The Art Of The Lie - 1, 2 e 3 (hiatus)
56 Capítulo 08
Notas iniciais
“Procurando por respostas? Não olhe em meus olhos como se, ao flutuar em meus mais obscuros segredos, você as fosse encontrar. Pois é tão mais fácil afundar-se nas verdades e mentiras alheias do que encarar a própria realidade... é tão mais fácil mentir a si mesmo do que simplesmente encarar o próprio rosto no espelho...”
Se Damon ainda tinha qualquer dúvida quanto à veracidade das palavras da enigmática Marie, depois daquele dia não mais as teve. Confiando que estava tomando a melhor de todas as decisões, ele deixou Edward aos cuidados daquela mulher enquanto voltava pra casa. Lá, segundo ela, Caleb logo estaria, afim de fazer-lhe algumas perguntas. E aquela colar em seu pescoço, ainda segundo Marie, impediria que Caleb colhesse de sua expressão qualquer indício de que ele sabia onde Edward estava.
Inexplicável? Bem, era. Mas não deixava de ser verdade. Ele só pensava em como não estaria a cabeça de Edward naquele momento... por que não era nenhum segredo que, dentre ambos, Edward era o mais incrédulo. O mais cético; tanto quanto era permitido a uma pessoa ser. E agora que aquelas coisas lhe aconteciam... bem, Damon acreditava que Edward estava bem confuso. Muito, muito confuso, na verdade.
E, como o bom amigo que era, Damon se via na obrigação de ajudar. Não que ele pudesse simplesmente dar as costas a algo como aquilo, mas o fato de Edward estar bem no meio daquela loucura toda certamente colocava certa responsabilidade em suas costas.
Pensava em todas essas coisas quando estacionou exatamente na mesma vaga que horas mais cedo, quando, sorrateiramente, levara Edward até seu apartamento. Riu sozinho ao se lembrar da aparência ridícula do rapaz com aquelas roupas despojadas, aquela peruca horrível e, pra arrematar, aquele boné barato. Quando tudo aquilo acabasse, Damon certamente se lembraria de rir muito ao se lembrar destes pequenos detalhes.
Mas, ao passo em que o elevador o levava até o andar onde morava, o sorriso foi morrendo. Tinha que se preparar; logo, estaria em frente a Alice e teria muito que explicar. Por menos que Alice soubesse sobre toda aquela coisa de ler as pessoas daquela forma científica – e, em casos raros como o de Bella, de uma forma nem tão cientifica também – Alice não se contentava com meias palavras. E sempre parecia saber quando tinha mais a descobrir além do que lhe era contado.
Só que, apesar de conhecer a namorada, Damon não temia tanto seu encontro com Alice. Ele temia a possibilidade de Isabella Swan ainda estar em seu apartamento.
Afinal, Marie lhe dissera que aquele colar não funcionaria com ela. Com alguém tão experiente e perito como Caleb sim, mas com Bella não. Damon ainda não sabia o quanto disso era verdade, mas tinha sérios motivos pra não querer testar os limites dos poderes ocultos daquele estranho objeto. Além de saber que Edward voltara da Europa – viagem que tirara muito da paz de Bella, mesmo que ela tivesse lutado por não demonstrar tal coisa – Damon também sabia algo sobre a vida de Isabella Swan; algo que ela nem mesmo sonhava ser possível.
Aquela mulher que a criara e que morrera anos antes não era sua mãe. Na verdade, sua mãe era uma Natural que sabia muito sobre aquelas esquisitices que pareciam cercar a garota. E, pra arrematar, tal mulher estava em Washington. Em um sanatório, fingindo-se de louca, enquanto pessoas procuravam por ela.
Como se esconde algo dessa magnitude?
- Ah. – Alice disse quando o viu entrar, parando no corredor enquanto o olhava nos olhos. Damon até mesmo parou no ato de girar a chave na fechadura ao ver a expressão que carregava o rosto da garota. – Você chegou.
Nada de beijos e de abraços. Nada de uma recepção calorosa na qual ele recebia o corpo da namorada em seus braços, deliciando-se com a sensação de ter alguém que sentia tanto a sua falta e que gostava tanto de sua companhia. Que o amava.
Pois essa é a sensação mais deliciosa do mundo, não? Sentir-se amado. Mas naquele momento, enquanto recebia o duro olhar de Alice, que ainda trajava o pijama e tinha os cabelos revoltos pela noite de sono, Damon não se sentiu amado. Sentiu muitas coisas, mas nenhuma delas era amor.
No máximo, amor à própria vida. Pois se quisesse viver, teria que escolher muito bem suas palavras.
