The Anchor

8 Viro uma constrangida massagista sexual.


Notas iniciais
Cheguei! Esse capítulo é um dos meus favoritos, e acho que você vai entender quando acabar de lê-lo. Te vejo depois!

Capítulo 8.

Ficamos em silêncio durante todo o caminho para a enfermaria, que eu não sabia onde ficava. Ele não puxara assunto, e também não procurei tomar alguma iniciativa. Ao chegar à sala não tão pequena com algumas camas de lençóis branquíssimos; prateleiras preenchidas com diversos tipos de remédios e mais coisas que as pessoas encontravam em uma enfermaria, o retardado do bolo deitou-se na primeira cama que viu, de barriga para cima. Estávamos sozinhos, e me perguntei mentalmente onde estava a enfermeira. Uma cadeira azul estava ao lado da cama, e me sentei ali, esperando ela aparecer ou aquele clima tenso se dissipar. Ele às vezes produzia uma careta, deixando-se sentir dor e deixando-me saber que a sentia. Eu não sabia muito bem o que dizer ou fazer, logo continuei quieta. Sua cabeça descansava no travesseiro branco e suas mãos relaxavam em cima de sua barriga, ele mantinha a respiração lenta e calma.

— Crianças! — olhei para a porta quando ouvi aquilo, assim como ele.

Uma mulher gordinha e baixinha veio até nós, com uma expressão um pouco preocupada no rosto redondo.

— Ah, querido, sinto muito. Acabei de falar com o professor Peter. Ele disse "Morgana, preciso de você", claro que precisava. Todos sempre precisam. — começou, tocando no travesseiro que a cabeça do rapaz descansava — Não acredito que seja algo muito grave, mas é melhor conferir. — então olhou para mim, sorrindo de lado.

— Eu não acho que seja preciso... — começou ele, mas foi miseravelmente interrompido pela mulher.

— Sim, sim. — dispensou-o — Querida, pode cuidar dele para mim? Irei ajudar Peter com o rapaz que machucou o nariz na quadra. Ele está muito mal.

Franzi a testa, ligeiramente confusa. O que ela queria dizer com aquilo? Preferi ignorar a parte em que a mulher citou o garoto da quadra, sabendo que se eu pensasse naquilo ficaria com raiva do rapaz que estava na cama. Não tive tempo de questionar, pois ela já se dirigia para a saída da enfermaria.

— Espera! Como assim? — soltei, olhando dela para ele — Eu meio que não entendi.

A mulher sorriu serenamente, mesmo parecendo apressada.

— Você só precisa colocar a mão superficialmente na calça dele e ir testando. — respondeu, normalmente — Vendo se dói ou não, entende? Sem força nem rapidez, para não machucá-lo ainda mais.

Eu parei. Havia entendido certo? Ela realmente me mandou fazer aquilo? Ela sorriu uma última vez e saiu, sumindo de nossa vista de vez. O clima que antes estava tenso se tornou pior ainda, e eu não sabia o que fazer parar quebrar aquilo. Na realidade, eu não sabia o que fazer. Eu, que ainda encarava a porta onde a enfermeira estava minutos antes, olhei para o garoto deitado na cama a minha frente. Ele me olhava com as sobrancelhas erguidas, então seus lábios se curvaram em um sorriso. Como se aquilo tudo fosse normal para ele, ou como se estivesse levando na brincadeira. Para ele deveria até ser normal, se eu fosse pensar por outro lado, mas para mim não.

— Só peço que não me machuque também. — pediu, parecendo debochar. O insistente sorriso presunçoso em seus lábios estava começando a me irritar — Seja cuidadosa, está bem?

Eu sabia que não era obrigada a fazer aquilo. Mas não iria me perdoar se realmente fosse algo sério, e ele tivesse que ir parar no hospital porque eu não tive coragem de colocar a mão lá. Além de que, se eu não fizesse, ele reclamaria para alguém da coordenação. Talvez sim, talvez não, mas eu preferia não me meter em problemas. Por que eu estava dificultando tudo? Não era algo difícil de fazer.

Suspirei, olhando para ele de modo irritado. Não precisei mandá-lo relaxar, fechar os olhos ou simplesmente se calar, ele fez os três de uma só vez. Ele parecia que estava em um tranquilo sono. Olhando-o daquele modo, ele me pareceu quase angelical.

