The Anchor

9 Festa na casa do Booker. — Parte I. — Victor.


Notas iniciais
CAPÍTULO NARRADO PELO VICTOR! Parte um do capítulo. Nos vemos daqui a pouco, boa leitura! Obs: O capítulo está meio grande. Quero saber se esse tamanho está bom para vocês, ou se preferem menor.

Capítulo 8.

Victor.

Após a saída de Geovana da enfermaria, continuei lá por alguns minutos, sendo finalmente liberado e podendo ir pra sala. A situação da joelhada não fez um estrago muito grande nem nada do tipo, graças a Deus, mas eu iria matar Lauren do mesmo jeito. Cheguei à casa de Booker muito cedo, pois eu iria ajudar na decoração. Não era como se eu quisesse fazer aquilo, fala sério! Eu era mesmo preguiçoso, mas sabia que Booker nunca mais iria devolver meus CDs se eu não fizesse. Depois de conferir mais uma vez a playlist da festa, adicionando músicas agitadas e excluindo algumas mais lentas, tudo estava pronto. Os pais de Booker não estariam em casa, logo os andares de baixo estariam livres. Os de cima não, pois lá ficavam os quartos, escritório do pai dele e mais quinhentos cômodos que eu nem me lembrava quais eram, e olha que eu conhecia Booker há anos. Além de que ele guardou todas as coisas valiosas que estavam na sala — vasos caros, tapetes caros, poltronas caras, tudo caro — lá em cima, para não correr o risco de quebrar, manchar, rasgar ou desmontar. Ou de alguém roubar, claro. Contratamos um segurança para ficar de olho na escada que levaria aos cômodos intitulados de “proibidos”, para o caso de algum espertinho querer vandalizar algo. Não cogitamos a opção de que algum casal poderia querer privacidade e ter a idéia de invadir algum dos quartos. Booker e eu sabíamos que os estudantes de BHS faziam tudo que queriam fazer na frente de todos. Orgia garantida sempre.

Tiramos alguns dos móveis — a maioria bem pesados, devo dizer — do local, deixando apenas as mesas, colocando-as no canto, com todos os tipos de comidas em cima. E também os sofás. Na cozinha estava tudo normal, se não fosse pelas geladeiras completamente lotadas de bebidas alcoólicas ou com uma pitada daquilo. Até um mísero suco de laranja fizemos questão de batizar. Na sala, o lugar onde a festa iria rolar, havia jogos de luzes, pista de dança e todas aquelas coisas de balada que não vou perder meu tempo explicando, assim como outros enfeites que tínhamos da festa da prima de Booker, do ano anterior. Provavelmente ninguém iria reconhecer. Uma bandeira com o símbolo do time de futebol de Blanchaster, o qual eu era orgulhosamente o quarterback, presa em uma parede, bem à frente, para todos verem qual era o motivo da festa. Certo, nos fazíamos festa até sem motivos, mas aquela festa pertencia ao time de futebol. Digamos que tudo estava perfeito para ser uma noite e tanto. E que, claro, iria até amanhecer.

Eu acreditava que ainda não estava bêbado, mas podia jurar que não sabia quem eram as garotas no meu colo. Eu estava ali, sentado em um sofá enorme e confortável em um canto da sala. Eu não sabia se era um dos sofás novos ou um antigo mesmo, apenas sentei ali quando precisei de um lugar. Estava com uma morena sentada em uma das minhas coxas, uma das pernas dobradas entre as minhas, e a outra ao lado da minha outra perna, por fora. Uma ruiva do meu lado, sentada um pouco de lado em minha direção, o corpo um pouco de costas para tudo e de frente para mim. E outra morena atrás de mim, de pé. Aquele típico trio loira-morena-ruiva. Eu não conhecia nenhuma das três, ou até poderia conhecer, mas tudo estava escuro o suficiente para que não visse seus rostos. Só sabia as cores de seus cabelos, pois quando os flashes de um dos efeitos das luzes batiam nelas, refletiam as cores, sendo a cabeça da ruiva mais visível que a das outras.

