The Battle Frontier
33 S3EP32 - Truth and Forgiveness
— JAKE, JAKE! – Escutei os gritos da cama e levantei com um salto.
Calcei os tênis e saí correndo. Bati a porta e desci as escadas. Scarlett e Amber gritavam em uníssono e o desespero bateu a minha mente.
Encarei os degraus e desci de 2 em 2, cheguei ao hall e virei à esquerda, correndo quase sem respirar. Encarei a porta do chalé e o vi. Entre as duas, do lado de fora, cinco passos da escada que dava acesso ao chalé. Seu corpo verde pequeno e a listra azul na barriga característica. Segurava um caderno na mão.
Recuei dois passos. Olhei para a direita, o balcão com a máquina que recuperava os pokémons continha algumas bandejas. A da esquerda era minha. Peguei duas pokébolas e andei até eles, calmamente. Assim que cruzei a varanda e botei o primeiro pé na escada, Leon falou:
— Olha, eu...
Joguei as duas pokébolas pra cima. A raiva me consumindo. Eu queria matar os três. Togekiss e Drapion apareceram.
— SEGURA ELAS DUAS, DRAPION. TOGEKISS, HYPER BEAM!
As duas não tiveram tempo de reagir. As pinças do escorpião pegaram as meninas que começaram a se debater. Igglybuffy caiu no chão e o Spiritomb de Scarlett tentou ficar próximo a ele, mas a mochila dela estava em suas costas e erguida pro alto. Togekiss soltou o raio laranja no camaleão que jogou-se pro lado, mas ainda recebeu alguns danos. Corri em sua direção e saltei em cima dele.
— SEU DESGRAÇADO! EU CONFIEI EM VOCÊ! – Tentei socá-lo, mas seu tamanho pequeno era uma vantagem. – EU VOU TE MATAR!
— ME ESCUTA! – Ele gritava de volta. – VOCÊ TEM QUE ME ESCUTAR!
— JAKE! MANDA O DRAPION SOLTAR A GENTE!
— EMPATE SEU MERDINHA, QUANDO VOCÊ ME SOLTAR EU VOU TE SOCAR!
O Sableye de Amber estava apavorado e acuado olhava a cena, não sabia o que fazer.
— JAKE! POR FAVOR! ME ESCUTA!
— EU NÃO QUERO OUVIR! – Pulei em cima dele de novo. – ENQUANTO ELE NÃO ME PAGAR EU NÃO VOU OUVIR!
— JAKE, JAKE! – Consegui segurá-lo e comecei a enforcá-lo, o ar lhe faltando. – Você... é... adotado...
A informação me acertou como um murro de Machamp. Desafrouxei seu pescoço.
— MANDA ELE SOLTAR A GENTE AGORA, CARALHO! – Amber esbraveja enquanto Scarlett pedia com mais calma.
— Dra-drapion... – Ordenei. – Solta elas. – As pinças de Drapion se abriram e as duas foram de encontro ao chão, caindo em pé. Pegaram seus pokémons e vieram na minha direção. Amber falava diversos palavrões enquanto eu apenas encarava o camaleão à minha frente.
— Jake, escuta a gente, por favor. – Scarlett correu. – Ele encontrou a gente lá atrás, precisamos conversar. A situação é mais grave do que você pensa.
— Eu não acredito em você. – Falei. – Eu devia...
— Chega. – Amber lançou uma pokébola pra cima. – Latias.
Olhamos pro Pokémon vermelho aparecendo e parando ao lado de Amber, que com a maior naturalidade do mundo, acariciou-o, enquanto Sableye me encarava ainda assustado.
— Se você fizer isso de novo, eu juro que eu vou mandar ela te atacar.
— Você tem uma Latias? – Perguntamos os 3 em uníssono pra ela.
— Tobias me deu... – Ela encarou a Leon de novo. – Conta pra ele o que você nos contou.
— O que esse escroque te contou?
Charles nesse momento apareceu na varanda do chalé.
— O que está acontecendo aqui? – Ele trajava um jaleco branco e óculos. Ditto estava em seu ombro. – Acharam Porygon?
Amber e Scarlett trocaram um olhar nervoso.
— Vamos entrar. – Scarlett tomou a frente e me puxou pelo braço. – Tem muita coisa que precisa ser explicada, inclusive de você, Senhor Charles.
Charles encarou-a sem entender. Amber seguiu-nos e Leon logo atrás. Apontei a pokébola para Drapion e o recolhi. Entrei no chalé com Scarlett me ouxando. A Latias de Amber veio conosco, pelo seu tamanho, conseguiu passar pela porta com calma, atrás de Togekiss. Todos nos reunimos na sala de Charles. Scarlett e Amber fizeram questão de trancar a porta.
Assim que paramos na sala, Leon pegou o caderno e levantou o braço com ele, me dando.
— Eu não menti. Você é adotado. – Apontou para Charles. – O coroa aí sabe. – Charles pareceu ficar sem ar.
— Eu-eu...
