Notas iniciais
Negas, mais um capítulo. O último, espero que gostem.

“Eu não quero a verdade. Só quero que seja sincero comigo.”


O mundo era uma confusão de sons, cheiros e cores. Ela flutuava no nada, seus olhos tão pesados que mesmo que quisesse tentar abri-los não conseguiria.

Mas ela não queria abri-los. A realidade era algo mais forte do que o que ela podia enfrentar realmente. Vozes... aquelas vozes eram tão acalentadoras! E a estavam chamando... chamando suavemente...

E as cores. Mesmo com os olhos fechados ela podia ver a explosão de cores em formas luminosas. Será que ela estava sonhando? Por que se o estivesse, não queria despertar de forma alguma.

De alguma forma ela estava consciente de que seu corpo estava deitado em um duro colchão, de alguma forma ela sabia que ao seu redor bipavam os aparelhos, de alguma bizarra forma ela sabia que estava num quarto de hospital. E por isso sabia que, ao abrir os olhos, todas aquelas deliciosas sensações, aquelas vozes, aquele calor aconchegante, tudo aquilo desapareceria.

Mas da mesma forma que ela sabia que isso aconteceria se ela o fizesse, ela também sabia que tinha que fazê-lo. Por também estava ciente de que nenhuma daquelas sensações pertenciam a ela.

E então Bella acordou, a consciência voltando aos poucos enquanto as pesadas pálpebras se recusavam a se abrir. Seu rosto se franziu de leve devido ao seu esforço em tentar se lembrar de quem era, o que acontecera e onde estava. E quando as imagens do horrível acidente chegaram a ela, seus olhos se abriam e se deparavam com um teto impecavelmente branco.

- Oh, você acordou. – uma voz zangada disse do lado de sua cama fazendo-a virar a cabeça lentamente naquela direção. E Alice estava ali, sentada em uma poltrona de um só lugar, as pernas e braços cruzados, os olhos vermelhos pelo choro recente, fundas olheiras embaixo de seus olhos. – Que bom que você não morreu por que assim eu posso te matar.

- Oi pra você também, Alice. – Bella estranhou sua própria voz de tão rouca que estava, pigarreando ao tentar se sentar, mas uma forte pontada em seu abdome a fez voltar a se deitar.

- Pare de se mexer! – Alice resmungou ao se levantar e vir ajeitar seu travesseiro, o rosto abatido agora perto do rosto de Bella que analisava cada linha de angústia no rosto amigo. – Esqueceu-se de que levou um tiro? Você tem pontos em sua barriga!

- Quanto tempo? – Bella perguntou quando Alice acabou de acomodá-la, ficando ainda em pé ao lado da cama da amiga.

- Isso aconteceu ontem a noite. – Alice suspirou cansada. – Agora são duas da tarde.

- Você não dormiu desde então? – a voz de Bella era um sussurro. Grossas lágrimas rapidamente se formaram nos olhos expressivos da amiga, deslizando pelo rosto pálido.

- Dormir como se eu estava morrendo de medo? Medo de você morrer enquanto eu estava dormindo? – a voz trêmula e embargada pelo choro fez-se formar um imenso nó na garganta de Bella. – Você é doida, Bella? Como pôde fazer uma loucura dessas indo atrás de Stanley?

- Ele foi preso? – a garota perguntou ansiosa, mas não foi a baixinha quem lhe respondeu.

- Foi sim depois de ter feito uma cirurgia pra extrair a bala do braço. – aquela voz grave e profunda que sempre a fazia se arrepiar disse detrás de Alice enquanto o dono dela entrava no quarto. E logo Edward Cullen estava ao lado da irmã caçula, suas mãos grandes em seus ombros, confortando-a. – Ele e Elizabeth estão presos sim graças a sua loucura sem tamanho.

- Então tudo deu certo. – Bella suspirou ganhando um olhar furioso de Alice que parecia querer dizer algo, mas a mão de Edward apertou mais forte o ombro da garota que se voltou pro irmão mais velho.

- Damon, Rosalie e os outros estão esperando no corredor. – ele disse de forma suave, mas a intensidade de seu olhar já dizia tudo. – Pode nos dar um momento?

