The Anchor
7 Uma joelhada nada delicada.
Notas iniciais
Capítulo 7.
Todos estavam reunidos na quadra, naquela habitual bagunça que parecia se repetir em qualquer aula que fosse. Os alunos do primeiro e terceiro ano estavam misturados em um gigantesco círculo no centro da quadra, com o professor Peter no centro de todos nós. Ele era alto, forte, de cabelos pretos e olhos também pretos, com uma bola de basquete debaixo do braço. Era professor de educação física, ao menos foi o que disse quando percebeu que eu e Jennifer éramos novatas e resolveu se apresentar.
Depois de apresentações e leves piadinhas, ele mandou que todos se reunissem no meio da quadra para poder explicar o que quer que fosse. Eu ainda estava vestida com o moletom que Yv me emprestou. Do meu lado estava Mish (só então percebi que ele tinha aquela aula comigo sim, e que toda aquela correria no refeitório fora desnecessária, resultando em minha blusa acabada) e do outro estava May.
— Então, pessoal, vamos deixar de enrolar e vamos começar o trabalho! — sorriu Peter animadamente, olhando para cada um de nós — Primeiramente, vou explicar uma coisa. Os veteranos sabem que todos os anos o colégio resolve juntar duas turmas em praticamente todas as atividades. Esse ano não foi diferente. Segundo ano ficou em dupla com o quarto, e primeiro com o terceiro. Que são, no caso, vocês.
Vários múrmuros começaram, e pude ouvir um resmungo baixo de fala sério, fazendo-me procurar com os olhos quem disse aquilo. Meu olhar parou no retardado do bolo, que parecia irritado com tal notícia.
Sério? Ele tem mesmo que ser do terceiro ano?
Voltei minha atenção para Peter, que ignorava o que os alunos diziam ou murmuravam, analisando cada um de nós.
— Hoje vamos jogar dodgeball... — começou, fazendo todos se calarem — Teremos duas partidas, pois vocês são muitos. Vou escolher a dedo os participantes da primeira partida, o resto vai pra arquibancada. — decidiu.
Segundo o meu professor de educação física do Brasil, dodgeball era a mesma coisa que queimada. Eu nunca havia sido boa em queimada, tinha certo medo da bola, graças a um trauma de infância. As pessoas diziam que eu jogava muito bem, porque me esquivava facilmente, mas era difícil de acreditar. Querendo ou não, daquela vez eu teria que tentar sobreviver.
As duas equipes estavam completas e o restante dos alunos aguardava nas arquibancadas, esperando o jogo começar. Peter fez uma breve explicação sobre dodgeball, caso alguém ali não conhecesse o jogo, mas todos conheciam. Olhou para o papel em suas mãos, que continha os nomes anotados dos alunos que jogariam naquele momento, lendo-os em voz alta:
— Equipe um. Felicity, Yves, Christian, Geovana, Luke, Kaya, Mary, Colin, Misha e Lauren. — assenti um pouco ao ouvir meu nome, sentindo Mish, que estava ao meu lado, passar um braço pelos meus ombros.
Yv se posicionou ao meu lado, batendo de leve o ombro no meu. Do jeito que eu era lenta de raciocínio, apenas depois de longos segundos percebi que ele era o tal Yves.
Peter estava lendo o que todos já sabíamos, ele apenas queria confirmar.
— Equipe dois. Johnny, Zoey, Harmony, Victor, Taissa, Joshua, Lea, Jennifer, Tanner e Markon. — leu, enquanto os alunos da equipe dois seguiam para seus lugares.
Sorri para Jennifer, vendo-a acenar para mim. Eu não sabia qual era o nome do retardado do bolo. Sabia que ele não poderia ser o tal Johnny, já que aquele era o garoto que levara um tapa no rosto no refeitório. Apenas restavam as opções Victor, Joshua, Tanner e Markon.
— Que o jogo comece! — soltou Peter, saindo do centro da quadra e indo até a arquibancada, encostando-se na grade.
Mish largou-me, não antes de sussurrar no meu ouvido:
— Geovana, ein?
Depois de alguns segundos pensando no que aquilo tinha significado, lembrei-me de que ele não sabia meu nome inteiro, já que eu havia me recusado a dizer. Bufei um pouco, soltando uma risadinha e moldando o nome Misha com os lábios debochadamente, sem emitir som, vendo-o revirar os olhos e rir um pouco. Yv também se afastou de mim, sorrindo de leve. Sorri de volta.
