The Anchor
16 Me vêem seminua e viro uma fazendeira. — Parte I.
Notas iniciais
Capítulo 15.
Depois que Mish foi embora, saí do parque e fui à quadra encontrar as meninas para treinarmos. O treino foi normal, aprendemos uma nova coreografia e começamos a tentar fazer uma pirâmide, o que me deixou assustada porque nunca tinha feito uma ou algo do gênero. Fala sério, eu sabia dançar, mas não tinha feito nem uma cambalhota sequer antes de entrar na torcida. Mas ninguém precisava saber. Já que a treinadora Elena viu que a maioria das meninas não esperava aquilo, deixou a pirâmide para o próximo treino para nos prepararmos melhor. Durante todo o treino fiquei com Lizzie e Sophia, como de costume, e Harmony não falou comigo (lê-se encheu meu saco), aliás, ela mal participou e foi liberada mais cedo que nós. Eu sempre me perguntava o porquê de tantos privilégios. Mas, tudo bem. Sofrerei calada. Depois do treino fui à sorveteria com Sophia e Lizzie, que não ficava muito longe do colégio. Sophia e eu dividimos os fones de ouvido dela e ficamos cantando musicas aleatórias e rindo uma com a outra, já que Lizzie parecia estranhamente distante e quieta. Insistimos um pouco para ela se animar, então decidimos deixá-la em seu canto, obviamente algo estava acontecendo, mas iríamos deixar que ela nos contasse por conta própria e sem pressão. Fui para casa e praticamente capotei, mergulhando num profundo sono.
Sonhei que eu estava sentada em um banco de madeira no meio de um parque, e sem roupa. Chovia e estava tudo completamente escuro, mas eu não sentia frio. Nada. Uma música calma tocava de fundo, vindo de alguma das casas que estavam na rua. Um homem se aproximou de mim, e quando abriu a boca para falar algo, ouvi a voz de Jennifer.
Acordei com mãos frias tocando meus braços com impaciência, sacudindo-me de um lado para o outro, fazendo-me abrir os olhos alarmadamente, assustada.
— Acorda, coisa. — Jennifer chamou com a voz arrastada e preguiçosa, parando de me sacudir quando abri meus olhos e bufei longamente ao vê-la. — Seu celular não despertou. Quero você pronta em vinte minutos, ou vou embora e te deixo aqui. — fechei meus olhos com força, cobrindo-me completamente e rolando na cama, ficando de barriga para baixo e suspirando.
Ouvi o som da porta batendo no momento em que Jennifer saiu do quarto, fazendo-me cogitar a opção de voltar a dormir, mas vi que a luz do lado de fora invadia meu quarto pelas janelas, o que eu sabia que me impediria de dormir novamente, além de que eu sabia que Jennifer iria realmente me deixar ali se eu não levantasse.
— Bom dia! — minha mãe me recebeu com um sorriso caloroso quando cheguei à cozinha, não me deixando sorrir de volta, pois fez uma careta ao olhar para meu rosto — Não sei o motivo de usar essa maquiagem forte de manhã cedo!
Minha mãe simplesmente odiava o fato de que eu gostava de preto. Eu não estava parecendo uma gótica ou sei lá, mas na cabeça dela usar apenas um delineador e lápis de olho preto significava que eu era emo. Revirei os olhos, indo até a mesa e sentando-me, vendo minha mãe pegar as torradas já prontas e colocar uma no meu prato e outra no de Jennifer.
— Horrível, não é? — comentou minha irmã, como quem não queria nada. Pegou a torrada e deu uma mordida, olhando-me como se sorrisse. Por dentro mesmo. — Parece a garota lá da família Addams.
— Muito engraçado. — resmunguei, vendo-a rir pelo nariz e soltar um "brincadeirinha", tomando um gole do suco de abacaxi depois de engolir o pedaço de torrada.
Mostrei a língua para ela, pegando meu copo de suco e tomando um pouco. Eu não estava com muita fome. Eu nunca sentia fome de manhã, provavelmente porque era de manhã e porque tinha jantado bem no dia anterior.
— Geo, deixei ontem de noite na costureira aquele vestido azul marinho que você rasgou sem querer semana retrasada. Achei no seu guarda-roupa. — minha mãe olhou pra mim enquanto arrumava seus cabelos lisos e escuros com os dedos, sorrindo um pouco — Quero que vá lá hoje pra pegar.
Arregalei meus olhos, engasgando um pouco com o suco e engolindo-o de vez. Tossi algumas vezes, largando a comida no prato e me acalmando aos poucos, tossindo mais uma vez e finalmente voltando ao normal. Minha garganta queimou um pouco.