- Amor! – ele a saudou com um imenso sorriso, vindo abraçá-la logo depois de ter fechado a porta. E o fato de Alice ter fugido de seu beijo ao virar o rosto e de não ter enlaçado seu corpo mesmo quando os braços do rapaz estavam em torno dela deixava bem claro que ela estava muito, muito zangada com ele. – Você está brava comigo?
- E não deveria estar? – ela rosnou em resposta, lançando um olhar nervoso em direção à cozinha. Foi quase imperceptível, mas foi o bastante pra que Damon soubesse que Bella estava na cozinha. – Você me chama aqui, me diz que precisa viajar pra ajudar o Edward, deixando-me responsável por não permitir que Bella se aproxime muito de George. E, sem maiores explicações, simplesmente vai! Você queria o que? Que eu estivesse saltando de felicidade?
- Amor, muita coisa aconteceu. – Damon tentou esclarecer, mas não estava tendo resultados positivos. Isso era mais do que evidente. – Não posso entrar em detalhes. Não agora, pelo menos. – ele prosseguiu, num tom de voz contido. Percebendo que Alice viera de seu quarto, Damon presumiu que ela não vira seu bilhete na geladeira. E se Bella estava na cozinha... bem, ele tinha que ser rápido. E discreto, acima de qualquer coisa. – Você tem que confiar em mim, entendeu? É a única coisa que eu te peço: que você, como minha namorada, confie em mim.
- Você tem certeza de que está fazendo a coisa certa? – Alice perguntou, seu olhar ainda estando repleto de desconfiança. Mas ele percebeu que, aos poucos, ela ia cedendo.
- Claro que sim, Alice. – ele muniu-se de um sorriso manhoso, abraçando-a novamente e beijando seu pescoço, naquela região mais próxima da orelha. Damon sabia que aquele era o ponto fraco dela. E por isso não se surpreendeu quando sentiu o corpo de Alice amolecer em seus braços, sua pele se arrepiando enquanto ele deslizava a ponta do nariz por sua pele sensível e a presenteava com alguns leves beijos. – Confie em mim, amor. Logo, te contarei tudo o que há pra saber.
- Contará mesmo? – ela sussurrou em resposta, deixando que seus braços viessem enlaçar as costas fortes de Damon, que não pôde deixar de sorrir. Ponto pra ele. – Promete?
- Prometo. – ele sussurrou já contra os lábios dela, beijando-a apaixonadamente em seguida. Se havia alguma resistência antes desse beijo, depois dele só havia uma coisa: desejo.
- Não! – Alice disse numa voz pouco convincente quando sentiu Damon deslizar as mãos por suas costas, apertando suas nádegas enquanto a puxava pra mais perto. E nunca parando de beijá-la, claro. – Bella está na cozinha. Eu a trouxe pra cá, caso você não tenha recebido minha mensagem.
- Maldição. – Damon rosnou, dessa vez com absurda sinceridade. Era errado ele querer apenas alguns minutos com a namorada mesmo com uma guerra estourando lá fora? – Então vamos até lá. – ele por fim suspirou, beijando a testa da namorada e enlaçando seus ombros com apenas um dos braços.
Bella, ao contrário de Alice, estava vestida com jeans e camiseta, com o cabelo penteado e o rosto sem qualquer vestígio de sono. Algo no olhar que ela lançou aos dois quando ambos entraram na cozinha disse a Damon que ela acordara algum tempo antes de Alice por algum motivo, deixando-a dormir o quanto quisesse. A conversa que veio a seguir confirmou suas suspeitas.
- Você deveria ter me acordado. – Alice resmungou ao ver a amiga ler alguma revista que ela encontrara por ali enquanto tomava uma caneca de café, sentada num banco e com os cotovelos apoiados no balcão. – Não queria dormir tanto.
- Desculpe. – Bella sorriu suavemente ao dirigir-se à Alice. Mas não sem antes relancear um olhar desconfiado e repleto de coisas as quais Damon não sabia nomear. Quando se tratava daquela garota, ele nunca sabia de coisa alguma; já devia ter-se habituado com isso. – É que você estava dormindo tão profundamente que eu tive pena de interromper seu sono.
- Fico mal-humorada quando durmo demais. – Alice resmungou o óbvio e ia se sentar ao lado de Bella, mas lembrou-se de um pequeno detalhe. – Meu iogurte. – ela comentou enquanto fazia menção de se virar pra geladeira. Mas Damon foi mais rápido. Pra sua grande sorte, ele foi mais rápido.
