— Kirlia, vai encher essas garrafas de água. Floatzel, me ajuda a arrumar essas coisas dele aqui. – Uma voz feminina e afobada foi o que me despertou.Abri os olhos lentamente. Estava claro. Fiquei confuso, mas eu devo ter pego no sono e não ter me tocado. Virei-me de lado e senti uma pontada na cabeça. E então eu me lembrei de tudo. Esfreguei os olhos e me pus sentado. A esquerda eu via um lago entre algumas árvores finas e a minha direita haviam algumas árvores mais grossas e vistosas. Eu estava em cima de um colchão inflável, apenas de calça, enquanto minha camisa e meus tênis estavam do meu lado esquerdo. Todas as peças estavam sujas de lama seca. Encarei a menina e seu Floatzel que estavam mexendo em alguma coisa de costas para mim. Olhei para o lado direito e meu cinto de pokébolas estava esticado. Estiquei-me para pegar a pokébola de Togekiss, mas assim que o fiz Floatzel virou-se para mim. Ele cutucou a menina e ela se virou.— Ah, então ele acordou. Como você está? – Seu sorriso era angelical e sua expressão era serena.Seu cabelo era ruivo e na luz do Sol ele parecia pegar fogo, tinha um vestido branco com uma barra na parte de baixo azul clara. Era branca e tinha olhos de um azul celeste. Um chapéu branco e um par de sapatilhas da mesma cor do vestido completavam seu visual. Ela levantou as sobrancelhas e ficou esperando uma resposta minha.— Não sei. Você acha que estou? – Estiquei os braços e mostrei meu estado. — Você está bem melhor do que estava quando eu tirei de água. – O tom sereno passou para deboche. — Da água ou da lama? Eu lembro que um Muddy Water me acertou e eu simplesmente apaguei. – Pousei a mão na parte de trás da cabeça. Havia um curativo em forma de X bem no meio dela. — Sim, foi um Muddy Water que te acertou. Foi a melhor ideia que eu tive na hora, se eu tivesse usado Surf aqueles três iriam te ver e continuariam atrás de você. – Ela se agachou na minha frente de joelhos e seu Floatzel ficou do meu lado me encarando com os olhos arregalados e uma expressão curiosa. – Eu vi você sendo atacado e estava pensando no que fazer até que... — Ah, quer dizer então que você estava assistindo tudo? – Me pus de pé, os ombros tensos. – E não fez nada? – Fechei a cara para ela. — Sim, porque eu queria surpreender eles e... – Ela caiu sentada no chão, nervosa. – Eu só não sabia o que fazer pra te ajudar.Ao ver que ela ficou nervosa quando eu me levantei, percebi que ela ficou com medo de mim. Relaxei os ombros e ofereci a mão direita para ela se levantar. Floatzel pôs-se atrás dela, ainda tenso. Ela agarrou minha mão e se levantou.— Desculpe. – Ela ficou em pé na minha frente olhando para baixo. – Não quis ofender. Obrigado por ter me salvado e... – Percebi que com exceção da minha calça suja de lama, eu estava completamente limpo. – Ter me dado um banho? — Não te dei um banho. Floatzel e eu tiramos seus tênis e sua camisa e limpamos você. – Ela foi para o lado nervosa e Floatzel ficou acuado quando não tinha mais sua dona para o esconder. — Ahn... Obrigado. – Eu fiquei desconfortável com a atitude de Floatzel.Nesse momento, Kirlia voltou com 4 garrafas cheias de água. Ela postou-se do lado da menina e colocou-as no chão.— Belo Kirlia. – Apontei para o Pokémon que sorriu. – Já pensou em evoluí-lo? — Ainda não. – Ela tirou o chapéu, revelando o cabelo bem penteado. Sua expressão estava mais relaxada. — Pois deveria, ambas as evoluções do Kirlia são bem fortes. – Eu havia deixado ela mais calma, como eu havia planejado. – Enfim, agradeço pelo salvamento mesmo mas... Não sei seu nome. – Encarei-a. — Scarlett. – Ela cruzou as pernas e pôs a mão no cabelo. – Meu nome é Scarlett. O seu é Jake, não é? — Como você sabe? – Eu falei, espantado. — Ah... – Ela ficou vermelha e mexeu no cabelo. – Quando eu te tirei da água sua mochila estava toda suja então nós três limpamos tudo e achamos sua Pokedéx que continha seu nome. Infelizmente sua mochila também está estragada. Perdoe-me a intromissão. – Ela estava ficando nervosa de novo. — Tudo bem, mesmo. Agradeço por ter tentado limpar minhas coisas, de verdade. – Falei mexendo as mãos para ela não ficar nervosa.Floatzel saiu de perto dela e foi até perto das minhas coisas. Pegou meu símbolo da fronteira e deu nas mãos dela que o pegou e o analisou.