The Anchor
14 Sou quase sequestrada. — Parte II.
Notas iniciais
Eu não sabia para onde estávamos indo, mas achava que era para o tal lugar que Victor precisava ir antes de tudo aquilo. Durante toda a viagem eu não disse uma palavra sequer, muito menos ele. Parecia que o clima tinha congelado completamente, e me peguei perguntando mentalmente se a tal J era a dona da pulseira que estava no banco de trás. Se realmente fosse, quem era ela? Parecia ser algum tipo de fantasma, pois Victor não parecia o garoto que cantara no carro. Muito menos o babaca do colégio. Ele estava calado, completamente sério e vez ou outra pigarreava apenas para me deixar saber que estava respirando. Eu não consegui pensar em uma resposta concreta. Poderia ser uma ex-namorada dele ou algo do tipo, mas parecia fraco demais para deixá-lo com aquela reação apenas porque Bills citou-a. Preferi esquecer o assunto. Afinal, aquilo o envolvia, apenas ele, não a mim. Eu não sabia que horas eram, mas obviamente a noite já estava presente. Meus olhos não conseguiam ver nada além de escuridão do lado de fora do vidro do carro, e me apavorava não fazer idéia de onde estávamos e para onde estávamos indo. Abracei meu próprio corpo, tentando me esquentar um pouco graças ao frio.
— Estamos chegando. — avisou Victor, seguindo na estrada aparentemente vazia e fracamente iluminada pelos faróis do carro.
Sua voz estava calma e baixa, naquele momento Victor parecia normal novamente, apenas mais sério. Fiquei surpresa ao ouvi-lo, assentindo lentamente. Ao longe comecei a ouvir uma música alta e agitada, algo como hip hop.
— De onde vem isso? — perguntei, olhando ao redor e tentando enxergar alguma coisa.
A música se tornou mais alta na medida em que Victor pisou no acelerador. Ele não me respondeu, mas sorriu quando notou a interrogação no meio da minha testa. Um carro apareceu em meu campo de visão, seguido de vários outros. As diversas músicas de hip hop se mesclaram, e eu começaria a dançar ali mesmo se não estivesse tão confusa. Pessoas, que pareciam estar em bandos, desceram dos grandes carros e se reuniram às diversas pessoas que estavam no centro do lugar que parecia um grande campo. Victor diminuiu a velocidade do carro quando nos aproximamos mais.
— Pega uma jaqueta no banco de trás. — mandou ele.
— Por quê? — questionei, vendo-o parar o carro.
Quatro carros maiores e claramente mais caros que os outros estavam organizados uns ao lado dos outros no centro, com pessoas encostadas neles e outras espalhadas pelo campo. Alguns carros tinham as partes de trás abertas, as malas, de onde saíam as altas músicas de hip hop e rap.
— Sua roupa é curta demais. — respondeu, fazendo-me olhar rapidamente para meu uniforme e concordar mentalmente com Victor.
Duas garotas passaram por meu lado, ambas usando shorts jeans curtíssimos e blusas que pareciam sutiãs.
— A roupa dela também. — apontei para uma das garotas, quando ela olhou para Victor.
Ele sorriu para ela, como se a conhecesse.
— A intenção dela é usar uma roupa curta, mas você está usando uma r... — ele parou, puxando a chave da ignição do carro e olhando-me — Na realidade você está de uniforme.
— E uniforme não é roupa não? — franzi a testa, provocando de leve.
Victor bufou, abrindo a porta do carro e soltando o cinto de segurança.
— Só cala a boca e pega a merda da jaqueta. — resmungou, pulando para fora do carro.
Abri a porta do passageiro no momento em que ele fechou a do motorista. Inclinei-me em direção ao banco de trás e peguei a jaqueta de couro, vendo rapidamente a pulseira, antes de soltar meu cinto e pular para fora do carro. Vesti a jaqueta confortável sem pressa, subindo o zíper e vendo Victor vir em minha direção. Ele fechou a minha porta. A jaqueta ficou um pouco grande, mas nada exagerado. Caminhamos um pouco em direção ao centro e paramos em frente a um grupo composto principalmente por homens tatuados e fortes, todos com bebidas nas mãos. Um homem olhou para Victor, sorrindo em seguida, parecendo um pouco debochado. Ele era alto e forte, com várias tatuagens cobrindo um de seus braços. Sua pele era clara, porém um pouco bronzeada. Cabelos loiros e olhos pretos, combinando com sua expressão dura, por mais que ainda sorrisse daquele jeito.
— Victor! — abriu os braços como se fosse dar um abraço em Victor, mas não o fez. — Achei que não iria aparecer. — parou, olhando-me de cima a baixo minuciosamente. — Nossa, que gracinha. Qual seu nome, coração?
Eu esperava que Victor fosse soltar uma piada ou qualquer outra coisa, mas ele continuou estranhamente sério. Ignorei o desconforto que senti quando o loiro me analisou e sorriu.