A primeira morena beijava meus lábios, e eu a beijava de volta, sem nem perceber direito. Era como um instinto. Poderia ser considerado como um ponto fraco meu, também: beije-me que te beijarei de volta. A menos que seja um cara. Se não fosse uma garota bonita ou gostosa o suficiente, eu teria tempo para me arrepender depois. A música estava alta demais, eu tinha realmente bebido muito, não a ponto de estar bêbado — talvez só um pouquinho —, afinal, eu já era totalmente acostumado com o fato de beber muito e a sensação do álcool correndo por minhas veias, e a prova daquilo era uma garrafa de cerveja ao lado do sofá, em cima de uma mesinha que deixei ali. Eu tinha certeza que uma hora ou outra alguém iria esbarrar na mesinha, e a garrafa cairia no chão. Mas digamos que eu estava ocupado demais naquele momento para me importar com aquilo. Uma das minhas mãos acariciava as costas e apertava a cintura da morena, por dentro de sua blusa. Eu sentia que ela se arrepiava com o toque de meus dedos gélidos em sua pele morna e suada. A ruiva passava a mão pelo meu corpo, principalmente em lugares estratégicos, provocando-me leves arrepios. Ela sabia o que fazer com aquelas mãos.

Também me excitava, com certeza, mas depois de alguns anos vivendo daquele modo eu havia aprendido a controlar uma ereção. Ou quase, já que ela praticamente impossível me segurar quando alguém me excitava diretamente. Mas existiam exceções, como o caso da enfermaria, que eu não conseguia tirar da minha mente e nem entender direito como acontecera. Mas, afinal, nada era 100%.

A preciosa dica para aquele que não consegue controlar o próprio amigo de baixo, ou apenas algum curioso de plantão: Eu pensava em algo que não fosse nem um pouco excitante. Como minha ex-professora de português, Sra. Dibbles, que deveria estar num asilo. Mas não era apenas aquilo. Eu a imaginava usando lingerie. Não existia nada mais broxante que aquilo, acredite em mim. Eu não estava acariciando as costas cobertas pelo tecido fino do vestido da ruiva ou sua cintura bem desenhada, estava fazendo algo bem pior para qualquer um que fosse no mínimo ingênuo, santo, inocente, do que quiser chamar. Algo que faria os mais conservadores e freiras nos queimarem na fogueira. Mas nós não fazíamos parte do grupo anjinhos da sacristia ou sagrados preservadores da virgindade eterna. Não me incomodava de ser o profano de uma história, qualquer que fosse ela. Logo, enquanto para aquelas pessoas era algo bem pior, para mim e ela era bem melhor. Minha mão livre estava por baixo de seu vestido que tanto podia ser preto quanto rosa choque, eu não conseguia enxergar o suficiente para diferenciar. E meus olhos estavam fechados, pois eu beijava a morena ao meu lado. Meus dedos estavam por dentro de sua peça íntima minúscula, o que era previsível, e estava fazendo o óbvio. Sua intimidade estava úmida o suficiente para meus dedos deslizarem por toda sua extensão. Eu brincava com ela de modo ágil, sem me importar em ser carinhoso ou no mínimo calmo, enquanto a garota arranhava meus braços com força e sussurrava coisas no meu ouvido, implorando por mais.

Agradeci mentalmente ao fato de que vestia a jaqueta do time de futebol, logo, meus braços não ficariam marcados. Mas eu podia sentir superficialmente suas unhas longas. Eu queria poder fazer muito mais que aquilo na ruiva, mas não podia esquecer que estávamos numa festa. Algo como masturbação poderia passar despercebido, mas algo me dizia que uma transa no meio da sala não passaria despercebida. Então, eu descontei todos os meus desejos no beijo com a morena. Eu estava beijando uma enquanto masturbava a outra. A segunda morena beijava e chupava meu pescoço, e eu podia claramente sentir sua língua quente fazendo movimentos circulares na minha pele, enquanto meus dedos faziam aquilo na intimidade da amiga dela. Eu sabia me controlar, ou controlar meu querido amigo de baixo, mas estava realmente difícil.

Não era uma, nem duas, eram três. Ninguém estava prestando atenção em nós, e os poucos que estavam vendo a cena não sabiam que era eu por conta do escuro, e nem lembrariam daquilo no dia seguinte. Porém, eu nem me incomodava, minha fama apenas aumentaria.

