The Anchor

10 Festa na casa do Booker. — Parte II.


Notas iniciais
Cheguei! Não sei se você já percebeu, mas de meia noite eu atualizo a fic. Sempre. E sempre uns dois ou três dias depois de ter atualizado a última vez. Poréeeem, hoje foi diferente, porque tive um dia muito corrido e estou muito cansada, então postei agora para poder descansar. Entãaaaao, aqui está a parte II do capítulo do Booker! Espero que aproveite. Boa leitura.

Capítulo 9.

Eu podia afirmar que estava cansada, mas não a ponto de dormir quando deitasse na minha cama. Na realidade, duvidava muito que eu conseguiria dormir de primeira quando chegasse à minha casa, já que os acontecimentos da noite — até aquele momento — invadiriam minha mente. Olhei para o jardim, por uma das janelas da gigantesca sala, vendo que já estava começando a amanhecer, lentamente. Mesmo com o amanhecer aproximando-se, as pessoas ainda continuavam ali, se divertindo, ninguém nem parecia ter ido embora. A sala era realmente enorme, mas havia mesmo muita gente para quase lotá-la. Eu não sabia se todas as festas dos EUA eram daquele jeito, mas eu sabia que as de Chordwall eram. Ao menos aquela sim.

Eu estava suada por ter dançado tanto, e tentava fazer um nó no meu cabelo com ele mesmo. Fracassei, já que eu não sabia fazer aquilo direito. Na verdade, nunca soube.

Afastei-me da janela e andei um pouco, tomando o cuidado para não tropeçar e alguém derramar algo em mim. Aquela era a última coisa que eu queria que acontecesse. Eu olhei várias vezes ao redor e procurei Jennifer, que sumiu novamente. Ela possuía aquele magnífico poder de simplesmente sumir. Rezei mentalmente para que ela não tivesse bebido muito, levá-la bêbada para casa na nossa primeira festa nos Estados Unidos não seria nada legal, e minha mãe iria concordar plenamente comigo. Quando cheguei à festa, o som alto me incomodou um pouco, como se meus ouvidos pudessem explodir a qualquer segundo. Mas naquele momento eu já havia me acostumado, e as músicas eram boas. Logo, eu já havia dançado bastante e aproveitado o suficiente para cansar.

Havia um grupo de garotas perto de um dos sofás nos cantos da sala, que eram do terceiro ano (sala da minha irmã), ela me disse que elas faziam parte do "clube do batom", e naquele minuto eu entendi o motivo. Todas elas eram bem maquiadas, algumas bonitas, outras exageradas arrumadas, mas todas possuíam algo em comum. Os batons coloridos, brilhantes e chamativos. O típico de burras, superficiais e fúteis.

Não que eu as conhecesse, mas tais características eram perceptíveis. Qual é, eu estava nos Estados Unidos, todo clichê ali seria bem vindo. Passei por elas, ouvindo risadinhas e murmurinhos direcionados a mim, fazendo-me parar.

— Como ficou sua blusa? — uma delas perguntou alto, debochada.

Se tivesse perguntado baixo eu não teria ouvido muito bem, por culpa de todo aquele barulho. Apenas ouvi as risadinhas porque passei bastante próxima a elas, afinal, eu não era desprovida de audição (lê-se surda). Ergui minhas sobrancelhas, olhando para ela, confusa, até que meu olhar pousou em um celular que estava em sua mão.

Vi que a loira estava assistindo um vídeo, que estava pausado, em uma cena que reconheci bem. O retardado do bolo sujando minha blusa, fato que ocorreu mais cedo naquele dia. As notícias corriam rapidamente por BHS, mesmo. Provavelmente todos estavam rindo de mim pelas costas, mas ao longo do tempo eu havia aprendido a ignorar aquele tipo de pessoas, ou tentar.

Mentira! Quer dizer, parcialmente.

Ergui meu olhar, olhando para seu rosto exageradamente maquiado. Eu tinha uma resposta na ponta da língua, e a mesma estava coçando para eu baixar a bola daquele projeto de Barbie Travesti.

— Mesmo suja, ela continua melhor que essa sua cara. — sorri venenosamente, voltando a caminhar em seguida, não sem antes ver sua expressão incrédula e de suas amigas, graças a minha surpreendente resposta.

