The Anchor
11 Tento ser uma líder de torcida.
Notas iniciais
Capítulo 10.
“Oh, baby, I like it. You're so excited, don't try to hide it. I'mma make you my bitch. Cake, cake, cake, cake, cake, cake...”
Rihanna achou-se importante o suficiente para interromper o meu sono com sua música Birthday Cake. Depois de finalmente sair da festa, chegar e entrar em casa, às quase 06:00, imediatamente me joguei na cama e adormeci.
E ali estava eu, deitada de barriga para baixo, ouvindo os repetitivos “cake, cake, cake...” invadirem meus ouvidos, forçando-me a acordar e atender meu celular. Quem diabos estava me ligando tão cedo? Eu nem sabia que horas eram, mas sabia que ainda era de manhã, pois meu celular não despertou.
Com meus olhos ainda fechados — nem fodendo eu iria abri-los —, estiquei meu braço em direção à cômoda ao lado da minha cama, tocando as cegas na madeira, sentindo então o aparelho em meus dedos. Puxei-o, abrindo um pouco apenas um olho, deslizando meu dedo e atendendo-o, fechando meu olho novamente, sem nem ver quem era.
— Alô? — atendi, encostando o aparelho no meu ouvido.
— Bom dia, Geo! — mesmo sonolenta, sorri instantaneamente ao reconhecer a voz do outro lado da linha.
Pertencia a Angeline, minha melhor amiga do Brasil. Um sorriso cresceu em meus lábios, sentindo-me bem ao ouvir sua voz. Quase podia sentir minha amiga ao meu lado.
— Angie! — esfreguei meus olhos, abrindo-os lentamente em seguida — Deus, que saudades. — murmurei, acostumando-me com a claridade do meu quarto, forçando-me a não fechar meus olhos novamente.
— Certo, já pode parar de falar em inglês. — cortou ela, brincalhona, e só então percebi que estava falando inglês, mesmo Angie sendo brasileira — Para uma brasileira você até que ‘tá’ com um inglês bonitinho.
Soltei uma risada curta, bocejando um pouco depois e sentando-me na cama, puxando o lençol até meu quadril e encostando as costas no espelho da cama.
— Até parece que você não sabe que eu passei dois anos fazendo malditas aulas de inglês, coisa chata. — falei daquela vez em português, e até me senti estranha ao voltar a falar na minha língua de quase sempre, que, naquele momento, fazia parte do meu passado.
Era como se eu fosse outra pessoa, mas com Angeline não. Eu poderia falar em português, poderia dividir piadas internas e relembrar os momentos bons.
— Enfim. Como você está meu amor? Não sabe o quanto estou sentindo a sua falta. E de Jenn também, óbvio. Aliás, como ela está? — eu podia sentir que suas palavras eram sinceras, e que seu tom se tornou um pouco mais triste ao pronunciar tal frase.
— Jenn tá bem, Angie. Você sabe, não é? O de sempre.
Ficamos conversando por mais longos minutos, e me permiti rir das idiotices que Angeline sempre falava. Eu sentia sua falta, e não me cansava de dizer aquilo. Era como se ela me lembrasse de quem eu era a cada segundo daquela ligação, sua voz me mantinha aquecida e me fazia lembrar que eu poderia ser muitas coisas para muitas pessoas, mas para ela eu era apenas a Geo. A Geo de cabelo colorido e risada escrota. Não me importei de ter sido acordada cedo por ela, nem mesmo estava com sono. Não mais. Contei para Angie sobre Mish, Yv e May; contei sobre o ocorrido no refeitório com o retardado do bolo; o acontecido na quadra e na enfermaria; a festa de Booker e toda a confusão que lá aconteceu; contei sobre o teste para as cheerleaders e a minha vontade de fazê-lo.
— Então, vamos ver se eu entendi... — começou ela, fazendo-me assentir um pouco — Você conheceu um loiro surfista de olhos azuis, — ela frisou o “azuis”, fazendo-me soltar uma risadinha — um moreno cavalheiro e uma garota que gosta de celular. Um garoto extremamente gostoso sujou... — eu parei, então, a interrompi:
— Espera aí! Eu não falei que o retardado do bolo era extremamente gostoso. — lembrei, acusadoramente.
Angeline soltou uma risada, e quase pude vê-la dar de ombros.
— Nem precisou dizer ‘né’, Geo. Eu te conheço. — respondeu, como se fosse óbvio — Você fez uma pausa entre “absurdamente babaca” e “jeito típico de cafajeste”. Estava implícito aí um “extremamente gostoso”.
— Mas eu...
— Por isso você o descreveu com palavras nada educadas. É óbvio que o odeia tanto porque ele é irritantemente lindo. — concluiu.
Suspirei profundamente, desistindo de tentar convencê-la do contrário. O pior era que ela estava certa, como sempre.
— Continuando... — voltou a falar — Ele sujou sua blusa com bolo de chocolate e leite condensado. Na aula de educação física, ele machucou um garoto e foi machucado por uma garota, e então você o levou até a enfermaria. Você massageou o querido amigo dele, e ele se animou um pouco demais. Você vai entrar num coral. Você foi para uma super festa. Umas meninas quebraram um vaso mais valioso que uma virgindade de ouro. Você culpou o carinha lá, e ele ‘tá’ puto. Agora você tem um teste para líder de torcida, hoje, porque quer se americanizar de vez.
Sem saber muito bem o motivo, caí na gargalhada, e ela me acompanhou. Fiquei rindo por mais algum tempo, até soltar um “ai, ai” e suspirar um pouco.
— Isso aí. — assenti, esquecendo-me de que ela não podia me ver.
— Mas... Geo, como você está? — perguntou, cautelosamente — Sabe, em relação à morte de... enfim, você sabe.