Todos estavam ocupados dançando como loucos, ficando bêbados, comendo comida ou uns aos outros. A morena no meu colo parou de me beijar, dando-me algum tempo para respirar. Não que eu estivesse reclamando, mas eu estava quase morrendo ali. A morena atrás de mim parou de beijar meu pescoço, e se sentou ao lado da outra morena. Puxei minha mão que estava divertindo a ruiva, bem no momento em que ela chegou ao orgasmo, e apenas senti sua mão suada apertar a minha com força. A morena do meu colo aproximou os lábios do meu ouvido, passando as pernas pelos meus quadris, prendendo-se a mim com firmeza, enquanto as outras se afastaram.

— Você beija tão bem quanto me falaram... — sussurrou ela, e pude ouvir porque ela estava realmente próxima, os lábios quentes chegando a tocar minha orelha.

Sorri maliciosamente, satisfeito, mas não surpreso. Minhas mãos subiram avidamente e apertaram suas coxas grossas. Ela virou o rosto em minha direção e eu lhe dei um último beijo feroz, que não durou muito, enquanto as outras duas alisavam as partes que podiam tocar do meu corpo. Quebrei o beijo, tirando a morena do meu colo e colocando-a em meu lugar no sofá, já que eu no momento estava de pé.

— Garotas, tenho que resolver umas coisas, depois eu volto. — falei, mais alto que a música, limpando a boca com as costas da mão, a fim de limpar o batom da morena que manchou meus lábios, pegando minha garrafa de cerveja em seguida e partindo em direção ao banheiro, sem nem esperar resposta delas, não me importava, de qualquer modo.

A verdade era que eu havia enjoado. Enjoado delas. Eu era daquele jeito, enjoava muito fácil de garotas. Então, sempre precisava ir atrás de outras. Por aquele motivo nunca fui bom em relacionamentos. Nunca gostei de apenas um corpo para tocar, uma boca para beijar. Ao todo tive uns dois ou três relacionamentos, e em todos eu acabei traindo a garota. Menos em um até recente, mas eu não falava sobre aquilo e nunca mais iria falar. Não era algo que eu controlava, em relação a enjoar de garotas. Apenas era daquele jeito. Eu era daquele jeito. Precisava de novas carnes, novos beijos, novos perfumes, novos toques, novas vozes. Esbarrei em várias pessoas, algumas com o corpo mole demais, empurrei outras e quase caí várias vezes. Eu estava ficando tonto com tanto barulho, tanta gente acumulada e o cheiro forte de bebida queimando minhas narinas.

Mas claro que eu já estava acostumado com tudo aquilo. Não contava o número de mulheres que eu dormia, não sabia que estava no meu limite de bebida até vomitar, não controlava a mim mesmo em todos os sentidos. Passei pelos diversos corredores da mansão, do andar de baixo, brigando com alguns garotos e garotas por estarem quase quebrando objetos ou sujando as paredes (não estava nem aí para aquilo, mas sabia que Booker ficaria muito puto se destruíssem sua casa), cumprimentando conhecidos e passando a mão em garotas que eu já dormi, apenas para brincar com elas, provocá-las e lembrá-las que já foram minhas por uma noite.

Quanto mais eu andava, mais as risadas, gritos e a música iam se distanciando, mas eu poderia ouvir se alguém me chamasse, mesmo sabendo que soaria um pouco distante. Até que finalmente parei na frente de uma porta branca (que reconheci como, graças a Deus, o banheiro) e girei a maçaneta, entrando e trancando-a em seguida. Tomei três longos goles de cerveja, virando-me e me olhando no espelho de tamanho médio, logo acima da pia de mármore. Observando meu reflexo, conclui que não estava muito ruim, apenas suado e com o cabelo bagunçado, grudando um pouco em minha testa. Larguei a garrafa em cima da tampa do vaso sanitário, abrindo a torneira e molhando minhas mãos. Molhei meu rosto depois, refrescando-me e molhando rapidamente meu pescoço com a água fria, secando-o com uma toalha de rosto branca, fazendo o mesmo depois com meu rosto. Deixei a garrafa ali mesmo, já estava quase sem nada, fechando a torneira e saindo do banheiro, arrumando meu cabelo com os dedos novamente enquanto o fazia. Ao invés de voltar pra sala, fui em direção ao fim do corredor e o virei, chegando à cozinha. A casa de Booker era realmente enorme, mas não era novidade para ninguém que eu conhecia tudo por ali.