- Claro. – Alice sussurrou com um suspiro, um último olhar ressentido em direção a Bella antes que ela enfim deixasse o quarto.

E então aqueles olhos verdes se fixaram no rosto de Bella. Por dentro, Bella sentiu-se acuada e até mesmo culpada pelo susto que dera em todos eles, mas, como sempre, lutou pra que o seu embate interno não transparecesse em seu rosto impassível.

- Por favor, Bella. – Edward sussurrou com o rosto franzido pela angústia das últimas horas. E ali, em pé ao lado de sua cama, as mãos nos bolsos da calça... Bella pensou que teria sentido muito a sua falta caso realmente tivesse morrido naquela loucura toda. Não importava o que acontecia com as pessoas que morriam, não importava pra onde iam, ela simplesmente sabia que sentiria falta dele. – Por favor, me diga que eles te atraíram. Me diga que você não sabia de nada disso. Me diga que você... que você... – ele engasgou nessa parte, recusando-se a verbalizar seus pensamentos.

- Que eu os manipulei em todas as suas ações, até mesmo na minha captura e quase morte? – a garota disse com voz fraca, seu rosto ainda demonstrando a mesma apatia anterior. – Te digo que não se você quiser que eu minta.

- E por que diabos você fez isso? – Edward de repente perdeu as estribeiras, uma das mãos saindo do bolso pra passar por seu rosto, furioso. – Queria se matar? Queria se matar ao se revelar pros assassinos? Ao roubar a arma do zelador da escola? Ao sair por aí bancando a heroína? Tem noção da idiotice de tudo isso?

- É claro que eu tenho! – ela disse numa voz mais alta sentindo a cabeça dar uma pontada dolorosa. Fechou os olhos e inspirou profundamente. – Eu só queria... só queria me sentir viva. – ela sussurrou ainda de olhos fechados, o silêncio reinando por um momento no pequeno quarto de hospital.

Quase saltou na cama ao sentir dedos leves acarinhando seu rosto, mas ao abrir os olhos deparou-se com Edward tão perto dela, seu rosto torturado pelo medo que o consumira nas últimas horas.

- Carinho. – ele sussurrou com os olhos marejados. – Você não precisava de nada disso pra se sentir viva. Pensei que eu estivesse te fazendo feliz.

- E estava, Edward. – ela sussurrou subindo uma de suas mãos até o próprio rosto e tomando a mão dele, levando-a até seus lábios, beijando-a. – Estava mesmo. Desde que te conheci mudei tanto... você não faz idéia do quanto mudei. Mas uma parte de mim ainda estava presa ao meu passado, às mortes das pessoas que eu tanto amei. Eu só queria... – ela engoliu em seco, a garganta apertada pelo choro. – Eu salvei Rosalie e a sensação que tive foi a de que estava salvando minha irmã. E quando pensei em Eric... não sei, uma angústia me tomou e eu quis vê-lo, queria saber... queria saber como ele estava. E quando o vi... – agora os soluços sacudiam seu tão dolorido corpo, as lágrimas escorrendo profusamente por seus olhos, ela não mais tentando se controlar, controlar suas emoções. – Era como se meu pai estivesse ali, atormentado, morto por dentro, cercado por escuridão...

- Bella... – Edward começou com voz trêmula, mas a garota fechou os olhos, a cabeça se movendo de um lado a outro.

- Você não entenderia... – ela sussurrou sentindo quando ele se ajoelhou ao lado de sua cama, as mãos acarinhando seu rosto, mexendo em seus cabelos.

- Então me explique. – ele pediu num sussurro, Bella abrindo lentamente seus olhos e virando sua cabeça pra olhar diretamente aqueles olhos verdes tão vivos. E nesse momento ela teve certeza do que suspeitara desde o episódio na prisão, antes de visitar Eric: ela era diferente de Edward. Ele era formado em linguagem não verbal enquanto ela nascera com aquele dom... de alguma forma ela era diferente.

- Não há o que explicar. É apenas sentimento e o que se sente não se explica. – ela sussurrou de volta erguendo sua mão pra deslizá-la pelo rosto de Edward que fechou os olhos. – Sinto muito por ter te assustado.