— Como assim a senhora entrou no meu quarto?! — olhei acusadoramente para minha mãe, vendo-a revirar os olhos e Jennifer gargalhar.
— Deixa de besteira, parceira. — ela ergueu a mão para um high five, que eu miseravelmente não correspondi, pois estava chocada demais.
Jennifer parou de rir automaticamente, olhando para nossa mãe com a testa franzida. Bati a mão na testa, murmurando um frustrado “eu mereço”. Às vezes minha mãe era completamente estranha.
— Mãe, hum, a senhora não acha que está meio velha demais para falar coisas como “parceira”? — perguntou minha irmã, cautelosamente.
Minha mãe não era o tipo de mãe que me envergonhava quando me deixava no colégio ou nas reuniões de pais — na realidade, em toda minha adolescência, ela só foi a uma reunião de pais. Pelo contrário, todos meus amigos gostavam dela. O problema era em casa mesmo, quando ela tinha uns surtos e achava que ainda estava na casa dos vinte. Às vezes ela fantasiava que éramos ricas, morávamos em uma mansão e tínhamos um motorista chamado Jhonatan. E ela agia como se fosse realmente verdade, mesmo sabendo que não era. Bizarro.
Quase tive vontade de rir graças ao tom de voz que Jennifer usou, como se nossa mãe fosse uma criancinha. Minha mãe revirou os olhos, bagunçando um pouco os cabelos de Jennifer, como se Jennifer fosse a criancinha da história.
— Nunca estou velha demais! — deu uma tapinha no próprio quadril, sorrindo divertidamente. Eu e Jennifer trocamos olhares do tipo “melhor nem comentar”, mas rimos em seguida. — Enfim, filha, a costureira mora duas ruas depois da casa de sua tia Milleny. Vá depois do colégio.
Olhei para minha mãe, tomando todo o suco que estava no copo e então limpando a boca com um guardanapo.
— Aquele vestido é de festa. — lembrei, apoiando meu queixo em uma de minhas mãos. — Alguma ocasião especial?
— Sim, o desfile da sua prima Juliet. É no sábado. — eu sorri com aquilo. Minha prima, filha da minha tia Milleny, era modelo. Quando nós éramos pequenas e ela ia me visitar no Brasil, queríamos ser modelos quando crescêssemos e sonhávamos com o dia em que posaríamos para fotos, até fazíamos desfiles na sala com os vestidos da minha mãe. Mas Juliet foi a única que persistiu com o sonho e conseguiu realizá-lo, deixando-me feliz por ela e fazendo-me descobrir que não era o que eu queria. Antigamente se tratava só de uma brincadeira pra mim, mas não pra ela. Assenti, levantando-me e decidindo que não iria comer mais. — Jennifer não vai. — minha mãe fez uma careta ao olhar para Jennifer, que deu de ombros.
— Por quê? — bufei um pouco — Não que eu te ame, mas não quero ficar lá sozinha! Jenn, é a nossa prima desfilando numa passarela de verdade, e não o tapete da sala!
Jennifer riu e eu até fracamente a acompanhei.
— Mas vai ficar. — ela me sorriu brilhantemente, fazendo-me revirar os olhos. — E, sim, você me ama. Nós estamos morando nos Estados Unidos, vemos a Juliet quase todo dia agora. E ela te ama, ter você lá já é o suficiente.
O fato de que toda minha família era dos Estados Unidos e apenas eu, Jennifer, meu pai e minha mãe éramos do Brasil era um pouco estranho. Ela não respondeu minha pergunta, mas deveria ser um motivo muito bom, já que eu e Jennifer gostávamos bastante de Juliet. Resmunguei algumas coisas antes de seguir pra sala e subir as escadas, em direção ao meu quarto.
Escovei meus dentes rapidamente e voltei para o quarto, trocando um sms de bom dia com Mish e sendo surpreendida com um "fez o trabalho de bio?" dele. Ofendi todo o mundo de todos os nomes possíveis, ficando repentinamente de mau humor por ter esquecido o maldito trabalho, mas Mish me salvou dizendo que colocaria meu nome no trabalho dele. Eu amava aquele garoto! Eu e Jennifer pegamos o ônibus depois de um tempo esperando na parada, e chegamos ao colégio um pouco atrasadas. Ela correu pra sua classe e eu fui pra minha, chegando no meio da aula de Biologia.
— Licença, professor. — pedi baixo ao entrar na sala, ele apenas assentiu um pouco.