Minha brilhante técnica era correr da maldita bola o mais rápido possível, ou apenas me esconder, mas aquilo se tornou impossível quando finalmente percebi que estava no centro da quadra e a bola vinha em minha direção. Esquivei-me rapidamente, meu coração quase saindo pela boca, sem nem conseguir ver quem quase me acertara.
Yv correu até uma das cinco bolas que estavam no centro da quadra, assim como o retardado do bolo, uma garota morena, Harmony, e mais pessoas que eu não conhecia. O resto estava focado em manter o máximo de distância da equipe adversária e das bolas. A garota morena, que era do meu time, deu um tchauzinho fingidamente simpático para Harmony e acertou a bola exatamente em seu rosto, fazendo-a cambalear um pouco e jogar a bola que estava em mãos exatamente no nada, às cegas.
Por sorte, aquela garota era do meu time. Por azar, ou não, o nada da situação era na minha direção. A bola não veio com força, então facilmente a agarrei, enquanto via Harmony saindo irritada e indo até a grade, esfregando o próprio nariz. A morena que a acertou soltou uma risada baixa, colocando-se ao meu lado. Yv se afastou com a bola na mão, pegando força e tentando acertar o retardado do bolo, mas a bola bateu nas costas de um rapaz loiro. O retardado do bolo, rindo da tentativa falhada de Yv, jogou a bola na direção de Mish e o acertou exatamente nas pernas.
Olhei pra bola em minhas mãos, depois para o retardado do bolo, mirei nele e joguei, mas infelizmente minha mira não era muito boa, então acabei acertando em Johnny. O que não foi de total ruim. O loiro do time adversário, Mish e Johnny seguiram a clara regra de que deveriam sair do jogo quando baleados. Os três foram pra grade, enquanto eu via com o canto do olho Mish sussurrar algo para o professor e ter permissão para subir para arquibancada. Jennifer estava com uma bola em mãos, e a jogou na direção de minha cabeça, aproveitando minha leve distração. Num susto, praticamente voei para o lado, olhando incrédula para ela. As pessoas gritavam e corriam, enquanto mais estudantes eram acertados, o número de pessoas nas equipes consequentemente diminuindo.
— Que tipo de irmã é você?! — soltei incrédula, enquanto Jennifer ria.
Mas ela se distraiu demais rindo da minha cara, e foi acertada exatamente na barriga por Yv. Gargalhei durante alguns segundos, trocando um high five com ele, enquanto corria e pegava uma bola no chão, acertando uma garota qualquer do outro time.
— Vamos lá, Booker! — gritou o professor Peter, em estímulo.
Percebi que ele estava falando com um rapaz moreno, que estava ao lado do retardado do bolo. O garoto estava ofegante, a cabeça baixa e as mãos apoiadas nos joelhos, o corpo arqueado. Provavelmente eu fui uma completa desgraçada ao me aproveitar da situação, mas joguei a bola na direção de Booker e o acertei.
Ele tomou um susto, erguendo a cabeça e então bufando teatralmente, trocando um high five com o retardado do bolo e indo pra grade. Poderia ser coisa da minha cabeça, mas vi Booker dando uma piscadela em minha direção quando se dirigiu pra grade, como se estivesse agradecido por eu ter acertado-o. Provavelmente era coisa da minha miopia.
Mais e mais pessoas foram baleadas em seguida, incluindo Yv, enquanto eu tentava inutilmente acertar o retardado do bolo, que estava fazendo a minha equipe diminuir de integrantes já que ele acertava quase todos. Alguns minutos se passaram, e quando dei por mim, o jogo estava quase acabando e o centro da quadra estava quase vazio. Ali apenas restava eu, um rapaz magricela da minha equipe, o retardado do bolo e a morena que acertara Harmony.
Eu sentia as gotas de suor em minha testa e minhas costas, e estar vestindo um moletom não facilitava as coisas. Mas, bem, eu não poderia tirá-lo. Estávamos em vantagem no jogo, éramos três contra o retardado do bolo, mas aquilo subitamente mudou. Ele tinha a bola em mãos e a jogou na direção da garota morena, foi óbvio que ele colocou muita força no movimento. A garota era rápida, e logo se esquivou, mas infelizmente o magricela estava bem atrás dela e a bola o acertou em cheio.