— Isso é um símbolo da fronteira, não é? Daqueles que você coloca os símbolos dos Frontier Brains conforme vai derrotando-os? – Ela encarava o objeto com uma expressão curiosa. — Sim, é. Eu estou desafiando a Battle Frontier. – Sentei no chão de novo. – Comecei ontem, na realidade. — E teve um mau começo. – Ela riu e devolveu o símbolo para Floatzel que correu e o pôs no lugar. — Infelizmente. – Dei de ombros. – Mas faz parte da jornada não é? — Você conhecia aqueles três que te atacaram? – Ela sentou-se no chão na minha frente. Kirlia foi ficar perto de Floatzel. — Não. – Olhei para o chão cabisbaixo. – Eu não entendi nada na hora em que eles me atacaram, eu estava comendo tranquilamente com meus Pokémons e aí eles apareceram e atacaram a troco de nada. — Que esquisito... – Ela levou a mão ao queixo. – Bem, se eu sou você tomaria cuidado. — Vou tomar e...Eu olhei para ela e peguei com o olho esquerdo um Aipom descendo a árvore que estava na frente de Floatzel e Kirlia. Ele pegou os dois de surpresa, lançou um Swift jogando os dois para perto de nós e pulou no meio das coisas que eles estavam olhando, pegou um estojo quadrado laranja de tamanho médio que estava ali e saiu correndo.— Ruiva, aquele Aipom... – Olhei para ela e ela estava estática de olhos arregalados para a situação. — Pegou minha...Não perdi tempo. Peguei meu cinto de pokébolas e corri na direção do Aipom. Saquei a pokébola de Infernape e a de Porygon Z.— Infernape, Vaccum Wave! Porygon Z, use o Psychic!Os dois Pokémons surgiram. Infernape arremessou o turbilhão no Aipom e o mesmo rodopiou com o estojo na mão. Vi a figura laranja sendo lançada ao ar porém o Psychic de Z segurou o estojo antes que ele caísse no chão. O Aipom levantou-se rapidamente e saiu correndo. Z me entregou o estojo e eu voltei andando tranquilamente.— Aqui está. – Entreguei o estojo na mão dela. – Cuidado ao deixar suas coisas soltas por aí. — Ob... Obrigada. – Ela esticou os braços e pegou o estojo, ainda de olhos arregalados. — Está tudo bem? – Eu olhei para ela, desconfiado. Infernape e Porygon Z ficaram ao meu lado. — Só que... Eu nunca vi ninguém fazendo nada por mim. – Ela abraçou o estojo com tanta força que eu tive medo dele quebrar. – Se eu perdesse minha câmera seria o meu fim. — Você não perdeu, relaxa. – Sentei do lado dela. – Só cuidado. E se eu não estivesse aqui? — Não quero nem pensar. – Ela levantou os olhos.Seus olhos olharam para minha calça e para minhas roupas sujas. Levantou-se com o estojo na mão e correu até onde estavam minha mochila e uma mochila azul da cor da barra de seu vestido, puxou um pequeno volume da cor da mochila e virou-se para mim, eufórica.— Eu já volto! Fica aqui e toma conta de tudo! – E saiu correndo na direção contrária a do lago com Floatzel e Kirlia em seu encalço.Seus cabelos ondulantes foram a última coisa que eu vi antes de poder sequer esboçar qualquer reação. Olhei para Infernape e Porygon Z que olhavam para a direção que ela havia tomado com a mesma expressão espantada que eu estava. Sentei no chão perto da árvore onde estavam meus objetos e peguei meu Pokétch. Disquei o número de Maylene e resolvi terminar a conversa com ela para não preocupá-la.