- Não sabe o quanto me assustou, Bella. – ele sussurrou rouco enquanto beijava a palma da mão dela. – Não sabe o quanto.

- Sei sim. – ela respondeu quando mais uma vez os olhos verdes se fixaram nos castanhos. – Vejo tudo em seus olhos.

- Então me responda. – os olhos dele estavam ainda mais intensos ao sondá-la. – Por que eu não consigo ver quase nada nos seus?

- Bem. – ela riu fracamente ao desviar o olhar. – Eu apenas disfarço bem.

- Não, Bella. Você não apenas disfarça. – Edward deixou seus dedos correrem por cada linha do rosto da jovem. – Você oculta. Você finge. Você se camufla. – mas por fim um fraco riso se insinuou em seus lábios. – É a melhor mentirosa que já conheci.

- Vou tomar isso como um elogio. – ela riu mais, mexendo-se na cama e gemendo. – Cara, isso ta começando a doer.

- Você levou um tiro, Bella. – Edward revirou os olhos, sarcástico. – Queria que lhe fizesse cócegas?

- Ei, eu levei um tiro! – ela protestou fingindo fúria. – Seja mais bonzinho comigo!

- Sua dengosa! – ele riu se inclinando e beijando seus lábios com toda a delicadeza. Bella sentiu-se como sempre ao retribuir as suaves carícias dos lábios macios de Edward: sentiu-se em casa.

- Me conta como foi. – ela pediu quando o rapaz interrompeu o beijo, seu rosto se levantando novamente.

- Ah, quer saber como foi? – ele ergueu uma sobrancelha. – Bem, eu não sou nenhum idiota por isso logo saquei que lá vinha confusão quando Lia me disse que você havia ligado e dito que logo resolveria o caso.

- Ela disse isso? – Bella perguntou interessada. “Só isso?”, Bella completou em sua mente. Então estivera certa, Lia estava sendo mandada.

- Disse. – Edward confirmou. – Na hora eu soube que, se não corresse, não teríamos você conosco por muito tempo. – mais uma vez aquele olhar de amargura. – Mas quase cheguei tarde demais. Parece que a aparição repentina do meu carro e Emmett, Roy e as garotas saindo do prédio as gritos os assustou e isso acabou por te fazer cometer mais uma loucura.

- Eles estavam distraídos, Edward. – ela explicou lentamente. – Se eu não tentasse desarmá-la naquele momento, eles me matariam em um momento de desespero por que você iria nos seguir.

- Mas isso quase custou a sua vida. Sua sorte foi que saíram duas balas daquele revolver: uma perfurou seu abdômen e a outra o braço de Stanley. – ele suspirou, seus olhos se fechando brevemente como se a imagem do ocorrido fosse realmente dolorosa. – Quase enlouqueci ao me aproximar do carro e ver você sangrando, largada no banco, inconsciente.

- E por que eles não me mataram? – Bella perguntou com o cenho franzido.

- Elizabeth bateu a cabeça com força e desmaiou e Stanley tentou fugir, mas Emmett o agarrou. Aquele rapaz... ele é muito, muito eficiente. – Edward comentou fazendo Bella ocultar um pequeno riso.

- Falando em Emmett... ele está aí? – ela perguntou fazendo-o olhá-la com curiosidade... e ciúmes.

- Sim, está. Por quê? – ele perguntou, desconfiado.

- Gostaria de falar um pouco com ele. A sós. – ela riu ao ver o ciúme explícito no rosto de Edward, puxando então a mão do rapaz até que ele estivesse novamente debruçado sobre ela. – Não precisa ficar com ciúmes, Edward. Sabe que eu gosto mesmo é de você.

- Gosta? – ele perguntou com um riso torto, deixando-a acarinhar seu rosto enquanto se apoiava na cama, uma mão de cada lado da cabeça dela.

- Muito. – ela sussurrou aproximando sua boca da dele e beijando-o novamente. Nem mesmo o primeiro beijo deles tinha sido tão calmo, tão doce e delicado... naquele momento ambos demonstravam o quanto um era importante ao outro, o quanto era intenso esse sentimento.

- Vou chamá-lo então. – Edward suspirou se afastando com relutância. – Tenho mesmo que sair por um momento, eu e Damon ainda estamos naquele caso...