Ele caiu no chão no momento em que que a bola acertou seu rosto, com a mão apertando o nariz, enquanto gritava de dor. Yv correu até ele, assim como o professor Peter. O professor o ergueu com certa dificuldade, pois o menino se encolhia o máximo possível, gemendo de dor. Eu não soube muito bem o que fazer, estava chocada, mas o choque se transformou em raiva quando ouvi o comentário do retardado do bolo diante da situação:
— Olha só, ele é tão invisível que não deu pra perceber que estava aí! — comentou ele, caindo na gargalhada em seguida.
Todos os jogadores de futebol, até os que estavam na arquibancada, o seguiram nas gargalhadas. Eu senti ódio daquele garoto. Como ele podia ser tão imbecil? Aquilo foi sério, o menino realmente se machucou. Não era engraçado. Peter finalmente conseguiu estabilizar o garoto em seus braços, e pude claramente ver gotas de sangue manchando o chão da quadra, assim como a mão do mais novo, completamente manchada de vermelho vivo. Ele estava muito machucado.
Virei-me para o retardado do bolo, enquanto Peter saia da quadra carregando o garoto, com Yv rapidamente atrás de si. Todos na arquibancada estavam calados, impactados, enquanto os garotos se recuperavam do estúpido ataque de risos. Com a raiva pulsando em minhas veias, dei um passo na direção do retardado do bolo. Eu não sabia o que iria fazer. Não sabia se iria gritar com ele, socá-lo ou qualquer outra coisa. Eu nem o conhecia.
Mas pareceu que ninguém iria fazer algo. A garota morena ao meu lado, que era o alvo do retardado do bolo, tinha uma expressão incrédula desenhada no rosto. Antes que eu pudesse me aproximar direito dele, uma garota passou na minha frente e praticamente voou em sua direção, enfurecida. Antes que ela pudesse acertá-lo, Booker correu e a agarrou por trás, prendendo-a em seus braços e mantendo-a em uma distância segura do seu amigo. O retardado do bolo apenas ergueu uma sobrancelha, fitando-a com uma expressão debochada, enquanto parecia querer rir da tentativa falhada dela de batê-lo.
— Para! Imbecil, me solta! ME SOLTA! — ela berrou para Booker, tentando inutilmente se soltar. Seus olhos eram como brasas, e seu olhar cortante fixou-se no retardado do bolo. — Como você consegue ser tão babaca? Seu nojento! Você é ridículo. — rosnou, todas as palavras embebidas em ódio.
Desistiu, deixando-se ser presa por Booker, sabendo que não conseguiria se soltar de seus braços. Por mais que não tentasse mais se soltar, ela ainda mantinha os olhos fixos no retardado do bolo, a respiração ofegante. O retardado do bolo ficou por um tempo encarando-a, assim como todos na quadra e arquibancada. Eu não sabia o que fazer, então apenas continuei parada no meio daquela confusão.
Ele, então, riu. Como se estivesse realmente achando graça.
— Lauren, sério, você é desgastante. E pirada. — riu mais, os rapazes acompanhando-o.
— E você é um desgraçado filho da puta! — gritou, com todo o nojo e ódio que conseguiu reunir.
Eu encarava os dois, olhando de um para o outro. A raiva que ela tinha era tão grande que até eu me vi odiando aquele garoto. Afinal, quem ele achava que era? Todo aquele ódio de Lauren não parecia ter nascido ali, parecia que ela já o odiava há muito tempo.
— Booker, babaca, me solta. — rosnou.
Sua voz não era mais tão ameaçadora como antes, mas persistia no ódio. Booker afastou-se dela, soltando-a, erguendo as mãos em sinal de rendição e indo até o retardado do bolo, colocando-se ao seu lado. Ele não parecia estar achando graça naquilo, não como o retardado do bolo, Johnny e os outros. Booker parecia sério, e em certo momento ele olhou para meu rosto, mas desviei o olhar para o rosto de Lauren.
— Qual foi, Lauren? Vai me bater? — provocou o retardado do bolo, debochado.
Seus braços estavam cruzados, enquanto a fitava desafiadoramente. Lauren respirava pesadamente, aproximando-se dele e parando em sua frente. Eu realmente achei que ela iria acertá-lo no rosto, mas ela não o fez. Parecia que todos também esperavam aquilo.
— Eu não vou sujar minhas mãos com você, garoto. — rosnou ela, virando-se e começando a andar pronta para sair da quadra.
Ele soltou uma risada alta e irônica, sorrindo em seguida.
— Ou talvez seja porque você gosta disso tudo, não é? Vamos lá, Lauren. Sempre foi assim. Você gosta de mim, e sabe disso. — falou, e me vi surpresa com aquela possível revelação, ou melhor, hipótese.