Na cozinha, surpreendentemente, não havia ninguém. Esperava encontrar um casal se comendo na mesa ou sei lá. Abri uma das enormes geladeiras, pegando uma lata de cerveja e abrindo-a, fechando a porta em seguida. Ouvi o som que eu tanto conhecia; o relaxante som da latinha se abrindo. Tomei alguns goles, passando as costas da mão na boca em seguida. Fui em direção à saída da cozinha, querendo voltar pra festa, mas esbarrei em alguém. Reconheci quem era e no mesmo momento eu sorri, ainda mais por ver a expressão irritada da garota em minha frente. Provavelmente não esperava me encontrar ali.

— Olha só, você veio. — sorri ainda mais, bebendo mais um gole gelado, enquanto encarava Geovana com uma expressão calculadamente curiosa.

— Sim. — respondeu ela, dando meia volta e saindo da cozinha com passos firmes.

Segundos depois, ela voltou, acrescentando rapidamente:

— Mas não por sua causa.

— Certo. — ri um pouco, e claro que ela não me acompanhou — Já pode dizer quem te convidou, purple. – a chamei por um apelido que tinha acabado de criar, e a inspiração obviamente foi seu cabelo roxo.

— Não me chame de purple. — ela bufou, revirando os olhos, irritada — Não vou dizer, nem tem pra quê. Estou aqui, não estou?

Resolvi não insistir, erguendo a lata um pouco em sua direção.

— Aceita? — ofereci, com a testa franzida.

— Não bebo. — ela respondeu o que eu já esperava.

— Ótima garota. — sorri de lado, meio maldoso — Como ficou sua blusa?

— Acabada. Assim como sua fuça, se você não calar a boca. — ela fechou a cara mais ainda, e percebi que seu humor ainda era o mesmo da enfermaria, ou algo como aquilo.

Certo, eu gostava de desafios. Ela parecia um pouco de mau humor, e para mim seria um honra ser o motivo de mais estresse ainda. Se é que eu já não era.

— Por que tão estressada, Geovana? — perguntei, dando um sorrisinho provocativo, enquanto bebia mais, finalmente terminando.

Estiquei o braço, deixando a lata em cima de um pequeno armário.

— Como diabos você sabe meu nome? — ela realmente pareceu surpresa — É algum tipo de stalker tarado do bolo? Porque tipo, eu só te ajudei na enfermaria, nem falei meu nome nem nada.

Eu não segurei uma risada, e gargalhei, realmente achando graça. Ela não me acompanhou. Apenas ficou ali, me encarando com a testa franzida, enquanto eu me recuperava.

— Não, não sou. — não respondi sua primeira pergunta.

— Eu mereço saber o seu, então. — ela cruzou os braços, esperando-me responder, com uma expressão desafiadora no rosto.

— Descubra. — dei uma piscadela, passando por ela, mas Geovana me parou, com a mão em meu peito, agarrando minha jaqueta.

— Isso é um desafio? — perguntou ela, pela primeira vez com um sorrisinho nos lábios carnudos e extremamente vermelhos.

Cheque mate. Ela era como todas as outras, afinal. Gostava de provocar e de correr atrás ao mesmo tempo. Eu sabia que era só questão de tempo para o “correr atrás” entrar no jogo.

— Talvez. — respondi, dando de ombros, tentando parecer indiferente.

— Ou seria uma brincadeira? — fingiu pensar em sua pergunta retórica.

— Não gosto de brincadeiras. — cortei, olhando para seu rosto, extremamente e propositalmente perto.

Eu não a conhecia direito, mal a vi antes e não sabia qualquer coisa que fosse além do seu nome e sua constante irritação com o mundo, mas naquele momento me vi desejando-a. Eu nunca precisei de muito tempo para chegar a uma conclusão daquelas, e não precisava de muito tempo para que elas resolvessem que iriam se entregar para mim. Eu não precisava saber dos gostos de uma garota para agradá-la, conhecê-la para querê-la, mais de dois minutos para me sentir atraído por ela se, aos meus olhos, ela fosse o sinônimo de atraente. Mas aquela garota na minha frente parecia um pouco diferente, sem uma classificação exata. Eu não sabia se era o brilho intenso nos seus olhos escuros, a respiração lenta fugindo entre seus lábios manchados de vermelho e entreabertos, o modo como parecia rebater tudo que eu dizia a qualquer segundo que fosse, sua mão agarrando minha jaqueta ou a ameaçadora aproximação. Eu não sabia o que estava me fazendo ficar hipnotizado naquele exato segundo. Mas eu sabia que uma daquelas coisas, ou todas elas, me faziam, naquele momento, querê-la.