Elas pareciam aquele tipo de garotas que não eram contrariadas ou desafiadas. Continuei com a incansável (não, eu estava cansando sim) busca pela minha irmã, até que finalmente a encontrei. Ela estava perto das mesas de comidas (Jennifer sendo gorda, que novidade), conversando com dois rapazes e uma garota. Não estava longe. Não parecia bêbada nem nada, apenas estava com um copo vermelho de plástico na mão e ria alto de algo aparentemente contado por um dos rapazes. Pois um deles continuava falando, enquanto todos riam. Aproximei-me do grupo, rapidamente, desviando de algumas pessoas dançantes no caminho.

— Olá. — cumprimentei-os, sorridente, parando na frente da minha irmã e me inclinando, para ela ouvir o que eu disse.

— Hey! — respondeu ela, sorrindo de lado — Por onde esteve?

— Dançando com Lea. — respondi normalmente — Mas você sumiu. — lembrei.

Ela riu um pouco, então pareceu se lembrar de que não estávamos sozinhas. Percebeu que seus amigos estavam um pouco confusos com a minha repentina aparição, e esperavam que fossem, no mínimo, apresentados. Jenn olhou de modo significativo de mim para eles, deles para mim.

— Sou Josh — o primeiro garoto tomou a iniciativa.

Precisei me aproximar mais dele, ficando no centro do círculo quase fechado pelo quarteto, por causa do barulho. Ele deu um enorme sorriso e estendeu a mão. Não pude ver muito dele, graças às várias luzes da festa que atrapalhavam. Mas notei que sua pele era clara, seus cabelos eram escuros e curtos, bem arrumados. Um feixe de luz branca passou por seus olhos, e pude vê-los bem por um momento. Eles eram de um castanho claro e Josh possuía cílios invejáveis. Apertei sua mão, sorrindo de volta. Josh era alto e magro, sua expressão se tornou divertida. Ele soltou minha mão delicadamente, o outro garoto estendendo a sua, e imediatamente a apertei.

— Meu nome é Hector — apresentou-se, dirigindo-me um sorriso quase inexistente.

Sua pele era extremamente clara, seus olhos eram escuros. Cabelo preto e curto. Altura média, magro. Sorri apenas um pouco, assim como ele, soltando sua mão e virando-me para a garota.

— Sou Taissa. — apresentou-se, apertando minha mão.

Taissa sorriu para mim, e eu sorri de volta. Ela tinha cara de ser intelectual e amigável. Seus cabelos eram médios e pretos, ondulados. Olhos escuros, magra. Era um pouco mais baixa que eu, e eu já era do tipo baixinha. Logo, ela pareceria uma completa criança, se não fosse por seu rosto, que denunciava sua adolescência. Ela soltou minha mão.

— Sou Geo. — olhei para os três, vendo Jennifer beber um pouco do líquido no copo, dando-o para Josh, que bebeu lentamente.

— Prazer. — Taissa sorriu, virando-se de lado e acenando para alguém ao longe depois.

— Hey, alguém sabe onde estão Mary, Kaya e Cohan? — quis saber Hector, cruzando os braços.

Ele não parecia ser do tipo que curtia festas, ou qualquer comemoração que fosse.

— Sendo Mary, Kaya e Cohan. — riu Jennifer, sendo acompanhada pelos outros.

Soltei uma risadinha, apenas para socializar. Josh percebeu minha expressão confusa, pois eu não sabia quem eram aquelas três garotas citadas, então ele apontou para o meio da pista de dança. Virei-me, seguindo seu dedo, e estreitei os olhos, forçando-me a conseguir enxergar alguma coisa. E consegui. Três garotas dançavam loucamente ali, todas com garrafas de cerveja na mão. Elas com certeza estavam roubando toda a cena. Não por vulgaridade ou algo do tipo, apenas porque estavam se divertindo como ninguém. Eu ri, gostando do quanto elas pareciam livres, voltando-me para eles.

— Elas parecem bem alegres. — comentei.

— E bêbadas. — acrescentou Hector, rindo de leve.

Ele sabia rir. Aquilo era bom.

— Eu vou andar por aí, Jenn, depois a gente se vê. — anunciei, começando a me afastar do grupo.