— Eu sou a... — comecei.
Todo o grupo nos olhava, assim como alguns que estavam fora e se juntavam àquelas pessoas. Eu estava um pouco envergonhada, e até incomodada por receber tantos olhares analisadores de pessoas desconhecidas e não muito bem encaradas.
— Como sempre, você estava errado, Aidan. — Victor cortou-me, fazendo-me olhá-lo.
Ele estava mais próximo de mim, mas aquilo não me incomodou. Fez-me sentir um pouco protegida, até.
— Pelo visto sim. — Aidan amassou a latinha vazia de cerveja que estava em sua mão, jogando-a no chão — Então, já que está aqui, vamos começar. — sorriu, piscando para mim e abrindo a porta do carro no qual antes estava encostado.
Aidan puxou e beijou intensamente uma garota loira que estava encostada no carro, enquanto mais três pessoas entravam nos carros. Uma garota morena, um rapaz ruivo e um loiro.
— Seguinte, — Victor tocou no meu braço, fazendo-me levar um susto e me encolher um pouco. Ele umedeceu os lábios e recolheu a mão — vou entrar no carro e você fica aqui. Não precisa ficar com medo dessa gente, é só você ficar na sua. — ele pareceu quase preocupado.
— Eu não estou com medo. — resmunguei, tentando soar mais firme que eu me sentia.
— Claro que não está.
— Corrida ilegal, Victor? Sério? — revirei os olhos, escondendo minhas mãos nos bolsos da jaqueta.
Victor ignorou, afastando-se de mim e indo em direção ao próprio carro. Abriu a porta e me apavorei um pouco, afinal eu estava sozinha ali e vendo aquelas pessoas afastarem-se do carro. Fiz o mesmo, até porque não queria ser atropelada.
— Ouça o que eu disse. — falou Victor, alto — A propósito, você é uma cheerleader agora. Torça por mim. — debochou, entrando no carro.
Revirei os olhos e suspirei um pouco, vendo Victor entrar no carro. Aidan estava dentro do carro, assim como a garota morena estava no seu, o rapaz loiro no seu, o ruivo no seu e Victor também. Victor dirigiu e se juntou aos outros, parando ao lado de Aidan, sem desligar o motor. Todos os cinco carros estavam lado a lado, os motoristas preparados para começar aquilo. Eu não estava nem um pouco preparada, não sabia os riscos de uma corrida ilegal. Não que eu me importasse com Victor. Não mesmo. A garota loira, que antes beijava Aidan, correu e se colocou na frente dos carros.
— Um... Dois... Três! — gritou a contagem, pulando para longe dos carros em seguida.
Os cinco carros avançaram em alta velocidade, começando algo que eu tinha medo de ver onde iria parar. Todas as pessoas começaram a gritar e a maioria delas erguendo as latinhas de cerveja. Segundos depois, todos saíram correndo atrás dos carros. Mordi o lábio inferior, completamente perdida e insegura.
— Victor, se você sair vivo dessa, eu vou te matar. — bufei, correndo atrás daquelas pessoas e acompanhando-as no percurso atrás dos carros.
Todos pararam perto de uma enorme grade, e eu parei também. Subi em cima de umas caixas de madeira, com certo medo de cair, tentando ver um pouco da corrida. E consegui, por mais que não fosse muito claro. Aidan estava em segundo lugar, assim como Victor. Ambos tentavam fechar o carro que estava em primeiro lugar, mas ao mesmo tempo Aidan tentava fechar Victor. Soltei um gritinho assustado ao ver Aidan se aproximar perigosamente de Victor, quase batendo no carro dele. A maioria das pessoas estava torcendo por Aidan, o que me perturbou um pouco, ainda mais quando vi tentá-lo bater no carro de Victor novamente. Como todos correram e se distanciaram dos carros que produziam a música, o som de hip hop se tornou distante o suficiente para as pessoas poderem conversar e gritarem mais “Aidan!”.
Bufei. Como podiam torcer por aquele idiota? Certo, eu não o conhecia, mas ele não parecia ser um típico cara legal. Eu não sabia muito bem o porquê de estar tão preocupada, mas minha respiração se tornava ofegante a cada segundo em que parecia que Victor seria atingido. Eu queria poder ajudá-lo. Não era como o ocorrido da enfermaria, em que eu queria que ele não sentisse dor. Ali eu sabia que Victor poderia sofrer um grave acidente, ou qualquer outra coisa. Ele era um babaca, um completo babaca, mas era um babaca que eu infelizmente me importava. Aparentemente. Uma idéia preencheu minha mente. Eu não podia pular naquele carro e ajudá-lo, mas podia tentar ajudar do meu modo. Afinal, eu era uma cheerleader, certo? Victor com certeza ficaria me devendo uma.