Todos pareciam com a mesma reação que eu. De onde vinha todo aquele ódio, afinal? Talvez ela realmente tivesse sentimentos por ele. Booker olhou incrédulo para o amigo, e Lauren parou.
— Dude, para. — mandou Booker, baixo.
— Fala sério, mate. Vai defender essa garota agora? — resmungou ele, olhando para o amigo como se não o reconhecesse.
— Não, é só que já deu. — insistiu Booker, colocando a mão no braço do retardado do bolo.
Lauren virou-se, completamente enfurecida novamente, e o que fez em seguida foi rápido e inesperado. Ela cerrou os punhos, e então, com o joelho, acertou com força o local entre as pernas do retardado do bolo, afastando-se dele em seguida. Ele arqueou-se automaticamente, gemendo alto de dor, enquanto as mãos estavam por cima do centro de sua calça jeans.
Estava surpreso, assim como todos nós. Booker olhou incrédulo de um para o outro. Eu achava que o retardado do bolo poderia cair no chão a qualquer momento, assim como meu queixo que ameaçava sair arrastando-se pelo chão da quadra.
— Sua putinha desgraçada! — exclamou, gemendo baixo em seguida. Estava ofegante, a voz rouca. Eu não sabia qual era a sensação de receber uma joelhada bem naquele local, até porque eu não possuía um, mas acreditava que doía bastante. — Eu vou foder com a sua vida, cadela. — pareceu rosnar e gemer ao mesmo tempo, olhando diretamente para Lauren, o brilho de ódio e dor dançando em seus olhos escuros.
Todos estavam em silêncio, mais por falta de reação que por outra coisa.
Ninguém esperava que ele falasse tantos palavrões, mas também não era para menos. Lauren tinha um largo sorriso satisfeito nos lábios, mas por um segundo pude ver preocupação em seus olhos. Ela parecia, para mim, um pouco hesitante e receosa. O resto dos presentes apenas viu uma garota satisfeita, mas eu vi além. Ele a ameaçou. Ela não iria admitir, mas estava com medo. Lauren ignorou todas as ofensas, não perdendo a pose.
— Foda mesmo. Vai ser a única coisa que você vai conseguir foder daqui pra frente. — sorriu venenosamente.
Peter retornou à quadra segundos depois, confuso por todo aquele silêncio repentino. Um garoto baixinho se aproximou dele, puxando sua camisa para baixo de leve. Peter abaixou-se um pouco para ouvi-lo, então se pôs ereto novamente depois que o garoto sussurrou algo para ele.
Peter, suspirando, foi na direção do retardado do bolo. Pôs a mão em seu ombro, olhando então em minha direção. Eu permaneci quieta, sem entender o olhar que ele direcionou para mim.
— Faça o favor de acompanhá-lo até a enfermaria, sim? — pediu calmamente, fazendo-me erguer as sobrancelhas, surpresa.
Talvez ele apenas houvesse me escolhido porque eu estava em sua frente, mas eu não sabia se ele sabia que eu e o retardado do bolo não nos conhecíamos muito bem.
— Professor, não preciso ir pra enfermaria. — resmungou o garoto, baixo. Uma careta enfeitava seu rosto — Não é tão grave assim...
— Sim, precisa. Isso pode acabar... você sabe, prejudicando em... alguma coisa. — olhou de modo significativo para o retardado do bolo, fazendo todos prenderem o riso.
O rapaz apenas revirou os olhos, então assentindo e olhando para mim. Eu não sabia se queria levá-lo até a enfermaria, e o pensamento de ficar sozinha com ele em um local fechado me deu náuseas. Não era como se eu o odiasse, eu mal o conhecia, mas ele realmente era um babaca. Também não tinha uma desculpa para reverter tal situação, a única alternativa que me restou foi ir de uma vez.
— É, está bem. Eu... posso ir sim. — murmurei, sem saber muito bem o que dizer.
Peter recolheu a mão que estava no ombro do retardado do bolo, enquanto Booker olhava para o amigo.
— Você vai ficar bem, dude? — quis saber.
Não parecia muito preocupado.
— Booker, relaxa, eu ainda vou te ajudar hoje. — resmungou o rapaz, fazendo o amigo erguer as mãos em sinal de rendição.
— Assim vão achar que eu sou um péssimo amigo!
Segurei o riso, enquanto o retardado do bolo se colocava ao meu lado.
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