Eles soltaram alguns "foi um prazer" e "até mais", e minha irmã disse algo como "juízo". Apenas assenti, afastando-me do quarteto. Quase tropecei em um garoto que — por algum motivo — estava jogado no chão, perto da pista de dança. Um rapaz se aproximou de mim, falando algo que não pude ouvir, o som parecia mais alto que antes. Eu estava tonta com todo aquele cheiro e calor. Seu hálito forte de bebida me deixou enjoada, e eu o afastei no peito antes que ele pudesse encostar suas mãos em meu corpo. Estava provavelmente muito bêbado, porque não reagiu ou me parou. Andei rapidamente em direção a uma escada que já tinha visto antes, empurrando todos que estavam no meu caminho e apoiando-me ali. A tontura passou aos poucos, na medida em que meus dedos apertavam o corrimão e eu respirei fundo. Achei que iria vomitar, mas não havia bebido. Eu era muito nova para beber, e nem gostava daquelas coisas. Olhei para o lado, e vi que no primeiro degrau da escadaria havia um segurança. Era o único adulto dali. Alto, forte, usando terno preto, óculos escuros e parecendo uma estátua. Com certeza era um segurança. Ou um adolescente qualquer fazendo cosplay de segurança.

— E aí. — cumprimentei, alto, erguendo um polegar em sinal de positivo, tentando ser simpática.

Ele nem ao menos prestou atenção em mim. Estava de braços cruzados, em frente a escada, mas por que estava ali?

Ah, que pergunta imbecil, por que há um segurança aqui?

Para proteger algo, claro.

Provavelmente no próximo andar tinham quartos e salas lotados de coisas caras e afins, ninguém deixaria coisas de valor no ambiente de uma festa. Uma garota se aproximou de nós. Pela sua roupa, a reconheci. Era uma das meninas que estava dançando loucamente na pista de dança. Segundo minhas recentes informações recebidas, seu nome era Mary, Cohan ou Kaya. Daquilo eu tinha certeza. A garota era magra e alta, de pele clara. Olhos castanhos e cabelos em um tom escuro de loiro do meio para baixo. Parou na frente do segurança e fez algo que me deixou totalmente chocada. Não era como se eu estivesse esperando aquilo. Ela o puxou e o beijou, segurando seu rosto com força, eu sabia que o homem provavelmente estava tão surpreso, chocado e confuso como eu. Ela não deu em cima dele, o tocou ou o seduziu antes de beijá-lo. Nada. Apenas chegou e beijou, e aquilo pareceu quase ensaiado para mim. O que aconteceu em seguida foi rápido e confuso, fazendo a opção de aquilo ser fingido se tornar uma afirmação. Duas garotas apareceram sabe-se lá de onde, e subiram as escadas tão rápido quanto jatos. Uma delas quase caiu nos últimos degraus, mas conseguiu subir com a ajuda da amiga, até ambas sumirem em um corredor.

O segurança beijava a garota de volta, eu achava que ele era jovem, pois relaxou. Sua postura e corpo — sem estar todo ereto — era de um rapaz. Ele nem reparou nas duas garotas que não estavam mais ali. Olhei para eles dois, depois pra escada, e fiz o que uma pessoa (sem nada na cabeça a não ser curiosidade e sérios problemas) faria. Subi correndo as escadas, atrás das desconhecidas. Rezei mentalmente para o segurança não me ver, e ele não me viu. Ao menos eu sabia que elas se chamavam Mary, Cohan ou Kaya.

O andar de cima era com certeza incrível, e estava completamente deserto.

As paredes eram brancas, sem nenhuma mancha ou sujeira sequer, com quadros bem pintados no alto, combinando com os desenhos dourados — algo que era como flores — que havia nelas. Eu ainda estava suada, mas não deixava aparentar porque ali em cima era muito frio, olhei ao redor e vi que o motivo era vários ares-condicionados.

Em todo o corredor havia diversas portas marrons e brancas, e me peguei imaginando por alguns segundos como seriam os quartos. Mais a frente, uma escada de mármore claro. Caminhei silenciosamente naquela direção, sem saber o paradeiro das garotas. Estava começando a me arrepender, pelo fato de que eu poderia ser pega. Uma estátua era a única coisa que enfeitava o corredor, sem serem os desenhos nas paredes. Ela era de um anjo branco, com as asas abertas e a expressão serena.

Era incrível de ver, ela era bonita demais. Eu poderia ficar ali por horas apenas observando a estátua ao todo e todos os seus detalhes minúsculos, que com certeza passavam despercebidos pelos olhos ignorantes.