- Deixe comigo. – ele se prontificou, já caminhando naquela direção. Oculto pela porta aberta, não foi difícil pegar o papel que ele mesmo colocara embaixo do pote de iogurte horas antes e amassá-lo, guardando-o no bolso da calça. – Aqui está. – dessa vez, seu sorriso era ligeiramente maior quando entregou o iogurte à namorada, beijando o topo de sua cabeça. Sem riscos de qualquer uma das duas saber que Edward estava em Washington. Agora que ele estava ali, não havia por que dizer-lhes tal coisa. Não daquela forma, pelo menos.
- Então, Sr. Misterioso. – Bella começou a dizer depois de ter tomado um gole de sua caneca, seus intensos olhos castanhos observando atentamente enquanto Damon se servia de café. Depois de conhecer Marie, não havia como não compará-las. Aqueles olhos... como ele não percebera antes? Eles eram idênticos! – Podemos saber o que o levou a viajar tão de repente ou ainda é segredo?
- Ainda é segredo, se você não se importa. – Damon respondeu com uma piscadela esperta, soprando o café fumegante e bebendo um gole. Estava forte, levemente adocicado e quente, do jeito que ele gostava. – Tenho algumas coisas a resolver antes de qualquer interrogatório.
- Coisas como...? – Alice perguntou, já tendo devorado metade do conteúdo do pote que Damon lhe passara. E ele ainda não sabia como ela tinha estômago pra comer aquela coisa. Ugh!
Antes que Damon pudesse responder, a campainha tocou. Não precisava de qualquer confirmação pra saber quem procurava por ele em uma manhã de sábado, em pleno dia de folga. E foi com um sorriso que ele fez um sinal com a cabeça em direção à porta de entrada, se afastando da cozinha enquanto dizia.
- Coisas como essa. – Damon não se ateve às expressões de ambas antes de sair para o corredor, seguindo até a porta. Antes de abri-la, ele olhou através do olho-mágico – coisa da qual ele não abria mão, mesmo sendo algo um tanto quanto retrógrado – e constatou suas suspeitas: Caleb Langdon estava ali.
xxx
Quando Edward despertou, ele não soube dizer que horas seriam. Assim que pôde abrir melhor seus olhos, já que suas pálpebras ainda lhe pareciam absurdamente pesadas, ele constatou que lá fora já estava escuro. Pela janela, que não era gradeada assim como a do quarto de sua mãe, a luz elétrica que iluminava o jardim lançava sombras lúgubres no pequeno aposento.
Ele ainda não conseguia acreditar que estava realmente ali. Estava fugindo de algo que ele não compreendia, lutando contra pessoas que ele nem mesmo conhecia, defendendo coisas das quais ele pouco sabia. E, enquanto tudo lhe era esclarecido, convinha que ele estivesse internado no mesmo lugar onde, anos antes, ele mesmo internara sua mãe.
Não podia pensar nisso. Naquele momento, havia muito que pensar. Havia coisas a fazer. Então pensaria naquela questão mais tarde. Como sempre, deixaria aquela questão pra depois.
Por que doía demais pensar em toda aquela merda...
Gemendo ao sentir suas articulações doloridas e seus músculos cansados, Edward espreguiçou-se, esfregando ambos os olhos como se quisesse espantar o sono definitivamente. Deveria estar totalmente acordado quando finalmente abrisse aquele livro. O livro que, mesmo dormindo, ele não deixara longe de si; antes, quando despertara, ele visualizara o vulto do misterioso objeto ao lado de sua cabeça.
Pensando em quanto tempo teria até que Marie o chamasse – já que, segundo ela, eles teriam uma conversa naquela madrugada. Até mesmo Damon fora convidado a participar dela – Edward tateou pelo quarto semiescuro, procurando por um interruptor. Quando a luz muito clara invadiu o cômodo, ele protegeu os olhos com uma das mãos enquanto voltava pra cama. Nada no mundo o impediria de ler aquele livro. Nem mesmo a fome, que fazia seu estômago se contorcer e rugir, o incomodava naquele momento.
Havia apenas a necessidade de saber. E esta precisava ser sanada antes de qualquer outra coisa.
Com seu coração galopando no peito devido à ansiedade que o consumia, Edward sentou-se na cama, encostando-se à cabeceira. Prendendo o lábio inferior com os dentes, ele puxou o velho livro pra si, respirando fundo antes de abri-lo.
Uma coisa era certa: quem quer que o tenha escrito, era uma pessoa extremamente meticulosa. Aquela caligrafia antiga, desenhada no papel grosso e amarelado por uma caneta tinteiro e provavelmente finalizada por um mata-borrão, não mostrava sinais de fraqueza ou cansaço em nenhuma das páginas daquele livro. Não havia título ou qualquer referência ao autor daquela obra; havia apenas a história. E, naquele momento, era o que mais interessava a Edward.
