The Apocalypse

14 Four Walls and a Roof


Notas iniciais
Desculpem o atraso ( de novo ), eu começei as aulas hoje e vai ser uma semana corrida.

14

Carl POV

Já havia anoitecido e todos estavam dentro da igreja, comendo e rindo. Tinham conseguido muita comida e parecia uma ceia. Observei meu pai brincando com Judith, enquanto ela dava comida em sua boca.

Emily estava se servindo de feijão na mesa e fui ao seu lado me servir também. Ela conversava com Tara e ria de algo que disse. Seu sorriso era tão radiante que acabei sorrindo, sem nem mesmo saber o por que.

— E aÍ ? – perguntei a ela.

— Está tudo ótimo. – ela falou, olhando para as pessoas da sala rindo e admirando a felicidade de todos. – Perfeito.

— Também acho. – falei. Olhamos um para o outro e acho que ficamos um bom tempo assim, pois ouvi Abraham levantando sua taça e chamando a atenção de todos. Acordei do transe que era seus olhos escuros e sentamos em um dos bancos de madeira.

— Eu quero propor um brinde. – falou ele. – Olho para esta sala e vejo sobreviventes. Cada um de vocês merece esse título. Aos sobreviventes !

Abraham levantou sua taça e os que tinham taças de vinho levantaram as suas e bradaram ‘Saúde!’. Emily levantou seu prato de comida e riu. Fiz o mesmo.

— É só isso que querem ser ? – continuou Abraham. – Acordar de manhã, lutar contra os mortos vivos, buscar comida, dormir de noite com os dois olhos abertos, limpar e fazer de novo ? Vocês podem fazer isso. Vocês tem força, vocês tem habilidades. O fato é que pra vocês pessoal, pelo que podem fazer, isso é se render. Nós podemos levar o Eugene pra Washington, vamos poder matar os mortos e devolver o mundo pros vivos. Isso não é tão ruim considerando que é uma viagem curta.

Ele deu uma pausa e apontou para Eugene.

— Eugene, fale o que tem lá ?

— Infraestrutura construída pra suportar pandemias até dessa magnitude. Significa comida, combustível, refúgio. Um recomeço.

Minha cabeça voou longe pensando em recomeçar a vida. Ir para a escola de novo. Ter uma rotina diferente do que matar zumbis. Será que conseguiria estudar na mesma classe que Emily ? Parecia uma coisa estranha de se acontecer, mas ao mesmo tempo, possível.

— Aconteça o que aconteçer, leve o tempo que levar pra construir tudo, vocês estarão á salvo lá. Mais seguros do que estiveram desde que tudo começou. – falou Abraham, olhando diretamente para meu pai.

Ele pareceu pensar um pouco.

— Venham com a gente. Salvem o mundo pra essa garotinha. Salvem pra si mesmos. Salvem pras pessoas lá fora que não tem mais nada pra fazer a não ser sobreviver.

Meu pai sorriu e olhou para Judith, que soltou um barulho engraçado, como se tentasse dizer algo.

— Que foi ? – perguntou. Algumas pessoas riram na sala, principalmente Emily, que admirava Judith como se fosse uma das coisas mais preciosas. E hoje em dia, ela era. Meu pai continuou. – Eu acho que ela sabe o que eu vou dizer. Ela topa. E se ela topa, eu topo. Topamos.

Todos riram e aplaudiram. Então parecia que tínhamos uma nova vida. Só precisava decidir se isso era bom ou ruim.

Emily deixou seu prato no banco e se levantou.

— Onde você vai ? – perguntei.

— Calma, xerife. Eu volto logo, prometo.

O refeitório improvisado na igreja ia se esvaziando aos poucos

— Tome cuidado. Não sei o que faria se acontecesse algo.

— Eu sempre tomo.

Ela apertou minha mão e me deu um beijo na bochecha. Mal eu sabia que ela não tomou tanto cuidado quanto deveria.