Mas, claro, eu não podia.

Segui pelo corredor, olhando ao redor, com medo de alguém aparecer do nada, como as meninas no andar de baixo. Quando já estava perto da escada, ouvi um barulho vindo do andar de cima, e deduzi que ali as garotas estavam. Subi as escadas, sem saber direito que droga eu estava fazendo e o que eu queria com aquilo. Subi os degraus tão delicadamente rápido que me assustei, eu me sentia uma ninja em uma missão que decidiria o destino de toda a humanidade. Certo, parei. Juro.

Depois de finalmente encerrar aquela subida, vi onde estava. Um corredor tão grande quanto o anterior, com tantas portas marrons e brancas quanto ele. Os detalhes dourados nas paredes eram os mesmos, mas os quadros eram diferentes. Uma estátua branca também estava ali, porém era diferente da de anjo.

Aproximei-me para vê-la de perto. Era impressionante, ela parecia mais bonita e mais bem feita que a anterior. Era um homem extremamente bonito, usando uma armadura grega. Os detalhes de seu rosto perfeito e corpo bem desenhado eram lindíssimos, capazes de deixar todos fascinados, por horas apenas observando a estátua. Olhei para os pés da estátua, vendo um nome cravado ali. No mesmo momento eu sorri como uma criancinha feliz.

Prazer, Geovana Rocha, amante da mitologia grega.

Estava escrito o nome do meu deus grego favorito.

Apolo.

Depois de ter alguns ataques silenciosamente felizes, desviei minha atenção da estátua de Apolo para os quadros nas paredes, percebendo que na maioria estavam mulheres quase ou completamente nuas. Sem querer ofender quem gosta daquele tipo de coisa, mas não era bem meu gosto. Com uma leve careta no rosto, olhei para as portas que seguiam até o fim do corredor. Uma delas, branca, estava entreaberta. Não ouvi nenhum barulho vindo de lá. Não podia mais ouvir a música da festa, que ainda era audível no andar anterior. Eu estava longe de todo aquele calor, cheiro forte e barulho.

Caminhei com passos lentos em direção a porta, aproximando-me o suficiente para olhar pela pequena brecha. As duas garotas estavam lá dentro, e em todo o quarto havia vasos, quadros, tapetes e móveis. Tudo aparentemente caro, organizado de um modo nem um pouco... organizado. Parecia que alguém tinha jogado tudo lá dentro, como se aquilo fosse um depósito. Mas o fato engraçado era que as coisas não estavam nem um pouco inutilizáveis. Tudo parecia novo, intacto, caro.

Naquele momento eu podia ver pelo menos um pouco de como as garotas eram.

A primeira tinha altura média, era magra e sua pele era pele bronzeada. Cabelos longos e escuros, lisos, presos em um rabo de cavalo alto. Seus olhos eram castanhos, e eu sabia daquilo porque ela estava de frente para mim, rindo como uma doente mental. A outra tinha a pele também bronzeada. Não podia ver seus olhos ou seu rosto, ela estava de costas. Era magra e da mesma altura que sua amiga. Cabelos escuros e de tamanho médio.

A primeira garota não ria mais, e o modo repentino como parou era estranho.

— Cohan, o que nós estamos fazendo aqui mesmo? — perguntou ela, franzindo a testa, como se tivesse realmente esquecido.

— Não faço a mínima idéia, Mary. — Cohan riu fraco, coçando a cabeça.

Então elas eram Cohan e Mary. Logo, a garota da escada era Kaya.

Facilmente reconheci a voz de Cohan. Ela era a garota que acertara Harmony na quadra, no caso, era a mesma garota que fora o alvo do retardado do bolo.

Para falar a verdade, nem eu sabia o que estava fazendo ali.

— Vamos descer. — resolveu Mary, indo em direção a porta, e eu me lembrei de que estava ali sem elas saberem. Preparei-me para sair correndo dali e não ser vista, mas um barulho me fez parar brutalmente, tanto quanto elas.

Virei-me para olhar pela brecha novamente. Mary tinha uma expressão chocada no rosto, Cohan ainda estava de costas para mim, e no chão estava um vaso.

Ou o que costumava ser um. Ele estava quebrado, os pedaços coloridos e irregulares espalhados pelo tapete escuro no chão.

— Puta que pariu. — murmurou Cohan, com a cabeça abaixada, provavelmente olhando para o chão, ou melhor, para o ex-vaso.