Uma ajudinha aqui seria maravilhoso, Deus. O que eu faço?

Decidi que era melhor não olhar para o local em sua calça, e sim para seu rosto, e não pude deixar de agradecer mentalmente por ele ter fechado os olhos, assim não veria o quanto eu estaria futuramente envergonhada. Levantei-me rapidamente, sentando-me delicadamente em um pequeno espaço ao lado de seu corpo na cama. Meu olhar descansou sobre seu rosto, enquanto minha mão ia praticamente sozinha na direção do volume em sua calça jeans. Sem saber como dar o primeiro passo quando meus dedos pousaram ali, apertei um pouco. Eu estava num completo misto de nervosa e desconfortável, então infelizmente não consegui controlar a mim mesma e ser delicada. O retardado do bolo gemeu baixo, ainda de olhos fechados, uma careta de dor nascendo em seu rosto antes angelical.

— Eu pedi para ser delicada. — repreendeu, mas não estava brigando comigo.

Ele apenas parecia não querer sentir dor. Senti-me culpada, recolhendo a mão com rapidez e vendo-me novamente perdida.

— Me desculpe. — pedi, sinceramente, um pouco aflita.

Ele não disse nada, apenas assentiu um pouco. Hesitante, levei minha mão novamente para o volume em sua calça, levando meu olhar junto, respirando profundamente e tomando coragem. Meus dedos apertaram de leve ali, o que foi tão inesperadamente delicado que pareceu como uma carícia. Sentindo meu rosto esquentar um pouco no local das bochechas, virei a cabeça em sua direção e olhei para seu rosto, com meus dedos ainda se movimentando lentamente.

— Está doendo? — murmurei, um pouco insegura até.

— Um pouco. — respondeu tão baixo quanto.

Vendo que ele mantinha uma expressão calma no rosto, apertei novamente, mais abaixo.

— E agora? — questionei, parando minha mão quando uma expressão dolorosa tomou conta de seu rosto.

— Sim.

Suspirei um pouco, assentindo fracamente e voltando a movimentar minha mão, indo um pouco para o lado e apertando. Não perguntei nada, mas ainda fitava seu rosto, atenta a qualquer expressão dolorosa que fosse. Repeti os movimentos algumas vezes, em toda a extensão do ponto principal no momento. A cada vez que ele gemia dolorosamente ou resmungava baixinho, eu queria que a dor parasse, sem nenhum motivo aparente. Apenas não gostava de ver alguém sentindo dor na minha frente, fosse quem fosse. Para ajudá-lo e ao mesmo tempo checar se estava tudo bem, ignorei todo aquele receio, mas não toda a timidez, começando a massageá-lo de modo desajeitado e um pouco tímido. Sem pressa ou força, mas não tão superficial. Ficamos daquele modo por longos minutos, em completo silêncio calculadamente constrangedor pela minha parte, já que ele não parecia tão desconfortável quanto eu. Ele abriu a boca minimamente, abrindo-a um pouco mais em seguida, mas não emitiu nenhum som. Segundos depois, repetiu o gesto, soltando então um baixo e rouco gemido que não pareceu ser totalmente de dor, arfando baixo em seguida.

— Eu estou machucando você? — sussurrei um pouco preocupada, minha mão ainda se movimentando.

Eu nunca havia feito aquilo antes, em qualquer situação que fosse, logo não sabia bem o que fazer.

— Não... não. Não está. — sussurrou rouco.

Seus olhos se apertaram um pouco, ainda fechados.

— O que você está sentindo? — questionei baixinho, um pouco hesitante.

Eu estava entre preocupada e curiosa.

— Eu... estou... — ele parecia minimamente ofegante, então o vi morder o lábio inferior lentamente. Meus dedos ainda se movimentavam curiosamente, minha testa se franzindo em conjunto com aqueles movimentos. De repente, percebi que aquele local não parecia estar como antes. Eu não sabia muito bem como definir, mas apenas senti todo meu rosto esquentar naquele mesmo segundo. Estava tão absorta nos detalhes de seu rosto que nem havia percebido. — Eu... para. Para.