- Oh, é verdade! – Bella se lembrou. – Ainda falta muito?

- Na verdade, não. – Edward franziu o cenho. – Como era fraude, leva certo tempo por que a empresa é grande. Até você falar com todas as pessoas importantes no caso... – ele bufou. – Mas já estamos chegando a um consenso, logo estaremos livres de mais esse.

- Por que esse caso é tão importante? – Bella quis saber.

- Por que o dono da empresa é amicíssimo de Caleb. – Edward esclareceu, não se contendo ao voltar até ela e dar um último beijo em seus lábios. – Logo estarei de volta. Não se mate até lá.

- Não prometo nada. – Bella riu de forma travessa e Edward balançou a cabeça em negação, um sorriso satisfeito em seus lábios.

- Você é um pesadelo, garota. – e piscou um olho ao sair. – Até logo.

Bella fechou seus olhos por um momento, sua mente trabalhando freneticamente. Tudo interligado... por que ela tinha a impressão de que o maior de todos os enigmas ia além da morte de Vanessa?

Mas antes que pudesse tirar qualquer conclusão, ouviu a porta se abrir e se fechar novamente. Ao abrir os olhos, Bella viu-se encarando o rosto muito sério de Emmett que se recusava a se aproximar da cama, as mãos nos bolsos da calça caqui.

- Me desculpe. – ela sussurrou apertando os lábios depois, mordendo-os nervosamente, mas Emmett só fez olhá-la por um momento.

- Desculpas pelo que? – ele finalmente disse em sua voz grave. – Por ter me roubado ou por quase ter-se matado?

- As duas coisas, eu acho. – ela disse de forma humilde, as mãos remexendo na barra do lençol que a cobria. – Sei que fiz errado...

- Mas era necessário. – Emmett balançou a cabeça, os lábios apertados em contrariedade as palavras de Bella. – Você é louca, garota. Sempre soube que se meteria em problemas desde a primeira vez que foi falar comigo.

- E por que falou comigo? – Bella ergueu ambas as sobrancelhas. – Por que me contou tudo o que sabia sobre Roy?

- Não sei. – ele suspirou passando a mão pelo cabelo cortado rente ao couro cabeludo. – Só sei que quando me dei conta já tinha te contado. Na hora me pareceu a coisa certa a ser feita.

- Hum. – ela disse apenas pra não dizer “Por que eu te induzi a pensar assim”, mas então desviou o assunto. – Como você soube que tinha algo errado?

- Além de você ter usado meu banheiro sem dar descarga e o vaso estar limpo? – ele desdenhou fazendo-a revirar os olhos. Mas era pra ele perceber! Isso era óbvio! – Bem, encontrei seu celular em uma das mesas no mesmo momento em que Alice e Rosalie passavam por mim, perguntando por você. Quando Alice viu o aparelho em minhas mãos, disse que era seu, então a mim só coube sair correndo corredor adentro. Achei seus sapatos, sua bolsa... e foi assim que saímos fora da escola, vendo o carro do diretor sair bruscamente do estacionamento.

- Que história alucinante. – Bella suspirou. – Vou contá-la pros meus netos.

- Agradeça a Deus por ter a chance de fazê-lo, garota. – ele disse ainda mal humorado, mas Bella apenas encarou-o por um longo tempo.

- Por que você abandonou sua carreira? – ela perguntou com suavidade vendo então o maxilar de Emmett travara enquanto seu rosto empalidecia. – Tenho certeza de que você era brilhante.

- Não tinha mais motivos pra continuar. – ele disse com voz rouca, sua expressão mais dura do que nunca.

- Eu sei que deve ter doído tê-los perdido. – ela prosseguiu no mesmo tom sereno, confortador, sua expressão tão suave... Emmett não conseguia simplesmente ser rude com ela por que... por que parecia que ela podia ver sua dor. – Eu já senti dor parecida...

- Seus familiares não foram mortos pra te atingir, Isabella. Não sabe a dor que sinto. – ele a interrompeu e se surpreendeu quando ela concordou com um aceno de cabeça.