— Você, você. – Leon subiu numa mesa de centro, Amber ainda acariciando Latias. Sableye corria pelos cantos da sala. – Você ajudou Dahlia a esconder a verdade dele.
— Que verdade?
— Eu já te falei. – Ele apontou pro caderno. – Você é adotado. Tá tudo aí. Abre e lê.
— Explica pra ele.
Charles estava sentado suando frio.
— É verdade. – Ele me encarou.
Eu não conseguia raciocinar, o lugar parecia girar. Togekiss estava do meu lado preocupado.
— Foster era noivo da sua mãe. – Ele olhou para a janela. – Eles se conheceram quando ela estava desafiando a Battle Frontier.
— E por quê ele me odeia?
— Por quê Dahlia perdeu um filho dele que ela estava esperando no dia em que te salvou. – Leon falou apontando pro caderno.
— Me salvou?
— Sim. – Uma pausa. – Ela e Foster eram noivos. Ela estava grávida, faltando dois meses para o bebê nascer.
— E tem mais uma coisa também. – Leon puxou o caderno da minha mão, folheou algumas folhas e deu para mim. – Olha aqui.
Peguei o caderno. Comecei a ler.
“Ela perdeu nosso filho. Eu não consigo acreditar nisso. Maldito ônibus, malditos imigrantes clandestinos. Maldito garoto. Se ela não tivesse corrido para tentar ajudar, não teria tomado o impacto da explosão do ônibus. Não consigo...”
— Eu não lembro disso. – Falei. – É impossível. Ônibus?
— Quantos anos você tem? – Leon perguntou e olhou pra Charles.
— 15. – Respondi sem entender.
— E sua mãe?
— 31. – Assim que respondi, fiz as contas e comecei a ficar nervoso. – Arceus do céu.
— Exato. – Leon falou. – Eu não sabia a idade da sua mãe, até porque nunca a tinha visto, mas pelas fotos que eu vi ela parecia nova. Nova até demais. Nada contra quem tem filhos cedo, mas não parecia o caso, fora que vocês não tinham muitas semelhanças visuais. Ah, você é burro. Nunca pensou nisso e eu realmente me espantei em como eu também não.
Ele puxou o caderno da minha mão e folheou mais algumas páginas. Achou o que buscava, virou o caderno pra mim e falou:
— Não tem muita informação sobre de onde você veio. – Olhou para Charles. – Talvez você explique melhor. O que você não sabe é que você cruzou o caminho de Foster duas vezes. Uma 10 anos atrás e outra há 2 anos.
— É verdade? – Encarei Charles.
— Sim. – Ele olhou decepcionado para mim. – Sua mãe viu o ônibus virando e correu para ajudar, a barriga estava enorme na época. Eu estava junto, mas não quis fazer isso, liguei para os bombeiros Squirtle e a oficial Jenny de plantão. Ela tirou um menino do ônibus. Você. Não sabemos sua idade, porque os documentos todos se perderam com o incêndio do veículo. Você se feriu junto com a Dahlia por conta da explosão. Eu levei vocês dois para o hospital. Uma semana depois ela perdeu o filho que esperava do Foster e você acordou, sem memória. Ela achou que era um presente divino e decidiu ficar com você. Eu cheguei e falei que ela era sua mãe e você acreditou tranquilamente. Foster e ela tiveram uma briga feia, porque ele te culpou por perder o filho que ela esperava.
— O maluco então foi embora. Dez anos depois, um pouco depois que você saiu para disputar a Liga Pokémon... – Leon apontou para o caderno e eu li.
“Dez anos depois e ela continua linda. O mesmo sorriso de sempre, a mesma personalidade. Agora a vida dela se resume a Battle Frontier e à esse garoto maldito. Jake Giamatti. Que nome horroroso, aliás.
Conversei com ela, nos entendemos parcialmente. Não sou fã da Battle Frontier, mas se eu disputar a Liga Pokémon e tiver uma participação notável, posso ser convidado a tentar o desafio. Vou treinar por dois anos, quem sabe três. Inscrevo-me na Liga, não importa a vitória, só importa sair bem. Sou convidado e me reaproximo dela. Aguentar o maldito garoto vai ser intragável, mas não há jeito.”
— Não sei como isso se encaixa em...
— Quem foi seu primeiro oponente na Liga Pokémon? – Leon questionou-me com os braços cruzados.
Nesse momento tudo fez sentido. O camaleão puxou o caderno e passou mais algumas folhas. Deu na minha mão de novo.
— Só começar a ler aqui no meio. – E apontou para a página da esquerda.
“Esse garoto tem que morrer. Passei anos treinando e fui derrotado de 6x0 na primeira rodada. Saí humilhado. A Battle Frontier nunca irá me aceitar. Nunca. Ele vai me pagar. Ele vai me pagar, nem que pra isso eu tenha que morrer tentando.”
— Eu sei quem ele é. – Levantei os olhos e olhei para todos. – Ele foi o cara que eu derrotei na primeira rodada...
