The Battle Frontier

26 S3EP25 - Arrival


Cada centímetro do meu corpo doía. Fosse física ou emocional, tudo que havia acontecido comigo naquele dia preenchia meu corpo com dor e eu queria que ela parasse, mas por mais que eu me esforçasse ela não parava.

A mão de Scarlett era tudo que me prendia ao mundo real. Eu sentia parte do meu corpo em contato com a água e me esforcei muito para conseguir subir no tronco que segurávamos com todas as forças que ainda nos restavam.

Tomei coragem e subi, logo em seguida puxei-a para cima e consegui deitá-la na minha frente. Seus cabelos já estavam secos. Tirei minha bolsa e a fiz de travesseiro para pousar sua cabeça. Assim que a toquei, ela acordou com um susto:

— Calma, calma. – Falei segurando-a. – Estamos vivos.

— Eu acho que queria não estar. – Ela se pôs sentada. – Que sensação horrível.

— Eu sei como você se sente. – Abri minha bolsa e conferi para ver se estava tudo em ordem. Molhado, mas em ordem.

— Onde estamos? – Uma breve olhada para os lados para tentar nos situar. Nada. Apenas mar aberto.

— Acho que não estamos mais no rio... – Saquei meu pokétch, que apesar de molhado parecia funcionar. – Vou conferir o mapa.

Liguei o aparelho e selecionei o mapa. Depois de solicitar que ele exibisse minha localização o mesmo o fez e eu quase caí na água de susto.

— O que foi? – Ela disse nervosa.

— Eu sei em qual rio caímos, e isso não é nada bom. – Minha voz era de preocupação.

— Qual o problema com ele? – Seus olhos encaravam a água, com medo de algum perigo. – Tem algum Pokémon perigoso aqui?

— Não, não é isso. – Virei o aparelho para ela. – Já não estamos nele faz tempo.

Scarlett encarou o meu pokétch nervosa. A imagem que ela via era que estávamos localizados em alto mar, bem longe da área de Battle Frontier e próximo a uma baía.

— Jake... – Ela olhou para mim. – Isso é impossível. Estamos caídos aqui tem quanto tempo? Não estamos aqui há muito tempo para estarmos tão longe, no máximo umas 4 horas.

— É o suficiente para que cheguemos até aqui, acredite. – Fitei o horizonte, tentando achar o norte. – Eu e minha mãe uma vez fomos de lancha até a baía. Levamos 2 horas.

— Baía? E isso é pouco tempo?

— Ruiva... – O riso saindo de minha boca junto com as palavras. – Da Battle Frontier até aqui são 700 km de extensão. Essas águas tem umas quatro correntes, três caem aqui para o lado da baía e uma sobe o rio e se conecta com um afluente próximo a cidade da Battle Factory. Estamos indo para a baía. Por um lado isso é bom, porque a baía fica perto de Celestic e dá pra voltar pra casa de trem, por outro...

— O que tem o outro lado, Jake? – Ela parecia começar a ficar irritada.

— É a baía onde Charles mora. – Falei bufando.

— Quem é Charles?

— Um velho amigo da família. – Tentei guiar o tronco. – Precisamos chegar, entrar na baía e sair sem sermos vistos ou Charles vai contar pra minha mãe que eu cheguei num tronco de árvore com cara de acabado e eu não vou saber explicar porque fiz isso.

— Hum... – Ela tentou ajeitar os cabelos. – Quanto tempo daqui até lá?

— Na velocidade em que estamos? – Conferi a corrente que nos levava. – Talvez uma hora, talvez menos.

— Ótimo, até lá a gente pensa no que fazer. – Ela abriu a mochila, tirou um pacote de biscoitos e estendeu para mim. – Com fome?

— É, estou sim. – Peguei um e mordi. – Nossa, morango. O sabor preferido de Leon...

Encaramo-nos. O nome de Leon parecia ter se tornado automaticamente um tabu entre nós, mesmo que não tenhamos conversado sobre isso ainda.

— Eu não consigo acreditar. – Scarlett falou enquanto pegava outro biscoito. – Por um momento eu achei que ele estava apenas ganhando tempo para nós, mas... – Ela segurou as lágrimas.

— Pára com isso. – Pus a mão em seu ombro. – Ele errou. – Olhei pro lado. – Aliás, pro bem dele, que ele não erre de novo ao cruzar meu caminho.

— Jake... Vingança não vai resolver nada. – Ela abriu a mochila e tirou seu pokétch. – Precisamos pensar no que fazer pra voltar.