— Vamos lá, Victor! — gritei, sabendo que ele não ouviria. Mas não importava. Eu queria que todos aqueles babacas do fã clube Aidan ouvissem — Você consegue!
Todos da torcida olharam para mim, as testas franzidas ou expressões debochadas. Fechei a cara para todos eles, soltando meu cabelo em questão de segundos.
O que eu estou fazendo?
Levei minha mão para o zíper da jaqueta, descendo-o completamente e tirando-a, jogando-a em uma caixa ao meu lado.
— Isso aí, gostosa! Tira tudo! — um homem gritou, sendo seguido por altas gargalhadas e gritos dos seus companheiros.
Surpreendentemente, não me senti envergonhada por estar daquele modo ou com frio pelo mesmo motivo. Provavelmente era pela emoção do momento.
— VOCÊ CONSEGUE GANHAR ISSO, VAMOS! — gritei novamente em incentivo, pulando um pouco, tomando o cuidado para não cair e não quebrar a caixa abaixo de mim.
As pessoas começaram a gritar e soltar provocações, e de começo ignorei, mas depois eu estava rindo comigo mesma pela minha falta de sanidade. Uma garota, que reconheci como a que cumprimentou Victor de longe quando chegamos, subiu na caixa ao meu lado.
— Victor, Victor, Victor! — gritou, erguendo o braço no ritmo em que o nome pulava para fora de sua boca.
Ela olhou para mim, sorrindo de lado. Sorri de volta.
— Victor, Victor! — gritei em apoio, sendo acompanhada por mais duas garotas além dela.
Eu não sabia como, mas em questão de segundos todos estavam gritando “Victor!” e frases em apoio. Talvez algumas pessoas não estivessem fazendo aquilo, mas ninguém estava ligando. Braços para cima, latinhas de cervejas erguidas, gritos.
— Olha lá! — uma garota gritou, apontando para os carros, já que todos estavam distraídos demais gritando e rindo entre si.
Olhei pra corrida, um largo sorriso brotando em meu rosto ao ver o que estava acontecendo. Victor, que antes estava em segundo lugar, estava em primeiro, um pouco na frente de Aidan. Todos gritaram mais e mais, alguns “Aidan!” sendo ouvidos, mas a torcida de Victor era maior. Aidan conseguiu se colocar ao lado de Victor, tentando fechá-lo, mas Victor pareceu esperar aquilo. Foi para o lado oposto e passou na frente, passando por cima de uma bandeira presa em um ferro e finalmente ganhando.
Puxei aplausos, sendo seguida pela maioria das pessoas. Peguei a jaqueta e desci de cima da caixa, vendo Victor estacionar no centro do campo, sendo seguido pelos outros motoristas. Corri em direção a ele, que saia do carro com um sorriso no rosto, vendo Aidan sair furioso do seu carro e dispensar brutalmente a loira que tentou abraçá-lo como consolo. Sem pensar duas vezes, nem uma direito, pulei nos braços de Victor e passei meus braços por seu pescoço. Por um ou dois segundos ele pareceu sem reação, então passou os braços por minha cintura e me tirou do chão. Ri alto, sendo acompanhada por ele e sentindo-o me colocar de volta no chão. Soltei-me dele, sorrindo largamente.
— Você conseguiu! — exclamei, ofegante e eufórica — Você não morreu!
Victor gargalhou, assentindo algumas vezes.
— Pois é, não morri. Você parece quase preocupada.
Dei-lhe uma tapa no braço, mas estava fora de mim demais para me irritar.
— Foi tão louco! Eu estava lá, aí comecei a pular e gritar, aí e... — comecei, gesticulando freneticamente.
Victor agarrou meus ombros, olhando nos meus olhos e sorrindo de lado.
— Calma. Calma... — riu de leve — Respira.
Fechei os olhos, ainda sorrindo um pouco. Respirei fundo, soltando o ar lentamente, tentando normalizar minha respiração. Relaxei depois de alguns segundos, meu coração batendo normalmente. Senti as mãos de Victor soltarem rapidamente meus ombros, como se ele estivesse sendo puxado, então abri os olhos, mas não vi o que eu esperava. O leve sorriso sumiu do meu rosto. Victor estava distante de mim, com várias pessoas ao seu redor, gritando, abraçando-o e parabenizando-o. Coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, observando aquela cena e suspirando um pouco.
Olhei pra jaqueta em minha mão, vestindo-a lentamente enquanto observava Victor abraçar vários homens, além de abraçar e beijar a bochecha várias garotas. Subi o zíper da jaqueta. Aquele era o momento dele, afinal. Ele merecia. Distanciei-me, indo na direção de um carro qualquer e encostando-me nele. Senti-me um pouco cansada e completamente sozinha ali. Depois de alguns minutos em silêncio e fazendo nada, vi Victor vir em minha direção, enquanto via também Aidan se juntar a um grupo de amigos que pareciam tentar dar apoio a ele.