- Tem razão. Eu não sei exatamente a dor que sente por que eu não vi o pesadelo que você viu. – Emmett prendeu a respiração ao encarar aqueles olhos castanhos. Diabos! Era como se... como se ela pudesse ler sua alma, sua mente. Era como se ela soubesse que ele... que ele... – Mas se esconder não vai trazê-los de volta, fugir não vai amenizar a dor.

- Eu me lembro deles a cada maldito segundo da minha vida. – ele rosnou por entre os dentes enquanto passava ambas as mãos pelo rosto com desespero. – Não fale sobre o que não pode compreender. Te proíbo de falar sobre eles.

- Ok. Me desculpe. – ela suspirou olhando-o daquele jeito estranhamente sereno. – Só acho que você é genial demais pra estar escondido. E você sabe que eles estão ainda lá fora, certamente fazendo outras vítimas enquanto você se camufla no papel de um simples zelador...

- Chega! Eu não sou obrigado a ouvir isso! – ele bradou apertando as mãos em punhos, o rosto tenso, furioso. – Você pensa que sabe tudo sobre todos apenas por que... apenas por que pode ler meus segredos apenas em olhar pro meu rosto. Pensa que pode manipular as pessoas pra ter o que busca, mas não pode! Não é por que tem essa capacidade que pode usá-la a torto e a direito de acordo com suas vontades! – ele ofegava enquanto despejava sua raiva em Bella que se mantinha impassível. – Não pode me acusar de me ocultar por que eu conheci a garota mal vestida que você era antes de estar aí, toda cheia de si, achando que sabe mais do que qualquer outro. Por que você também fugiu! Você também se escondeu! Você também foi covarde!

- E é exatamente por isso que eu te digo que não funciona. – Emmett viu, abismado, duas grossas lágrimas se derramarem pelos cantos dos olhos da moça que mantinha a mesma expressão impassível de antes. – Por que fugir e me esconder, me defendendo com tudo o que tinha ante a proximidade das pessoas, só me fez sofrer mais. Só aumentou a minha dor.

- Não pense que só por que sofreu pode sair por aí aplicando o seu modelo às demais pessoas. – ele disse com voz amarga. – Apenas me deixe em paz, Isabella Swan. — E saiu do quarto antes que ela pudesse dizer qualquer coisa a mais.

Bella suspirou. As pessoas eram tão complexas! Fáceis de manipular, mas tão difíceis de prever... ela usara Emmett em seu plano sim, mas também fazia parte de seus planos ajudá-lo a sair da cova que ele mesmo cavara pra si mesmo. E ajudando a ele certamente ajudaria a Rosalie... não sabia como e nem por que sabia, mas sabia que ambos se dariam bem ao se apoiarem e se ajudarem na busca pela superação de seus problemas, de seus medos, de seus pesadelos.

Mas não cabia a ela controlá-los. Já tivera uma dose extrema de conseqüência por manipular as ações de alguém pra uma vida toda. A única coisa que poderia desejar era que Emmett pensasse em suas palavras tão cuidadosamente escolhidas e que enxergasse que estava se matando aos poucos.

E por mais que ela quisesse deixar de usar seu poder pra manipular outros ela também sabia na mesma medida que voltaria a fazê-lo. Mesmo que não o quisesse voltaria a fazê-lo, por que parecia que essas situações complicadas a procuravam e encontravam aonde quer que ela estivesse. Ajudar as pessoas de repente se tornara algo ao qual ela não conseguia resistir. Em cada rosto sofrido, em cada olhar amargurado, em cada espírito destroçado ela via a si mesma. E então a vontade de “se ajudar” falava mais alto dentro dela.

Só queria saber até onde ela poderia ir com seus jogos sem que destruísse a vida de ninguém com isso. Sem que destruísse a própria vida.

(...)

- Bella, a gente vai se atrasar! – Alice disse batendo na porta do banheiro.

- Já estou saindo, já estou saindo! – Bella disse impacientemente enquanto colocava o último brinco na orelha. Olhou-se no espelho e sentiu seu rosto maquiado cuidadosamente por Alice corar por baixo da leve camada de cosméticos. Alice e ela estavam se arrumando pra ir ao jantar na casa de Caleb, a baixinha a arrastando até o apartamento de seu irmão durante toda a tarde pra que pudessem se ater aos cabelos, maquiagem e roupas, tudo nos mínimos detalhes.