— Nem eu. — ela deu de ombros, indiferente — Mas gosto de brincar. E será divertido brincar com você. — sorriu ela, brilhantemente, recolhendo a mão, livrando-me do aperto.

Eu não sabia se ela estava brincando ou falando sério. Talvez não houvesse malícia em suas palavras, apenas provocação. Mas eu considerei suas palavras bastante maliciosas. Ela aproximou mais seu rosto do meu e sussurrou:

— Deveria tentar beber menos, o seu hálito de quase bêbado está quase me embriagando junto.

— Deveria se acostumar. — sussurrei de volta, aproximando meu rosto ainda mais, olhando perigosamente para seus lábios que mal se moviam quando ela falava, graças ao modo delicado que as palavras simplesmente fugiam de sua boca.

— Deveria? — deu um sorrisinho de lado, afastando-se, e virou-se, saindo da cozinha. Em cerca de alguns segundos pude perceber que ela estava apenas brincando comigo, e que tudo aquilo que disse não era para ser levado a sério. Então ela tinha um grande problema, pois eu havia levado a sério. Eu mordi o meu lábio inferior, passando a mão pelo meu cabelo escuro e olhando para seu corpo, de costas, antes de vê-la saindo pelo corredor.

— É, será muito divertido. — falei, para mim mesmo, quando ela finalmente deixou-me ali, sozinho e com um perigoso sorriso nos lábios.

— Aí está você, cacete! — Yv exclamou, vindo em minha direção rapidamente.

Eu estava no gramado, sentado na frente de uma árvore, com minhas costas apoiadas em seu tronco. Do lado de fora da mansão. Meu amigo se sentou ao meu lado e eu ergui uma garrafa de whisky em sua direção, meio que oferecendo, meio que cumprimentando-o com um inexistente "e aí".

— Por onde esteve? — perguntou ele, dispensando a garrafa com um gesto de mão.

Yv não bebia muito, diferente de mim. Ele era aquele tipo de amigo que acobertava e aconselhava, mas não se envolvia muito. Em quase tudo, praticamente.

— Estive caminhando solitário pelos corredores da vida. — respondi, dando um sorriso retardado e bêbado em seguida, soando meio pseudo-filosófico.

— Esteve bebendo. — adivinhou o óbvio, ignorando minha frase filosófica.

Depois ele ainda dizia que gostava de arte. Por que não apreciou a minha? Ergui um dedo, calando-o e fazendo uma pose, como uma escultura grega de um dos deuses da época.

— No solitário corredor da caminhando estive vida. — falei, parando em seguida, franzindo a testa — Espera, tem algo errado aí. — notei, desfazendo a pose, confuso, vendo-o bater na própria testa.

— Okay, certo, tanto faz. — suspirou ele, pegando a garrafa de whisky da minha mão.

Tentei pegar de volta, mas Yv já havia jogado-a para o outro lado da rua, e apenas pude ouvir o barulho da garrafa se quebrando numa calçada. Bufei, me levantando, meio cambaleante. Yv se levantou em seguida. Só então pude perceber que ele tinha uma garrafinha de água mineral em uma mão, e tirava um pequeno pano do bolso de seu jeans.

— Antes de voltarmos pra festa, vamos fazer o ritual de purificação. — sorriu ele, animado.

Eu assenti. Yv sempre se animava com o ritual de purificação, porque, afinal, quase nunca era preciso fazer nele, e ele sempre que fazia em mim ou em Booker. Sempre que um de nós estava bêbado ou quase pegando no sono em um momento que não deveríamos estar fazendo aquilo, o ritual de purificação acontecia. Uma idéia de Booker, que realmente era útil. Ao menos com nós três, que era o objetivo. Fechei meus olhos, como de costume, já preparado, ouvindo o barulho da garrafa se abrindo, da tampa de plástico caindo no chão e do plástico sendo amassado.