— Você fez um bom trabalho lá, sabia? — elogiou Victor, encostando-se no carro ao meu lado. Sorri de lado, um pouco sem jeito — Eu vi você torcendo. Realmente leva jeito. — falou e ri um pouco, dando de ombros e murmurando um “obrigada”. Uma ventania passou por nós, fazendo meu cabelo bagunçar um pouco. Agradeci mentalmente por estar de jaqueta, já que sentia frio facilmente. Victor olhava para meu rosto, mas eu olhava para frente. — E você soltou o cabelo. — notou ele, fazendo-me olhá-lo.
Victor estava mais próximo do que eu imaginava, um sorrisinho convencido brincando em seus lábios. Seus olhos brilhavam um pouco e ele parecia feliz. Seus cabelos escuros estavam bagunçados e ele não se importava com aquilo, olhando apenas para meu rosto e esperando uma resposta. Perdi a fala por alguns segundos, mas eu não entendi o motivo.
Eu e Victor, aparentemente, tínhamos nossos momentos, mas eu sabia que era questão de pouco tempo até voltarmos para toda aquela coisa de provocações e brigas. Nós não éramos amigos, na realidade eu nem sabia o que éramos. Quando o abracei, me senti bem. Confortável em seus braços, como se eu estivesse completa. Como se eu pertencesse aos seus braços, o que era completamente ridículo. Nós mal nos conhecíamos, tampouco nos gostávamos, por que senti aquilo e por que naquele momento eu estava com os olhos presos aos seus e sem palavras? Eu era completamente patética.
— Soltei. — respondi baixo, rindo de leve.
— Ocasiões futuras, uh? — provocou ele, fazendo-me empurrá-lo para longe de mim e vê-lo rir — Obrigado. Sabe, por me dar apoio.
Dei de ombros, como se não fosse nada.
— Tudo bem, gosto de fazer caridade. — provoquei, vendo-o rir debochadamente e me dar uma piscadela.
— Vou falar com a galera, você vem? — me chamou, afastando-se um pouco.
Neguei algumas vezes com a cabeça, fazendo um gesto de insignificância com a mão.
— Não, pode ir. Ficarei bem. Aproveite sua vitória! — dei um pulinho, chacoalhando pompons invisíveis e fazendo uma dança curta.
Victor riu, mas aproximou-se novamente e me encostou um pouco contra o carro. Eu parei no mesmo instante, totalmente surpresa. O que ele estava fazendo? Contra minha vontade, meu coração parou no segundo em que o corpo de Victor colou-se ao meu. Ergui o olhar, buscando seus olhos rapidamente, e os encontrei. Tão próximos.
Meus olhos estavam fixos aos seus, mas eu sabia que ele estava sorrindo. Ele me olhava como se estivesse gostando de me ver daquele modo. Vulnerável. Surpresa. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Eu poderia muito bem afastá-lo, então por que eu não estava fazendo aquilo? Victor aproximou os lábios do meu ouvido, arrepiando-me apenas por sentir o calor da sua respiração contra o meu pescoço.
— Você fica muito sexy com o cabelo solto. — sussurrou em meu ouvido, fazendo-me querer fechar meus olhos com força para tentar normalizar a minha respiração — Eu estava certo. Fica fácil sentir tesão em você desse jeito.
Então, ele se afastou como se nada tivesse acontecido. Eu estava ofegante, mas lutava comigo mesma para não demonstrar aquilo. Como ele conseguiu me deixar daquele jeito em questão de segunos, pelo amor de Deus? Um sorriso petulante dançava nos lábios dele. Victor soltou uma risada baixa e arrastada, piscando novamente um dos olhos e virando-se, indo em direção a um grupo que o recebeu com gritos.
Fiquei estática por longos minutos, sem acreditar no que havia acontecido e na minha reação durante e depois do ocorrido. Eu sabia o que tinha acontecido. No momento em que Victor se aproximou, que senti o calor de seu corpo, que sua voz sussurrou em meu ouvido... naquele momento eu queria uma aproximação maior. Eu não sentia nada por ele, aquilo era óbvio.
Eu mal o conhecia, ele também não era a pessoa mais agradável do mundo, eu não sentiria nunca algo por alguém como ele. Eu sentia atração. Atração era a palavra certa, e aquilo me aterrorizava. Eu não era nenhuma garota extremamente pura, mas certamente não estava acostumada a sentir uma coisa tão forte que não estava ligada a sentimentos. E que ainda era por alguém que eu não sentia qualquer tipo de afeto, alguém que não era nem próximo de mim. Minhas pernas formigavam, e eu achei que poderia me desmanchar ali mesmo. Por que Victor conseguia brincar facilmente comigo e eu não conseguia fazer o mesmo com ele? Por que ele provocava aquelas reações em mim? Eu estava tão confusa, completamente.