O sorriso que estava em meus lábios, após as gargalhadas, sumiu no momento em que Angeline me perguntou aquilo. O silêncio do outro lado da linha indicava que ela estava esperando uma resposta, e provavelmente estava arrependida, achando que não deveria ter tocado naquele assunto. Minha garganta se trancou, e eu não achava que pudesse conseguir dizer algo. Havia a opção de mentir, dizer que estava bem e forçar uma risada. Mas eu não poderia fazer aquilo de verdade. Angeline era minha melhor amiga, eu não poderia e nem conseguiria mentir para ela ou esconder qualquer emoção que fosse, por mais que eu tentasse. Eu também não poderia fingir que nada acontecera, se eu fizesse aquilo apenas iria piorar tudo ao redor e dentro de mim.
— Não precisa ter medo de pronunciar o nome dele, Angie. Ele não é o Voldemort. — consegui dizer, depois de longos minutos. Soltei uma risada arrastada, que durou no máximo um segundo. — E, respondendo sua pergunta, não estou nada bem.
Resolvi ser sincera, enquanto suspirava baixinho e olhava para o lençol escuro que cobria meus pés, recolhendo minhas pernas e abraçando-as. Angeline não disse nada, mas não me incomodei com o silêncio dela. O que me incomodava era o barulho na minha cabeça, a bagunça de emoções e sentimentos que não conseguiam se organizar de nenhuma maneira. Eu só queria fechar os meus olhos e, quando os abrisse novamente, tudo estivesse normal, ou o mais próximo daquilo. Não, não normal. Queria que tudo voltasse ao que era antes.
— Sabe, eu tenho tentado fingir. Fingir que não sinto nada, fingir que está tudo bem. Até criei uma barreira emocional, guardando meus sentimentos apenas para mim. Mas eu desabo, Angie. Quando eu chego em casa, apenas desabo. — confessei, minha voz fraca.
Eu estava com medo de começar a chorar ali mesmo. Não que eu não quisesse passar uma imagem de fraca, apenas não queria voltar para a rotina de chorar e chorar, esquecendo que eu tinha uma vida. Uma pessoa não é fraca por chorar. As lágrimas finalmente derramadas são as maiores provas de que uma pessoa foi forte o suficiente para aguentar até ali, e que se esforçou para isso.
— Geo... — Angie suspirou profundamente, e quase podia vê-la fechar os olhos com força — Você é muito forte, sabe disso, não é? Apenas pelo fato de se levantar da cama todos os dias te torna uma pessoa muito forte.
Um sorriso triste brotou em meus lábios.
— Obrigada, Angie. — murmurei.
— E para com isso. Não deve tentar esconder o que você sente, ou fingir que é alguém que você não é. Você é humana. Sofrer é uma das consequências da vida, garota! — sua voz parecia determinada, e, sem entender muito bem, abri um pequeno sorriso — Não quero que vire uma emo e gótica, apenas quero que se permita ser você. Se permita ser feliz.
Soltei uma risada com o “emo e gótica”. Uma risada verdadeira, em contraste com a única lágrima que eu sentia rolar por minha bochecha.
— O que quer dizer? — perguntei, baixinho.
— Quero dizer que você vai ser feliz, vai sim. E que não deve se sentir culpada por achar que o cara gostoso é gostoso, por querer ser líder de torcida, por querer cantar, por ter feito novos amigos. Não pense que essas coisas são fúteis e que você deve apenas chorar todos os dias porque seu melhor amigo morreu, Geovana. Você tem coisas que muitas pessoas no mundo querem muito ter, não desperdice sua vida por causa da morte de alguém importante para você. Você vai superar isso, e, quando isso acontecer, porque vai acontecer, não quero que se sinta culpada. Estamos entendidas?
Se qualquer outra pessoa tivesse me dito aquilo, eu teria ignorado, consideraria apenas palavras que não mudariam nada. Mas era Angeline falando. Era alguém que eu amava, que se importava comigo, que queria meu bem. Alguém que estava certa.
Limpei uma última lágrima que molhava meu rosto, suspirando profundamente e, então, abrindo um sorriso. Não um sorriso forçado ou falso, aquele era um sorriso verdadeiro. Angeline estava certa. Mais que certa. Eu o amava, mas não podia jogar tudo para o alto por causa da morte dele. Ele queria me ver feliz, queria a garota dele de volta, queria ver-me apenas sendo eu. E eu iria fazer aquilo. Por ele, por mim.
Não podia ignorar a culpa que eu ainda sentia, mas eu precisava me convencer de que aquilo fora apenas um acidente.
— Angie, eu já disse que eu te amo? — ela soltou um brincalhão “hoje não”, fazendo-me soltar uma risadinha — Eu te amo, garota. Muito.
— Eu também te amo, Geo. — ela suspirou — E em relação à culpa que eu sei que você está sentindo... olha, vocês podem ter brigado naquele dia sim, mas lembre-se de que você não teve nada a ver com a morte dele.
Suspirei, então, assenti. Já estava na hora de seguir em frente, ou realmente tentar.
— Obrigada, Angeline. Mesmo.
— Por que você não está arrumada? — Jennifer quis saber, analisando-me de cima a baixo, torcendo o nariz, em claro sinal de desaprovação.
Eu estava de banho tomado, finalmente. Vestia um short curto de pijama e uma camiseta larga. Meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo folgado.
— Por que você está? — perguntei, ligeiramente confusa, notando que ela estava arrumada, logo, iria para algum lugar que eu não sabia onde era.
— Terra chamando Geovana! Alô, alô? — ela estalou os dedos em frente ao meu rosto, como se para me fazer sair de um transe. — O colégio, criatura!
Afastei os dedos de Jennifer calmamente da minha frente, olhando para seu rosto.
— O que tem? — perguntei, franzindo a testa.
Eu realmente não sabia onde o colégio se encaixava naquela história. Era sábado, deveríamos estar no colégio apenas de 12:00 da tarde para os testes.