Então ele leu. Permitiu que seus olhos corressem pelas páginas, decifrando as palavras e absorvendo o conteúdo do que ali fora gravado anos e anos antes. Depois de ter lido mais ou menos umas vinte páginas, Edward só podia acreditar que aquilo era a mais fantasiosa de todas as ficções.
Pois ali ele encontrou uma história que datava de milhares de anos atrás. Tal história, narrada pelo escritor misterioso, apresentava ao leitor a ideia de que durante muito tempo existira uma sociedade dentro da própria sociedade; enquanto as pessoas comuns desconheciam a existência dessas pessoas ditas como “especiais”, tais pessoas estavam cientes do potencial que possuíam, reunindo-se aos seus semelhantes e escondendo das demais pessoas quem eles eram de fato.
Não havia ali qualquer citação que pudesse ligar pessoas reais àqueles acontecimentos, mas o autor contava detalhadamente desde a primeira tentativa de organização feita por aquela classe distinta até o dia no qual tal “sociedade” se desfez. Segundo ele – ou ela; quem poderia saber? – tal organização era composta por uma estranha hierarquia: uma única mulher era venerada como sendo a rainha enquanto os demais, todos homens, a serviam como podiam. Em troca, a rainha lhes agraciava com seus conhecimentos e favores provenientes de suas habilidades especiais.
Pois todos os integrantes daquela estranha organização possuíam poderes. Estando acima dos humanos comuns, tais homens acabavam por conseguir privilégios junto às figuras mais poderosas ao usar de seus talentos: estes eram os médiuns, videntes, leitores de mente e feiticeiros que fazem parte das histórias de muitas culturas. Mas mesmo que estes homens possuíssem habilidades com as quais as demais pessoas apenas sonhavam, nenhum deles chegava aos pés da rainha.
Ela era única. Descendente de uma linhagem da qual as raízes se tinham perdido no tempo, a rainha era a única mulher que possuía tais habilidades. Comparada aos homens, a rainha possuía poderes equivalentes a vinte deles reunidos. Devidamente treinada, não havia limites para tal mulher; assim sendo, ela era cobiçada e venerada por todos os homens que sabiam sobre suas origens e que conheciam a grandeza dela.
Era uma tradição de anos e anos. Todo homem dotado de poderes além da imaginação humana acabava por se casar com mulheres comuns, já que a rainha escolhia apenas um deles pra reinar ao seu lado. E tais homens geravam filhos como qualquer outro; meninos e meninas que levariam adiante a sua linhagem sanguínea.
Mas uma mulher jamais daria à luz a um desses homens, mesmo que seu pai fosse um deles. Tal coisa só aconteceria se o pai da criança fosse um deles. Pois ao menos um dos filhos do sexo masculino gerados por tais homens nascia dotado daquelas estranhas habilidades.
Assim sendo, a população masculina de tal sociedade só crescia enquanto a população feminina se resumia à rainha. Segundo o livro, tal mulher era venerada como uma deusa já que ela era a única que possuía ligação direta com o mundo dos mortos.
Edward não pôde conter um muxoxo de incredulidade diante desse detalhe. Que raios de história era aquela? Ligação com o mundo dos mortos? Capacidade de falar com espíritos e de usar magia antiga? Expansão da aura espiritual?
Que bobagens eram aquelas?
Depois de apresentar ao leitor toda a história daquela antiga civilização, o escritor então contava como tal sociedade encontrou seu fim. Pois aqueles homens que tinham venerado as rainhas geração após geração nunca estiveram contentes com a ordem das coisas; desde quando homens se sentem felizes quando uma mulher governa? Eles se sentiam ameaçados pela rainha ao perceberem o quão a frente deles ela estava. Por mais que se esforçassem, eles nunca chegariam nem mesmo aos pés de tal mulher. E por mais filhos que eles tivessem, nenhuma de suas garotas herdaria o trono e os conhecimentos reservados a tal posto.
Pois só havia uma rainha por vez. E essa rainha sempre nasceria do ventre da rainha anterior, sem exceção. Não havia como fugir a essa regra.
Assim, tais homens permitiram que a escuridão da noite dominasse seus corações. Esquecendo-se dos ensinamentos da rainha, que fora aquela que os arrebanhara e ensinara, capacitando-os pra que eles pudessem usar seus dons tanto quanto era possível, tais homens simplesmente sucumbiram às mentiras sussurradas pelas trevas. E, dessa forma, um motim se formou. Sentindo-se ameaçada, a rainha teve que sair de cena até que as coisas se acalmassem.
Mas as coisas não se acalmaram. Antes, alguns daqueles homens se reuniram em uma espécie de organização que visava justamente encontrar e capturar a rainha. Liderados por um demônio que trajava vestes de cordeiro, eles basearam suas vidas em localizar e capturar a rainha, forçando-a a dar-lhes aquilo que pertencia a eles por direito.
