The Anchor

15 Mish me faz uma promessa.


Notas iniciais
Cá estou eu com mais um capítulo pras vocês! Antes de tudo quero dizer que ENTREM NO GRUPO DO FACEBOOK PARA THE ANCHOR (e algumas outras fics minhas, mas no momento está focado em The Anchor porque é a atual) LÁ POSTO AS ATUALIZAÇÕES. POSTAREI CAPÍTULOS BÔNUS/EXTRAS, SPOILERS E TUDO MAIS. AQUI O LINK https://www.facebook.com/groups/658737297581621/?fref=ts . Me adicionem se quiserem, eu sou legal. sz Recebi algumas novas leitoras maravilhosas, obrigada gente! Vocês são incríveis. Aproveitem o capítulo. Boa leitura.

Acordei com extrema preguiça, fazendo-me ter a leve impressão de que as manhãs seguintes não seriam diferentes. Enquanto fazia minha higiene matinal, resisti contra a vontade de acender uma fogueira e pular dentro dela, graças ao fato de que fiquei toda a minha miserável madrugada pensando no miserável Victor e no seu miserável beijo, ou quase um, além de sonhar miseravelmente com tudo aquilo. Como se me lembrar da noite passada toda hora não fosse suficiente, ou até mesmo ter vivido a pior parte da noite — o momento em que fui agarrada por aquele homem desconhecido, que infelizmente também estava em meu sonho. Que obviamente virou pesadelo. Depois de resolver deixar tudo aquilo de lado, desci para a cozinha já pronta. Peguei minha mãe de surpresa, já que eu não costumava acordar muito cedo, mas digamos que eu não consegui dormir direito. Ou dormir, de qualquer jeito. Ela notou a falta da minha mochila e questionou sobre aquilo, logo fui obrigada a mentir e dizer que ela estava no meu quarto. Rezei mentalmente para não encontrar Jennifer e acabar ficando a sós com ela, consequentemente tendo que ter uma conversa que eu definitivamente não queria ter. Mas, como uma prévia do belo dia que estava vindo, a encontrei no banheiro. Ao vê-la, tentei dar meia volta e sair correndo dali, mas ela estragou minha idéia.

— Não tente sair correndo. — falou, fazendo-me parar e suspirar profundamente. Lentamente me virei, encarando-a. Ela me chamou com o dedo e me aproximei, vendo-a olhar-se no espelho do banheiro. Olhou para mim, cruzando os braços e assumindo aquela postura de irmã mais velha que não me agradava muito. — Onde você estava ontem, Geovana? — ótimo, “Geovana”, eu estava ferrada.

Ela sabia o quanto eu odiava quando me chamavam pelo meu nome inteiro, ainda mais acompanhado do tom que ela estava usando. Deveria ser algo de família, porque Jennifer também odiava quando a chamavam de, bem, Jennifer. Forjei meu melhor sorriso inocente, sabendo que não adiantaria de nada porque Jennifer me conhecia bem demais. Mesmo assim o fiz, pois era melhor encarar aquilo com humor.

— No colégio, Jennifer. — vingança, vadia! — Assim como você.

— Não banque a inocente. — revirou os olhos, descruzando os braços — Fala logo. Eu sei com quem você estava. Só não sei para onde foi.

Meu sorriso sumiu. Ela estava blefando? Eu não sabia direito, ela não blefava muito.

— Sabe?

— Sei. Cohan viu e me contou, graças a Deus! Certo? — bufou ao perceber que eu não concordei. Jennifer apoiou-se um pouco na pia, olhando-me. Não parecia muito irritada, apenas preocupada. Ou quase. Jennifer preocupada comigo? Okay, grande piada. — Ele faz seu tipo. Você sabe disso, por mais que negue. Cohan mandou eu lhe dizer para manter distância dele.

Revirei os olhos lentamente, apenas para ela ver atentamente. Jennifer estava se enganando, e Cohan também. Eu não tinha nada com Victor, eu queria manter o máximo de distância dele, e eu sabia que ele concordava comigo. Ou não, já que me beijou na noite anterior. E eu queria muito aquilo. Meu Deus, Jennifer estava certa? Ele fazia meu tipo? Eu tinha um tipo? Não, absolutamente não! Victor Vincent Stonem não fazia meu tipo. Ele era um completo idiota.

— Cohan disse isso, sério? Meu tipo? Eu nem mesmo gosto dele!

— Disse. — revirou os olhos, como se eu fosse estúpida demais e não fosse capaz de entender nada — Ele é um babaca. Completamente. O seu tipo. Não o conheço, mas é o que meus amigos dizem. Mantenha distância dele.

Jennifer estava sendo idiota. Completamente. Eu nunca teria nada com Victor.

— Seus amigos?! — forcei uma risada — Será que não entendeu que a vida é minha?

Eu provavelmente não deveria ter dito aquilo, pois eu sabia que ela apenas estava preocupada comigo. Mas, pelo amor de Deus, Jennifer estava exagerando!

— Você ao menos está ouvindo o que está dizendo?

— Jennifer... — fechei os olhos por alguns segundos, tentando pensar um pouco. Nós estávamos brigando por aquilo? Sério? — Você está sendo completamente ridícula.

— Você não pode ignorar tudo que eu estou dizendo!

— Observe-me fazer isso.

Jennifer parou, encarando-me. Desfiz minha pose de autoritária, olhando-a um pouco derrotada. Eu iria ouvi-la. Jenn pareceu pensar um pouco no que dizer.

— Geo. — ela suspirou um pouco, abaixando o olhar — Você sabe que costuma... gostar de garotos rápido demais. Você é uma criança. Eu entendo, sério. Mas ele não é como os outros. Não mesmo. Esse garoto... ele pode fazer coisas com você. Você sabe disso. E não estou falando de beijos.

O jeito pausado com que ela falava fazia parecer que estava ensinando algo a uma criancinha. Eu odiava quando me tratavam como uma criança, e Jennifer sempre o fazia. Ela nunca demonstrava qualquer preocupação comigo, e quando o fazia era sempre no momento em que não deveria fazê-lo. Ela achava que eu era uma estúpida, que eu iria cair na lábia de qualquer um? Eu sabia o significado das “coisas” que ela citou. Pelo amor de Deus.

— Faz muito tempo que não gosto de ninguém, você sabe disso. Eu não saio gostando de todo mundo, Jennifer. São coisas tipo amores de ônibus ou o irmão fofo de uma amiga minha. Nada que dura mais de uma semana. Nada verdadeiramente real. Você sabe que de verdade eu nunca senti nada por ninguém. — suspirei profundamente, aproximando-me mais dela — Não se preocupe, eu não terei nada com Victor.