Aos poucos minha respiração se normalizou e me senti mais calma novamente, minha mente clareando um pouco. Mordi meu lábio inferior, afastando todos aqueles pensamentos da minha mente. Aquele não era o lugar nem o momento certo para pensar naquilo, as idéias que corriam pela minha mente eram tão absurdas que provavelmente nunca deveria haver um lugar e momento certo. Eu não deveria pensar naquilo.
Não deveria pensar nele ou qualquer outra coisa que o envolvesse. Suspirei, indo até uma caixa de bebidas (que estava distante de todo aquele barulho e pessoas, quase escondida no canto do campo) e me inclinando para pegar um refrigerante — o que eu duvidava que tivesse ali, mas não custava nada tentar. Achei uma garrafa de vidro no fundo, puxando-a para cima e tentando abrir, o que foi uma tentativa completamente falhada.
Eu estava pronta para tentar outra vez, mas alguém puxou a garrafa de refrigerante das minhas mãos. Virei-me, encarando um homem que era um pouco semelhante a um armário. Ele, com minha garrafa em mãos, sorriu, arrancando a tampa metálica com os dentes em questão de segundos. Meu queixo caiu, enquanto eu o via estender a garrafa para mim. Peguei delicadamente e em silêncio, ainda um pouco chocada.
— Eu não mereço um agradecimento? — ele sorriu, claramente dizendo aquilo em todos os sentidos possíveis.
Cruzei os braços, tomando o cuidado para não derramar o refrigerante e fitando-o desafiadoramente, não mais surpresa.
— Eu deveria te agradecer por babar no meu refrigerante? — soltei irônica.
Ele soltou uma risada alta, porém um pouco forçada. Voltou a me olhar como se eu fosse uma bela e fácil presa. Eu definitivamente não gostava de quando me olhavam daquele modo.
— Olha só, a gatinha sabe arranhar... — comentou, aproximando-me um pouco mais de mim e me fazendo recuar automaticamente — Está sozinha?
— Não. — respondi rapidamente, dando mais um passo para trás quando ele avançou em minha direção.
— Você parece sozinha.
— Mas não estou. Na realidade meu amigo est...
— Não estou vendo ele.
Ele se aproximou mais, até seu corpo tocar no meu. Tentei recuar mais, mas minhas costas bateram contra um carro e me vi encurralada. O homem não parecia bêbado, por mais que seu hálito estivesse cheirando fortemente a bebida. Ele sabia muito bem o que estava fazendo, o que não me deixou nem um pouco segura. Engoli em seco, vendo-o se inclinar em minha direção no momento em que apertei o tecido do casaco entre meus dedos. Meu coração bateu descompassado e eu não tinha mais controle sobre a minha respiração, só conseguia sentir o medo e o desespero me invadirem.
— S-se afaste... p-por favor... — pedi tão baixo que eu mal pude ouvir.
Minha voz quase não saía. Eu estava com muito medo do que viria a seguir.
— Shh. Vai ficar tudo bem, gracinha. — murmurou ele, acariciando meu rosto e afastando uma mecha da frente do meu olho.
Ele estava tão próximo que eu não conseguia ver mais nada a não ser ele, nem sentir qualquer coisa que não fosse seu corpo imprensando o meu com força e seu hálito desagradável contra o meu rosto.
— N-não...
Fechei meus olhos com força, uma dolorosa vontade de chorar crescendo dentro de mim. Eu queria poder gritar ou fazer qualquer coisa para me livrar daquela situação, mas só consegui congelar quando senti as mãos frias daquele homem por baixo da jaqueta, diretamente em minha barriga. Seus lábios tocaram meu pescoço sem delicadeza, fazendo-me soltar um soluço desesperado. Seus dedos subiram avidamente para meus seios, apertando-os superficialmente. Um grito prendeu-se em minha garganta, uma lágrima rolando pela minha bochecha no instante em que me vi brutalmente longe de suas mãos e do peso de seu corpo contra o meu.
Foi tudo tão rápido, doloroso e inesperado que só percebi que estava realmente livre e que aquilo realmente acontecera quando meu corpo chocou-se contra o chão e tudo que consegui sentir foi dor. Um barulho de algo se quebrando invadiu meus ouvidos, eu não precisava enxergar para saber que a garrafa de refrigerante foi direto ao chão, assim como eu. Abri meus olhos, sentindo as lágrimas salgadas escaparem deles. Minha cabeça estava doendo. No começo tudo ao meu redor se resumiu em borrões, como se fosse uma alucinação, mas depois eu consegui ver e entender o que estava acontecendo. Victor estava de pé, com uma pedra em mãos.