— Ah, meu Deus do céu! — ela bufou, como se eu estivesse sendo completamente retardada — Geo, hoje tem os testes. Temos que chegar mais cedo, porque você tem que ensaiar a coreografia! Fala sério, você que vai dançar e eu que estou com a parte dos horários?
Uma expressão mais confusa ainda, e incrédula, nasceu em meu rosto.
— Eu não sabia disso! — me defendi, batendo na minha testa com um estalo.
— Agora sabe! — ela bufou pela segunda vez — Temos que estar lá em menos de quarenta minutos! Vai se arrumar!
Jennifer nem precisou completar a frase, eu já estava correndo pelo corredor, arrastando tudo que eu fosse usar comigo.
— Tem certeza de que não vai comer nada? — perguntou minha mãe.
Mesmo sabendo o quanto estávamos atrasadas, ela ainda estava preocupada comigo. Pelo que entendi, Jennifer esteve acordada há horas e já havia comido.
— Mãe, eu comi mais cedo. Vou ficar bem — sorri rapidamente, passando por ela e beijando sua bochecha, antes de partir em direção a sala de estar.
— Vamos, vamos, vamos, vamos! — Jennifer repetiu, recolhendo o celular de cima do sofá e abrindo a porta, correndo para fora.
— Se você disser mais um "vamos", eu vou dar na sua cara — resmunguei, acenando para minha mãe e passando pela porta, fechando-a sem muita força em seguida.
Tia Jude estava ali, na outra calçada, dentro de seu carro preto. Como quase sempre, ela digitava apressadamente no celular, o cabelo longo caindo por suas costas, por cima do blazer preto que usava. O sol da manhã batia em sua pele bronzeada e escura, um pouco mais que a minha, fazendo-a colocar os óculos escuros. Eu e Jennifer fomos correndo em direção ao carro, do outro lado da rua, ela atrás de mim.
— Seu short é tão curto que dá pra ver seu útero — sorriu ela, amargamente, quando chegamos perto do carro.
— Ao menos eu posso usar um short desses sem parecer algo semelhante a uma baleia ou um caminhão — rebati, claramente chamando-a de gorda.
Ela riu — e eu acompanhei —, dando a volta no carro, abrindo a porta do passageiro.
— Bom dia, meninas! — cumprimentou tia Jude, sem nem olhar para nós, sua conversa no celular parecia mais interessante.
— Bom dia. — eu e Jennifer respondemos juntas, enquanto eu abria a porta de trás e jogava minha mochila para dentro, entrando em seguida.
Tia Jude ligou o carro, pisando fundo no acelerador, largando o celular no colo de Jennifer, pois sabia o quanto estávamos apressadas.
— Só vocês para me fazerem dar uma fugida do Hotel... — falou ela, enquanto dirigia, mas não parecia irritada com aquilo (o que era uma novidade e tanto).
Tia Jude se estressava fácil demais, odiava atrasos e imprevistos.
— Nós e um tal de Marcus... — comentou Jennifer, olhando para a tela do celular de nossa tia, provavelmente vendo a conversa.
Eu me segurei para não rir, e sabia que Jennifer também estava se esforçando, ainda mais quando tia Jude assumiu uma expressão irritada e puxou o celular do colo dela. O resto da viagem foi em completo silêncio, se não fosse pela música que saía dos fones de ouvido de Jennifer, que eu e tia Jude ouvíamos claramente mesmo ela estando de fone. O carro foi estacionado em frente ao colégio, e eu e Jennifer pulamos para fora, ela sem nada, eu carregando minha mochila em um dos ombros.
— Boa aula! — desejou tia Jude, quando já estávamos correndo pelo gramado.
— Hoje é sábado! — lembrei, e então pude rir da sua expressão confusa.
Me lembrei de que ela andava meio dispersa, e também não deveria saber o motivo de estarmos no colégio. Ainda mais quando não estávamos no horário de aula.
Certo, minha tia precisa de um psicólogo. Urgente.
— Vamos logo! — gritou Jennifer, apressando-me, fazendo-me correr mais rápido e entrar no colégio primeiro que ela.
— Bom dia, senhoritas! — o porteiro nos cumprimentou, alegremente.
Não havia porteiro em BHS no dia anterior, que era dia de aula. E naquele dia, no sábado, havia. Certo, o diretor de Blanchaster também precisava de um psicólogo.
Gritei um "Bom dia!", respondendo-o sem nem olhar para trás, antes de sair correndo pelo corredor principal.
Quando vi tantas pessoas ali pareceu que minha coragem de dançar na frente de todas elas se esvaiu. Os jovens estavam nas arquibancadas, todos sentados e alguns até deitados nos colos dos amigos ou nos bancos. Todos pareciam relaxados, conversando ou rindo por algum motivo que eu desconhecia. Havia partes vazias da arquibancada, o que me fazia pensar que nem todo o colégio estava ali — o que me deixou tranquila —, e que eu não seria a única que iria participar dos testes — o que me deixou nervosa —. Correndo os olhos por eles, avistei alguns rostos conhecidos e muitos desconhecidos.
Olhei para o lado, trocando o peso do meu corpo para o outro pé, sem conseguir disfarçar meu nervosismo, vendo algumas pessoas aparecerem e se colocarem ao lado das outras que já estavam ao meu lado em uma fila, parecendo tão aflitas quanto eu demonstrava e me sentia.
Algumas horas antes, eu e os outros participantes havíamos ensaiado a coreografia de uma música que eu conhecia muito bem, Swagger Jagger — Cher Lloyd, com o intuito de apresentá-la para todos os presentes, e, claro, nós seríamos avaliados pelos jurados.