Um rei. Um homem tão poderoso quanto à rainha, ou até mais do que ela. Alguém do sexo masculino que pudesse governar com maior firmeza, organizando os demais homens pertencentes àquela classe tão especial, direcionando-os ao destino inevitável: a guerra contra as pessoas tidas como normais. Os seres limitados e comuns.
Sendo tão especiais, por que eles deveriam servir àqueles seres patéticos? Deveria ser o contrário! Todos eles mereciam ser venerados ou ao menos respeitados por aquelas pessoas tão absurdamente limitadas.
E, firmando-se nessa promessa, aquela organização secreta passou a buscar pela rainha em uma quase obsessão. Adaptando-se a sociedade de uma forma geral, tais pessoas se camuflavam em funções tidas como comuns enquanto buscavam pela herdeira dos poderes reais. Muitas guerras foram travadas, muitas pessoas morreram – e a maior parte delas nem mesmo sabia dos reais motivos de tais confrontos – enquanto eles continuavam em sua incansável busca.
Mas por mais que buscassem, eles nunca conseguiam encontrá-la. Quando estavam perto de colocar suas mãos em tal mulher, esta simplesmente desaparecia como fumaça. Por que, por mais que a maior parte daqueles homens que antes veneravam a rainha tivesse sucumbido às promessas de alguém indigno de confiança, alguns deles permanecia fiel à ordem natural das coisas: a rainha era simplesmente a rainha, não havia o que discutir. Eles, como servos, deviam dedicar suas vidas para proteger tal mulher, pois com ela estavam alguns dos maiores mistérios do universo.
Caindo em mãos erradas, tais segredos tinham o poder de instaurar o caos no mundo todo. Eles tinham sim o poder de mudar o mundo pra sempre, assim como as pessoas que nele viviam. Por isso a rainha deveria ser protegida, nem que pra isso eles precisassem colocar em risco suas próprias vidas.
Sem dar maiores detalhes sobre o que acontecera depois da rebelião que dividira a antes tão organizada sociedade, o livro trazia um aparte que listava alguns nomes. A princípio, Edward não soube dizer do que se tratava. Eram duas colunas sem qualquer cabeçalho que indicasse o assunto relacionado ali; de um lado, nomes femininos, e de outro, masculinos. As letras eram diferentes, e as caligrafias e tintas indicavam certa passagem de tempo entre um nome e outro.
O que aquilo queria dizer? Quem seriam aquelas pessoas?
Só quando chegou ao fim da lista, Edward compreendeu. Não toda a verdade, mas ao menos ele soube de uma coisa: Bella decididamente não estava segura. Ele não sabia como, nem por que, mas ali, gravado numa escrita apressada e rabiscada, estava a prova de que aquele era o ponto onde tudo se relacionava.
Pois, de um lado, ele via claramente seu nome – Isabella Swan – logo abaixo do nome completo de Marie. E, na coluna que se relacionava aquela, era mais do que lível o nome recém-escrito. E ali, diante dos seus olhos, estava o nome daquele que perseguia a sua Isabella.
E seu nome era George de Castro.
xxx
Horas antes, a quilômetros de distância daquele hospital psiquiátrico, Bella estivera sentada ao lado de Alice no balcão da cozinha de Damon enquanto este ia abrir a porta pra quem quer que estivesse tocando a campainha. Ela ainda não acreditava que o rapaz continuava a mentir tanto pra Alice quanto pra ela, ocultando de ambas a verdade. Estava mais claro do que o dia que algo acontecia, mas Damon se recusava a contar-lhes do que se tratava.
E esse algo relacionava George de Castro, um rapaz ao qual ela mal conhecia, e ela mesma. Por que Alice acreditava que seria uma má ideia que Bella permitisse ao rapaz aproximar-se de si? Conhecendo a amiga como julgava conhecer, tal ideia não surgira do nada. E a baixinha dera pistas mais do que o suficiente pra que Bella deduzisse que Damon acreditava nisso.
George... Damon... Edward... o que estaria acontecendo? E por que todos pareciam esconder algo dela, sendo esse algo diretamente relacionado à sua pessoa?
Se antes estivera curiosa, não sabia mais como descrever seu estado depois de ouvir a voz conhecida soar no hall de entrada. Era Caleb. Caleb Langdon, seu chefe e mentor, estava no apartamento de Damon em pleno sábado de manhã. E, pelo que ela sabia, tanto ela quanto Damon e Emmett estavam de folga, já que eles viajariam para Nova Iorque na segunda. Então o que traria Caleb Langdon até ali?