— Vamos arrumar! — decidiu Mary, a voz um pouco esganiçada — A gente cola com cuspe e...

— Quê?! — Cohan parecia incrédula, por seu tom de voz — Um troço desse não deve ser caro. Vamos descer!

Dessa vez eu não parei para esperar, sai correndo e desci as escadas silenciosamente, na frente delas. Chegando ao primeiro corredor, girei a maçaneta da primeira porta que vi, e esta estava aberta. Sem hesitar, entrei rapidamente, fechando-a sem fazer barulho em seguida. Tudo lá dentro estava tão escuro que eu nem virei para saber onde estava. Minutos depois ouvi passos apressados de salto alto, logo depois eles desapareceram.

Não deveria ser um vaso tão valioso, mesmo.

Descer as escadas foi fácil. Esperei Mary e Cohan descerem bem mais na frente, para enfim aparecer no topo da escadaria, com um pouco de medo de ser vista por elas ou pelo segurança. Mas, por sorte, o segurança não estava ali, por algum motivo que eu não sabia. Se seu sumiço tivesse algum envolvimento com a garota que descobri se chamar Kaya, o motivo era óbvio. Desci rapidamente, vendo que ninguém estava prestando atenção em mim.

Senti uma onda de calor me invadir, eu infelizmente não estava mais no ar condicionado. Andei em direção à entrada da sala, que no momento para mim era a saída, empurrando toda aquela gente que não se cansava de dançar e beber. Consegui chegar à porta, e pulei para fora, respirando finalmente ar puro. Meus pulmões imediatamente agradeceram. Caminhei lentamente pelo gramado macio, até me aproximar de uma das árvores enormes. Cordas um pouco gastas estavam presas no galho mais grosso, e não muito alto, da árvore. Percebi, depois de observar o que as cordas seguravam, que aquilo se tratava de um balanço. Sentei-me, meus dedos agarrando as cordas. Balancei-me um pouco, com certo medo de as cordas não aguentarem meu peso, então eu preferi ficar parada mesmo. Não que eu fosse muito pesada, mas todo cuidado era pouco.

Não estava com sono, apenas cansada. O sol já estava ali, fazendo as árvores, gramas — e tudo que era verde —, ficar mais brilhante e agradável aos olhos. A claridade estava incomodando um pouco minha vista, então fechei meus olhos lentamente, apenas sentindo a leve quentura do sol em meu rosto. Uma brisa refrescante passou, fazendo-me relaxar, ainda segurando nas cordas do balanço para não cair.

Fiquei daquele modo por longos minutos, até que senti um olhar sobre mim e abri os olhos de modo alarmado, quase caindo para trás com o susto de quando vi um rapaz sentado na grama à minha frente.

— Calma, calma!

Yv segurou nas cordas do balanço, para me ajudar a não cair para trás de susto. Ficou de joelhos na grama para poder fazer aquilo.

— Você me assustou. — eu respirei fundo, me sentindo envergonhada por quase ter caído.

— Desculpa, Geo. — Yv riu levemente, soltando as cordas e sentando novamente na grama.

Eu assenti lentamente, como um "tudo bem", e olhei para seu rosto. Ele não parecia sonolento, nem cansado. Seu cabelo castanho estava bagunçado e as bochechas levemente rosadas. A cada segundo ele parecia ficar mais fofo.

— Senta aqui? — pediu Yv, olhando para seu lado, dando duas tapinhas ali.

— Certo. — desci do balanço, sentando ao lado do moreno.

A grama começou a espetar minhas coxas, incomodando-me, e fiz uma careta.

Ele percebeu.

— Culpe seu short curto. — ele deu um sorriso brincalhão, e eu corei um pouco, talvez surpresa com aquilo, ou apenas porque me senti envergonhada ao saber que ele reparara no tamanho do meu short.

Yv tirou sua camisa xadrez, ficando com uma branca por baixo, e a estendeu para mim. Eu sorri, agradecida, ficando de joelhos e amarrando a camisa na cintura, sentando novamente.

Pronto. Sem nada espetando minha bunda.

— Obrigada. Terei que escrever "Roupas do Yv" em uma das gavetas do meu guarda-roupa. — brinquei, por conta do fato de que era a segunda peça de roupa que ele me emprestava em apenas um dia.