Então, com força, senti algo molhado e gelado atingir meu rosto. Segundos depois, sem que eu tivesse tempo para ao menos gritar, algo quente e macio foi passado no meu rosto e em algumas partes da minha jaqueta do colégio, próximas ao meu pescoço. Abri os olhos, sentindo-me muito mais alerta, como se houvesse acabado de acordar, e tão disposto quanto como eu estava quando a festa começou. Sacudi-me um pouco, com energia para dar e vender.

— Melhor? — perguntou Yv, dando um sorrisinho de canto, livrando-se da toalha de rosto, jogando-a no gramado mesmo.

— Muito. Valeu, dude. — agradeci, pegando a garrafa de sua mão e levando-a aos lábios, bebendo o que restou do líquido.

A água desceu rasgando por minha garganta, como de costume. Coloquei no gramado, quando não havia mais nada para beber.

— Agora, vamos voltar. Eu preciso achar a Lea. — sorri, meio malicioso, vendo Yv revirar os olhos e rir um pouco.

— Vocês ficaram ou...? — perguntou, curioso.

Eu entendia, pois ainda não o atualizei. Logo, não estava por dentro das recentes novidades.

— Fizemos bem mais que isso. Mas foi bom, e mesmo com todo aquele meu problema de enjoar de garotas, quero novamente. — ainda bem que a joelhada de Lauren não tinha provocado coisas graves — E, aliás, ela é igual a mim. — dei de ombros, sincero.

— Sabe, Vincent, dizem por aí que quando a pessoa sente um vazio e cansa de apenas ficar com qualquer uma e todas, o motivo é a necessidade de ter alguém fixo. Conhecer o amor, já ouviu falar disso? — ironizou a última parte, mas estava falando sério.

Yv estava falando como o meu pai, ainda mais quando me chamou pelo meu segundo nome. Eu não gostava de ouvir aquelas coisas do meu melhor amigo, pois ouvir do meu pai já era mais que o suficiente. Mas eu já estava acostumado. Por aquele motivo quase sempre eu preferia comentar sobre minha vida sexual com Booker. Ele não me julgava, não enchia meu o saco ou dava sermão. Afinal, ele era como eu. Ou o mais próximo.

— Sabe, Yves, esse vazio é fome. Quem disse isso tem pinto pequeno e é broxa. O motivo é necessidade de deixar de ser tão virgem por espírito. Conhecer o poder do sexo, já ouviu falar disso? — rebati, de prontidão.

Ele ponderou um pouco, então pareceu desistir. Rendeu-se à filosofia de Victor presente na minha frase, rindo em seguida, e eu o acompanhei. Saímos da frente da mansão, mas jurava que havia ouvido gemidos baixos, vindo de trás de algumas moitas, próximas a uma enorme árvore. Alguém ali estava tendo uma noite tão animada quanto a minha seria, mais tarde.

Não foi muito difícil achar Lea. Ela estava rodeada de amigas, como sempre, e uma delas não falava, ela gritava. Quando me aproximei do grupo, ouvi sua voz — apesar da música extremamente alta atrapalhar. Mas aquela garota gritava mesmo — e logo deduzi que Lea deveria estar com ela, e estava. Passei meus braços por sua cintura, por trás, colando-a a mim quando suas amigas finalmente se espalharam pela sala, e nós estávamos parecendo mais como um casal para quem estivesse nos vendo. Lea tentou se soltar, quase que desesperada, sem saber quem estava abraçando-a por trás, claramente surpresa.

— Hey, sou eu. — murmurei em seu ouvido, não sabendo se ela ouviria por causa da música.

— E por que isso faria eu me sentir mais calma? — murmurou de volta, conseguindo se soltar e virando-se, encarando-me e abrindo um sorriso provocativo.

Eu ri um pouco, olhando descaradamente para seu corpo, tão exposto graças ao vestido curto e colado. Ela não estava mais tão próxima. Não me surpreendi com sua atitude, apesar de que nós havíamos nos divertido bastante naquele dia mais cedo, na casa dela, se é que me entende. Ela estava se fazendo de difícil, provavelmente. Mas Lea não era do tipo que se fazia de difícil, alguém poderia dizer para ela que aquilo não combinava com ela, por favor? Eu gostava de quando as garotas me davam desafios e fingiam resistir, mas Lea era do tipo que abria as pernas para o primeiro que pedisse, então aquela característica que não a pertencia e que ela estava tentando usar comigo não estava dando certo. Parecia mais como forçado. Mas não me importei muito, ela continuava gostosa.