Abriu os olhos, agarrando minha mão no milésimo seguinte e parando-me. Arfei um pouco de susto graças ao movimento repentino, puxando minha mão da sua e recolhendo-a, olhando-o surpresa.

— O que... o que foi? O que eu fiz? — perguntei, mesmo achando que sabia a resposta. Eu estava com um pouco de calor, sentindo meu sangue se reunir firmemente em minhas bochechas.

Deus, ele não está...

Está?

— Você não fez nada. Eu acho que já estou melhor. — respondeu rapidamente, puxando o travesseiro atrás de si e pondo-o discretamente no meio das pernas, sentando-se na cama com certa dificuldade e encostando as costas na parede.

Sim. Ele está.

Naquele momento eu sabia que estava extremamente vermelha. Pigarreei, levantando-me da cama e sentando-me na cadeira novamente. Ali, mais que nunca, eu não sabia o que fazer. Ficamos em um constrangedor e longo silêncio, onde nenhum dos dois se atreveu a dizer uma palavra que fosse. Eu simplesmente não sabia como agir diante daquela situação, e acreditava que o retardado do bolo se via na mesma posição que eu.

— Esse moletom é seu?

A pergunta me pegou de surpresa, ainda mais porque eu estava entretida demais entre um segundo em silêncio e outro perdida em pensamentos. Olhei para o que eu estava vestindo, desviando meu olhar de sua expressão curiosa. O moletom que Yv me emprestara estava cobrindo uma boa parte do meu corpo, The Heart Never Lies brilhando em letras pretas.

— Não... é do Yv, um amigo. — respondi, olhando para seu rosto novamente.

Eu sabia que eles se conheciam, mas não vi necessidade de mentir ou esconder aquele fato. O retardado do bolo ergueu uma sobrancelha.

— Você conhece o Yv? — soltou, a sobrancelha escura insistentemente erguida.

— Sim.

Ele pareceu querer dizer algo, mas mudou de idéia.

— Cool.

E silêncio constrangedor novamente. Meu olhar se cravou em minhas próprias mãos que descansavam em minhas coxas. Suspirei, erguendo o olhar e encarando-o, vendo que ele me olhava.

— Por que riu do garoto na quadra? — perguntei, baixo. Provavelmente ele iria me cortar e eu não saberia mais o que dizer, mas não custava nada tentar. Era preciso ele ter um motivo, certo? Ninguém agiria como ele agiu sem um motivo, certo? — Ele fez algo contra você no passado? — apenas depois de questionar percebi que a pergunta foi completamente estúpida.

Pelo pouco que vi daquele garoto na quadra ele era inofensivo. Como alguém tão novo, magricela e aparentemente irrelevante para qualquer um ali, conseguiria fazer algo contra alguém como o garoto que, naquele momento, me encarava? O retardado do bolo, como secretamente previ, riu pelo nariz.

— O que ele poderia fazer comigo no passado? — riu novamente, descrente — Como alguém como ele poderia fazer algo contra alguém? Ainda mais se esse alguém for como eu?

Bingo.

Era aquilo, ele estava certo. O rapaz da quadra era inofensivo, o que estava à minha frente... não era.

— Então você fez aquilo por nenhum motivo? — eu me senti surpresa, até.

Ele humilhou Lauren na frente de todo o primeiro e segundo ano, sujou minha blusa sem nem pedir desculpas, mas aquilo parecia demais para mim. Alguém como aquele garoto da quadra não merecia ter sido tratado daquele jeito.

— Nada é por nenhum motivo. — cortou, o sorrisinho presunçoso retornando aos seus lábios — Eu fiz um favor à ele. Finalmente as pessoas o notaram.

Eu estava completamente chocada, mas não me permiti demonstrar. Como ele conseguia ser tão frio e debochado em relação àquilo? Como dizia tais palavras com tamanha normalidade? Como, por Deus, eu cheguei a me preocupar com aquele garoto? Como ele parecia se achar tão superior a todos ao seu redor? Como Yv era amigo de alguém como ele?

— Você é um completo babaca. — soltei, soprando o cabelo para longe do meu rosto.