Conseguira fugir de sua amiga pra ter o mínimo de privacidade ao colocar o vestido, Alice então a ameaçando de morte caso ela desarrumasse os cabelos que ela tão cuidadosamente arrumara em um desfiado coque.

Respirou profundamente e viu os seios subirem, o vale entre eles tão acentuados pelo decote em V, o colar que Damon lhe dera em seu aniversário estava em seu pescoço fazendo conjunto aos caros brincos que Edward lhe dera junto com o vestido vermelho e as sandálias douradas. Bella fixou seu olhar na sodalita que pendia entre seus seios e suspirou: em pensar que Edward achara indecente seu vestido preto, aquele que a garota usara no baile da escola, há uma semana.

Uma semana. Fazia uma semana desde que Stanley e Elizabeth tinham sido presos, uma semana na qual ela ficara em casa convalescendo do tiro que recebera graças ao seu plano arriscado. Nem gostava de se lembrar das expressões de desespero de John e Susy quando a foram visitar no hospital... parecia até que ela era uma coisa muito importante, algo que eles tinham que cuidar. Era fato que ela sabia que os três tinham estabelecido uma relação de amizade naquelas semanas em que passara a morar com eles, mas sabia também que em suas expressões de desespero e depois de alívio ao saber que ela estava fora de perigo havia mais do que simplesmente afeição. Ela daria tudo pra saber de toda a verdade... mas essa o tempo acabaria mesmo por revelar já que ela tinha suas teorias.

E agora Caleb estava de volta e dava uma grande festa em sua casa de praia.

- Bella, são três horas daqui até a praia! – Alice lembrou com uma última batida na porta. Bella revirou os olhos e enfim se afastou do espelho, saindo do banheiro. – Meu Deus! Era pra você se trocar, não pra fazer a roupa e... – os olhos da garota se arregalaram ao ver a amiga sair do banheiro de volta pro seu quarto. – Bella! Vermelho decididamente é sua cor!

- Eu acho vulgar. – Bella fez uma careta. Se bem que o comprimento era o mesmo de seu vestido preto, mas o vermelho parecia dar a impressão de que era mais curto.

- Que vulgar que nada, menina. – Alice entregou a pequena bolsa de mão também vermelha com detalhes em dourado pra amiga. – Ta sexy.

- Você que ta arrasando toda vampira desse jeito. – Bella disse, maldosa, fazendo com que Alice desse uma volta em torno de si mesma pra que a amiga visse cada detalhe de seu vestido negro que faziam conjunto à um scarpin roxo.

- Gostou? Comprei especialmente pra hoje. – e pela expressão da garota Bella bem sabia pra quem ela tinha comprado tal vestido. Damon seria absurdamente tentado naquela noite.

- Parece que vamos ter festinha depois da festa. – ela disse de forma maldosa e Alice riu, travessa.

- Se depender de mim... – e deixou a frase solta no ar, sua expressão dizendo tudo. Ambas ainda riam ao sair do quarto de Alice e caminharem até a sala onde os rapazes, trajando elegantes Smokings, as esperavam com impaciência, fazendo companhia a Rosalie que se recusara a ir a festa. Preferiu ficar assistindo a um bom filme água com açúcar, segundo ela.

Mas quando o ruído da aproximação os fez levantar seus olhos até as duas lindas mulheres, certamente que toda a esperava foi recompensada. Edward, que estava sentado ao lado de Rosalie, se levantou de um salto quando Bella, toda sensual no vestido vermelho que ele mesmo comprara, se aproximou ao atravessar a sala. Seu olhar era de quase adoração.

- Você está linda! – ele disse caminhando até ela e segurando suas mãos, apertando-as entre as suas. Por mais que o romance entre os dois fosse de conhecimento geral, ele sabia que Bella tinha ainda muitos... receios e temores, e era por isso que ia devagar com as intimidades em público. – Sabia que iria ficar perfeito em você.

- Er... é melhor irmos. – Bella disse sentindo o rosto pegar fogo ante o riso malicioso de Rosalie que observava os dois. Por que ela não olhava o quão sem jeito Damon ficava ao tentar não demonstrar interesse em Alice por estar perto de Edward? – Três horas até Dewey.