— Mas...

— Eu sei que ele provavelmente já fez sexo com mais da metade das garotas de Blanchaster. Eu sei que ele adoraria ter uma virgem em mãos. Eu sei que ele não presta. Eu sei. — sorri um pouco. Aquele era um dos poucos momentos em que nos tratávamos como irmãs de verdade — Ontem eu saí com ele, sim. Mas foi para me encontrar com o irmão dele, que é da minha sala. — mentira, eu nem mesmo sabia quem era o irmão de Victor — Tínhamos um trabalho para fazer. Não aconteceu nada. — eu preferi mentir para Jennifer a ter que contar a verdade.

Encarar a verdade. Eu tinha medo. Medo daquele beijo, medo da atração que eu estava começando a sentir por Victor. Ou achava que estava. Medo das várias pessoas que ele era quando estava comigo, e do modo como cada uma delas conseguia me tocar de um jeito inexplicável. Eu estava com medo de aquilo acabar em algo maior. Algo que eu não queria. Pensar sobre aquilo com uma pessoa que eu mal conhecia era muito precipitado, mas um beijo também era. E, bem, havia acontecido um.

— Tudo bem. — Jennifer assentiu, afastando o cabelo do rosto — Ninguém disse para a mamãe que fui estudar na casa do Josh, então ela ficou preocupada. Quando cheguei e vi que você não estava aqui, também fiquei. Tive que mentir para ela. Isso não vai se repetir, Geovana. Não vou te acobertar. Você deveria ter avisado sobre o trabalho.

Mordi meu lábio inferior, abaixando um pouco a cabeça e assentindo.

— Me desculpe, Jenn. Obrigada por ter me ajudado.

Jennifer sorriu um pouco, tocando rapidamente em meu ombro. Puxou do bolso do jeans um celular, assim como um par de fones de ouvido. Reconheci como meu celular e meus fones, pegando-os quando ela os estendeu.

— Pronto, devolvido. Agora vai escovar os dentes, daqui a pouco Tia Jude chegará. — disse, passando por mim e fazendo-me ir até a pia. Parou depois da porta, virando-se no momento em que abri a torneira — Toda essa coisa de Estados Unidos está me deixando confusa. Nós éramos garotas normais. Costumávamos ser. Agora temos que conviver com jogadores de futebol americano, líderes de torcida, festas e tudo isso. É como se tivéssemos entrado em um filme adolescente.

Sorri, achando graça. Ela sorriu de volta, rendendo-se e rindo.

— Esse é o normal deles, Jenn. Nós somos as novatas. Teremos que nos acostumar. — ela suspirou, assentindo um pouco e virando-se novamente, saindo. — Eu posso facilmente me acostumar com as festas! — gritei, fazendo-a gargalhar.

Vi-me sozinha ali, no banheiro. Nos últimos meses apenas Cameron vinha em minha mente. Eu ainda me lembrava dele todas as noites ao dormir e todas as manhãs ao acordar. Sentia sua falta. Mas saber que ele sempre estaria comigo me conformava, mesmo tecnicamente não estando mais. A repentina mudança para os EUA não era algo que eu estava pensando muito. Certo, eu pensava nos meus antigos amigos, no meu pai e no Brasil, mas não pensava na mudança em si.

Eu me sentia como Jennifer, no fim das contas.

Praticamente me joguei no banco de trás do carro, logo depois de Jennifer. Ela pulou para o banco da frente, quase enfiando um dedo no meu olho no caminho. Se ela já ia para o banco da frente, por que entrou arás? Vai entender. Tia Jude pisou no acelerador logo depois que fechei a porta de trás, parecendo extremamente apressada.

— Atrasada, atrasada, atrasada... — repetiu, se concentrado em olhar para frente e desviar de alguns carros. Apertei um pouco o estofado do banco de trás, por precaução — Parece que eu sempre acabo chegando atrasada.

Fiquei em silêncio, rezando mentalmente para nenhuma das duas notarem a ausência da minha mochila. Pensar naquilo me lembrou que eu ainda estava sem a mesma. Merda.

— O que foi, tia? — arriscou Jennifer.

Não pude ouvir o motivo de tanta pressa ou qualquer outra coisa, pois no segundo seguinte eu tampei meus ouvidos com meus fones de ouvido e me desliguei do mundo ao redor, apertando o play.

Andei pelos corredores movimentados do colégio, procurando alguma pessoa conhecida. Meu celular descansava em minha mão, enquanto meu fone branco dava uma volta ao redor do meu pescoço. Um grito ficou preso em minha garganta quando senti dedos gélidos ao redor do meu pulso, puxando-me para trás. Lembrei-me da noite anterior, quando aquele homem me agarrara e me tocara de modo tão perturbador. Eu tinha receio de que ficasse traumatizada para sempre. Soltei o ar com força quando vi quem me puxou, e no momento me encarava. Sorri um pouco, ainda desnorteada, sentindo Mish me puxar para si e me envolver em um abraço carinhoso. Eu sempre tive um fraco por abraços, mas o abraço de Mish era diferente. Eu podia sentir claramente o seu coração batendo calmamente, seus braços firmes me envolvendo como se ele nunca fosse me soltar. Naquele momento me senti segura, inexplicavelmente. Mish respirava com lentidão contra minha cabeça, pressionando um pouco mais seu corpo no meu. Nos soltamos longos minutos depois, sorrindo um para o outro.

— Pequena, eu não sei como me desculpar... — começou ele, parecendo sem jeito — Está tudo uma bagunça na minha família. Eu não pude vir para o colégio, acho que você já deve ter notado. Óbvio. E...

— Cala a boca. — cortei, deixando-o surpreso — Eu senti sua falta. — sorri largamente, vendo-o rir.

— Por mais que tenham sido poucos dias, eu também. — confessou, passando os braços por minha cintura e beijando minha bochecha. Sorri automaticamente. — Alguma novidade?

Parei. Eu certamente não iria contar sobre o acontecimento com aquele homem na corrida. Eu não queria falar sobre aquilo, não mesmo. Mas e sobre Victor? Eu queria contar. Mish se tornara alguém para mim, alguém de verdade. Não sabia se era nossa incrível conexão, coisas em comum ou horas conversando por celular. Nós simplesmente estávamos próximos um do outro, amigos. Eu sentia que podia contar aquilo para ele. Afinal, não era nada, certo? Apenas um beijo. Porém, algo dentro de mim me dizia para não contar. Eu normalmente ignoraria aquilo, mas apenas fiquei por longos segundos encarando Mish e decidindo se eu ignoraria ou não o sinal de “PARE!” em minha mente. Resolvi não ignorar.