Olhei para o local onde os jurados ficariam. Ou melhor, já estavam. Uma bancada nas cores roxo e branco, combinando com as cores do colégio, com três cadeiras claras atrás dela. Copos de vidro com água, folhas e canetas estavam ali, a disposição dos jurados. Na primeira cadeira um rapaz estava sentado, rabiscando algo distraidamente em seu caderninho. Ele usava uma versão masculina da roupa de torcida. Sendo a camiseta de mangas, que estavam dobradas nos cotovelos, e uma calça. Fiquei surpresa com aquilo, não fazia idéia de que garotos também estavam na torcida. Pelo que pude enxergar, sua pele era clara, cabelos curtos e negros, corpo atlético, eu estava longe demais para ver os olhos. Não sabia muito bem sua altura, por estar sentado, mas desconfiava que ele era alto. Em sua frente, na bancada, estava uma plaquinha com algo escrito em letras pretas. Provavelmente seu nome, mas eu não consegui ler.
Ao seu lado, no meio, estava a garota do refeitório, Harmony, a capitã das cheerleaders. Ela olhava ao redor com tédio, analisando cada pessoa ali como se ninguém fosse importante o suficiente, e eu desviei o olhar para sua companheira ao lado antes que Harmony cravasse seus olhos analisadores em mim. A garota que estava na ponta era uma loira, de cabelos lisos e longos. Pele clara, olhos não sabia dizer a cor. Usava também o uniforme da torcida, assim como todos ali. A placa com seu nome também estava presente. Ela conversava animadamente com uma mulher que estava ao seu lado, de pé.
A mulher era alta, e eu acreditava que não poderia ter mais de vinte e quatro anos. Usava o uniforme da torcida, porém um short no lugar da saia e um casaco por cima da blusa. Seu corpo era extremamente invejável. Seu cabelo era negro e liso, preso em um rabo de cavalo tamanho médio. Sua pele era clara, e tinha um caderno em mãos.
A mulher que obviamente era a treinadora das cheerleaders, puxou o microfone que só então percebi estar no colo da loira com quem ela conversava.
— Boa tarde, Blanchaster's. — falou ela animadamente, no microfone, chamando a atenção de todos. Todos os presentes se calaram, prestando atenção na morena.
— Acredito que todos vocês estejam ansiosos para ver a apresentação dos nossos queridos alunos presentes, concorrendo por quatro vagas para a torcida! — sorriu brilhantemente — Para quem não me conhece, sou a treinadora das cheerleaders, Elena Cornett.
Aplausos animados foram ouvidos, vindo de todos os garotos da arquibancada. Apenas os garotos. As garotas aplaudiam normalmente. Era óbvio o motivo de tal animação dos rapazes e seus hormônios enlouquecidos, mentalmente perdidos entre as coxas da Sra. Cornett.
— Façam silêncio, eles vão começar! — anunciou, encostando-se na cadeira da loira ao seu lado.
Nós seguimos para o centro da quadra, e meu coração parecia acelerar com cada passo que eu dava, até eu parar em frente à toda aquela gente. E podia jurar que achava que meu peito iria se rasgar, meu coração pular e eu morrer ali mesmo. A coreografia era um pouco difícil, e bem rápida, mas eu havia conseguido pegá-la rápido. No Brasil eu fazia aulas de dança. Eu vestia a roupa que saí de casa — short preto e curto de malha, blusa preta e básica, um casaco quadriculado vermelho na cintura. E nos pés All Star vermelho.
Estava mais que nervosa, mas olhando para todas aquelas pessoas que nos encaravam enquanto a música não começava, encontrei o olhar confiante da minha irmã. Ao seu lado estavam Josh, Taissa, Cohan, Mary, Kaya e Hector. Todos eles sabiam que eu era irmã dela, todos me olhavam de modo também confiante, ou me dirigiam sorrisos igualmente cheios de expectativas. Eu não podia ver seus olhos direito, graças a minha miopia, mas sabia que eles estavam esperando e queriam que eu me saísse bem.
Um “psiu!” me fez olhar para a grade perto da entrada para a quadra, e sorri instantaneamente quando vi Yv parado ali, com os dois polegares erguidos. Não pude dizer ou fazer nada, pois a treinadora Cornett encontrara a música certa e já estava colocando-a para tocar.
U can't stop looking at me
Staring at me
Be what I be
U can't stop looking at me
So get up out my face
Eu não sabia como, já que nos ensaios todos erraram no mínimo cinco vezes, mas estávamos ali, dançando em sincronia. Todos como um só.
U can't stop clicking at me
Writing 'bout me
Tweeting 'bout me
I can't stop
It's what it gone be
My swagger's in check
Ignorei completamente os olhares que estavam em nós, principalmente em mim, já que eu estava na frente. Ignorei os olhares analisadores dos jurados. Foquei apenas em mim, nos meus passos, na minha dança.
Get on the floor
Get, get, get on the floor
My swagger's in check
Get on the floor
Get, get, get on the floor
I got in check
Eu acreditava que a tensão e o nervosismo de todos que antes atrapalhavam, naquele momento estavam sendo colocados para fora. Não me arrisquei a olhar para os que dançavam ao meu lado e atrás de mim, mas sabia que todos se sentiam como eu me sentia.
U can't stop shouting at me
Calling at me
Be what I be
U can't stop looking at me
So get ut out my way
U can't stop youtube-ing me
On repeat
Runnin this beat
Eu sabia que já estava chegando ao fim, e não podia conter a mim mesma. Não sabia se estava me saindo bem, mas sabia que não havia errado nada.
U can't stop
It's funny to me
I'm laughing all the way
I got it in check
Quando a dança acabou, todas as participantes correram e se abraçaram, e eu fui junto. Eu não conhecia ninguém ali, mas sabia o porquê daquilo. Não importava no momento quem iria entrar para a torcida e quem não conseguiria, todas estavam felizes por terem feito um bom trabalho. Os abraços foram como um “boa sorte”. Nós rimos, nos afastando, e logo todas as garotas estavam espalhadas pela quadra. Os alunos da arquibancada aplaudiam e gritavam, e eu me sentia extremamente feliz de uma hora para outra.