- É, é mesmo. – Edward concordou, parecendo sair de uma espécie de transe. Depois de rápidas despedidas, os dois casais desceram até o carro de Edward e de Damon que os esperava estacionado na calçada. Bella pensou seriamente se Edward não desconfiava do interesse de Damon por Alice quando ele nem mesmo pestanejou ante ao fato de que os dois iriam juntos a festa e sozinhos no mesmo carro.

Mas, durante a viagem, enquanto conversavam amenidades e riam, ela chegou a conclusão de que Edward não percebia isso por que simplesmente não se importava. Se ele soubesse do romance entre Damon e sua irmã, provavelmente nada diria sobre, certamente até mesmo apoiaria. Só que ele simplesmente nem cogitava essa possibilidade no momento... era sem dúvidas uma pessoa única, Bella pensava enquanto apertava os dedos do rapaz que puxara uma de suas mãos pra se enroscar a dele enquanto dirigia.

- A casa é linda, você vai ver. – ele ia dizendo quando o carro já se aproximava da cidade. – Os convidados são seletos, portanto teremos poucas pessoas. Não vi Caleb desde que ele voltou, mas parece que esse ano teremos novos convidados segundo o que me disse Lia.

- Novos convidados? – Bella perguntou observando as ruas da cidade marítima, curiosa sobre tudo já que não conhecia o lugar.

- Sim, mas ela foi tão vaga quanto a isso... só disse que seria surpresa. – Edward esclareceu dando de ombros. – Aquela mulher consegue ser muito estranha mesmo.

Bella apenas riu de leve e continuou a observar tudo o que passava por eles. A cidade era realmente linda, mesmo a noite, mas nem mesmo a organização e beleza de seus prédios preparou Bella pra casa de praia que se erguia solitária em uma parte reservada do lugar.

Era simplesmente perfeita! Grande, espaçosa, luminosa... e, ao saírem do carro estacionado na parte da frente da casa que abria seus fundos pro mar, Edward e Bella perceberam os ruídos educados mas nem menos animados do lado de dentro.

- Parece que chegamos realmente atrasados. – Edward comentou buscando a mão da garota. — Bella? – chamou, erguendo uma sobrancelha ao perceber que ela encarava um dos carros estacionados por ali, totalmente paralisada. – Bella, aconteceu alguma coisa?

- Não... – ela respondeu voltando lentamente seu rosto pra olhá-lo enquanto falava. – Só acho que sei quem são os novos convidados desse ano.

- Sabe? – Edward estranhou enquanto ambos andavam até a entrada da casa.

- Sei. E como sei. – ela disse de forma sombria, mas depois mudou bruscamente de expressão ao olhar pra trás de si. – Parece que Alice e Damon estavam bem atrás de nós...

- Damon é uma lesma no volante. – Edward deu de ombros. – Não me admira nada ter ficado muito atrás de nós.

Bella virou seu rosto pro outro lado com a desculpa de que observava no lindo lugar, mas a verdade era que queria disfarçar um sorriso. Ta bom que Alice e Damon estavam atrasados por que o rapaz dirigia devagar...

- Boa noite, senhor... madame... – um elegante mordomo os veio receber a porta com uma profunda reverência. – Queiram me acompanhar, por favor. – e os conduziu pelo pequeno hall em direção aos ruídos cada vez mais altos de pessoas conversando alegremente.

Bella sentia seu coração reboar em seu peito enquanto seguia o mordomo pela luxuosa casa, sua mão que começara a transpirar se agarrava com firmeza a mão de Edward que a olhava curioso. Mas ela não tinha tempo pra explicações, não agora.

A única coisa que ela sabia era que todas as suas perguntas seriam respondidas naquela noite por Caleb Langdon.

Notas finais
Uh. O que será que Caleb tem a dizer pra Bella? Quem aí ficou surpreso levanta a mão! E quem já desconfiava de tudo pode levantar também.
Por que nada é o que parece ser... afinal, existe sempre uma história por trás de toda história.
Quem aí ainda não recomendou, essa é a hora. Deixe sua marquinha aqui na fic antes que ela acabe (coisa que acontecerá no próximo capítulo, o Epílogo).
Bjks e até logo!