Fui rapidamente até onde Mish estava, sentando-me ao lado dele e suspirando, prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo folgado com um elástico que estava em meu pulso e afundando na carteira. Respirei fundo algumas vezes, já que estava um pouco ofegante, graças a toda a correria para tentar chegar a tempo.
— Achei que não viria mais. — Mish murmurou, sorrindo de lado e pegando minha mochila das minhas costas, abrindo-a e pegando meus livros.
Sorri em agradecimento à sua atitude.
— Nem sou louca de perder o trabalho. A propósito, muito obrigada por colocar meu nome, sério. — ri um pouco, olhando para meu caderno que já estava em cima da mesa.
O abri com preguiça, roubando uma caneta da mesa de Mish, já que todas as minhas estavam perdidas. Era um pouco estranho falar sobre trabalhos com Mish, já que ele não era um aluno muito esforçado, então fiquei até surpresa quando soube que ele tinha ao menos feito o trabalho. Mas então lembrei que ele precisava da nota mais que eu.
— Você sabe que por você eu faço tudo. — ele respondeu daquele jeito completamente encantador e que me fez questionar sobre o sentido que ele usou na frase.
Olhei para seu rosto, sorrindo. Meus olhos passearam por seus traços bem desenhados, ficando por curtos segundos me seus olhos estonteantes e azuis, até pararem em sua boca. Um pequeno corte estava um pouco acima do seu lábio superior, e franzi a testa ao vê-lo.
— O que foi isso? — perguntei, aproximando-me um pouco e levando meu polegar para acima de seu lábio superior, fazendo-o olhar para baixo, na direção da própria boca.
— Eu não s... — Mish começou, mas parou abruptamente quando meu polegar tocou delicadamente no corte e desceu um pouco, tocando no lábio superior e fazendo-me olhar para lá.
Mish pegou em meu pulso com delicadeza, e por um segundo achei que ele iria afastar minha mão de seus lábios, mas não o fez. Seus dedos apenas tocaram em meu pulso como se tocassem em uma pena, afastando-se dele em seguida. Ele ergueu o olhar lentamente, buscando o meu. Eu ainda olhava para sua boca, inexplicavelmente paralisada no lugar. Olhei para seus olhos quando percebi que ele me olhava, e nossos olhares se prenderam como se aquilo já tivesse acontecido antes. Eu não sabia muito bem o que estava acontecendo, mas era como se eu pudesse ver sua alma apenas ao olhar fixamente para seus olhos cristalinos. Era como se nossos olhares estivessem se tocando, falando a mesma língua e mantendo um contato longo e intenso. Era algo... puro. Parecia algo puro. Como se aquilo fosse natural, mas não era, porque nunca tinha acontecido entre nós antes. Em questão de segundos vi-me um pouco ofegante, mas ainda fitando aqueles olhos que sempre pareceram obscuros para mim, inexpressivos, mas naquele momento mostravam muitas coisas inexplicáveis. Mish sempre esteve disposto a me fazer sorrir e determinado a me fazer esquecer os problemas, por mais complicados que fossem, mas aquele ar de mistério sempre esteve presente.
Às vezes eu me questionava se ele era completamente honesto comigo (não em relação as “reuniões de família”, porque eu já sabia que eram mentira) em relação a si mesmo, mas eu me forçava a parar de pensar daquele jeito, porque ele era meu amigo. De qualquer jeito, não era o tipo de pessoa que conseguimos ver apenas ao olhar para seus olhos. Mas, naquele momento, parecia que Mish estava deixando-me finalmente vê-lo por dentro. Eu estava hipnotizada, completamente hipnotizada por aqueles olhos. Por ele. Mish era completamente lindo, na realidade a palavra parecia pequena demais para defini-lo. Como eu nunca tinha percebido? Não, eu tinha percebido sim. Só nunca me permiti pensar nele verdadeiramente de outro modo. Eu via sua beleza como uma irmã via a beleza do próprio irmão, e não como outra coisa. Mas, naquele momento, eu vi. Eu sabia que não sentia nada por Mish, tinha certeza daquilo, mas eu me vi perdida na imensidão azul de seus olhos e com vontade de... beijá-lo.