Virei-me, indo em direção a Elena, que sorria e conversava com alguns jurados. E se possível eu queria conhecê-los. Ao menos saber seus nomes, já que eu não conseguia ler as plaquinhas. Senti braços firmes me abraçarem por trás, impedindo-me de me aproximar da treinadora, e levei um susto com aquilo. Virei-me rapidamente, encontrando então um Yv que ria.
O acompanhei, e logo depois passei os braços por seu pescoço, abraçando-o apertado. Senti que ele sorria, abraçando minha cintura e me tirando um pouco do chão, rindo.
Afastamo-nos delicadamente, ambos sorrindo largamente.
— Você foi incrível! Mais que isso! — soltou Yv, e aquele comentário me fez sorrir ainda mais (se possível).
— Obrigada, obrigada! — soltei uma risadinha, feliz por ter me saído bem e por ter acabado.
Uma garota parou em minha frente de repente, e Yv aproveitou o momento para se distanciar de mim e ir até a treinadora Elena.
Eu não a conhecia, mas ela sorriu. Então, sorri de volta. Vestia a saia das cheerleaders, com um moletom roxo por cima da blusa, que parecia ser do tamanho certo para ela.
— Geo, certo? — perguntou ela.
Depois de analisar bem seu rosto, senti que já a conhecia, mas não sabia de onde. Então, me lembrei. A garota que no dia anterior batera no rosto de um jogador de futebol, no refeitório. Naquele momento podia vê-la de perto. Seus cabelos eram ruivos e médios, mais curtos que longos. Uma franjinha escondia sua testa. Sua pele era extremamente clara, quase como pálida. Ela não era muito alta e era magra.
— Sim... sim. — sorri de volta — E você é?
— Sou Lizzie, prazer. Você deu um show hoje, garota! Com certeza vai ser uma das escolhidas. — disse, como se fosse óbvio.
Não importava se ela estava certa, fiquei feliz de qualquer modo apenas por saber que ela gostou.
— Nossa, valeu. — respondi, meio envergonhada.
— Você parece bem tensa. Não precisa ficar tensa. — tocou em meus ombros, chacoalhando-me levemente.
Ri quando ela parou, e ela me acompanhou.
— Desculpa se isso soa meio sei lá, — Geo e sua habilidade de definir o indefinido com “sei lá” — mas você não parece ser do tipo de garota que é líder de torcida.
E não parecia mesmo. Lizzie possuía um jeito um pouco diferente do jeito da maioria das garotas cheerleaders. Nunca havia chegado a conversar com uma antes dela, mas via o comportamento delas pelo corredor. A ruiva não parecia ser do tipo que ficava horas na frente de um espelho ou gritava se quebrasse uma unha. Nem parecia gostar muito do uniforme, já que nas duas vezes em que a encontrei estava vestida de modo diferente das outras, como se sua preferência fosse esconder seu corpo e não deixá-lo exposto no uniforme que fazia bastante aquilo. Por mais que ela estivesse sorrindo levemente para mim, podia ver que ela possuía um olhar meio bruto, ou apenas sério. Algo do tipo. Lizzie não pareceu se incomodar com a minha pergunta. Pelo contrário, soltou uma risada curta.
— Não pareço, não é? É porque não sou, mesmo. — deu de ombros, escondendo as mãos nos bolsos fundos do moletom — Só entrei nessa por causa da minha melhor amiga, Sophia. Ela ama isso. Não é que eu odeie, é só que não faz muito meu estilo. Mas, às vezes, acabo me divertindo. Não é de um completo ruim pra mim. — sorriu de lado, e eu a acompanhei, assentindo.
— Essa Sophia... ela também está por aqui? — perguntei.
— Ali. — Lizzie esticou o braço, apontando para alguém atrás de mim. Virei-me, vendo que ela apontava para uma garota loira, que reconheci como uma das juradas. Voltei-me para Lizzie. — Caso esteja se perguntando como sei seu nome... — começou ela. Eu não estava me perguntando aquilo, nem passou pela minha cabeça, mas depois que ela falou aquilo eu quis saber — É graças àquele ocorrido do bolo no refeitório. Acho que você já sabe que os alunos daqui não perdem a oportunidade de zoar alguém, não é? Você infelizmente é o alvo dessa vez. — falou, sincera.
Ainda estavam falando sobre aquilo?! Qual é! Aquelas pessoas não tinham o que fazer.
Não que eu nunca tivesse sido zoada antes, mas logo no começo do meu ano escolar já era o cúmulo. Suspirei, tentando me manter com a felicidade de minutos antes.
— Mas não esquenta não. — disse Lizzie, fazendo-me olhar para seu rosto — Eles esquecem rápido, é só aparecer algo novo. Por exemplo, antes o ponto era apenas você, agora é você, Kaya, Cohan, Mary e um vaso quebrado. Daqui a pouco será Kaya, Cohan, Mary, o tal vaso quebrado e outra pessoa.
Dei um sorriso forçado quando ela citou as meninas e o vaso. Resolvi mudar de assunto logo, já que Lizzie me parecia o tipo de pessoa que sabia muito bem ler as expressões dos outros.
— Certo, ‘tá’ tudo bem — fiz um gesto de insignificância com a mão.
Lizzie abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida.
— Nossa, bom trabalho! Quanto nós teremos que pagar para rebolarem assim exclusivamente para nós? — ouvi uma voz masculina e sarcástica dizer, e vi Lizzie trincar os dentes, virando-se lentamente, e juro que vi também seus punhos cerrarem dentro dos bolsos do moletom.
Um rapaz estava ali, e o reconheci como Johnny, o garoto do refeitório que apanhara de Lizzie. Mas ele não estava sozinho. O retardado do bolo vinha ao seu lado, rindo de seu comentário babaca. Booker estava do outro lado de Johnny, com mais um garoto atrás. Olhei ao redor rapidamente, vendo que apenas poucas das garotas que fizeram o teste e algumas cheerleaders ocupavam a quadra. Treinadora Elena, Sophia e os outros jurados não estavam por ali.