— Alô? — Jake? Você está bem? Eu fiquei preocupada com você ontem, do nada você ficou esquisito e sumiu. Eu quase liguei pra sua mãe e... – O tom dela era tenso. — Não liga pra minha mãe nem se eu morrer, estamos combinados? – Interrompi-a com um tom decidido. — Por quê disso? Aconteceu alguma coisa? — Um enxame de Beedrills. – Falei sério. Omiti o ataque dos 3 Pokémons pretos para não causar problemas para mim e quem sabe uma volta pra casa antecipada. – Acabou que eu tive que sair correndo para fugir deles. – Relaxei a voz para enganar Maylene. — Ah, então menos mal. Não ficarei tão preocupada assim. – Até sua fala estava mais devagar. – E então? Quantos Frontier Brains já derrotou? — Maylene, eu saí de casa ontem. – Segurei o riso. – Só se eu fosse muito bom e muito rápido pra conseguir tal feito e ainda assim eu duvido disso. — Pensei que você conseguiria, já que desde que acabou a Sinnoh League você só falava disso. — Quem me dera, mas eu preciso treinar bastante se quiser derrotar a todos. — Sabe que não é que nem enfrentar a um de nós, não sabe? – Ao fundo eu ouvia sons de luta corporal. — Sim, eu sei. – Decidi mudar de assunto. – Como está ai no Dojo? — A todo vapor, todo mundo está ansioso pela volta de papai. Não tenho quase desafiantes mais, os poucos que vem quando descobrem que ele está voltando acabam pedindo para esperar duas semanas. – Ela falou irritada. — Ei, isso é bom. Você pode planejar suas férias bem mais agora, — Tentei confortá-la. – E Lucario? — Está aqui comigo. – Ela fez uma pequena pausa, possivelmente para acariciar o Pokémon. – Ainda estou pensando sobre o Focus Blast e... — Maylene... – Cortei-a. – Você sabe muito bem o que eu acho disso. Qual o problema com o Vaccum Wave? — Não é problema, eu só acho que o Focus Blast pode ser melhor para o Lucario, além do que... – Ela estava usando seu tom de sempre quando tentava se explicar. — Mesmo que o Focus Blast seja de fato um ataque mais poderoso que o Vaccum Wave, eu já te falei que o porque de preferir esse ataque. – Fiz uma pausa. – Infernape tem e o ataque é muito rápido. — Tudo bem, tudo bem. – Ao fundo eu ouvi alguém gritar. “Maylene, um desafiante!” – JAKE! UM DESAFIANTE! PRECISO IR! – E desligou o Pokétch sem nem pensar duas vezes.Ri e joguei o Pokétch de lado. Uma sombra passou por cima de mim. Quando olhei pra cima quase tive um infarto com um Gliscor enorme que pousou na minha frente sorrindo para mim. Levantei-me e Scarlett desceu do grande morcego com uma sacola de papel enorme na mão direita. Ela colocou a sacola no chão na minha frente e eu fiquei encarando-a e ao Gliscor.— Um Gli... Gli... – Não conseguia completar o nome. Era muito grande, mesmo. Eu e ela facilmente conseguiríamos voar nele. — Um Gliscor? – O Pokémon desceu a cabeça enorme para a altura dela e ela o acariciou. – Ele é incrível não é mesmo? – E sorriu. — Ele é enorme. – Minha boca escancarada preocupou Scarlett, ela pegou a pokébola de Gliscor e apontou para ele. — Quer que eu o ponha de volta? — Não, não. – Me aproximei. – Como ele ficou assim? — Quando ele era um Gligar já tinha o porte de um Gliscor. – Ela mexeu nas orelhas dele e ele balançou a cauda. – Quando evoluiu ficou do dobro do tamanho de um Gliscor comum. — Que interessante. – Olhei para minha calça e me ocorreu uma coisa. – Vem cá, qual dos seus Pokémons sabe o Muddy Water? — O Floatzel, por quê? — Impossível. – Olhei desconfiado. – Floatzel não sabe Muddy Water. — Ahn... O meu sabe. – Ela ficou envergonhada. – Eu nunca soube como ele aprendeu, porque quando eu o ganhei como Buizel ele já sabia. — Que interessante... – Cocei o queixo. – Um Pokémon que conhece um movimento que normalmente não aprende. Que inclusive, destruiu minhas roupas. – Apontei para a calça. — Quanto a isso... – Ela olhou para a sacola. – Por ter estragado suas roupas e você ter salvo minha câmera.Olhei na sacola. Roupas. Fechei a cara.