— Nenhuma. — sorri. Duas mentiras em um só dia. Parabéns, Geovana — Vamos para a sala?

— Vamos lá. — sorriu de lado, soltando-me e passando um braço por meus ombros, guiando-me até a sala que eu nem sabia qual era.

No caminho fomos conversando sobre coisas aleatórias e rindo, Mish cumprimentou algumas pessoas e eu apenas continuei deixando-me ser levada por ele. Eu poderia ter continuado meu percurso, mas alguém se colocou no meio dele. Mish falava sobre o quanto os professores de Blanchaster — em sua maioria — eram chatos, quando meu olhar se perdeu entre os alunos que estavam no corredor e se prendeu ao dele. Eu não precisei olhar para seu corpo ou todo seu rosto para ter certeza que era ele, eu simplesmente sabia. Aqueles olhos pertenciam a ele, e estavam intensamente vidrados em mim. Eu não desviei, não recuei, apenas encarei-o de volta. Nossos olhares se prenderam, do mesmo modo como aconteceu no carro, segundos antes de nos beijarmos. Seu olhar transmitia algo que era diferente do que eu estava acostumada. Não era malícia, deboche, provocação ou qualquer outra coisa do gênero. Victor estava estranhamente sério e simplesmente congelado no lugar, seu olhar era indecifrável e eu estava tão paralisada quanto ele. O momento em que ele me beijou veio em mente. Seu toque, sua boca, seus olhos, tudo. Ele. Eu não sabia se ele estava pensando o mesmo que eu, eu não sabia o que se passava em sua mente. Apenas estávamos ali, no corredor, não trocando olhares, mas sim um olhar tão duradouro que era assustador. Era como se nenhum dos dois se atrevesse a quebrar aquilo, apenas com aquele contato eu pude sentir seus dedos gélidos no meu rosto novamente, seus lábios macios fazendo pressão nos meus. Percebi que não andava mais, eu literalmente havia congelado no lugar, fazendo Mish parar comigo.

— Geo? Alguém aí? Terra chamando De Geo! — Mish estalou os dedos duas ou três vezes em frente ao meu rosto, fazendo-me finalmente sair daquele transe e olhar para seu rosto.

— O quê?

— Você paralisou aí. O que aconteceu?

— Quem?

— Você!

— Eu o quê?

Mish bateu a mão na testa, checando a temperatura da minha testa com as costas da mão, depois foi para meu pescoço. Olhei ao redor rapidamente, finalmente alerta, vendo todos os alunos na habitual correria. Fui praticamente engolida por um mar de pessoas, mas mesmo daquele jeito continuei caçando Victor com o olhar, inconscientemente.

— Vem, vamos. — foi o que Mish falou, puxando-me corredor afora.

E naquele momento eu realmente perdi aqueles olhos escuros de vista.

Fui a última aluna a entrar na sala do professor de Literatura. Mish sentou-se em uma das cadeiras no fundo da sala, chamando-me. Cumprimentei o professor e fui para o fundo, sentando-me ao seu lado. Mish abriu a mochila, puxando o caderno para fora dela, enquanto o professor conversava com uma das alunas das carteiras da frente.

— Não vai pegar seu material? — quis saber Mish, olhando-me enquanto abria o caderno, procurando a matéria de Literatura.

Eu adoraria pegar meu material, mas infelizmente eu estava sem ele. Eu não sabia que desculpa dar para meu amigo, quando contasse que estava sem minha mochila. Larguei meu celular e meus fones em cima da mesa.

— Estou sem ele. — respondi, minha mente trabalhando em uma desculpa perfeita, ou tentando.

— Geo, sua mochila está na carteira lá da frente. — Mish falou, olhando-me como se eu estivesse maluca — Você está bem estranha hoje.

Franzi a testa. Era impossível minha mochila estar ali, já que ainda estava na maldita moto do Victor. Ou Mish estava imaginando coisas — o que eu duvidava porque ele me olhava de modo um pouco incrédulo —, ou eu não estava atualizada. Levantei-me, caminhando rapidamente até as carteiras da frente. O professor de Literatura não conversava mais com a garota, ele estava escrevendo qualquer coisa na lousa. Em uma das primeiras carteiras realmente estava minha mochila. Franzi a testa, abrindo a boca algumas vezes, surpresa. O que ela estava fazendo ali? A opção mais óbvia era que Victor havia pegado-a e colocado ali antes da primeira aula começar, mas ele não parecia ser do tipo prestativo. Muito menos comigo. Peguei a mochila rapidamente, jogando-a em um dos ombros e voltando para trás, sentando ao lado de Mish. A coloquei em meu colo, abrindo-a.

— Como ela veio parar aqui...? — pensei alto demais e acabei murmurando, analisando meus livros.

— Não foi você que colocou sua própria mochila aqui? — Mish franziu a testa, parando de copiar a atividade e olhando-me.

— Deve ter sido a minha irmã, a Jennifer. — menti, sorrindo de leve para ele e pegando meu caderno, colocando-o em cima da mesa assim como duas canetas.

Mish assentiu e voltou a olhar para a lousa branca.

Olhei para meu caderno. Minha mãe havia comprado-o para mim, logo não era como se a capa fosse de um artista que eu gostasse ou algo do tipo. A capa do caderno era extremamente colorida e infantil, com diversos bonecos aleatórios rindo. Poderia ser até assustador ver aqueles sorrisos maníacos de coisas inclassificáveis. Certo, não eram maníacos, mas era um pouco estranho. A única coisa que eu gostava no meu caderno era a contracapa, que tinha uma enorme âncora desenhada. Não tinha completamente nada a ver com os bonecos da capa, mas era um desenho bem bonito. Eu não era o tipo de pessoa que tinha certo fascínio por âncoras — acredite, minha amiga Angeline era completamente louca por âncoras —, mas achava bonito e a maioria das vezes uma âncora em algum lugar — um desenho, uma jóia e afins — marcava algo, como se houvesse algo por trás daquilo. Provavelmente era besteira da minha cabeça. Existiam adolescentes que classificavam os outros por seu estilo musical ou ídolo, mas cresci com pessoas que classificavam pelo caderno escolar. Bem, meus amigos do Brasil achariam que eu havia me tornado uma amante de âncoras e meio psicopata com meus bonecos sorridentes, se vissem meu mais novo caderno.