— Seu pai não vai achar estranho? — riu um pouco, abraçando os próprios joelhos, olhando-me — Sei lá, uma gaveta com o nome de um garoto no seu quarto?

Eu cruzei as pernas, em uma posição borboleta, e dei um sorriso levemente triste, não demonstrando o quanto eu estava de verdade por ele ter tocado naquele assunto.

— Ele acharia, se estivesse aqui. — dei de ombros, fingindo indiferença.

Yv ficou calado por longos minutos, visivelmente constrangido e sem saber o que dizer.

— Sinto muito. — murmurou, abaixando a cabeça.

— Quê? — franzi a testa, confusa — Você acha que...? Ah! Ele não morreu!

Eu ri com vontade quando vi sua expressão perdida, jogando a cabeça para trás. Comecei a gargalhar, e ele me acompanhou. Ficamos daquele jeito por um tempo, minha barriga doía e eu estava sem ar. Eu ria mais da risada dele que da história do meu pai, e eu achava que ele também ria da minha risada de foca morrendo eletrocutada com uma girafa esmagando-a. Depois de algumas lágrimas e leves pontadas na barriga, conseguimos voltar ao normal.

— Yv, você sabe algo sobre os testes para entrar na torcida? — perguntei, afastando o cabelo do meu olho, para olhá-lo melhor.

Yv parou, parecendo pensar um pouco.

— Pretende fazer o teste? — quis saber, interessado.

— É. Talvez. — dei de ombros — Eu não tenho nada preparado. — acrescentei rapidamente.

Ele soltou uma risada curta, virando-se para mim em seguida.

— Acho que vai se sair bem. — sorriu, sincero — Você tem cara de que sabe dançar. Eles fazem uma coreografia lá na hora, acredito que dê certo nesse ano, como em todos os outros. Estarei lá.

— Você estará? — perguntei, sorrindo em seguida.

— Claro. — sorriu de lado — Você deveria ir para casa. Os testes são hoje, é melhor dormir enquanto dá tempo. E, não esqueça, ainda tem o coral! Mas as audições não são agora, então, relaxa.

Eu assenti, concordando, e me levantei. Estiquei meus braços em sua direção, e ele pegou minhas mãos, levantando-se com minha ajuda.

— Só vou achar minha irmã e...

Mas uma voz me interrompeu. Uma voz masculina e firme, que vinha de dentro da mansão, o dono dela falava visivelmente em um microfone. O reconheci como o garoto que estava na quadra, do time do retardado do bolo, o tal do Booker.

"Todos que não estão aqui venham pra sala. Agora." mandou a voz, e aquilo não me alegrou muito.

A música não tocava mais.

As luzes estavam acesas, e eu podia ver todos os rostos das pessoas ali presentes.

Jennifer estava em um dos meus lados, e May — que eu só vi naquele momento — estava do outro. Todos pareciam surpresos e confusos.

— Repetindo... — o garoto moreno que segurava o microfone continuou. Eu estava certa, ele era o Booker, e era o dono da mansão. Sua expressão era séria e um pouco irritada — Ninguém vai embora até eu encontrar o culpado. Quem quebrou o vaso, mais que super caro, da minha mãe? — repetiu a pergunta, e a mesma coisa se seguiu: todos continuaram calados.

Olhei rapidamente para Mary, Cohan e Kaya, que estavam juntas. As três estavam de olhos arregalados, e também estavam extremamente pálidas (Cohan estava meio verde, mas tudo bem). Mary foi a primeira a sair de seu transe de choque, e começou a se mover desconfortavelmente, cutucando as outras, pois até ela percebeu que elas pareciam culpadas. Olhei para Booker, que estava de pé em cima de uma mesa de madeira que eu não sabia como tinha ido parar no centro da sala. Ele tinha a altura normal, cabelos escuros e olhos também escuros.

O garoto retardado do bolo estava ao seu lado, porém no chão, com uma expressão indiferente e entediada no rosto irritantemente bonito. Um sorrisinho maldoso nasceu em meus lábios, e eu dei um passo à frente, seguido de outros. Eu não sabia bem o que pretendia fazer, mas tinha uma leve idéia. Parei na frente de Booker, que me olhou com curiosidade.

— Eu sei quem quebrou o vaso da sua mãe. — respondi calmamente sua pergunta mental, cruzando os braços.