— Duh, isso a gente sabe, Empate. – Amber me cortou. – Inclusive ele contou pra gente.
— Eu não lembro nem daquela batalha direito. – Sentei-me, os pensamentos me consumindo. – Só sei que foi tão fácil que eu lembro de nós comendo na lanchonete da Liga e todo mundo apostando que eu já tava pelo menos na metade da competição por conta dessa lavada que dei em alguém. Lembra?
— Claro que lembro. – Amber parou de acariciar Latias e se sentou do meu lado. – Olha... Não dá tempo da gente relembrar tudo que aconteceu. Sabemos o que ele quer. Ele quer vingança. Não vai ter. A gente não vai deixar. A única pessoa que pode te matar sou eu e eu ainda não te humilhei o suficiente pra isso. Entretanto...
— Você ainda tem que decidir se perdoa ele ou não. – Scarlett sentou-se do meu lado e olhou para Leon. – Ele conversou conosco quando estávamos... – Ela encarou Amber. – Charles... poderíamos ir na cozinha um instante? Eu e Amber precisamos falar com você uma coisa. Vocês dois conversam enquanto isso.
Os 3 levantaram-se e saíram da sala. Um Charles confuso, Amber e Latias. Togekiss ficou ao meu lado e eu encarei Leon, que se adiantou.
— Olha... Eu sei que o que eu fiz foi errado. Eu não tenho como me justificar. Era bastante dinheiro que eu iria receber e isso fez com que eu não pensasse duas vezes. Eu me arrependi no exato segundo em que eu...
— Deixa eu te interromper um pouco. – Cortei-o. – Se você falar eu mais uma vez eu juro que eu viro essa mesinha de centro com você em cima dela e finalizo o que tentei fazer lá fora.
Leon fechou a cara.
— Quer saber? – Ele andou na minha direção. – Eu não ligo. Sabe por quê? Porque eu perdi algo que valia muito mais do que qualquer dinheiro. Perdi meus amigos. Vocês me salvaram daquele Circo desgraçado e como agradeci? Traindo vocês. Foster devia ter me matado quando teve a chance, porque sinceramente? O que eu tenho agora? Nada. – Ele esticou os braços para mostrar que estava de mãos vazias. – Não que eu tivesse algo, mas você entendeu... Se você não quer me perdoar, tudo bem. Eu ajudo vocês e vou embora e deixo vocês em paz.
Olhei para ele. Por um lado eu queria matá-lo, por outro, eles nos deu o que precisávamos: o motivo de Foster querer me matar.
— Eu não devia te perdoar. – Falei ficando em pé. – E não vou. Você se mostrou absolutamente tudo que eu desprezo em alguém, mais do que desprezo em Foster.
— Entendo... – Disse, cabisbaixo.
— Entretanto, se você nos ajudar talvez e só aí talvez eu te perdoe pelo que você fez.
Ouvimos uma discussão da cozinha, Charles parecia gritar com as meninas, que pediam para que ficasse calmo. Amber correu até a sala:
— Acalmem-se. Está tudo sob controle. – E voltou para a cozinha, enquanto Scarlett ainda proferia palavras de calma.
— Obrigado. – Ele disse, sentando-se. – Agora... tem uma coisa que o caderno não tinha.
— O quê? – Perguntei.
— Como ele ia tentar pela terceira vez. – Leon pegou e folheou até o final. – A primeira tentativa dele foi batizada de “ghost trap”, onde o Gengar nos meteu naquela ilusão. A segunda tentativa ele deu o nome de “frozen trap”, aquela em que eu... bem... – Uma pausa para um riso nervoso de Leon. — As últimas coisas que têm anotadas aí são um bando de “A CULPA É DELE” e termina aí. Ah, CDR-31 é um veneno que ele desenvolveu para tentar te matar, sabe aquele arco roxo que encontramos no seu gorro? Tinha algo que simulava esse CDR-31, mas deve estar no caderno também.
— Não importa agora. – Falei e andei até a cozinha. – Vamos ligar para a polícia e para minha mãe e explicar tudo isso...
Andamos até a cozinha e sentimos um leve tremor no chão. Encaramos um ao outro e corremos para a cozinha, Charles estava sentado na mesa com toalha xadrez vermelha e branca com os os olhos cheios d’água enquanto Scarlett segurava sua mão.
— O que houve? – Andei até eles. – Sentiram esse tremor?
— Sim, onde foi? – Amber questionou de volta. – E... O Porygon de Charles...
— O que tem ele...
— Bem...
Nesse momento, um tremor maior aconteceu. Alguns objetos foram ao chão, Latias acuou-se com Amber e Sableye correu para seu ombro. Togekiss planou e Leon subiu no meu ombro, enquanto Scarlett segurou-se na mesa.
A energia elétrica em seguida desligou-se. Todos nos encaramos.
— O que está acontecendo? – Scarlett questionou.
Do lado de fora, os Porygons começavam a cercar o chalé de Charles.
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