Abri o caderno, procurando a matéria de Literatura. Parei de procurar quando meus olhos se prenderam a algo. Não a matéria, mas sim um bilhete. Franzi a testa, pegando-o e correndo os olhos pelas linhas da folha de caderno que, definitivamente, não era como as do meu caderno. A folha estava cortada ao meio de modo desajeitado, algo que obviamente não foi feito com o auxílio de uma tesoura.

Eu posso ser muitas coisas que você não sabe, ou já até tenha certa noção, mas cavalheiro certamente não é uma delas. Porém posso abrir uma exceção e ser gentil, porque acho que você merece isso depois do jeito que te tratei na corrida. Bom dia, cheerleader.

P.S: Belo caderno, mas me pareceu um pouco maníaco. Esses sorrisos me assustaram. Mas a âncora é maneira.

Victor.

Fiquei apenas olhando para aquilo durante poucos segundos, então sorri um pouco. Era inacreditável. Eu não conhecia Victor muito bem, na realidade duvidava que conhecesse o mínimo possível, mas aquilo me surpreendeu. Eu não sabia se ele tinha passado na oficina depois de ter me deixado em casa ou se havia ido antes de ir para o colégio, apenas sabia que me vi sorrindo graças àquele gesto. Querendo ou não, ele realmente foi gentil. Li novamente o bilhete, rindo comigo mesma em relação ao que ele falou do meu caderno. Ao menos eu não era a única a pensar daquele modo.

— O que é isso? — a voz de Mish me trouxe de volta, fazendo-me olhá-lo e fechar o caderno rapidamente.

— Nada de interessante. — respondi quase automaticamente, o que talvez houvesse soado um pouco rude, por isso sorri carinhosamente em seguida — Apenas besteira.

Ao entrar no refeitório, me despedi rapidamente de Mish — que foi conversar com o professor de História na sala dos professores — e segui para uma das mesas que estava no centro do refeitório. Diferente do que eu normalmente fazia, não estava procurando uma mesa para sentar. Os garotos riam e conversavam alto naquela mesa que parecia ser destinada e exclusiva aos jogadores de futebol. Aproximei-me o suficiente deles, e nenhum pareceu notar minha presença. Aos poucos alguns me olharam, finalmente percebendo que não estavam sozinhos. Dei a volta na mesa e parei na frente de Victor, já que antes ele estava de costas para mim. Ele parou de conversar quando me viu, olhando normalmente para meu rosto, totalmente diferente do modo como havia agido horas antes no corredor. Sorriu um pouco, apenas um pouco, olhando-me como se esperasse algo. E realmente esperava.

— Oi. — falei como uma completa idiota, soando um pouco insegura. Senti-me completamente patética. Eu simplesmente não sabia como agir, pois no momento em que o olhei aquele refeitório nosso beijo — ou quase um — veio em minha mente, o que não foi novidade. Eu parecia nervosa. Victor parecia indiferente. Os garotos riram um pouco, todos aqueles olhos sendo direcionados para mim quando eles pararam de conversar — Posso conversar com você?

— Bem, acho que não tenho nada melhor para fazer. — levantou-se, olhando rapidamente para os garotos, que soltaram risadinhas provocativas.

Revirei os olhos discretamente. Por que eu estava tentando ser legal quando ele claramente não estava querendo fazer o mesmo?

— Vai lá, Stonem. Vai com a sua garotinha. — um deles soltou, debochado.

Victor riu, empurrando de leve o garoto no peito e falando um “cala a boca, idiota”. Olhei rapidamente para o chão, desconfortável, mas Victor parecia extremamente normal. Ele tocou de leve em minhas costas, empurrando-me um pouco para longe daquela mesa e de todas aquelas pessoas. Caminhamos lado a lado e em silêncio, rumo ao corredor que vinha depois do refeitório. Ele estava vazio, graças a Deus.

— O que foi? — Victor perguntou, cruzando os braços. De repente pareceu realmente interessado, sem soar irônico ou debochado. Talvez ele fosse do tipo de garoto que na frente dos amigos era uma coisa e longe deles outra, ou apenas bipolar mesmo. Qualquer que fosse a questão, eu não tinha nada a ver. — Tomara que valha a pena eu ter gastado meu tempo para te ouvir. — e novamente um idiota.

Ri um pouco, sem achar nenhuma graça e incrédula.

— Quer saber? Eu vim aqui te agradecer pelo que fez hoje por mim. Mas, sinceramente, foi perda de tempo. — me afastei dele, completamente irritada. — Só isso. — praticamente cuspi as palavras, passando por ele e pronta para sair dali.

Victor tocou em meu braço, puxando-me um pouco, fazendo-me parar e virar para fitá-lo. Suspirou um pouco, coçando a nuca.

— Foi mal. — soltou meu braço ao ver minha expressão nada amigável — Eu estou com uns problemas e acabei descontando em você.

Minha expressão suavizou um pouco. Não que aquela fosse uma desculpa muito boa, mas de problemas eu entendia muito bem. Suspirei, aproximando-me dele novamente.

— Enfim, obrigada por deixar minhas coisas lá na sala. — agradeci, cruzando os braços.

Victor sorriu um pouco.

— Era só isso? — quis saber.

— Só.

— Mesmo?

— Mesmo.

— Okay, vou indo então.

— Certo.

— Até mais.

— Victor, espera.

— O quê?

— Só... espera.

Victor assentiu, olhando-me e esperando eu dizer qualquer coisa que fosse. Aquela questão estava martelando em minha cabeça, eu precisava perguntar aquilo a ele, mas como o faria? Não que eu fosse tímida ou qualquer outra coisa, eu não era, mas aquele era um assunto um pouco delicado. Ou ao menos confuso. Victor me beijou no carro, mas não deu nenhum “próximo passo”. Foi apenas um selinho. Depois ele praticamente me expulsou do seu carro, no dia seguinte devolveu minha mochila e então estava agindo como se nada tivesse acontecido. Ou ele era um ator muito bom, ou aquilo foi realmente irrelevante para ele. Só havia um jeito de saber.

— Victor, o que foi aquilo ontem? — tomei coragem e perguntei, erguendo o olhar do chão e encarando-o firmemente.

Victor ficou um tempo em silêncio, como se estivesse pensando sobre o que eu estava falando, já que na noite anterior os acontecimentos não foram poucos. Eu achei que poderia passar mal ali mesmo, diante do olhar dele e do arrependimento por ter perguntado aquilo começando a me invadir. Então finalmente respondeu:

— Um beijo. — respondeu como se fosse óbvio.