Vi o retardado do bolo me olhar, curioso. Provavelmente não esperava que eu soubesse de tal informação. Não olhei para trás, mas sabia que Mary, Cohan e Kaya estavam chocadas, pensando na merda que eu iria falar. Mas eu não voltei atrás.

Se eu me considerava uma pessoa vingativa? Dependia da situação.

Não era nenhuma Nêmesis, mas também não era boba. Sujar a minha blusa no refeitório, me culpar e ainda debochar de mim? Além de ser um idiota por natureza? Não iria ficar sem um troco.

— Foi ele.

Aquelas duas palavras saíram da minha boca, acompanhadas do meu dedo indicador que apontava para apenas uma pessoa. O retardado do bolo estava incrédulo demais para falar alguma coisa, e também surpreso, vendo meu dedo em sua frente, apontando para si.

— Ele?! — Booker olhou para o amigo, então voltou a me olhar — Tem provas?

— Não. — suspirei teatralmente, e vi o retardado do bolo sair de seu transe de choque e suspirar, aliviado, olhando-me com ódio em seguida.

— Então você v... — começou Booker.

— Tenho testemunhas. — cortei, sorrindo de modo triunfante. Frisei propositalmente a última parte, vendo o retardado do bolo engasgar.

— Eu não quebrei vaso nenhum! — protestou, sem entender o que estava acontecendo.

Yv apareceu, estava na frente da multidão, e me olhava curioso, talvez um pouco surpreso. Todos estavam extremamente em silêncio, e eu até me sentia num velório. Booker olhou para mim e para seu amigo novamente.

Para quê tanta confusão? Era apenas um vaso. Ou não.

Vai entender os ricos.

— Vamos ver. — dei de ombros, sem parar de sorrir — As testemunhas são elas. — me virei, apontando para Cohan, Mary e Kaya — Nós o vimos quebrando. Ele subiu as escadas escondido, nós vimos. — falei, convicta, com toda a certeza do mundo.

As três abriram sorrisos, ainda desconfortáveis, e assentiram juntas. Ao menos elas eram espertas e entenderam o que eu estava fazendo.

— Sim! — começou Mary.

— Vimos tudo! — continuou Cohan.

— Tudinho! — finalizou Kaya.

Elas pareciam ainda mais desconfortáveis, principalmente Kaya, que evitava olhar para o retardado do bolo. Mas, depois de alguns segundos olhando para Cohan, percebi que ela não parecia estar se preocupando nem um pouco com o retardado do bolo. Elas o conheciam. Mas não eram exatamente amigas dele (Cohan principalmente), se não elas não teriam sustentado minha mentira. Ou então apenas queriam salvar a própria pele acima de tudo, mesmo. Olhei para os garotos e sorri, por mais que eles não estivessem sorrindo de volta.

— Pronto, agora posso ir embora? — perguntei, apontando pra porta que Booker trancara, para manter todos ali dentro.

— Ahn... sim. — respondeu ele, ignorando o retardado do bolo que estava dando um ataque mudo de indignação ao seu lado, provavelmente por não ter nem o que falar.

— Obrigada. — sorri, radiante — Espero que consiga outro vaso. — dei de ombros.

— É, um vaso de quinhentos mil é bem fácil de achar, mesmo. — ironizou ele, suspirando em seguida. Então sorriu um pouco, olhando para seu amigo — Boa sorte, dude. — desejou.

Quinhentos mil?

Aquilo era alguma brincadeira, certo? Aquele jarro era o que? Foi feito pelas mãos de Deus? Eu ri um pouco, recebendo um olhar fulminante do retardado do bolo. Ignorei-o, indo de encontro à Jennifer. Ela não me perguntou nada, mas eu sabia que iria questionar Mary, Cohan e Kaya depois.

— Podemos ir? — perguntei para ela, sem precisar gritar, já que não havia mais música. A festa acabou. Todos perceberam aquilo, e a maioria já estava começando a ir embora.

— Tudo bem. — assentiu Jennifer, parando de rir de algo que Josh falara, que não consegui ouvir — Só vou ao banheiro, bem rápido, me espera lá fora.

E com aquela frase, ela saiu andando na direção de um corredor, com Josh e Taissa — que saiu sabe-se lá de onde — ao seu lado.