O retardado do bolo não teve tempo para dizer ou fazer algo, pois me levantei no exato momento em que a enfermeira retornou à sala. Agradeci mentalmente por aquilo, finalmente eu poderia sai dali. Talvez o retardado do bolo me encarando, o travesseiro branco entre suas pernas e o modo como meus olhos insistiam em olhar para ele de canto denunciassem alguma coisa.

— Vejo que se aproximaram bastante! — declarou a mulher, alegremente.

Depois de finalmente entregar o retardado do bolo aos cuidados da enfermeira, saí daquele local e marchei em direção ao banheiro feminino. Obviamente a aula de educação física já acabara, mas a aula seguinte (qualquer que fosse) poderia esperar.

— Alguém segure aquela garota com o meu moletom! — reconheci facilmente a voz Yv, gritando, e virei-me para encará-lo, vendo-o aproximar-se correndo.

Eu estava no corredor dos banheiros, será que nós apenas nos encontraríamos ali, para sempre? Gargalhei com tal pensamento e com sua fala, esperando que ele parasse em minha frente, mas não fez aquilo. Yv agarrou minha mão e me girou, pegando-me de surpresa, e quando ele me girou novamente não segurei uma gargalhada. Ele parecia completamente feliz, deixando-me subitamente com um sorriso no rosto, espelhando o dele. Yv parou de me girar e se colocou em minha frente, os dedos apertando meus ombros de leve e um largo sorriso brilhando no seu rosto.

— Nossa, que animação é essa? — soltei, rindo de leve.

Ele se afastou, começando então a dançar. Movia os braços e as pernas de modo desengonçado, como se não houvesse ossos no corpo. Era uma dança patética e extremamente divertida, então cai na gargalhada ao ver aquilo. Eu não sabia se ele estava brincando ou realmente não sabia dançar, mas era hilário do mesmo jeito.

— I'm singing in the rain! Just singin' in the rain, what a glorious feeling! I'm happy again! — cantou, abrindo os braços como se quisesse abraçar o mundo.

Parei de rir no exato momento em que ele começou a cantar o clássico “Singing in The Rain”. Não que eu amasse a música ou algo do tipo. Mas, caramba, sua voz era simplesmente perfeita. Era firme e alta, mas ao mesmo tempo aveludada e envolvente.

— Meu Deus do céu! — soltei, ainda completamente chocada. Yv possuía uma voz perfeita para cantar, mas eu não havia pensado naquela hipótese. Não até aquele momento — Primeiro. Não está chovendo. Segundo... menino, você canta bem demais!

Yv parou por alguns segundos, parando de dançar e encarando-me.

— Jura que não está chovendo? — ironizou, rindo em seguida — Obrigado. É sobre isso que vim falar.

Franzi a testa.

— Sobre você cantar bem...?

— Não! — riu, negando com a cabeça — Sobre você cantar bem. Nem adianta mentir. Jennifer me contou que você sabe cantar.

Fiquei por alguns segundos encarando-o, sem entender. Onde ele queria chegar com aquilo? E por que diabos Jennifer lhe contara aquilo?

— Talvez eu saiba cantar... — dei de ombros, coçando a nuca. Falar sobre aquilo me deixava um pouco envergonhada, assim como cantar em público. No Brasil eu cantava nas festas dos meus amigos, no colégio, em casa, em todos os lugares. Música era uma das minhas maiores paixões. Mas eu não estava mais no Brasil, lá as pessoas me conheciam há anos. Em Chordwall não era daquele modo. Eu não possuía mais aquela confiança de cantar na frente de várias pessoas, ou de qualquer pessoa que eu não fosse muito próxima. — Mas por que o interesse?

— Bem, ai está a novidade! — sorriu brilhantemente, puxando-me para a parede e encostando-se nela. Fiz o mesmo, de lado, afirmando com a cabeça, pedindo continuação — Ano passado tínhamos um coral aqui, criado pela Caroline, uma ex-aluna, e pelo professor de música. A Caroline era a nossa melhor cantora, e saiu do colégio esse ano porque se formou, enquanto estávamos ainda competindo. Tivemos que largar a competição e obviamente perdemos. Desistimos do coral, pois coral sem ela... bem, não era coral. — poderia ser coisa da minha cabeça, mas Yv parecia extremamente sonhador ao pronunciar com uma intensa suavidade o nome “Caroline”. Como se fosse o nome de um anjo — Mas agora eu recebi uma notícia do professor de música. O coral vai voltar, terão as audições, a Caroline virá para cá para ser umas das juradas. Ela é simplesmente perfeita, sério, você não está entendendo! E, meu Deus, você não tem noção do quanto eu estou pirando! — ele realmente parecia estar pirando.