(…)

— O que aconteceu ? – perguntei ao meu pai, quando ele voltou da floresta junto de Tyreese e Sasha. Bob, Emily, Carol e Daryl tinham desaparecido.

Ela tinha me prometido que voltava logo. Como eu pude deixá – la sair sozinha no meio da noite ? Como eu sou idiota.

Me sentei no banco com a cabeça entre os joelhos. Será que ela tinha se machucado ? E se… Senti o gosto de bile só de pensar na possibilidade de acontecer algo com ela.

Observei Sasha andar até o Padre Gabriel.

— Pare. O que está fazendo ? – ela perguntou. Ele parecia não ter entendido a pergunta. – O que está fazendo ? Está tudo ligado. Você apareceu, começaram a nos observar e agora quatro dos nossos sumiram.

— Eu… — ele tentou dar explicações, mas não tinha nenhuma. – Eu não… Eu não tenho nada a ver com isso.

Sasha tirou a faca do coldre com um ruído seco e Gabriel se afastou.

— Sasha, guarde isso ! – falou Tyreese. Um amontoado de pessoas se formou em volta de Sasha para impedi – la de machucar o padre.

— Não. Quem está lá fora ? – falou Sasha.

— Eu não tenho nada a ver com isso. – repetiu ele, ainda mais assustado.

— Onde estão nossos amigos ?

— Eu não tenho nada a ver com isso.

— Onde estão eles ? – gritou ela.

— Eu não tenho nada a ver com isso.

Sasha se afastou de Padre Gabriel e meu pai chegou perto dele.

— Por que trouxe a gente aqui ? – perguntou ele. Não conseguia decifrar nenhum sentimento em seu rosto.

— Olha, por favor. Eu… — começou ele, mas foi interrompido.

— Tá trabalhando pra alguém ?

— Eu tô sozinho. Eu tô sozinho. Eu sempre estive sozinho. – falou o padre, levantando as mãos.

— E aquela mulher no depósito de comida, Gabriel ? O que você fez com ela ? – perguntou meu pai.

Mulher no depósito de comida ?’ perguntei a mim mesmo. Não conseguia ligar os pontos.

— ‘Você vai queimar por isso.’ Aquilo era pra você. Por quê ? Pelo que você vai queimar, Gabriel ?

Meu pai segurou os ombros do padre e gritou, perguntando o que ele tinha feito.

Gabriel parecia finalmente disposto a falar.

— Eu tranco as portas de noite. Eu sempre tranco as portas de noite. – ele começou a chorar. – Eles começaram a vir. A minha congregação. Uma noite antes borbardearam Atlanta, eles estavam com medo. Eles estavam procurando um lugar seguro, pra se sentir á salvo.

Ele respirou fundo antes de falar, tentando segurar as lágrimas.

— Era tão cedo. Tão cedo. As portas ainda estavam trancadas. Sabe, foi a minha escolha. – ele assentiu. – Eles eram muitos. Muitos tentaram abrir as janelas, gritando pra mim. Aí os mortos vieram atrás deles também. Mulheres. Crianças.

Fitava o padre, sem acreditar no que ele disse. Ele tinha mesmo matado essas pessoas ?

— Famílias inteiras me chamando, eles estavam acabados, implorando misericórdia. Implorando misericórdia. Eu vou pro inferno. – falou ele, começando a chorar de vez. – Eu enterrei todos eles, eu enterrei todos. Deus mandou vocês aqui pra finalmente me punir.

Ele caiu no chão, chorando e ganindo.

— Eu tô condenado. Já estava condenado antes. Eu tranco as portas. Eu sempre tranco as portas.

Ouvi assobios e corri até a janela, esperando ver Emily.

— Tem alguma coisa. Tem alguém lá fora, deitado na grama. – falou Glenn, chamando a atenção de todos.

Corri até a porta da igreja com Sasha na minha frente. Ela abriu a porta e pude ouvir os gemidos dos zumbis.

— Bob ! Bob! – falou ela, chamando o corpo estirado na grama. Era impressão minha ou lhe faltava uma parte da perna ?