- Mas ora, vejam só quem está aqui! – Caleb sorriu quando seus olhos focaram Bella, que ainda estava sentada ao lado de Alice. A baixinha estava anormalmente calada graças ao seu mau humor matinal, intensificado pelas horas extras de sono. — Caiu da cama, Bella? Ou teve pesadelos e veio refugiar-se na casa dos amigos?
- Não, não tive pesadelos. – Bella respondeu, dando de ombros enquanto bebericava seu café. E por falar em sonhos... ela nem mesmo queria pensar sobre as estranhas visões que ela tivera naquela noite. Em parte foram elas que acabaram por roubar seu sono, fazendo com que ela levantasse horas antes de Alice. Em seu sonho, ela conversava com Edward. Mas fora tão estranho... Bella estava deitada naquele quarto enquanto ele permanecia em pé, ao lado da cama, falando com ela. Por mais que sua maior vontade fosse se levantar e abraçá-lo, não podia fazê-lo. O máximo que pôde foi dizer-lhe algumas palavras antes que ele se desfizesse em fumaça, fazendo com que ela mergulhasse em um sono profundo e sem sonhos dessa vez.
Mas, antes de desaparecer, ele havia dito algo que mexera com a garota. Ele dissera que a amava. E pedira pra que ela confiasse nele. Pra que esperasse por ele. Como uma coisa daquelas não poderia mexer com ela?
- Não tive pesadelos. – ela confirmou, encarando o olhar fixo de Caleb e percebendo que Damon caminhara até onde elas estavam, sentando-se ao lado de Alice e bebendo de sua caneca. Bella não precisou olhar no rosto do rapaz pra perceber que ele não estava nenhum pouco preocupado com aquela estranha visita. Parecia que ele esperava por isso. Por quê? – Dormi aqui com Alice e perdi o sono logo pela manhã. E você, o que faz por aqui?
- Apenas uma rápida visita. – Caleb deu de ombros daquela sua forma despreocupada. – Eu adoraria dizer que é uma visita impessoal, mas na verdade eu tenho algumas perguntas pra fazer a Damon. Você gostaria que fossemos a algum lugar mais reservado, Damon?
- Não, tudo bem. – o rapaz deu de ombros. Bella então passou a prestar maior atenção no amigo; o que diabos estava acontecendo ali? – Pode falar tudo o que há pra ser dito.
- O que você foi fazer na França? – Caleb perguntou de supetão. Graças à falta de reação de Alice, Bella percebeu que ela sabia pra onde o namorado viajara. Mas fora sincera ao dizer que desconhecia os assuntos que o tinha levado a fazer tal viagem.
- Fui visitar o Edward. – Damon deu de ombros diante do olhar analítico de Caleb. – Você sabe, ele saiu daqui sem se despedir. Eu só queria dar uns sopapos nele e convencê-lo a voltar pra casa o mais rápido possível.
Ele era doido? Damon estava mesmo mentindo pra Caleb Langdon sem nem mesmo tentar camuflar tal mentira? Bella olhava de um rosto pra outro sem acreditar no que via. Estava mais do que evidente a mentira de Damon! Mas por que então ela percebera um lapso de confusão por detrás do olhar impenetrável de Caleb?
- Você usou uma de suas identidades falsas. – Caleb prosseguiu, surpreendendo Alice que lançou um olhar desconfiado a Damon. Mas o rapaz permaneceu impassível. – Na gravação do aeroporto, eu vi você, mas na lista de embarque está um dos nomes que você usou em alguns de seus trabalhos. Por que, Damon?
- Nenhum motivo específico. – Damon deu de ombros. – A verdade é que meu passaporte como Carl Stevens está mais em dia do que o meu como Damon Salvatore.
Mentira!
Foi o que Bella teve vontade de gritar. Mas parecia que Caleb não concordava com ela. Pela expressão do homem, ele estava acreditando em tudo o que Damon lhe dizia. Como isso era possível? Como?
O que diabos estava acontecendo ali?
- Você se encontrou com Edward na França? – Caleb perguntou, lutando por camuflar sua decepção. Mas esta era tão forte que lhe era extremamente trabalhoso não demonstrá-la.
- Não. – Damon mentiu. Mentiu descaradamente. – Graças a uma rápida conversa nossa por celular, ele me deu seu endereço. Mas quando lá cheguei, o quarto estava trancado e vazio. Ainda esperei por um tempo, mas ele não voltou. Eu estava realmente puto com as atitudes de Edward nos últimos tempos e isso foi realmente a gota d’água; querendo matá-lo por sumir quando ele sabia que eu viria ao seu encontro, eu simplesmente voltei pra casa. E aqui estou, fim.