Revirei os olhos diante daquilo, sem me importar em ser discreta. Parecia que a cada segundo ele se superava na idiotice.

— Ah, jura? — ironizei, sorrindo falsamente em seguida e fazendo-o rir — Eu quero saber o motivo de você ter me beijado, idiota.

Victor deu de ombros, assumindo uma expressão entediada.

— Eu te beijei porque eu quis. — respondeu simplesmente — Não significou nada. Completamente nada. Nem sei o que me deu. Você não é o tipo de garota que eu beijaria, de qualquer jeito.

Eu parei ao ouvir aquilo, descruzando os braços e olhando-o como se ele fosse completamente estúpido. Eu deveria ter dado uma resposta rápida e dura, não ter me importado, ter ido embora. Mas não fiz nenhuma das opções. Apenas fiquei ali parada, encarando-o. Eu me senti ofendida, até um pouco magoada. Não era o que eu deveria sentir, eu não deveria me importar, então por que aquilo estava acontecendo? Infelizmente, eu sabia o motivo. Por mais que eu não fosse a pessoa mais delicada e doce do mundo, por dentro eu era uma garota sensível. Eu infelizmente me importava fácil demais, me magoava e me incomodava também, por mais que tentasse esconder. Você não é o tipo de garota que eu beijaria. Não era uma coisa que eu gostava de ouvir. Por que, por um segundo, eu me importei com ele? Por que, na noite seguinte, eu fiquei lembrando daquele beijo e dele? Victor não merecia que eu me importasse com ele, pensasse nele, ele não merecia nada que viesse de mim. Assenti um pouco, assumindo uma expressão indiferente. Não queria que ele soubesse que havia me atingido.

— Claro. Só espero que não se repita.

Ele sorriu consigo mesmo, afastando o cabelo do meu rosto. Automaticamente bati em sua mão, fazendo-o recolhê-la lentamente, ainda sorrindo. Qual era o problema com aquele garoto?

— Não vai.

— Não mesmo?

— Desculpe, eu gaguejo?

Bufei, empurrando-o no peito e afastando-o de mim, soltando um “idiota”. Afastei-me dele, indo em direção ao refeitório.

— Vai para o inferno.

— Sabe, eu adoro essas suas respostas. — comentou, provocando-me e fazendo-me parar. Virei-me, já um pouco longe — Mas, o que eu poderia esperar? Você é a Geovana confusa e de cabelo roxo.

— Bem notado. — ironizei.

— Ou só Geovana. — decidiu, ignorando minha última fala.

— E você é o Victor. E o faxineiro do colégio é o faxineiro do colégio. Olha, que joguinho legal! — dei um pulinho, claramente em falsa animação.

Victor riu.

— Até mais! — falou alto, debochado.

Dei as costas para ele, voltando a caminhar.

— Até nunca mais. — corrigi, virando o corredor e deixando-o ali.

Eu não esperava encontrar Victor tão cedo, mas, infelizmente, horas depois do almoço tive que encontrá-lo novamente. Aquele era um tipo de karma. Só podia ser. O pior era que daquela vez ele não tinha culpa, muito menos eu, a professora de teatro era a grande e única culpada. Ela e o diretor passaram em todas as salas, chamando todos os alunos para o auditório. Aparentemente ninguém sabia o motivo, mas provavelmente era algo importante. Segui para o auditório com Mish, que eu nem sabia onde era, enquanto ele parecia mais interessado em brincar com meu cabelo e me deixar envergonhada a qualquer outra coisa. Na porta do auditório encontramos Yv, Victor e Booker, que discutiam entre si o motivo de terem sido chamados ali. Revirei os olhos ao ouvir um “foda-se, ao menos vamos perder a aula” vindo obviamente de Victor. O ignorei e cumprimentei Booker com um aceno de cabeça, abraçando Yv. Entramos no auditório logo depois dos professores destrancarem a porta. O local era enorme, com um palco na frente e várias poltronas arrumadas em diversas fileiras. Os lugares eram divididos em dois lados, com um espaço livre ao meio para as pessoas andarem. Cumprimentei Jennifer com um aceno, ao vê-la seguir para um lado com Josh, Cohan e Mary. Eu e os garotos fomos para o outro. Sentei-me entre Mish e Yv, com Victor na poltrona abaixo da minha e Booker abaixo da poltrona de Mish. Enquanto os alunos entravam no auditório e nada acontecia, fiquei conversando com Mish sobre nosso gosto musical extremamente parecido, não nos importamos em incluir Yv no assunto e me surpreendi ao saber que ele ouvia música clássica e tocava violino. Nossas atenções e as de todos os presentes foram para o palco, que naquele momento não estava mais vazio. A professora de teatro estava de pé, ao lado do diretor.

— Olá, alunos! — ela sorriu, parecendo incapaz de conter uma certa animação — Obviamente estão se perguntando o que estão fazendo aqui. Bem, irei respondê-los. Eu e o diretor Cowell temos algo para anunciar.

Ela se afastou do microfone, deixando o caminho livre para o diretor, que o seguiu.

Olhei para Mish, procurando saber se ele tinha algum palpite, mas ele apenas deu de ombros. Voltei minha atenção para o diretor que estava parado em frente ao microfone, encarando aquele mar de estudantes confusos e curiosos.

— O baile de boas vindas será em oito semanas! — não tive tempo de calcular o que ele disse ou ao menos absorver, já que no minuto seguinte ao anúncio todos os estudantes estavam gritando loucamente, incluindo Victor, Booker e Yv. Mish sorriu, mas não parecia tão animado quanto, bem, todo mundo. O diretor Cowell passou cerca de cinco minutos pedindo silêncio, mas ninguém obedeceu, até que gritou no microfone um “calem a boca!” e finalmente o ouviram. Ele pigarreou, continuando: — Será organizado pela professora de teatro. Para quem desconhece a existência do baile de boas vindas, explicarei. É, obviamente, uma festa para dar boas vindas aos calouros e confortá-los aqui em nossos braços... — ele abraçou a si mesmo e fechou os olhos, suspirando e relaxando completamente. Segundos depois abriu os olhos em alerta, parecendo perceber o quão bizarro aquilo foi. Pigarreou novamente, recompondo-se e continuando: — É isso. Vamos para as regras. Sem sexo, sem drogas, sem violência, sem bebidas alcoólicas, sem danças impróprias, sem...