Vários zumbis se aproximaram com o barulho.

— A perna dele. – falou Maggie.

— Leva o Bob pra dentro pra gente cuidar dele. Rápido ! – falou Glenn, matando um zumbi.

— Por favor, me ajuda. Me ajuda. – falou Sasha, tentando levantar Bob sozinha.

Matei um zumbi com minha faca até que ouvi meu pai gritar para irmos pra dentro. Ajudei Sasha.

(…)

Bob estava deitado com a cabela no colo de Sasha.

— Eu estava no cemitério. Alguém me acertou. – ele respirava e tentava falar, com esforço. – Acordei do lado de fora de um lugar. Parecia uma escola. Foi aquele cara, Gareth. E mais cinco outros.

Ele respirou fundo e olhou pra mim, com pena.

— Emily estava lá, amarrada. Ela esfaqueou um dos caras e conseguiu fugir.

— Ela está bem ? – perguntei, com preocupação.

— Não sei. Ficaram comendo a minha perna bem na minha frente. Como se não fosse nada. Todos se gabando, achando que pensaram em tudo.

— Estavam com Daryl e a Carol ? – perguntou meu pai.

— O Gareth falou que sumiram de carro.

Todos se entreolharam.

— Ele está com muita dor. Tem alguma coisa ? – perguntou Sasha a Rosita.

— Tem uns comprimidos no kit de primeiros socorros.

Ela assentiu, mas Bob a interrompeu.

— Deixa pra lá.

— Não. – falou Sasha, se levantando para pegar os remédios.

— É sério. – falou ele. O homem tentou se ajeitar no chão com um gemido e abaixou a gola da camiseta, revelando uma mordida de zumbi, com sangue seco e várias partes roxas e infeccionadas.

Droga’ pensei, voltando a minha posição inicial. Ainda estava com náuseas.

— Aconteceu no banco de alimentos.

O lábio inferior de Sasha tremia e ela não conseguia tirar os olhos de Bob. Vi as lágrimas começarem a aparecer em seus olhos. Ela tentou sorrir para acalmá – lo e falhou miseravelmente.

— Tudo bem. – ela disse, tentando afugentar as lágrimas de seu rosto moreno.

Ele tentou retribuir, mas caiu com força no chão da igreja. Todos arquejaram e tentavam acordar e impedir que ele caisse na escuridão eterna.

(…)

Meu pai e Abraham tinham brigado por causa de Washington logo depois que Bob foi para um sofá na sala de Gabriel e fui junto para cuidar de Judith. Não sei por que brigar por causa disso nessa altura do campeonato, ainda mais com três pessoas desaparecidas e uma doente.

Mas parecia que tinha acontecido mais alguma coisa, Glenn e Maggie estavam estranhos.

Enfim, parecia que tinhamos um plano. Meu pai, Michonne, Sasha, Glenn, Maggie e Abraham saíram para ‘caçar’ Gareth e sua matilha.

Fiquei cuidando de Judith dentro da pequena salinha de Gabriel, no escuro absoluto. Parecia que ela não se acalmava.

— Calma, Judy. Calma. – falei, tentando a pegar no colo. A segurei e ela me olhou com aqueles olhos azuis, como se dissesse que estava tudo bem e que ela estava com saudade de Emily. – Eu também, Judith, eu também.

Quando ela conseguiu adormecer, fiquei em pé em um canto, nervoso. Batia o dedo indicador na alma em meu coldre e já sabia que logo estaria sofrendo de antecipação.

Começei a ouvir na porta da frente e segurei a arma com as duas mãos, apontando para a porta. Vi Gabriel segurando um pequeno colar com uma cruz nas mãos e beijando – o, com suor escorrendo de sua testa.

— Acho que vocês já sabem que estamos aqui. – falou Gareth. Ele teria uma voz jovem e calma se não fosse tão carregada de intimidação. – E nós sabemos que vocês estão aqui.