— Nós vamos voltar. – Fitei a água. – Assim que voltarmos vou contar para minha mãe tudo que houve e pedir ajuda para ela e pra Thorton.

— Hum... – Ela analisou alguma coisa no aparelho. – Por outro lado, temos um pequeno problema.

— Qual? – Me aproximei dela para ver sobre o que ela se referia.

— Lembra o que Bertha falou sobre o final do ano e etc?

— Sim.

— Pois bem. – Ela virou o aparelho para mim. – Primeiro que não estamos aqui tem poucas horas e sim um dia inteiro. – Conferi a data, um dia depois ao qual eu me recordava. – Segundo, olha essa notícia.

Peguei o aparelho na mão. O conselho da Battle Frontier havia convocado Darach para um julgamento.

“O Frontier Brain Darach cometeu falta grave ao mudar drasticamente as regras de seu desafio no Battle Castle por problemas pessoais com Caitlin, outra Frontier Brain. Uma vez que desde que as regras abusivas foram instauradas há apenas uma vitória registrada a conselheira-chefe determinou que todos os Frontier Brains reúnam-se na Battle Tower no dia 30 de Dezembro deste ano para audiência inicial e 05 de Janeiro para o veredito. A deliberação da reunião contará com os seguintes membros: Argenta, Dahlia, Thorton e Palmer. Ao que se sabe, apenas um desafiante ainda tem condições de completar o desafio visto que ele é o único detentor do símbolo que prova a derrota no Battle Castle. É de suma importância que o desafiante, Jake Giammatti tome uma posição em relação ao desafio até a data da reunião, para não haver risco de empate na hora da votação.”

— Não acredito. – Falei devolvendo o aparelho para Scarlet.

— Qual o problema?

— Thorton e Palmer vão votar contra Darach. – Fiz dois dedos com a mão esquerda. – Argenta e minha mãe, a favor. – Dois dedos com a mão direita. – Empate, o que não é bom para Darach.

— Ainda não entendi.

— Se Darach levar três votos contra, acabou. Ele é destituído e o Battle Castle fecha até segunda ordem. Caso ele leve três votos a favor, ele continua onde está. O problema é que ele é quem está sendo julgado, então só há quatro votos para julgar o destino dele. E no caso de empate, eles fazem a votação por peso. Palmer tem peso dois na votação por ser o mais forte e todos os outros tem peso um. Darach perderá a votação e será deposto.

— Você tem certeza sobre como cada um deles irá votar?

— Claro que sim, conheço esses quatro desde que tinha... – Uma pausa. – Quase nenhuma idade. – Palmer e Thorton não vão admitir que alguém tenha se tornado mais difícil que eles para derrotar.

— E a parte que fala sobre você?

— Não me interessa, eu desisti. – Falei virando o rosto para o outro lado.

— Jake... – Ela fitou a mim. – Caso você não tivesse desistido... O que isso significa?

— Bem, eles precisam de um quinto voto. O único que venceu Darach que ainda estava tentando o desafio era eu. Faltam três dias para Dezembro. – Fiz as contas nos dedos. – Caso eu continuasse eu teria contando a partir de hoje 31 dias para voltar, enfrentar Thorton e minha mãe e ir até a Battle Tower com o símbolo completo para na hora da votação quando a conselheira solicitasse um quinto voto eu apresentasse o símbolo provando que tenho direito a participar.

— Entendo. Você não quer fazer isso por Darach?

— Não. – Cortei-a. – Darach pode ter mudado depois da carta, mas o erro foi dele, ele que assuma as consequências. Eu não tenho nada a ver com isso.

Ela guardou o Pokétch e olhou para frente. Ajeitou os cabelos e depois continuou a falar:

— Quem era aquele homem?

— O de terno branco? – Franzi a testa. – Não faço ideia. O rosto me é familiar, mas não sei de onde.

— Bem, pelo menos a gente agora sabe quem ele é. E o nome dele não te lembra nada?

— Foster... Foster. – Cocei o queixo. – Não.

O tronco deu um solavanco para frente, a baía de Charles já era visível. Ou ao menos parecia a baía de Charles, havia uma linha preta subindo no horizonte junto com a baía. O troncou deu outro solavanco, dessa vez para a esquerda.

— Mas o que... – Falei.

E então eu vi. O braço de Weavile segurando a borda do tronco, se esforçando para não se soltar. Scarlett apenas encarava o horizonte. Cutuquei-a em silêncio.

— O quê... – Assim que ela viu para onde eu apontava, abafou um grito.

Aproximei-me para ver seu estado. Quando fiquei perto o suficiente de sua cabeça, ele abriu os olhos. Seu Metal Claw quase acertou meu rosto.