Ele a jogou com força na direção de um carro branco, quebrando o vidro de uma das janelas. O homem que antes me agarrava gritou de ódio e avançou na direção de Victor, mas ele foi mais rápido e o socou no rosto. Comecei a chorar com força, todo meu corpo tremendo involuntariamente. Eu não queria que Victor apanhasse por minha culpa, eu não queria que aquilo estivesse acontecendo. O homem era maior e mais forte que ele, então fez o que eu mais temia. Preparou-se para socar Victor, mas foi impedido por três homens que o agarraram, imobilizando-o.
— Qual o seu problema, imbecil?! — rosnou ele, tentando se livrar dos outros homens. Minha visão estava embaçada graças às lágrimas, eu sentia todo meu corpo doer graças à queda — VOCÊ ESTÁ LOUCO? Quebrou o vidro do meu carro!
— Você ainda não me viu louco. — foi o que Victor respondeu rispidamente, correndo em minha direção.
Agarrou meu braço com força, puxando-me para cima e praticamente arrastando-me em direção ao carro. Todas aquelas pessoas nos encaravam, me viam chorar como uma criança sendo puxada por alguém descontrolado e aparentemente cego pela raiva. O aperto de Victor no meu braço estava doendo, fazendo-me chorar mais e querer que tudo aquilo passasse. Eu estava me sentindo humilhada, suja, tudo aquilo que eu nunca quis sentir. Tudo que eu tinha medo de sentir. Medo, eu também o sentia.
Eu não sabia o que pensar, não sabia o que fazer. Eu estava completamente paralisada, sendo puxada aos tropeços por alguém que eu tinha certeza que não conhecia de verdade. Eu não olhava para seu rosto, apenas encarava aquele chão, de cabeça baixa, esperando tudo aquilo passar. O tempo parecia estar mais lento, tudo em câmera lenta na minha cabeça.
Aidan vindo na direção de Victor; Victor empurrando Aidan e gritando coisas que eu não entendia; Minha cabeça girando e meu braço doendo; As lágrimas me cegando; Todo meu corpo tremendo. Victor abriu a porta do carro, e apenas por ver sua mão eu sabia que ele estava tremendo. Não de medo. Ele estava tremendo de raiva, de fúria. Por quê? Ele estava com raiva de mim? Eu simplesmente não entendia o motivo de ele estar me machucando, me tratando daquele modo. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo.
— Entra aí. — Victor praticamente rosnou, jogando-me para dentro de carro e fechando a porta.
Fechei meus olhos com força, encolhendo-me e abraçando meu próprio corpo. Enterrei meu rosto no estofado do banco do passageiro, não conseguindo mais me controlar e chorando alto. Minha dor era abafada pelo estofado, mas eu não me importava com aquilo ou com qualquer outra coisa. Eu queria me livrar da terrível sensação que senti ao ser tocada por aquele homem. Da dor do aperto de Victor, da aflição de não conseguir gritar por ajuda, da humilhação de ser arrastada e chorar na frente de todos, do medo. Eu queria ir para casa, queria me sentir confortável e bem novamente.
As lágrimas molhavam meu rosto, a posição desconfortável fazia meus ossos doerem, mas eu não me importava. Eu precisava colocar aquilo para fora, eu precisava me permitir chorar por algo que eu nem ao menos entendia. Abri um pouco os olhos, respirando pesadamente. Victor abriu a porta do lado do motorista, sentando-se brutalmente no banco e ligando o carro. Deu ré e em questão de segundos nós não estávamos mais ali.
— Merda! Merda! Merda! — socou três vezes o volante, extremamente exaltado.
Eu não falei nada durante um bom tempo, fechando os olhos e chorando baixo. Eu sabia que ele estava ouvindo, eu sabia que ele estava me vendo chorar. Aos poucos minha respiração voltou ao normal, meu corpo relaxando no banco do passageiro. Meu corpo parou de doer na medida em que eu forçava minha mente a clarear. Então tudo escureceu, no mesmo instante em que uma mão gélida tocou delicadamente no meu rosto.
Eu não sabia quanto tempo havia passado, mas sabia que tinha cochilado. Os acontecimentos na corrida passaram como flashes por minha mente no momento em que abri os olhos lentamente. Pude ver Victor dirigir tranquilamente, os olhos fixos na estrada. Meu corpo não doía mais, minha mente parecia um pouco distante, mas eu sabia que fazia parte da sensação típica de quando eu acordava. Sentei-me no banco sem pressa, meu cabelo um pouco grudado em meu rosto.
Graças a Deus eu não babei.
Não falei nada, apenas prendi meu cabelo novamente e abracei meu corpo, sentindo o cheiro de Victor que estava impregnado na jaqueta. Olhei pra janela erguida, vendo os prédios e casas passarem tão rápido quanto borrões. Encostei minha cabeça no banco, suspirando comigo mesma e deixando meus pensamentos fluírem. Quando menor, eu gostava de sentir o vento do lado de fora do carro contra meus cabelos. Eu fechava os olhos e respirava fundo, o céu sendo meu fiel companheiro quando eu sussurrava uma música qualquer que falasse sobre amor, aproveitando o momento em que eu me sentia bem comigo mesma. Era apenas aquilo que importava. Mas então eu cresci, e sinceramente eu não sabia mais o que importava. O silêncio dentro daquele carro era torturante, então ele foi quebrado.