Olhei para o lado e vi que todas as pessoas já saíam pela porta da frente, a maioria tendo que ser carregada. Gente bêbada. Ao menos aquelas pessoas poderiam agradecer depois, pois estavam sendo carregados. Depois de sair da mansão, comecei a caminhar pelo gramado, em direção a rua. Não estava arrependida do que eu havia feito. Nem um pouco. Sendo puxada — com nenhuma delicadeza, só para constar — para fora dos meus pensamentos, eu quase caí. Fui puxada literalmente pelo braço, virando-me e encarando alguém que eu não esperava ver naquele momento. Na realidade, não esperava ser puxada tão brutalmente do nada.

O retardado do bolo me encarava, seus olhos brilhando com algo que reconheci como, talvez, ódio. Sua mão apertava meu braço com força, seus olhos estavam presos aos meus. Nós estávamos muito próximos. Eu podia sentir sua respiração quente se mesclar com a minha, ofegante por culpa da aproximação inesperada. Pude perceber o quanto ele era bonito. Os traços de seu rosto eram bem desenhados, como uma pintura muito bem feita. Seus lábios eram finos e estavam entreabertos, o ar saindo lentamente por ali. Seu toque em meu braço era frio e provocava arrepios por todo meu corpo, por serem seus dedos frios contra minha pele quente, além da dor do aperto. Ficamos ali por longos minutos, apenas nos encarando, até que eu saí de meu inexplicável transe. E ele me acompanhou.

— Qual o seu problema, garota? — rosnou, encarando-me desafiadoramente.

Aquela pergunta foi exatamente como a que lhe fiz no mesmo dia, quando ele sujou minha blusa de bolo.

— No momento é a dor. — rosnei de volta, olhando de modo significativo para sua mão em meu braço, depois para seu rosto novamente.

O moreno pareceu perceber apenas naquele momento que ainda me apertava, e afrouxou o toque, recolhendo um pouco os dedos e fazendo-me suspirar de alivio. Ele realmente tinha mãos fortes.

Eu sabia que ele não iria me pedir desculpas. Olhei rapidamente para o local do recente aperto, vendo que não estava marcado, apenas doía. Levei a mão para lá, acariciando a pele e me afastando do rapaz, olhando-o irritada.

Como eu esperava, ele não pediu desculpas.

— Que merda você tem na cabeça? Por que me acusou de ter feito aquilo? — quis saber, aproximando-se novamente, ignorando minha tentativa de afastamento.

— Vingança. — respondi, simplesmente — Você suja minha blusa, eu digo que você quebrou o vaso do seu amigo. Justiça é uma vadia.

Eu achava que ele iria responder algo como "e você também é".

— Uma blusa não custa quinhentos mil dólares! — protestou, incrédulo.

— Esse é um bom argumento. — fingi refletir por alguns segundos, então dei de ombros. Meu braço latejava um pouco — Mas o que foi? O papai não tem dinheiro o suficiente? — fiz um beicinho, provocando-o.

— Garota, fica na sua, ou... — começou, e eu sabia que uma ameaça viria no resto da frase.

— Ou o quê? — cortei, fitando-o de perto.

Ele fez uma careta, suspirando profundamente em seguida. Parecia estar tentando controlar a própria raiva.

— Vai ter volta. — decidiu, parecendo determinado.

— Estou tremendo de medo. — provoquei.

— Você v... — começou ele, novamente.

— Geo! — ouvi a voz de Jennifer, e me virei.

Ela estava ali, ao longe, na rua, acenando para mim. Provavelmente saiu pelos fundos da mansão, pois eu não a vi passar por nós. Olhei para o retardado do bolo uma última vez, começando a me afastar.

— Até segunda, no colégio! — sorri, com óbvia falsa animação, vendo-o bufar.

Virei-me e corri até minha irmã, vendo o táxi parado na calçada, com a porta traseira aberta. Pulei dentro dele, sentindo uma dor terrível no meu braço e olhando-o novamente. Eu provavelmente precisaria passar gelo no lugar onde aquele idiota me apertou. Olhei para trás, pelo vidro escuro, e o vi ali, parado, de braços cruzados, no mesmo canto. Algo me dizia que eu teria que estar preparada para segunda-feira.

Notas finais
E acabou! Espero que não estejam se incomodando com os capítulos meeeeio grandinhos. Quero saber a opinião de vocês sobre isso, e sobre a fic, capítulo, velhos personagens, novos personagens, protagonistas, tudinho! Enfim, é isso. Até o próximo!