— Ruiva, eu não preciso disso. – Me afastei da sacola. — Olha, eu voei no Gliscor. Se eu fosse a pé levaria quase dois dias inteiros para sair daqui e chegar na cidade. – Ela tirou uma camisa azul de mangas compridas. – E sinceramente? Você precisa de roupas novas, quem vai deixar você entrar em uma loja com essas porcarias aí no chão. – A blusa azul foi estendida bem na frente do meu rosto. – Por outro lado, isso aqui... — Tá, mas quero só ver se você comprou alguma coisa ridícula para mim e... — Querido, eu sou estilista. Além de ter descontos para comprar roupas eu comprei algo infinitamente melhor que essa sua roupa que me desculpa, mas era horrível. – Ela usou um tom de deboche tão forçado que eu acabei rindo. — Ruiva, você não é assim. – Me abaixei e peguei as roupas que ela comprou. – Não precisa forçar. — Quem disse? – Ela tentou manter a pose. E arremessou a camisa na minha direçãoRi de novo. Peguei as roupas. Uma calça marrom e tênis pretos. Além disso havia uma bolsa cinza e até um cinto novo. No fundo da sacola havia um gorro. Olhei torto para o gorro.— Um gorro? – Torci a boca. — Não esquece que você está com um curativo na cabeça. – Ela pôs a mão na parte de trás da cabeça.Enfiei o gorro na cabeça. Andei até atrás de uma árvore e coloquei as roupas. Em dois minutos voltei e a ruiva estava com um Ampharos e um Heracross do lado do Gliscor dela.— Ahn... Mais algum Pokémon especial que eu não conheço? — Não, são só esses cinco. – Ela acariciou seu Ampharos e o Heracross dela virava o rosto de um lado pro outro freneticamente. — Entendi... – Fui até minhas coisas no chão e arrumei tudo na bolsa nova. – Bem, ruiva. Agradeço tudo que você fez por mim mas acho que tá na hora de você seguir seu caminho e eu o meu. – Eu disse meio sem jeito. — Ah... – Ela ficou cabisbaixa. – Tudo bem. – Ela se virou para os 3 Pokémons e depois para mim. – Eu... Posso ir com você? – Seus olhos chegaram a brilhar. — Ir aonde? – Fiquei espantado. — Com você. – Ela recolheu os 3 de volta em suas pokébolas e correu na direção da sua mochila. – Você vai desafiando a Battle Frontier e eu te acompanho. Que tal? – Ela arrumou a mochila em uma velocidade incrível, colocando o estojo da câmera e desinflando o colchão inflável até ele ficar do tamanho de um retângulo pequeno dobrável. — Olha... – Hesitei. – Ruiva, não que eu não esteja agradecido por você ter me salvado e feito o curativo e comprado as roupas e tudo mais, mas... — Mas? – Ela desacelerou sua euforia um pouco e parecia triste. — Por mais que a ideia de viajar sozinho seja tediosa e uma companhia seja legal... Você viu o que aconteceu comigo ontem. Não quero que você se arrisque por estar comigo.Ela largou a mochila no chão e respirou fundo, sua aparência triste se fechou numa expressão carrancuda. Levantou o dedo na minha cara e disse num tom tão sereno que eu quase fiz xixi nas calças.— Primeiro de tudo, a ruiva se chama Scarlett. Scarlett. Entendeu? Segundo que eu salvei a droga da sua vida e te comprei roupas novas. Terceiro que você salvou meu objeto de trabalho. Quarto que se eu estivesse com você ontem, você não precisaria ter pulado no rio e perdido suas roupas. E quinto... — Quinto? – Eu disse quase sem voz de tão estarrecido que fiquei. — Eu fotografava você antes do ataque de ontem. – Ela ficou mais vermelha do que todas as outras vezes. — Fotografava? – Eu arregalei os olhos. – Me mostra. – Agachei-me na direção da mochila dela, porém, ela me empurrou para trás. — Só vou te mostrar as fotos se me deixar ir com você. – Ela deu um sorriso malicioso e vestiu seu chapéu de volta. Olhei para ela. Talvez fosse uma boa companhia para viajar e no futuro caso aqueles três voltassem, poderia ser de grande ajuda. Sorri de volta e disse: — Parece então que somos amigos agora, Scarlett.
Notas finais
- Personagem principal adicionada: Scarlett.
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