— Me desculpe. — Victor murmurou, mas eu não falei uma palavra sequer. Assenti um pouco, mordendo meu lábio inferior com força e olhando para o lado de fora. Automaticamente minha mão foi para o local um pouco dolorido no meu braço — Por favor, me desculpe.
Victor parou o carro, estacionando em uma calçada qualquer. Só então eu percebi onde estávamos. Na rua da minha casa. Na realidade, em frente a ela. Não questionei como Victor sabia onde eu morava, já que me lembrei do dia da praia e que ele me trouxe para casa de moto. Antes que Victor pudesse tocar em meu rosto e me fazer olhá-lo, me virei sozinha e o encarei. Fiquei calada por alguns segundos, vendo um pequeno corte em sua bochecha.
Não sangrava, mas a marca estava ali. A culpa em seus olhos era visível, e eu sabia que ele realmente estava arrependido. Eu simplesmente não conseguia entender aquele garoto, não conseguia entender o que ele realmente queria comigo e quem ele era. Ele parecia ser tantos, mas ao mesmo tempo só um ou até mesmo nenhum. Ele era tão complexo que nem eu conseguia entendê-lo, lê-lo, decifrá-lo.
— Vamos apenas esquecer isso. — falei, tentando soar o mais firme que consegui, vendo-o negar algumas vezes com a cabeça.
— Eu perdi o controle, Geo. — ele suspirou profundamente, passando a mão nervosamente pelos cabelos escuros e bagunçando-os ainda mais — Eu não deveria ter te tratado daquele jeito. Eu estava puto com aquele cara e descontei em você. Eu não tinha perdido o controle desde a... — parou como se tivesse falado demais.
— Victor, está tudo bem. — suspirei profundamente, olhando rapidamente para o chão. Olhei para seu rosto, tentando ver qual era sua expressão, mas ele estava inexpressivo. Assim como na oficina. — Quem, Victor?
— Ninguém. — cortou, ficando completamente sério de repente.
— Não, é alguém sim. — insisti — Eu sei que não tenho nada a ver com a sua vida, mas quem é J? — ao ver sua expressão completamente surpresa e depois um pouco enraivecida, eu hesitei. Eu sabia que havia passado dos limites, mas ele também passara quando me agarrou pelo braço e me jogou dentro daquele carro. Eu não deveria invadir sua vida pessoal, mas não tinha como voltar atrás. — Eu... desculpe, eu não queria...
— Geovana. — seu tom foi tão rígido que me fez parar, fitando-o com arrependimento por ter tocado naquele assunto — Nunca mais fale sobre esse assunto. Nunca. Em hipótese alguma pense que pode falar sobre isso. Porque, não, você não pode. Você não deve.
Eu parei, encarando-o por longos minutos. Não era um pedido, era uma ordem. Eu poderia questioná-lo, rebatê-lo ou qualquer outra coisa, mas apenas assenti duas ou três vezes. Era a vida dele, não minha. Nós nos provocávamos, debochávamos um do outro, brincávamos e tínhamos nossos momentos. Mas eu não era íntima dele, eu mal fazia parte de sua vida.
Eu precisava respeitar sua privacidade, por mais que às vezes ele me desse uma permissão silenciosa para invadi-la. A postura dele era rígida, encarando-me extremamente sério e duro. Então parou de me olhar, mantendo-se ereto no banco do carro. Ele parecia estar pensando em milhões de coisas ao mesmo tempo, mas continuava sem expressão.
— Eu... — suspirei um pouco, evitando olhar para ele. Não era tão difícil fazê-lo, eu apenas precisava ignorá-lo como ele sempre fazia comigo. Não me olhar nos olhos, não notar propositalmente minha presença, enfim, coisas próprias dele. — Eu te vejo amanhã. — murmurei de cabeça e voz baixa, querendo sair logo daquele carro e de todo aquele clima frio.
Soltei o cinto de segurança sem esperar resposta, abrindo a porta do carro rapidamente. Victor inesperadamente e automaticamente inclinou-se em minha frente, por cima de mim, puxando a porta de volta e fechando-a com força, provocando um alto barulho. Ele virou o rosto o mínimo possível, apenas para seus olhos profundos e inexpressivos alcançarem os meus. E, como se nossos olhares tivessem nascido para estar um em frente ao outro, eles se encaixaram em uma união perfeita.