- Como você voltou? – Caleb perguntou, agora decididamente confuso. Ele nem mesmo tentava mascarar isso. – Não há registros de que você tenha voltado da França.
- Peguei carona com um amigo meu. – Damon esclareceu com simplicidade. “Mentiu com simplicidade”, Bella corrigiu-se em pensamento. – O que posso dizer? Tenho meus contatos. Mas por que todo esse interrogatório? Infringi alguma lei ao viajar pra França?
- Edward está desaparecido. – Caleb informou naquela sua voz calma, sem alterar-se mesmo que estivesse soltando uma bomba na pequena cozinha. Bella pensou em desesperar-se por um momento, mas um rápido olhar em direção a Damon lhe trouxe uma certeza: ele sabia onde Edward estava. E não era como se ela duvidasse de que ele estivesse por fora de toda aquela estranha história...
Mas, como Alice não possuía os dons naturais de Bella, ela simplesmente se desesperou. O nervosismo de Damon ante a reação da namorada dizia a Bella que ele não esperava que Caleb fosse dar tal notícia assim, do nada. Esperava pelas perguntas, mas não esperava que Caleb fosse contar sobre o suposto desaparecimento de Edward.
- O que? – ela perguntou numa voz estrangulada, derrubando o banco onde antes estivera sentada ao levantar-se de um salto. – Meu irmão... desapareceu?
- Como assim? – Bella perguntou, tentando fazer-se de surpresa. Não seria bom que Caleb percebesse o quanto ela desconfiava de tudo aquilo. – O que aconteceu?
- Ainda não sabemos. – Caleb deu de ombros. – Ainda há pouco, recebi uma ligação de Antoine que me contou que Edward não apareceu na agência hoje. Quando foram procurar por ele no hotel, encontraram o quarto trancado e vazio. Ninguém sabe pra onde ele foi, mas é evidente que ele levou uma pequena mala com alguns pertences. Tentamos contatá-lo, mas seu celular está redirecionando à caixa-postal em todas as chamadas.
- Mas... mas... e agora? – Alice perguntou aflita. Damon levantou-se de seu lugar e a abraçou, querendo confortá-la.
- O que faremos, Caleb? – ele perguntou tentando aparentar nervosismo, ansiedade e uma pequena pontada de desespero. Mas tudo era falso.
Então por que Caleb não percebia?
- Ainda é cedo pra fazermos qualquer coisa. – Caleb esclareceu. – Como não há sinal de que alguém usou de violência pra tirá-lo do hotel, deduz-se que ele saiu por livre e espontânea vontade. E é correto afirmar que Edward vem agindo estranhamente nos últimos meses... então devemos esperar.
- Simplesmente assim? – Alice perguntou, incrédula. – Esperar?
- Não podemos fazer nada antes que as 24hs se completem. – foi Damon quem explicou. – Só então poderemos prestar queixa formal e mover Céus e Terra pra encontrá-lo.
- Bem... eu esperava que você pudesse me dar uma pista sobre o paradeiro de Edward, Damon. – Caleb foi sincero. E seus olhos, mais do que nunca, buscavam no rosto do rapaz qualquer sinal de que ele pudesse mesmo saber sobre aquele negócio. Bella nunca vira Caleb buscar tão avidamente por algo como naquele momento. E isso a assustou um pouco. – Tem certeza de que não viu nada? Não percebeu nada fora do comum?
- Nada que eu me lembre. – Damon mais uma vez mentiu ao dar de ombros, ainda abraçado a Alice que parecia estar em choque com a possibilidade de Edward ter mesmo sumido no mundo. – Repassarei toda minha rápida viagem e te direi se me lembrar de algo que seja útil.
- Ok. – Caleb concordou num tom muito vago enquanto seus olhos ainda estavam fixos no rosto de Damon. Ele analisava o rapaz sem qualquer disfarce ou constrangimento e parecia surpreso por não encontrar nada do que viera buscar. E Bella não fazia ideia do por que de ele não conseguir enxergar o óbvio. – Eu preciso ir. Passei rapidamente só pra saber se por acaso você poderia nos ajudar com alguma informação. Tenho assuntos a resolver e... bem, preciso mesmo ir.
Mesmo que Damon tenha insistido pra que ele tomasse ao menos uma xícara de café, Caleb permaneceu irredutível: ele tinha que ir embora dali. Então Damon o acompanhou até a porta enquanto Alice e Bella permaneceram na cozinha. E Alice era a visão do próprio desespero.
- O que nós faremos agora? – ela sussurrou com o olhar fixo na bancada como se estivesse perdida em pensamentos. – Edward sumiu... pra onde ele foi? Será que... será que alguém o sequestrou?