— Não sei. — respondi, mais alto que a batida eletrônica que tocava no momento.

Lea se aproximou de mim, encostando os lábios em meu ouvido.

— Quando souber, adoraria saber a resposta. Espero ansiosamente. — murmurou, afastando-se e passando pelo meio de um grupinho de garotos.

Que, claro, soltaram cantadas e provocações que mal pude ouvir. Até que Lea saiu da minha vista, perdendo-se no meio de tanta gente dançante e/ou bêbada. Eu ri comigo mesmo, apenas por conta das imagens nada inocentes que passaram pela minha cabeça quando a vi rebolar em direção ao outro canto da sala. Claro que no fim da festa ela iria vir até mim e fazer um pedido nada inocente, e, caso não o fizesse, outras garotas por ali fariam. Empurrei algumas pessoas, andando normalmente, sentando-me no sofá em que eu estava com as três garotas momentos antes, que naquele momento estava vazio. Senti uma das almofadas, a qual meu braço estava apoiado, ser puxada. Automaticamente olhei para o lado e vi que Yv ocupava o lugar ao meu lado no confortável sofá. Do local que estávamos tínhamos uma boa visão da pista de dança, e dos vários corpos — principalmente femininos — que ali estavam, agitados.

Tudo parecia mais claro, e eu podia ver os rostos que não estavam muito longe.

Eram provavelmente quase cinco da manhã, e não pude deixar de reparar em como o tempo passou rápido. Ou foi efeito da bebida, mesmo. Olhei para todos ali, os que eu podia enxergar, sem focar em ninguém em especial. Mas aquilo mudou.

Uma garota estava ali, aparentemente sozinha. Ela dançava perfeitamente, no ritmo da música. Não movia apenas os braços e pernas (como a maioria), e sim todo o corpo, incluindo seu quadril, valorizando suas curvas enquanto rebolava ou produzia passos de dança em que não era preciso se movimentar daquele modo. Aquilo com certeza atraiu minha atenção. Geovana não dançava como as outras garotas ali, apesar de as mais velhas — a maioria — terem mais corpo que ela, em alguns lugares. Ela sabia movimentar cada parte de seu corpo, parecia conectada com a música, em todos os aspectos. Seu cabelo longo era jogado para um lado e para o outro, ela parecia suada. Usava tênis, e eu me perguntei mentalmente se ela saberia dançar tão bem se estivesse de salto alto. Ela se movia com lentidão em um momento, e com rapidez no outro. Seus passos de dança, seus rebolados e tudo que seu corpo produzia naquele momento não parecia ser propositalmente sensual ou provocativo, ela estava apenas se divertindo. Mas aquilo era sensual para mim, extremamente provocativo, mesmo suas roupas não sendo tão reveladoras quanto as das outras garotas presentes. Eu notava cada detalhe de seu corpo, seus gestos, seus movimentos e sua roupa, porque eu estava olhando fixamente para ela.

Por alguns minutos, tudo ao redor pareceu paralisar. Ela não dançava. Ela se comunicava profundamente com a música. Mas apenas era coisa da minha cabeça viciada em sexo, com certeza. Parei de comê-la com o olhar, com certo esforço, olhando para quem estava ao seu lado. Lea dançava normalmente, dando alguns pulinhos e movendo todo o corpo de uma vez só. Geovana dançava melhor, seus passos eram hipnotizantes e únicos, a meu ver. Olhei de uma para outra, então para as duas. Eu definitivamente estava no paraíso. Fixei meu olhar na mais nova, novamente, sem nem perceber direito. Como aquela garota dançava daquele modo? Lembrei-me que na aula de Matemática/História, mais cedo, Yv me disse que ela e Jennifer, sua irmã, eram do Brasil. Talvez fosse aquilo, certo? Provavelmente todas as brasileiras dançavam daquele jeito. Deus, eu precisava ir urgentemente ao Brasil.

— Ela dança bem. — comentei, alto o bastante para Yv ouvir — Mas seria melhor se ela rebolasse em cima de mim. — olhei para ele, dando um sorriso malicioso.

Mesmo ela sendo nova, não tinha cara de virgem. Não mesmo. E eu nem sabia o que diabos ela estava fazendo no primeiro ano. Pelo seu corpo e rosto, ela deveria estar no segundo ou terceiro. Afinal, qual era sua idade?

