arranhões nos braços e no rosto. Ao meu ver as únicas partes mais graves eram seu braço direito e os pontos que levara na testa. Ai Yeollie, por que te deixei isso acontecer?
Eu me culpava. Claro que havia fundamentos naquilo. Ele havia saído com uma expressão tão triste de perto de mim, que era improvável que ele estivesse prestando atenção no caminho que percorria. Então não havia como não me sentir culpado quanto aquilo.
- Ele vai ficar mais um tempinho desacordado, não prefere ir para casa?
Foi a única vez que voltei a prestar atenção na voz de alguém.
- Não... – Falei baixo ainda observando o rosto de Yeollie de perto. -... Prefiro ficar com ele.
Pude ouvir os passos do médico se distanciarem, provavelmente havia saído da sala e me deixado só, mas não tão só assim com Yeollie. SuHo ainda estava ali. Só me lembrei disso quando ele se aproximou de mim e tirou-me de cima de Chanyeol, me levando então para o sofá que havia próximo a cama, fazendo-me sentar ali. Em momento algum desviei o olhar dele, mas eu ainda não entendia o que SuHo ainda fazia ali, se em nenhum momento pus meus olhos nele, não desde que fiquei com Yeollie.
- Obrigado! – Foi a única coisa que saiu de minha boca.
- Não precisa agradecer, Baekhyun. – Sabia que ele estava dando aquele sorriso. – Se quiser eu posso ficar com você aqui.
- Você já fez muito em me trazer aqui, hyung. Agradeço mesmo por tê-lo feito, mas não quero acabar explorando você. Obrigado mesmo. – Assenti voltando o olhar para ele por alguns míseros instantes.
- Fique bem, ta?! E melhoras a Chanyeol. – Sorri de leve e ele me deu um beijo na cabeça antes de sair.
Suspirei “aliviado” ao que ele saiu. Aish, aquela situação toda estava tensa para mim e ainda ter que fingir que me importava com a presença de SuHo ali era abusar demais da pouca sanidade mental que eu ainda nutria naquele momento. Deixei-me escorregar um pouco no estofado que me encontrava e pus minhas mãos dentro do bolso do casaco, não deixando de analisar a expressão serena que Yeollie carregava em sua face, que seria tão serena se não estivesse daquele estado que particularmente considerava deplorável.
Eu era um merda por ter feito aquilo a ele. E pior era um merda que amava Chanyeol.
Mas como me deixei chegar a esse ponto? Deixá-lo envolver-se em um acidente que sequer deveria ter acontecido. Talvez eu tivesse a culpa maior de tudo, talvez a razão de tudo ter acontecido. Prefiro esquecer todos esses “talvez” e chegar em algo mais concreto. Eu fui a culpa maior de tudo, eu era a razão de ele se encontrar em tal situação.
O observava dos pés a cabeça e meu olhar parou em um local em particular. Seus lábios. Ao fitá-los me lembrei de quando sai com Jessica, nós dois havíamos ido ao cinema a pedido dela para se mostrar para suas “amiguinhas” e no meio do filme ela veio de se chegando em mim, normalmente vinha com seus beijinhos “inocentes”, uns selares que sempre que me dava acabava enfiando a língua dentro da minha boca, praticamente era obrigado a correspondê-la, mas não era do jeito que a mesma fazia. Só movimentava a língua por movimentar e nas mínimas vezes que ousava me concentrar naqueles beijos, eu me lembrava de Yeollie. Ela simplesmente não tinha o gosto dele e nem sequer chegava perto. Por que ela não tinha o gosto tão bom do Yeollie?
Aquele gosto que eu tanto sentia falta. Não era só do gosto, era dele por inteiro. Chanyeol me fazia sentir falta dele em questão de segundos, facilmente poderia ser chamado de obcecado ou de psicopata, porque aquela criatura não saía de minha mente um segundo sequer. Meus pensamentos sempre eram voltados a ele, os pequenos atos que acometia acabavam me lembrando ele e me pegava sorrindo por isso. Era realmente engraçado como as coisas fluíam entre nós dois, mas naqueles últimos dias isso não havia ocorrido.
Yeollie estava triste demais, pareciam uma criança sem esperança de rever seus pais após uma longa semana longe deles em algum tipo de acampamento. Chanyeol já parecia sem esperanças de me ter mais uma vez. Jessica consumia cada minuto meu, me enchendo de mimos e agindo como uma criança que não queria largar de seu brinquedo favorito. Era assim que eu me sentia um brinquedo. Brinquedo de um mero jogo que eu havia criado. Um jogo que havia feito mal a ambas as partes envolvidas. Me sentia a pior pessoa do mundo, e a cada vez naquela semana em que me olhava no espelho a vontade que tinha era de me socar ou simplesmente me matar pelo que estava fazendo a ele.
Tudo o que acontecera naqueles últimos dias me fizeram sentir-me ainda pior. Eu havia levado Jessica a minha casa para meus parentes conhecê-la, como havia prometido. Ela se mostrou simpática a todo o tempo, respondia perguntas sobre o nosso “namoro” que havíamos combinado pouco antes de levá-la até lá. A cada vez que via os olhos de meus parentes brilharem a cada instante de conversa, meu coração apertava e meu corpo doía. Cada parte de mim fazia questão de lembrar que eu era o ser humano mais desprezível do mundo. Havia pensado mais em mim do que em Yeollie e ele havia ficado um tanto quanto depressivo perante toda aquela situação. O irritante de tudo era que meus pais e parentes haviam adorado aquela vadia. Mas para mim aquilo era o ápice de meu ódio. Se eles eram capazes de gostar da maior puta existente do mundo, por que não gostar do garoto mais perfeito do planeta? O que os impediam disso?
Nada... Se não fosse tamanho preconceito em possivelmente ter um gay na família.
Já não queria ligar mais, queria que o mundo todo e os preconceituosos se ferrassem. Queria que existíssemos apenas nós dois e que não houvesse sofrimento entre nós. Não, eu não queria.
Queria que ele acordasse logo, que eu pudesse pedir desculpas por ter sido tão idiota a ponto de trocá-lo por uma garota, por ser fraco e não mostrar a minha família quem eu era, quem eu realmente amava. Amava Yeollie, mas fui covarde a tal ponto de deixá-lo triste, magoado e essas eram as coisa que eu menos queria causar a ele. Talvez meu medo por ser julgado ou até mesmo condenado por minha família, me levara a fazer aquilo, a substituí-lo por uma vadia. Mas a partir daquele instante eu prometi a mim mesmo que não importasse o que acontecesse eu cuidaria do meu Chanyeol, eu seria o melhor para ele assim como ele era para mim. Eu iria enfrentar tudo o que estivesse ao meu alcance para mostrar que ele era só meu.
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