Antes que eu pudesse ao menos piscar, todas as garotas presentes juntaram-se a nós, atrás ou ao lado de Lizzie. Eu estava ao lado da garota, encarando Johnny com a testa franzida e tentando não me importar com a presença do ser que estava ao seu lado, sem ser Booker. Pelo canto do olho pude ver todos os que estavam na arquibancada prestarem atenção em nós, inclusive minha irmã e seu grupo.
— Nem suas almas são valiosas assim. — respondeu Lizzie, mais como um rosnado.
Depois daquela resposta eu esperava ouvir as típicas coisas, como “ui!” e “essa eu não deixava”. Mas não. Todos estavam em completo silêncio, o que era completamente estranho. Johnny sorriu um pouco com a resposta de Lizzie. Ele estava próximo de nós, e eu podia vê-lo bem. Alto, cabelos escuros e bem arrumados, olhos escuros, pele clara. Ele não vestia a jaqueta do time de futebol, assim como os outros garotos.
— Não estava falando com você, Lizz-Lizz. — cortou Johnny, ainda sorrindo, e ao olhar para Lizzie, percebi que ela não tinha uma resposta pronta.
Mas eu sim. Eu sabia que ele não estava querendo arrumar nenhuma briga séria, nem provocar especialmente Lizzie. Apenas queria nos irritar. Não conhecia Johnny, mas tinha certeza de que eu não gostava nem um pouco do sorriso presunçoso dele e do andar típico cafajeste dele. Não gostava dele.
— Não faz muita diferença, Johnny. — respondi e vi que todos olharam para mim, surpresos por eu ter respondido por Lizzie. Era como se aquela fosse uma briga íntima de ambos, e eu estivesse me intrometendo. Mas não liguei. Ela foi legal comigo, eu iria ajudá-la. Além de que com aquele primeiro comentário ele estava se referindo a todas as garotas que fizeram o teste. Senti o olhar do retardado do bolo fixar-se em mim, mas ignorei. Johnny não pareceu surpreso por eu saber seu nome. — Nós iríamos responder algo como “nem a preciosa virgindade de vocês”, então a resposta de Lizzie teve o mesmo significado.
Vi Lizzie sorrir um pouco para mim, agradecida, parecendo mais relaxada. Eu sorri de volta. Eu tinha consciência de que eles não eram de jeito nenhum virgens, apenas queria provocá-los.
— Preciosa virgindade? — foi a vez do retardado do bolo responder, debochado — Como se nós ainda a tivéssemos. Ou melhor, eles. Adoraria se você viesse descobrir se a minha ainda está por aqui.
Eu queria voar em cima dele e socá-lo ali mesmo, mas apenas cerrei os punhos e sorri debochadamente.
— Não, obrigada. Eu prefiro morrer. — respondi, soando tão dura que até me assustei com meu tom.
— Claro que prefere, gracinha. — sorriu ele ainda mais, como se não estivesse se abalando com nenhuma palavra que saía da minha boca.
Frisou o “gracinha” de modo debochado, com o óbvio intuito de me irritar. Percebi que não eram as palavras dele que me irritavam, e sim seu sorriso maldoso, que apenas crescia. Por mais que estivesse afetado ou qualquer outra coisa, aquele garoto continuava sorrindo. Ele queria me afetar com aquilo, e o pior era que estava conseguindo. Eu sentia todos os olhares sobre nós, e do nada Lizzie pigarreou, então, sorriu.
— Sabe o que eu acho? — começou, fingindo-se de pensativa — Que isso tudo é inveja, sabe? Vocês não sabem dançar, adorariam saber como nós. Para poder seduzir seus ‘bofes’.
Todas as garotas que estavam atrás de mim e ao meu lado caíram na gargalhada, assim como eu. Lizzie apenas riu normalmente, mas era óbvio que estava se segurando. Segundos depois, os estudantes nas arquibancadas nos acompanharam, como se toda a tensão de antes tivesse evaporado. Os garotos não pareceram se abalar. Pelo contrário. Eles soltaram risadas curtas e irônicas, e o retardado do bolo colocou-se na frente do grupo, cruzando os braços.
— Bem, se você diz... — deu de ombros — Mas adoraríamos mostrar que está errada, Lizz.
Ela deu um passo em sua direção, sorrindo de lado com deboche.
— Estou? — se fez de boba.
— Está. — respondeu ele, sorrindo, olhando fixamente para mim antes de se afastar do grupo. — Um ano atrás, abertura do festival de música de Blanchaster High School. Acho que não lembra. Adoraria refrescar sua memória. Acharam que as líderes de torcida não eram boas o suficiente, então nós entramos na história. Foi um ótimo ano.
Olhei para Lizzie, confusa e procurando por respostas. Mas ela não disse nada, tampouco olhou para mim, estava ocupada demais deixando uma expressão completamente irritada assumir sua face. As palavras do retardado do bolo não faziam sentido para mim. Mas para ela sim.
Ele olhou para o garoto moreno que estava ao lado de Booker, murmurando algo que não pude ouvir. O rapaz foi até o canto da quadra, onde estava uma enorme caixa de som que foi usada para reproduzir a nossa música. Ele parou de frente ao notebook que apenas percebi estar ali naquele momento, digitando rapidamente várias coisas.
— Peço gentilmente que se afastem, madames. — pediu o retardado do bolo, e nós apenas para o que eles iriam fazer, nos afastamos, ficando na frente da grade que separava a arquibancada da quadra.
O três garotos se posicionaram no meio da quadra. O retardado do bolo na frente, Booker ao seu lado, mais atrás, e Johnny ao lado de Booker, de modo que o retardado do bolo ficasse no meio. Eles não iriam dançar, iriam?