O diretor foi interrompido por um toque de celular, fazendo todos olharem ao redor, procurando o aparelho e seu dono. Aquilo teria passado despercebido se fosse em um momento qualquer, mas todos estavam em completo silêncio antes do diretor Cowell ser interrompido. Demorou alguns segundos para Victor levantar-se, com um celular em mãos. Franzi a testa, vendo-o sorrir para o diretor que o encarava, confuso. Victor levou o celular para a orelha, atendendo a chamada antes de fazê-lo.

— Alô? — falou, afastando então o celular da orelha e estendendo-o na direção no diretor, que obviamente estava longe demais para pegá-lo.

— Que merda ele está fazendo? — Yv murmurou, completamente perdido, mas não tanto quanto eu.

— Diretor, é para o senhor. — Victor sorriu brilhantemente, ainda estendendo a mão com o celular — É Deus. Ele disse que a bebida alcoólica deverá ser permitida, e que todos nossos pecados cometidos em tal noite serão perdoados! — olhou ao redor, levando a mão livre para o coração e gritando por fim: — Amém, irmãos!

Todo o auditório explodiu em gargalhadas, e até eu me permiti rir daquilo. Reconheci aquela fala, era de um dos meus filmes favoritos. Sociedade dos poetas mortos. Victor realmente precisava fazer piada de tudo, e fazia, mas aquela tinha sido cômica. Victor soltou uma risadinha, me recuperei e olhei para o diretor, eu pude jurar que ele estava um pouco roxo.

— Senhor Stonem. — o diretor chamou no microfone, fazendo todos se recuperarem e se calarem aos poucos — O senhor tem consciência de que as bebidas alcoólicas não são permitidas nos eventos escolares, nunca foram e nunca serão. Assim como os engraçadinhos que tentaram, tentam e tentarão infiltrá-las. — falou firmemente, recebendo a mão da professora de teatro em seu ombro.

— Poxa, ele gosta mesmo de passado, presente e futuro... — comentei como quem não queria nada, vendo Mish cobrir a boca com a mão e segurar uma gargalhada.

Booker se levantou de repente, fazendo-me tomar um susto e olhar para Yv, procurando alguma resposta. Ele não tinha uma.

— E o senhor tem consciência que ninguém respeita essa regra, e que de qualquer jeito vão colocar bebidas na festa. — Booker ergueu as mãos em sinal de rendição.

Algumas risadinhas foram ouvidas, e todos aplaudiram Booker, que fez várias reverências e trocou um high five com Victor. Ambos mandaram beijos para os estudantes, fazendo-me cair na gargalhada. O que não passou despercebido pelo diretor.

— A senhorita acha isso engraçado? — só percebi que ele estava falando comigo porque Mish cutucou minha barriga, fazendo-me olhar para frente e encarar o diretor que esperava uma resposta.

— Desculpe? — franzi a testa, fazendo todos gargalharem.

Olhei para o lado e pude ver Jennifer bater a mão na testa, rindo com Cohan e Mary, enquanto Josh afundava na cadeira e colocava uma folha na boca, tentando não rir.

Olhei novamente para o palco, vendo a professora de teatro começar a fazer uma massagem nos ombros do diretor, tentando relaxá-lo. Pelo visto ele se estressava bem rápido.

— A senhorita acha o que o Sr. Booker e Stonem fizeram algo engraçado? — repetiu.

Victor e Booker sentaram-se, ambos colocando as mãos nos queixos, como se estivessem pensando naquilo. Obviamente era algo apenas para irritar o diretor, e os dois possuíam uma expressão de deboche no rosto, ao mesmo tempo que divertida.

— Sinceramente? Sim. — respondi normalmente, dando de ombros e prendendo um sorriso petulante ao ver o diretor ficar novamente roxo.

— Amém! — soltou Victor, levantando-se e erguendo as mãos para o céu, fazendo todos os estudantes rirem novamente.

— Sr. Stonem, o senhor quer sair? — o diretor Cowell apontou para a porta, sorrindo triunfante e retomando sua cor natural.

— Olha, essa é uma questão a se pensar. — declarou Victor, erguendo as mãos em sinal de rendição e fazendo todos rirem mais uma vez.

— Ah, pelo amor de Deus! — Yv bufou, puxando Victor para baixo pela camiseta — Fica quieto aí. — resmungou.

O diretor sorriu, a expressão repentinamente calma e aliviada. A professora de teatro parou de massagear seus ombros. Ele massageou as têmporas, passando um braço pelos ombros da professora e aproximando-a de si.

— Obrigado, Sr. Dalton. — agradeceu, fazendo Yv acenar com a cabeça.

O diretor deu lugar para a professora de teatro falar, e ela pegou o microfone.

— Puta que pariu! — Mish bufou, no momento em que seu celular caiu no chão.

Segurei uma risada, vendo-o abaixar-se para pegar o aparelho. Victor virou-se em minha direção, então me deu uma piscadela, virando-se rápido para a frente. Franzi a testa, sem entender o que aquilo significou. Mish ergueu-se novamente, segurando o celular e suspirando aliviado por não ter quebrado. Ri um pouco.

— Alunos, no baile teremos a coroação de rei e rainha, o que é de costume do colégio. — a professora começou a falar — Teremos apresentações, também. Depois irei conversar em particular com as duas bandas que irão se apresentar. E tenho uma novidade para vocês! Nós esse ano queremos dar boas vindas mais calorosas aos calouros, e contamos com a ajuda de vocês.

— Ah, não... — Booker afundou na poltrona.

— Isso é sério? — Victor gemeu de frustração, mas não foi acompanhado por Yv.

— O que, gente? — perguntei confusa, será que eles não estavam lembrando que 1- eu era novata e 2- eu estava ali?

Antes que todo o auditório pudesse explodir em gemidos de desagrado e múrmuros, a professora foi mais rápida:

— Teremos uma apresentação valorizando algo importante para os adolescentes, que nós do colégio iremos decidir. — alguém no fundo soltou “sexo!”, fazendo todos prenderem o riso. A professora ignorou, mas parou um pouco. Foi até o diretor, afastando o microfone dos lábios e trocando alguns sussurros com ele. Voltou ao palco, sorrindo. — Mudança de planos. A escolha será de vocês. Preferem uma peça cultural ou uma apresentação de dança?

— Onde já se viu uma peça em um baile?! — alguém gritou, e facilmente percebi que tinha sido Mary.