— Estamos armados então não tem motivo para continuarem escondidos. Temos observado vocês. Sabemos quem está aqui. – falou ele. Eles pareciam estar cada vez mais perto. – O Bob, se já não acabaram com o sofrimento dele. O Eugene, a Rosita. O Tyreese, o amiguinho do Marty. Carl. A Judith.

Torcia para que ela ficasse quieta diante da menção de seu nome. Ela nem se mexeu como se soubesse que estávamos em uma encrenca.

— Rick e os outros saíram com muitas armas de vocês. Escuta, não sabemos onde estão mas isso aqui não é um lugar grande.

A maçaneta da porta de onde estávamos se mexeu e Rosita levantou sua arma.

— Vocês estão atrás de uma dessas portas e temos bastante poder de fogo pra derrubar as duas. Acho que não é o que vocês querem.

Uma arma foi destravada enquanto pensava na possibilidade de abrir a porta.

— E quanto ao padre… Padre, você ajudou a gente com isso, então vamos deixar você sair. É só abrir a porta e ir embora. Pode levar a bebê.

Um silêncio de ambos os lados. Olhei para Judith que parecia estar ficando agitada.

— O que é que você acha ? — falou Gareth.

Ouvi passos se afastando da porta e tudo ficou bem, até que Judith soltou um choro. Corri para segurá – la e

— Bom talvez fiquemos com a criança. Estou começando a gostar dessa menina. – falou ele. – Agora é a última chance pra dizer que estão saindo.

— E agora ? – sussurou um cara para Gareth.

— Pode meter bala. – sussurrou de volta.

Fiquei de costas para a porta e abraçei – a preparado para os tiros que viriam a seguir. Ouvi – os, mas não senti nada. ‘É assim que é a morte ?’ Olhei para Judith em meus braços e ela estava normal, com nada além de algumas lágrimas.

— Coloquem as armas no chão. – ouvi a voz grave do meu pai, que assustou até a mim.

— Rick, vamos atirar nessa sala então abaixe a arma… — ele começou a falar, mas foi interrompido por outro tiro. Como era frustrante só conseguir ouvir o que está acontecendo.

— Ponham as armas no chão e se ajoelhem. – repetiu meu pai.

— Faça o que ele está falando. – falou Gareth, gemendo de dor. Sûpus que o tiro foi para ele. – Martin, não tem jeito.

— Tem, sim. – rebateu o Martin.

— Quer apostar ? – falou Abraham.

— Não adianta implorar, não é ? – perguntou Gareth, em meio a ganidos e gemidos seus e de seus parceiros.

— Não. – respondeu meu pai, frio.

— Podiam ter matado a gente quando entraram. Tinham motivo pra isso.

— Eu não queria desperdiçar balas.

— A gente ajudava as pessoas, salvava as pessoas. As coisas mudaram, eles vieram e … Depois disso. Eu sei que você andou por aí, mas eu posso ver. Você não sabe o que é passar fome. – falou ele, com um pedido de salvamenro disfarçado de discurso. – Você não precisa fazer isso. Nós vamos embora. E nunca mais cruzamos o caminho de vocês, eu prometo.

— Mas vão cruzar o caminho de outro. Você faria isso com qualquer um, não é ? Além disso, eu já tinha feito uma promessa.

Ouvi o barulho de armas sendo tiradas do coldre, facadas, gemidos, o barulho inconfudível da morte. Depois o silêncio, que foi até mais assustador.

— Essa é a casa do Senhor. – falou Gabriel, que não tinha notado sair da salinha.

— Não. – disse Maggie. – São só quatro paredes e um teto.

(…)

Já tinha amanhecido e Bob não estava mais aguentando. Demos adeus a ele e quando chegou minha vez lhe dei um aceno de cabeça.

— Carl. – falou ele. Abaixei e fiquei na altura da cama. Ele sussurrou em meu ouvido. – Quando achá – la, não a deixe escapar. Eu fui idiota. Ela é muito forte e tenho certeza que sente o mesmo.