— Scarlett, pra trás!

Ele tentou subir, mas algo o impediu. Talvez estivesse fraco demais para fazer qualquer movimento. Olhei para trás e vi que a linha preta parecia um muro. Peguei meu pokétch e rapidamente disquei o número de Charles. Depois de alguns toques, ele atendeu:

— Jake, como você está? Quanto tempo!

— CHARLES, NÃO TENHO TEMPO! – Gritei. – ESTOU A CAMINHO DA BAÍA NUM TRONCO ENORME DE ÁRVORE, ABAIXA A REPRESA!

— Você está aqui perto? Oh, céus. – Ele fez uma pausa. – Pode deixar!

— ÓTIMO! E CHARLES... SE MINHA MÃE LIGAR NÃO FALA QUE ESTOU AQUI!

Desliguei sem esperar resposta. Virei-me para trás e o Metal Claw de Weavile ainda tentava nos acertar de qualquer jeito.

— Scarlett, é a porta de uma represa. – Respirei fundo. – Ele vai nos permitir passar, o problema é esse cara aí... – Apontei para Weavile que descontroladamente tentava nos acertar sem ao menos nos ver por sua cabeça estar abaixada.

— Temos que...

Nesse momento, uma sombra enorme tomou conta de nós. Só tivemos tempo de olhar para trás e ver o resto da parede da represa de Charles se abaixar. Joguei-me em cima de Scarlett e me agarrei no tronco com toda a força que podia no exato momento em que batemos no resquício da parede de pedra que ainda descia e demos uma cambalhota pra frente, caindo na água.

...

— Jake? Jake! – Uma mão batia em meu rosto. – Acorde!

Abri os olhos devagar. O rosto de Charles estava borrado na minha frente. Levantei-me com um pulo e vi Scarlett sendo amparada por uma enfermeira Joy e uma Chansey. Olhei para o lados, procurando Weavile.

— Onde ele está? – Falei com ele.

— Quem?

— O Weavile preto e roxo que estava junto de nós.

— Ele era seu? – Charles entortou a boca numa expressão triste.

— Não, não era. – Fitei-o. – Charles... Onde ele está?

— Bem... – Ele apontou para trás.

De início eu não vi nada, mas logo depois ao lado da outra metade do tronco vi um corpo preto inerte numa posição torta. Levantei-me para ir a sua direção, mas Charles me impediu.

— Não, não adianta. – Disse enquanto me segurava com força. – Ele era dessa menina ruiva?

— Ele estava tentando nos matar. – Falei nervoso.

— Bem... – Charles arregalou os olhos ao receber a informação. – Pelo menos ele não tentará mais.

Desvencilhei-me dele e fiz um aceno de cabeça para Scarlett para indicar se estava tudo bem. Ela assentiu e eu andei até o corpo de Weavile. Havia algo em suas costas. Abaixei-me e vi um pequeno tubo transparente com um líquido roxo escrito “CDR-31”. Puxei-o e ele se soltou facilmemte, revelando uma agulha que injetava o líquido roxo em Weavile.

— O nome que Leon falou. – Levantei o tubo contra o Sol. – Mas... O que será?

— Isso estava preso a ele? – Scarlett apareceu do meu lado, com a blusa torta e o cabelo desgrenhado.

— Sim, talvez fosse isso que dava a força descomunal e a coloração diferenciada deles.

Charles, a enfermeira Joy e Chansey pararam atrás de nós. A aparência de Charles era a de sempre. Camisa florida azul e laranja com sandálias marroms e shorts na cor branca. Barba e cabelos grisalhos, sendo que sua calvície tornava o topo de sua cabeça reluzente no sol. Sua filha usava o tradicional uniforme de Enfermeira Joy. Ele me encarou com preocupação nos olhos e disse:

— Precisamos conversar.

...

O camaleão verde estava deitado encarando o céu usando o pequeno caderno como travesseiro. Levantou a cabeça e viu que estava em um rio cercado por árvores à sua volta.

— E agora? – Levou a mão à testa. – O que que eu vou fazer?

Leon deitou de novo no tronco e deixou a água levá-lo mais um pouco, a correnteza estava suave e o rio parecia raso.

...

— Uma passagem para Kalos, por favor. – Thorton pediu no guichê do aeroporto para um atendente moreno e barbudo. Trajava uniforme vermelho do aeroporto de Sinnoh.

— Qual cidade?

— Só um segundo... – Thorton pegou um papel na mão e passou os olhos nele.

Seus olhos encontram seu próximo destino, encarou o atendente e disse:

— Lumiose City.