- Eu não acho. – Bella comentou enquanto permanecia com seus ouvidos atentos a despedida dos dois homens à porta do apartamento. – Acredito que ele esteja bem.
- Como pode ter certeza? – Alice perguntou, surpresa com a calma absurda da garota. – Bella, Edward sumiu! Por mais estranho que ele estivesse nos últimos meses, ainda mais nas últimas semanas, ele não é o tipo de cara que simplesmente some!
- Eu sei disso. – Bella confirmou. – Mas não acredito que ele tenha sumido. Acredito apenas que algumas pessoas pensam que ele sumiu, mas não que ele tenha desaparecido de fato.
- Explique-se, por favor. – Alice pediu no mesmo instante em que Damon entrou de volta na cozinha. Antes de prosseguir, Bella permitiu que seus olhos se encontrassem com o olhar absurdamente azul do rapaz, surpreendendo-se quando o viu engolir em seco. Mas havia algo mais importante do que descobrir por que, de repente, ela o deixara nervoso.
- Damon poderia nos explicar, não é mesmo? – ela disse num tom de voz um pouco mais alto, fazendo o rapaz coçar a cabeça, visivelmente desconfortável. Ele sabia que ela sabia, mas conseguira enganar Caleb: como aquilo era possível? – A começar por que nos escondeu que Edward esteve aqui. E, é claro, nos explicar por que ambos partiram sorrateiramente, deixando um bilhete embaixo do iogurte que você iria comer logo que acordasse. Mas ainda melhor do que isso, Damon: por que você confiscou o bilhete antes que Alice pudesse vê-lo?
- Eu temia que Caleb pudesse contar na vossa frente que Edward desapareceu. – o rapaz explicou, estando visivelmente desconfortável com a situação. – Sem a reação de surpresa de Alice, ele perceberia que eu sabia disso e que contei pra vocês. Mas como você encontrou o bilhete, Bella?
- Foi um palpite. – ela deu de ombros. – Quando acordei pela manhã, eu tinha a inquietante sensação de que alguém tinha entrado no apartamento enquanto dormíamos. Por mais que eu procurasse não pensar nisso, tal sensação persistia. Então pensei que você pudesse ter chegado de viagem e partido antes que acordássemos. A pergunta era: por quê? Por que não acordar Alice e dizer-lhe que tudo correra bem e que você estava de volta? Só havia uma explicação pra isso: você não queria que eu soubesse.
- Então você deduziu que eu encontrei um meio de confortá-la sem que você soubesse disso. E, conhecendo-a tanto quanto eu, você sabia que uma das primeiras coisas que ela faria seria tomar aquele iogurte horrível – Damon concluiu, admirado com a esperteza de Bella. – Impressionante.
- E o que havia no tal bilhete? – Alice perguntou, olhando de um rosto para o outro em busca de respostas. – O que vocês estão escondendo de mim?
- Edward está em Washington. – Bella contou, fazendo com que o queixo de Alice caísse. — Por que eu ainda não sei, mas ele está escondido em algum lugar. E algo me diz que Damon tem total participação nesse negócio.
- Mas... mas... – Alice parecia cada vez mais confusa. – Mas ele disse toda a verdade ao Caleb, não disse? Se ele tivesse mentido, Caleb logo saberia!
- Nenhuma palavra do que Damon disse era verdade. – Bella afirmou fazendo com que Damon risse e Alice esfregasse o rosto com ambas as mãos, mais perdida do que nunca. – A pergunta é: como você conseguiu enganá-lo?
- Ah, Isabella Swan. – Damon suspirou, todo enigmático. – Essa é realmente uma longa história.
Notas finais
kkkkkkkkk'
Bem, àquelas que estavam se descabelando pela necessidade de saber o que havia no livro, vocês puderam acompanhar a leitura de Edward. E, pra surpresa geral, George de Castro revelou-se uma pessoa muito mais importante do que um mero personagem aliado a Caleb; afinal, o nome dele está no livro, ao lado do nome de Bella. isso deve significar alguma coisa, não?
E, como prometido, o momento épico onde Damon Salvatore, um simples cientista, consegue mentir na maior cara de pau pra Caleb, um cientista Natural que lhe ensinou tudo o que o rapaz sabe. Isso deve ter sido no mínimo traumatizanbte para o Caleb. Pois ele não fazia ideia de como tudo o que Damon dizia poderia ser verdade se ia contra todas as suas crenças.
E, no próximo capítulo, teremos finalmente as explicações de Marie sobre seu passado e essas coisas estranhas que rondam a Bella. Saberemos finalmente da real história de Isabella Swan.
A todas que comentaram, eu agradeço de coração. ^.^ Não cobro reviews, mas me sinto honrada com os que recebo.
Bjos e até o próximo!
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