Yv revirou os olhos, recusando uma bebida que uma garota qualquer ofereceu — que eu aceitei quando ela ofereceu para mim e saiu.

— Você é patético. — falou ele, mas riu um pouco no fim da frase, relaxando no sofá confortável.

Era tão bom receber aqueles elogios. Voltei a olhar Geovana, mordendo meu lábio inferior ao analisá-la, ela não fazia meu tipo. Não fazia mesmo. Meu tipo se resumia a garotas de pouca roupa e pouco papo. Geovana não parecia ser daquele jeito, e pelo pouco que pude conhecer de sua personalidade, ela não era. Mas era bom fugir do padrão às vezes, certo? Ela também era — provavelmente — mais nova que eu, e aquilo não fazia parte do meu padrão, mas quem ligava? Eu não. De repente, Lea deixou de existir. Eu já havia transado com ela, mesmo.

— Pare de olhar para ela assim. — falou Yv, calmamente, mas eu sabia que estava me repreendendo.

Só então percebi que estava encarando a garota, enquanto estava perdido em pensamentos. Eu revirei os olhos, mas não olhei para ele, continuava olhando-a, sem me importar com o que ele pensava.

— Olhar não arranca pedaço, certo? — dei de ombros, indiferente no momento. Então parei, lembrando-me do que Geovana estava vestindo mais cedo, na enfermaria. Olhei de lado para Yv — Ela estava usando seu moletom da banda hoje.

Yv parou um pouco, então sua mente pareceu clarear e ele assentiu.

— Ela estava com a blusa suja de bolo e sei lá o que. Então, emprestei. Ela precisava mais que eu. Ela nem sabe que é da banda. — respondeu normalmente, dando de ombros em seguida.

Um sorrisinho debochado brotou em meus lábios, e ri um pouco comigo mesmo, atraindo a atenção de Yv para meu rosto.

— Eu que a sujei. — ri, negando algumas vezes com a cabeça — Coitadinha. Mas, sério, foi muito engraçado.

Yv pareceu incrédulo, então caiu na gargalhada no mesmo segundo que eu. Provavelmente ele não estava rindo da situação do refeitório, mas sim do fato de que eu a sujei. Eu estava rindo porque estava achando graça em tudo, mesmo.

— No way! — negou algumas vezes com a cabeça, ainda rindo — Eu nem quero saber o porquê de você ter feito isso.

Ficamos apenas rindo durante os curtos minutos seguintes, então Yv se recuperou e eu também. Suspirei, dando de ombros.

— Foi um acidente.— respondi, o que não era mentira.

— Bem, ela me disse que o jogador de futebol que a sujou iria pedir desculpas para ela, um dia. No caso, você — falou, fazendo-me erguer as sobrancelhas.

— Ela terá que esperar deitada — ri de leve, olhando novamente pra garota na pista de dança.

— Você estava de olho na Lea, por que Geovana agora? — quis saber, olhando para meu rosto.

Parecia sério, e não sério-vou-rir-quando-você-disser-alguma-merda. Parecia sério mesmo, e havia algo de diferente em seu tom de voz. Raiva? Eu não sabia. Também não sabia qual o motivo daquilo, ele nem conhecia Geovana direito. Do ocorrido com o moletom não saíra uma amizade, certo? Ele apenas emprestara uma roupa para ela. O que era normal do Yv, com aquela pinta toda de cavalheiro e aquelas coisas que eu considerava entediantes. Provavelmente estava irritado com alguma coisa e estava descontando naquele assunto, mas preferi não perguntar nada. Yv e seus momentos estranhos, de origem Yves.

— Porque eu sou assim, Yv. — respondi, simplesmente, encarando-o.

Eu não estava sorrindo ou rindo, também estava sério. Levei o copo de plástico vermelho aos lábios, contendo a bebida que reconheci como cerveja, virando-o quase todo de uma vez, bebendo uma boa parte da cerveja gelada.

— Porque eu sou assim. — repeti, convicto, olhando fixamente para Geovana.

Notas finais
Oi, oi! Estou aqui. Queria dizer aos leitores fantasmas que não tenham medo de mim, eu não mordo, tá? ;-; Comentem, conversem comigo! Xoxo, Little G.