Como se aquilo respondesse minha pergunta mental, uma música saiu da enorme caixa de som, e eu a conhecia bem.
Woo, girl, you're shining
Like a 5th Avenue diamond
And they don't make you like they used to
You're never going out of style
A música já tinha começado, mas eles não fizeram nada. Não disseram uma palavra sequer ou moveram qualquer músculo que fosse. Quando eu estava pronta para perguntar a Lizzie o que eles achavam que estavam fazendo, toda a coisa mudou.
Woo, pretty baby
This world might have gone crazy
The way you saved me, who could blame me
When I just wanna make you smile
Eu ergui as duas sobrancelhas, enquanto tentava manter o meu queixo no mesmo lugar, se não ele sairia se arrastando pelo chão da quadra.
I wanna thrill you like Michael
I want to kiss you like Prince
Let' s get it on like Marvin Gaye, like Hathaway
Write a song for you like this
Certo, aquilo só podia ser brincadeira. Como ele podia dançar tão irritantemente bem? Eu sabia que o retardado do bolo não era o único garoto que estava dançando, mas era, com certeza, o que mais chamava atenção. Ao menos, a minha. Eu nunca diria que um cara como ele saberia rebolar. Saberia rebolar tão bem.
You're over my head, I'm out of my mind
Thinking I was born in the wrong time
One of a kind, living in a world gone plastic
Baby, you're so classic.
E, daquele jeito, a música parou. Eu sabia que ela não estava no fim, claro, mas pelo que percebi eles só sabiam a coreografia até aquele momento. Os três dançaram perfeitamente, e com uma invejável sincronia, que, aliás, eu nunca diria que dançarinos que não fossem profissionais possuiriam.
O retardado do bolo tinha um sorriso vitorioso nos lábios, olhando em minha direção.
Eles foram simplesmente incríveis, mas eu não iria dar aquele gostinho de vitória para aquele trio. E principalmente para ele. Acreditava que as meninas que estavam ao meu lado também não. Todos nas arquibancadas aplaudiam, alguns até soltando assobios. Olhei para a arquibancada, e vi que Yv batia palmas e soltava alguns gritinhos. Eu sabia que ele era meio que amigos dos jogadores de futebol — por mais que fossem todos babacas —, então não estranhei aquilo. Jennifer e Cohan pareciam aplaudir um pouco forçadamente, como se fosse difícil demais admitir que eles dançaram bem. Jennifer era provavelmente por minha causa, já Cohan eu não fazia idéia. Mary, Kaya, Hector, Taissa e Josh aplaudiam normalmente. As garotas permaneceram quietas, assim como Lizzie. Então, a ruiva caiu na gargalhada. Eu não sabia se ela estava forçando, mas estava funcionando.
— Ótimo, rapazes! Bravo! — aplaudiu — Já podem entrar para a torcida. — sorriu, sarcástica.
Eu ri, assim como todos, vendo os meninos apenas sorrirem.
— Vamos pensar no seu caso. — Booker deu uma piscadela para ela.
Lizzie pareceu parar completamente, mas apenas desviou o olhar do rosto dele e sorriu pra mim.
Depois daquele showzinho, todos nos reunimos nas arquibancadas, pois a professora Cornett e os jurados estavam de decisões tomadas. Enquanto faziam um típico suspense, Lizzie me contara que o nome do único rapaz da torcida, que também era um dos jurados, era Edward. Segundo ela, ele era um cara totalmente incrível. Falou rapidamente de Harmony, chamando-a de personalidade totalmente clichê e intocável. Sobre Sophia não falou muita coisa, já que me dissera algumas coisas sobre a loira antes. Perguntei um pouco sobre o retardado do bolo, e Lizzie me respondeu normalmente e até me disse o sobrenome dele.
Olhei para Lizzie, cruzando minhas pernas na típica posição borboleta e olhando para ela, curiosa. Ela parou de falar sobre ele quando disse seu sobrenome, e eu esperava por mais. Não que eu estivesse interessada nele nem nada, mas curiosidade era o meu sobrenome. Eu provavelmente estava parecendo uma criancinha que queria ouvir mais sobre uma história infantil, pois Lizzie riu da minha expressão de “fala logo!”.
— Ele não é o típico bad boy que tira notas baixas, desafia a lei, pega todas as garotas do colégio e não presta. Ele é mais complexo que isso. — finalmente me respondeu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Se quiser falar sobre típicos bad boys irritantes eu digo que Johnny é o que mais se encaixa. — tentou disfarçar a raiva ao pronunciar “Johnny”, fingi que ela tinha se saído bem e ignorei — Stonem não é assim. Certo, ele é um completo babaca, não se engane, mas ele vai... além disso. Tira notas excepcionais, não se mete em problemas sérios, não pratica bullying sério com ninguém, é melhor amigo do Yv. O Yv! Que é de longe o garoto mais príncipe encantado e não-babaca desse colégio. Stonem tem uma banda que presta e várias outras coisas. Não gosto dele por motivos do passado, mas ele não é completamente insuportável. Yv diz que ele é bem diferente do que deixa transparecer, mas só com os melhores amigos dele. Yv e Booker. O lado cafajeste dele é aquela coisa de “vou curtir a vida enquanto sou jovem”. E ainda há os pais dele que são super religiosos, só Deus sabe o que se passa naquela casa e o que ele tem que aguentar por ser tão diferente do filho perfeito que eles buscam. Só sei que o Stonem é mais frio e indiferente que cafajeste e bad boy. Ele é complexo. Demais.
Assenti lentamente, vendo-a parar de falar e dar o assunto por encerrado, como se já tivesse falado tudo que sabia. Ou tudo que podia falar. Lizzie pareceu conhecer o retardado do bolo bem demais, mas preferi não questionar mais nada.