A professora fez uma careta, provavelmente nada feliz em saber que os alunos não valorizavam teatro como ela. Múrmuros de aprovação ao comentário de Mary e alguns gritinhos em apoio foram ouvidos.

— Bem, então será uma apresentação de dança. — decidiu ela, ainda com aquela carranca. — Por favor, presidente do grêmio estudantil, suba aqui.

Olhei ao redor, ansiosa por saber quem era. No Brasil eram presidentes por salas de aula, logo não havia um que comandasse todas as salas, mas ali havia. Arregalei os olhos, surpresa, ao ver Yv se levantar e pedir licença aos alunos, tentando ir em direção ao palco. Booker viu e riu da minha expressão incrédula.

— Está se perguntando como alguém como ele conseguiu ganhar as eleições? — chutou.

— Não. — retomei minha expressão de antes, negando com a cabeça — Estou me perguntando como alguém como ele é amigo de pessoas como vocês dois. — apontei para ele e Victor, fazendo Booker rir, assim como Mish.

Mas era verdade. Yv era extremamente gentil e educado, usava óculos, tocava violino, gostava de música clássica, cantava em um coral e era presidente do grêmio estudantil. Como podia ser amigo de dois bagunceiros e desnecessários para o mundo como Booker e Victor? Victor era mais babaca que Booker, mas ambos eram parecidos.

— Acredite, nós nos perguntamos isso todos os dias. — disse Victor, ainda virado para a frente e não me encarando.

Olhei para o palco, vendo Yv finalmente chegar e subir nele, pegando o microfone. A professora murmurou algumas coisas em seu ouvido, e ele assentiu.

— Eu sou o Yv, para quem não me conhece. — um coro de “dã” nasceu, fazendo-o rir um pouco envergonhado — E me mandaram escolher o tipo de apresentação de dança. Eu acho que deverá ser uma dança entre um veterano e uma novata.

Eu esperei que todos vaiassem a ideia ou coisas do gênero, mas os alunos aplaudiram, e aquela era provavelmente a décima vez que eu me surpreendia naquele dia. Aplaudi junto com todos, soltando um “é isso aí!”. A professora de teatro sorriu largamente em aprovação, então dispensou Yv, pegando o microfone de sua mão. Ele desceu do palco, voltando para seu lugar.

— Ei, vocês aí! — gritou a professora, fazendo todos se calarem e olharem ao redor, procurando para quem ela estava apontando — Sr. Booker e a mocinha que está atrás!

Todos olharam para Booker e para mim, inclusive meus amigos que estavam dos nossos lados. Afundei um pouco na poltrona.

— Sim? — perguntei, baixo.

— Vocês dois irão dançar. — sorriu largamente, fazendo-me arregalar os olhos e Booker engasgar e começar a tossir. Victor caiu na gargalhada, levando a mão para a boca ao perceber que apenas ele estava rindo. — Irei procurá-los para marcar os ensaios e resolveremos as coisas. Stonem, pare de rir, por favor. — repreendeu Victor, que assentiu, claramente controlando as gargalhadas que queria dar — Sr. Booker, por que está tossindo tanto? Vá à enfermaria depois. Espero que vocês dois já se conheçam, para as coisas ficarem mais fáceis. Mas, caso não sejam colegas, terão tempo de sobra para se aproximar um do outro.

Todos ainda nos encaravam, ainda mais por conta daquele showzinho que Victor estava dando. Enterrei meu rosto nas mãos, afundando completamente na poltrona.

— Merda.

Mish caminhou ao meu lado, acompanhando meus passos lentos. O gramado de Blanchaster não estava lotado como quase sempre, até porque os alunos já tinham ido para casa, a maioria deles. Olhei para seu rosto, vendo o quanto o sol combinava com ele. O cabelo loiro se tornava mais brilhante com a luz solar em contato com ele, assim como a pele clara que se tornava mais suave ao receber o carinho do sol. Seus olhos azuis pareciam um pouco distraídos, olhando o nada em especial. Então ele olhou para mim, sorrindo de lado. Mish era completamente lindo. Eu via garotos como ele em filmes de romance e séries de adolescentes, mas nunca imaginei que fosse ficar tão próxima de um. Ou ao menos conhecer um. Ele poderia ser considerado o cara perfeito, se não tivesse aquele pequeno defeito que eu tentava ignorar. Mistério. Ele parecia esconder uma grande parte de si mesmo quando estava comigo, e eu não sabia o motivo. Mish parecia estar fugindo de algo. Sempre que eu falava de sua família ele mudava de assunto. Às vezes sumia do nada, apenas sumia. Ou eu sentia que não estava sendo sincero ao me dar uma desculpa ou apenas ao falar algo.

— Você dançar com o Booker não quer dizer que vai com ele para o baile, certo? — perguntou ele, fazendo-me ficar um tempo calada, pensando naquilo.

— Não, não vou com ele para o baile. — ri um pouco, passando os dedos pelos meus cabelos — E aposto que ele não está pensando em ir comigo.

Mish sorriu, parecendo aliviado.

— Que bom. Porque não quero ter que dividir você.

Diminui os passos, olhando para seu rosto. Sorri um pouco, boba, sentindo minhas bochechas esquentarem. Eu esperava ter entendido certo.

— Eu nunca fui convidada para um baile, e isso quase parece um convite. — sorri mais, vendo-o rir e passar o braço pelos meus ombros, abraçando-me.

— Bem, é um. Quer que eu me ajoelhe e te dê um anel? — brincou.

— Não, assim está bom. — ri, batendo de leve em seu peito — A resposta é sim. Mas achei que não gostasse dessas festas.

— E eu não gosto. Mas de você eu gosto. — sorriu para mim, parando de andar.

Sorri instantaneamente, vendo-o pegar minha mão e entrelaçando nossos dedos, puxando-me para voltar a caminhar ao seu lado. Não estávamos indo para um lugar específico, na realidade apenas queríamos caminhar juntos. Olhei ao redor rapidamente e só então percebi que estávamos na praça em frente ao colégio. E eu nem tinha visto que havíamos atravessado a rua.

— E você? — perguntou Mish, depois de certo tempo em silêncio.

— Eu o que? — olhei para ele, vendo-o sorrir minimamente de lado.

— Você também gosta de mim?

Eu não sabia qual sentido nós estávamos usando para o verbo “gostar”, mas soltei uma risadinha e segurei sua mão mais firmemente.

— Se eu não gostasse, estaria aqui com você? Todos os dias? — frisei o “todos”, fazendo-o rir — De mãos dadas e tudo?