Absorvi tudo aquilo que Yv disse, então assenti, entendendo. Confesso que uma parte de mim se sentiu completamente animada por ter um coral naquele colégio. Eu amava cantar, desde pequena, por mais que tivesse certa vergonha de expor aquilo para as pessoas que eu não conhecia. Mas eu me sentia bem em saber cantar.

— E como isso funciona? — perguntei.

— É tudo bem legal. Diferente do que você provavelmente está achando, nós não somos excluídos por todos do colégio ou sofremos bullying. Também não saímos cantando por aí sem motivo — riu, e eu o acompanhei.

Certo, aquela realidade era diferente do que eu estava acostumada a ver em filmes e séries. Yv me explicou calmamente sobre tudo, sem ignorar os mínimos detalhes. Contou-me que eles tinham toda semana um tema diferente, e que cantavam músicas de acordo com o tema escolhido. Era uma forma de se divertir e ensaiar ao mesmo tempo para as competições, que segundo ele eram levadas bastante a sério. Ele me contou também que o coral era usado como uma forma de se expressar. Por exemplo, se alguém estava triste e queria se abrir, facilmente arranjava a melhor forma de fazê-lo. Que era cantando. Eles viajavam para lugares como Los Angeles e New York, pra realização das competições contra outros corais de todo o mundo. O auditório e a sala de música eram os locais de ensaios e de reuniões. A tal da Caroline era considerada uma musa, ou algo do tipo, por todos de Blanchaster. Só Deus sabia o motivo, porque eu não fazia idéia. Depois de todo aquele discurso, Yv sugou o oxigênio para dentro de seus pulmões e sorriu de lado.

— Eu quero que você faça a audição para entrar. — falou o que eu já desconfiava — Prometo que não vai se arrepender. Por favor?

Suspirei, coçando a nuca e um pouco desconfortável com aquele pedido.

— Yv, eu não acho que canto tão bem assim. Tipo, eu meio que canto de brincadeira ou apenas para mim. — não era mentira — Não é algo como um super talento. Não é algo para competir. Não é para mostrar aos outros. — respondi, calmamente.

Eu queria fazer parte do coral, porém minha insegurança prevalecia.

— Geo, você nunca vai saber se não tentar. — eu simplesmente odiava aquele argumento, pois sempre que alguém o usava comigo eu sabia que a pessoa estava certa — Apenas tenta, está bem? — bagunçou um pouco meus cabelos, fazendo-me rir de leve.

Olhei para seu rosto, vendo que ele implorava. Eu poderia fazer uma lista de motivos pelos quais eu não iria fazer a audição, mas tais motivos eram desconhecidos por mim. Insegurança não seria muito convincente.

— Argh, ‘tá’ bom! — bufei de leve, arrumando meus cabelos com os dedos e desistindo de tentar argumentar contra ele. Yv riu baixo — Mas se eu passar o maior mico do século na frente do professor e dessa tal de Caroline, a culpa será sua!

— Prometo que vai se sair bem. — murmurou, dando-me uma piscadela — E se te faz mais feliz, não será na frente deles. Será na frente de todos os outros, também.

Às nove e meia em ponto eu estava pronta, as dez e cinquenta eu ainda estava na Rua Porket, na sala de uma casa laranja de dois andares. Deixe-me contar algo sobre as irmãs Dias. A mais nova, eu, se arrumava rápido para eventos — apesar de que eu me arrumava mais que a mais velha — tentando então ser pontual. A mais velha, Jennifer, se arrumava quase no último minuto e fazia a primeira sempre se atrasar.

— Vamos logo, Jenn! — gritei, olhando pra escada e para o enorme relógio na parede perto dela.