Nos levantamos e sentamos afastadas dos garotos (lê-se Booker, o retardado do bolo e Johnny), no outro lado da arquibancada, com o grupinho de Jennifer. Esperamos alguns minutos, em que conversamos sobre qualquer coisa que veio em mente, e era perceptível que ela queria me fazer relaxar, sabendo que eu estava num misto de ansiosa e nervosa.
Minha ansiedade em cerca de dez minutos transformou-se em completa felicidade quando o resultado saiu e recebi meu uniforme, assim como mais três garotas histéricas. Todos nos aplaudiram, animados, e minha irmã não parou de gritar por um bom tempo. Eu me senti feliz, realmente feliz.
Parti em direção ao bebedouro, desejando o mais rápido possível beber água.
Sorri, feliz da vida, agradecendo por ver a tão desejada água, fui até o bebedouro, inclinando-me e aproximando meus lábios da água gelada — que saía correndo rapidamente da pequena torneira — enquanto meu polegar apertava de lado a lateral da torneirinha. Depois de tantos abraços, gritos e minha garganta implorando por sossego, eu estava sozinha ali, ainda me sentia realizada e orgulhosa de mim mesma. Não parecia ser grande coisa, eu sabia, mas para mim era. Fui puxada para fora dos meus pensamentos de repente, o que eu odiava quando acontecia.
— Bom trabalho. — uma voz relaxada, masculina e conhecida me fez parar — Você dançou bem, Geovana.
O modo como ele acariciou preguiçosamente meu nome ao pronunciá-lo me fez questionar se o rapaz que prometera vingança mais cedo, me provocara na quadra e debochara de mim era o mesmo rapaz que naquele momento estava ali, atrás de mim. Sentindo um olhar na área das minhas coxas, que eu já sabia exatamente a quem pertencia, me virei rapidamente, limpando a boca com as costas da mão.
— Valeu — agradeci, olhando para o retardado do bolo e tentando não produzir uma careta ao ouvir ele me chamar pelo meu nome inteiro. Mas, na verdade, o modo como ele pronunciou deixou tudo bem mais aceitável, não me pergunte o motivo. — Você também não foi nada mal.
Ele apenas sorriu de lado. Aquela sensação de que eu o conhecia de algum lugar ainda prevalecia, fazendo um arrepio percorrer minha espinha, consequentemente tremi de leve.
— Com frio? — ele notou a minha tremedeira, que eu jurava ter passado despercebida.
— Não finja que se importa, — cortei, cruzando os braços em frente ao peito — afinal, por que está aqui? Não me parece ser do tipo que se interessa por essas coisas.
— Foi apenas uma pergunta. — rebateu, então sorriu levemente — Eu estudo aqui.
— Hoje é sábado. — rebati.
— Vim andar.
— Por quê?
— Porque sim.
— Existem lugares próprios para "andar".
— Existem lugares próprios para comprar shorts maiores.
O sorriso dele se alargou ao notar minha expressão surpresa, e segundos depois incrédula. Entendi o motivo pelo qual ele estava olhando para as minhas coxas segundos antes, era óbvio que o tamanho minúsculo do meu short chamou sua atenção. Só não achei que ele fosse cara de pau o bastante para fazer um comentário daqueles.
— Então você se importa com o tamanho do meu short — franzi a testa, fitando-o desafiadoramente.
— Desde o dia em que você demonstrou se importar com o motivo de eu estar com um bolo no refeitório — no momento em que ele terminou a frase, recordei-me rapidamente do acontecido no refeitório, fazendo-me conhecer o moreno que estava em minha frente.
— Isso foi ontem. — falei, como se fosse óbvio.
Ele pareceu pensar um pouco, encostando-se na parede branca e cruzando os braços.
— Não sou muito bom com datas — deu de ombros, parecendo indiferente.
— Coitada da sua namorada, deve ficar esperando você ligar no dia dos namorados — debochei.
— Deveria, se eu tivesse uma. — daquela vez ele cravou seus olhos em mim, e eu entendi.
Ele estava achando que eu estava interessada em saber se ele era comprometido ou não, e se sentia extremamente certo daquilo. Certo, talvez eu estivesse. Um pouquinho só. Não, eu não poderia estar. Ele apenas era bonito e dançava bem, mas o pouco que conheci daquele garoto não me agradou.
— Eu tenho que ir — anunciei, ignorando toda a conversa anterior.
Passei por ele lentamente, e ele, propositalmente, colocou-se mais no meio da passagem, batendo de leve o ombro no meu.
— Vai lá, Geovana — senti um sorriso quente contra meu pescoço no momento em que passei.
Só então percebi que eu não sabia seu nome, o que era simplesmente inaceitável.
Jogada na minha cama, senti o tecido do uniforme entre meus dedos, enquanto minha respiração lenta e calma contribuía para meu sono se intensificar. Saber que eu não teria que acordar cedo no dia seguinte, pois era domingo, me deixava tranquila. Afinal, eu estava exausta de verdade. Mal havia descansado depois da festa de Booker, e ainda havia acontecido aquilo tudo no colégio. Me levantei com certa preguiça, largando o uniforme na cama. Meu celular produziu um barulho, fazendo-me olhar ao redor, procurando-o. Depois de alguns segundos de caça silenciosa, o achei, desbloqueando a tela.
Uma mensagem.
Desculpa. Não pude ir para o colégio ver você dançar, você sabe. Aposto que se saiu muito bem. :3
Mish. Eu sorri instantaneamente. Ele não aparecera, mas eu sabia que ele queria ter ido. Não me preocupei com sua ausência na hora, pois eu também sabia que ele provavelmente estava em alguma outra reunião de família. A família dele parecia ser um pouco complicada.
Sim! Eu consegui entrar para as cheerleaders, eu sei que você queria estar lá. :3
Esperei por uns minutos, mas ele não respondeu. Larguei o celular em qualquer canto, deitando-me novamente na cama e fechando os olhos. Finalmente o sono me pegou, e eu não queria que ele me largasse tão cedo.
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