Ele ponderou por alguns segundos, mas parecia estar brincando.

— Bem, levando em consideração que você falava mal de Victor Vincent Stonem em 90% das nossas conversas, e ontem saiu de carro com ele... eu não sei.

Senti o sangue esvair do meu rosto e congelei no lugar, fitando aqueles olhos azuis extremamente pacíficos. O tom de voz de Mish era calmo, porém cauteloso. Eu podia ver que ele estava curioso, também. Mas eu simplesmente não consegui entender como ele sabia daquilo. Puxei minha mão, soltando-me dele e parando de andar ao lado de um balanço. Eu sabia que estava parecendo bastante nervosa, e eu realmente estava. Não por Mish ter me visto sair com Victor, mas sim pelo beijo. Será que ele também o viu? Não, impossível, o beijo foi em frente a minha casa.

Calma.

— Mas eu gosto de você, você sabe. Fim da história. — não queria que aquilo soasse tanto na defensiva quanto soou.

Mish também parou de andar.

— Sim, eu sei. Só fiquei curioso porque eu ia chamar você para sair comigo ontem.

Finalmente me toquei. Como exatamente ele sabia daquilo? Mish não foi ao colégio no dia anterior, então como me viu com Victor? Além de que como iria me chamar para sair, se nem foi para o colégio?

— Primeiro, como me viu com ele? Você nem veio para a escola. — franzi a testa — Segundo...

— É, eu faltei as aulas, mas foi por causa da minha família. — cortou — Então lembrei que tinha o dia livre e queria passá-lo com você, aí vim para o colégio pra te chamar pra sair. Quando cheguei aqui, vi você entrando no carro dele. — ergueu as mãos em sinal de rendição.

— Você iria me chamar para sair antes ou depois de mais uma de suas “reuniões de família”? — fiz aspas no ar com os dedos.

As palavras praticamente pularam da minha boca, e apenas percebi o que eu tinha dito quando já era tarde demais. Aquilo soou tão irônico que Mish ergueu a sobrancelha, mas pude ver que também estava surpreso por eu ter dito aquilo. Provavelmente achou que eu havia acreditado todo aquele tempo na desculpa dele de “tenho reunião de família” para recusar algum convite meu. Mish coçou a nuca. Em seu rosto nasceu uma expressão de “vamos mesmo ter essa conversa agora?”, mas eu o devolvi com uma de “você que começou”.

— De Geo... olha, você não entende. — foi a resposta que me deu.

Bufei.

— Então me faça entender! — ele abriu a boca para responder, mas o interrompi: — A vida é sua, eu sei disso! Mas eu sou sua amiga, você pode confiar em mim.

— Eu sei que posso.

— Então confie!

— Eu confio.

— Prove. — encarei-o firmemente, cruzando meus braços e assumindo uma expressão desafiadora.

Mish aproximou-se de mim, tocando em meus ombros de leve, um ato carinhoso. Prendi meus olhos ao chão, claramente emburrada, o que não foi muito maduro, mas não era como se eu estivesse ligando. Ele ergueu meu rosto delicadamente, segurando meu queixo com uma das mãos. Só então percebi o quanto Mish estava próximo de mim. Eu ainda o encarava desafiadoramente, mas minha expressão dura se desmanchou completamente quando senti seus dedos afastarem minha franja da frente do meu olho.

— Olha... é. É, Geo. Não são reuniões de família. — suspirou profundamente, fechando um pouco os olhos. Os abriu lentamente, segundos depois — Eu te prometo que contarei depois do baile. Apenas me dê esse tempo, está bem? Por favor.

Fiquei parada, olhando-o. Repentinamente sua expressão caiu um pouco e ele pareceu cansado, ou era sempre daquele modo e eu nunca tinha reparado? Mish quase sempre estava sorrindo para mim, me fazendo rir, talvez eu realmente não tivesse reparado no quanto ele parecia exausto. Senti a preocupação invadir, mas suspirei um pouco e assenti lentamente. Não era sua obrigação me contar tudo sobre sua vida e seus segredos, por mais que eu quisesse, ele iria me contar porque queria. E se havia pedido um tempo, eu iria respeitá-lo.

— Está tão longe... — murmurei, pensado alto demais.

Mish sorriu um pouco, sereno. Acariciou minha bochecha lentamente.

— Mas eu prometo que contarei. Tudo bem?

Suspirei, fechando os olhos e assentindo. Os abri rapidamente, murmurando um “certo”. Ele se afastou um pouco de mim, então beijou minha bochecha.

— Eu tenho que ir. É melhor a senhorita ir para casa também. — sorriu divertido, fazendo-me rir e suspirar um pouco.

— Nem se eu quisesse. Tenho treino das cheerleaders.

Mish assentiu, beijando novamente minha bochecha e fazendo-me rir, murmurando um “tchau”. Ele beijou mais uma vez, rindo. Se afastou, ainda me olhando com um sorrisinho divertido.

— Vai! Pula, desce e sobe! Vamos jogar direito, nós somos os melhores! Não viemos para vencer, e sim pra competir! Mas se a gente perder, vocês irão... morrer! — fez uma careta quando quase não conseguiu achar algo para rimar.

Ergueu os braços, remexendo pompons invisíveis e cantando, deixando a voz propositalmente mais aguda, claramente imitando uma cheerleader. Deu uns pulinhos quando acabou, piscando para mim e saindo do parque. Eu caí na gargalhada e fiquei um bom tempo rindo, até lembrar que provavelmente estava atrasada para o treino e sair correndo.

Notas finais
QUAL O SEU TIME? Não aconteceu algo "OLHA QUE TRETA" nesse capítulo, mas ele é necessário para a história e dá pra esclarecer algumas coisinhas. E eu gosto dele. Sociedade dos poetas mortos é vida, gente. NÃO ESQUEÇAM DE ENTRAR NO GRUPO (se não sabe do que estou falando, é porque não leu as notas iniciais. Volte lá e leia sz)! E, claro, comentem esse capítulo! Quero saber o que estão achando e de que time vocês são. Não é preciso pensar muito pra perceber que tá rolando clima da Geo com o Victor E com o Mish, e isso não é spoiler, porque está óbvio u_u então, quero saber, você que está lendo isso, é de que time? #TimeVictor, #TimeMish ou #TimeGeo (não querem ela com ninguém). Mas há até aqueles que são #TimeYv! Calma, minha gente. JDHDUISHFIUHWEUIFHIUWH. É isso aí, comentem amorzinhos! Até o próximo. Xoxo, Little G.