Não tive tempo para piscar, respirar ou ao menos desfrutar de seu olhar, pois no segundo seguinte seus lábios fizeram pressão nos meus e sua mão segurou meu rosto tão firme quanto eu não me sentia. Arregalei meus olhos, completamente assustada, vendo os olhos de Victor fechados com força, como se ele estivesse sentindo algum tipo de dor ou tormento ao encaixar firmemente os lábios macios nos meus. Arfei um pouco de surpresa, totalmente perdida. Sua respiração quente bateu calmamente em meu rosto, fazendo-me fechar os olhos lentamente e me acalmar um pouco, como se estivesse anestesiada.
Sua mão apertou meu maxilar, pressionando minha nuca de leve em seguida. Eu não conseguia me mexer, ele havia me imobilizado e não havia nada que eu pudesse fazer a não ser desfrutar daquilo. Era assustador. Não o beijo, mas sim minha vontade de desfrutar daquilo. Victor manteve os lábios grudados aos meus, mas não fez nada. Nenhum movimento. Abri os olhos rapidamente, vendo sua expressão suavizar aos poucos. Fechei-os novamente, não me atrevendo a fazer qualquer coisa que fosse, mas simplesmente não conseguia controlar meu coração que ameaçava pular a qualquer instante.
O que estava acontecendo? O que nós estávamos fazendo? Bem, eu sabia muito bem responder aquela pergunta se fôssemos pensar pelo lado comum, mas e o lado racional? Sua boa era macia e receptiva, tanto quanto eu havia imaginado contra minha vontade em todo momento em que meus olhos pareciam pousar lá sozinhos. Recebia meus lábios entre os seus naquele prolongado selinho, como se eles fossem mais que bem-vindos. Como se já fossem de casa. Eu queria sentir o toque de sua língua na minha, por mais que eu ainda estivesse um pouco perplexa. Eu precisava daquilo, eu desejava como nunca havia desejado um beijo de qualquer outra pessoa.
Então, ele se afastou e sentou-se novamente no banco. Tão rápido quanto se inclinou e me beijou. Não consegui me conter e olhei para seu rosto, tentando encontrar seus olhos e sem me importar em disfarçar toda a confusão e incredulidade estampadas em meu rosto. Eu merecia uma resposta. Era aquilo? Qual o propósito? O que se passava na mente dele, por que iniciar algo como aquilo se não tinha intenção de finalizar? Victor parecia atordoado, por mais que tentasse continuar sério. Se eu não o conhecesse, juraria que estava tão confuso quanto eu. Pois bem, eu não o conhecia.
— Boa noite. — foi o que saiu de sua boca, claramente me expulsando, no momento em que ele virou a cara e insistiu em olhar para o lado de fora pelo vidro do carro.
Ainda completamente extasiada, abri a porta do carro novamente e pulei para fora, descendo o zíper da jaqueta e livrando-me dela, jogando-a no banco. Eu queria questioná-lo sobre... bem, tudo, mas aquele não era o momento certo, e talvez não houvesse um nunca mais. Descobri que com Victor não havia naturalmente um momento certo, era preciso fazê-lo virar o momento certo. Nem certo, porque nada no mundo poderia ser definido como “certo” ao envolver Victor, mas ao menos ideal. O momento ideal. E se eu o deixasse passar, não teria a certeza de que outros viriam.
Eu não sabia o que estava fazendo, ou como ele tinha um poder completamente assustador sobre mim. Ele não se importava em me tratar bem, ele era a mistura de tudo que eu odiava no universo, tinha várias personalidades e me deixava completamente confusa. Por que eu o deixava se aproximar de mim? Por que eu parecia uma garotinha indefesa quando eu estava com ele?
Bati a porta do carro, indo em direção ao portão da minha casa, mas parando no meio do caminho. Toquei em meus lábios delicadamente, talvez tentando sentir novamente o gosto dos seus nos meus, talvez tentando descobrir se aquilo realmente acontecera ou apenas tentando convencer a mim mesma que, sim, eu estava miseravelmente, vulneravelmente e desarmadamente atraída por ele. Aquele foi meu primeiro beijo com Victor Vincent Stonem. Sem romantismo, sem afeto, sem sentimentalismo ou um piquenique com pôr-do-sol. Sem borboletas no estômago, sem perna erguida e sem dedos emaranhados nos cabelos.
Foi apenas um contato longo, mas não intenso. Sutil, mas ao mesmo tempo tão insinuativo. Algo rígido, incompreensível, extremo e complexo — assim como o dono daqueles lábios anestesiantes.
Não foi o beijo dos sonhos de nenhuma garota, mas estranhamente eu não podia esperar algo típico vindo de Victor. Ele sempre me surpreendia de todas as maneiras possíveis e impossíveis. Voltei a andar, sem precisar olhar pra trás para saber que ele ainda estava ali. Abri o portão lentamente, tendo certeza de apenas uma coisa. Minhas armas estavam jogadas ao chão, eu estava sofrendo um conflito interno. Ou não tão interno, já que ele tinha nome, sobrenome e uma mente indecifrável.
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