Os ponteiros pareciam estar rindo da minha cara, e acredito que se tivessem vida própria realmente estariam fazendo aquilo. Ela não respondeu e uma vontade imensa de ir lá em cima e chutá-la nasceu em mim. Eu odiava chegar atrasada em um evento, principalmente em uma festa onde eu não conhecia quase ninguém. Chegar atrasada naquilo significava ficar perdida e irritada por ter perdido o começo, além de tornar mais difícil o trabalho de se enturmar. Eu não sabia como eram as festas dali. Não sabia se era como nas séries de tevê, ou se era algo sem graça apenas para receber o título de “festa”.

— Já vou, já vou! — ela gritou de volta, descendo as escadas em seguida — Deixa de ser maluca, eu ‘tô’ aqui.

Revirei os olhos, enquanto Jennifer ia até o sofá marrom, pegando sua pequena bolsa azul e seu celular. Minha mãe apareceu no corredor que levava à cozinha, vindo até nós duas. Seu cabelo preto, liso e longo estava preso em um rabo de cavalo frouxo. Seus olhos castanhos pareciam preocupados. Ela estava com seu celular em uma das mãos, como quase sempre. Era tão viciada naquilo quanto May. Aproximou-se de mim, abraçando-me. Sua pele, além de extremamente clara, estava fria. Provavelmente ela acabou de sair do banho. Afastou-se e abraçou Jennifer, soltando-se delicadamente depois.

— Meninas, seu pai não sabe que vocês vão sair. — ela começou a dizer algo que já sabíamos. Eu sentia falta do meu pai, muito. Sempre me lembrava dele, sempre desejava que ele estivesse com a gente. Mas naquele momento eu agradecia que por não estar. Meu pai não nos deixaria ir para uma festa, ainda mais tarde da noite. — Se comportem. Nunca fiquem sozinhas, não bebam, não d...

— Mãe, já sabemos disso. — suspirei, arrumando minha blusa. Senti o olhar agradecido de Jennifer sobre mim, feliz por eu ter interrompido nossa mãe — Vamos ficar bem.

Ela prosseguiu com seu manual quase sem fim, até que o fim chegou e finalmente saímos pela porta da frente.

— Se divirtam. — sorriu ela, enquanto eu e Jennifer entrávamos em um táxi, parado na frente de nosso portão.

— Pode deixar. — sorri de volta, entrando em seguida, logo atrás de minha irmã.

— É aqui. — Jennifer pôs a mão no ombro do taxista, que parou em um local.

A pequena e amassada folha em sua mão entregava-lhe, deixando claro que apenas sabia o endereço porque estava escrito ali. Eu abri a porta de trás do veículo, saindo do carro e encarando algo que fez meu queixo cair e sair arrastando no chão.

Na minha frente estava uma mansão. Uma mansão muito, muito grande. Havia um enorme gramado bem cuidado, com árvores normais e desenhadas como esculturas. Flores, e variados tipos de plantas. Alguns balanços, presos nas árvores — que estavam todas enfeitadas com luzes que poderiam me cegar. Depois de toda aquela demonstração de clara riqueza e bom gosto, vinha a mansão branca, com detalhes antigos em prata. Tinha no mínimo três andares, mas ainda apostava em mais. Perdi-me tentando pensar em quantos quartos haveria ali. Luzes coloridas saíam de todas as janelas dos andares de baixo, combinando totalmente com o som altíssimo — que eu tinha certeza que dava para ouvir até do outro quarteirão. Provavelmente pessoas estavam rindo e gritando lá dentro, mas por conta da música era impossível ouvir. Jennifer se despediu do taxista, anotando seu número para ligar quando fossemos voltar para casa, já que nossa mãe já havia o pago. Ela se colocou ao meu lado, e deu um sorriso brilhante.

— Nossa primeira festa de verdade. — falou, completamente animada — E nos Estados Unidos!

Eu ri de sua animação, mas tinha que admitir que me senti do mesmo jeito.

— Amém. — falei, sorrindo de lado enquanto começava a andar pelo gramado com minha irmã ao meu lado.

Uma festa do ensino médio, nos Estados Unidos, em uma mansão.

Aquilo seria mais que épico.

Notas finais
Aqui estou eu! Então, quem está ansiosa para essa festa? UAEUIHEUA, prometo que irá render muitas coisas, mas vocês só saberão depois. Muhahaha! Vejo vocês no capítulo 9, me digam o que estão achando e recebam um biscoito. Xoxo, Little G.