Eu estava com vontade de beijá-lo. Eu não sabia o motivo daquilo, muito menos o motivo de estarmos ainda nos olhando de modo tão intenso que me vi extremamente ofegante. Olhei para sua boca novamente, descendo meu dedo sem pressa e roçando um pouco em seu lábio inferior, tocando-o. Mish pareceu engolir em seco, olhando para meus lábios. Ele inclinou-se um pouco em minha direção, ainda olhando fixamente para minha boca. Eu sabia o que ele queria fazer, e me perguntei se a idéia tinha passado por sua mente apenas naquele momento ou se já tinha passado... antes. Os abraços, beijos na bochecha, carinhos, conversas, brincadeiras bobas, tudo. Era impossível que ele sentisse algo por mim e eu nunca tivesse notado, certo?
Eu não me afastei ou o parei, eu sabia o que eu queria. Eu queria que aquilo acontecesse. O que era novo e um pouco assustador, considerando que Victor era quem irritantemente ocupava minha mente antes de dormir.
Então, tão rápido como começou, acabou. Um garoto passou rápido ao lado de minha carteira, batendo em meu ombro e fazendo-me despertar, assim como Mish. Afastamos-nos no segundo seguinte, e recolhi minha mão, levando-a para minha nuca e virando o rosto, sentindo todo meu rosto esquentar. Respirei profundamente, procurando regular minha respiração. Virei a cabeça e olhei para Mish de lado, vendo-o coçar a garganta algumas vezes, olhando para o professor e fingindo prestar atenção. Olhei ao redor. Estávamos na sala de aula, mas no momento em que nossos olhares se prenderam pareceu que estávamos sozinhos. Pareceu que todo o barulho da sala de aula e os alunos na mesma tinham sumido. E eu sabia o que teria acontecido se o garoto não tivesse atrapalhado. Sacudi um pouco minha cabeça, afastando aqueles pensamentos. Olhei para Mish, vendo-o olhar para mim e sorrir de lado, como se nada tivesse acontecido. Eu invejava o modo como ele conseguia parecer tão natural em situações constrangedoras.
— Você fica bem de cabelo preso. — elogiou, fazendo-me sorrir um pouco, envergonhada.
Um segundo depois me lembrei do que Victor me disse no carro, no dia da corrida, sobre meu cabelo. Suspirei, pegando meu caderno e procurando esquecer aquilo.
— Obrigada, senhor. — baguncei um pouco seus cabelos lisos, fazendo-o rir pelo nariz.
O professor começou a recolher os trabalhos da turma, e quando se aproximou de nós Mish entregou a ele. Sorri em agradecimento para o loiro, fazendo-o me dirigir uma piscadela.
— Bem, pessoal, fico decepcionado em saber que quase ninguém fez o trabalho. — lamentou o professor, jogando os poucos trabalhos em cima da mesa de madeira. Prendi o riso, assim como Mish — Então passarei uma atividade. Duplas. E eu que escolho.
Todos, incluindo nós dois, soltaram gemidos de desaprovação, mas o professor ignorou e apenas sorriu como se dissesse “eu que tenho o poder aqui”. Suspirei um pouco, afundando no meu lugar. Eu nunca tinha sorte naquelas coisas de “escolherei as duplas”, pois nunca ficava com um amigo ou amiga. O professor começou a anunciar as duplas que iriam fazer a atividade, e eu rezei mentalmente para ficar com Mish. Mish me abraçou de lado, beijando delicadamente minha testa e esperando o professor dizer meu nome ou o dele.
— Geovana... — o professor começou, apontando para mim e fazendo-me dar um pulo na carteira, livrando-me do braço de Mish e cruzando os dedos — Você fará com Luke.
Bufei internamente. Eu nem sabia quem era Luke! Mas, tudo bem, era só uma maldita atividade. Olhei para Mish e peguei meu material e minha mochila, sem me importar em guardar os livros. O professor apontou para um garoto que estava do outro lado da sala. Mish ergueu os polegares, em sinal de positivo, como se quisesse me encorajar, ri um pouco e segui para onde o tal Luke estava. Puxei uma cadeira, colocando-a em sua frente e sentando-me, joguei o material na mesa em frente à carteira e olhei para o garoto no momento em que ele olhou para mim.
Então o reconheci. Ele era o garoto da minha primeira semana de aula, o qual eu perguntei qual era a primeira aula quando estava com Jennifer. Sorri um pouco e ele sorriu de volta, mas não pareceu me reconhecer, e se reconheceu, nada disse.
Eu e Luke começamos a atividade — que era escrever um texto sobre sei lá o que —, assim como todos na sala, e estávamos indo bem, até. Não conversamos muito, apenas me apresentei como Geo mesmo. Olhei ao redor, procurando Mish, e o vi sentado com uma garota loira. Ele olhava para o livro, mas ela olhava fixamente para ele e aparentemente — o que minha miopia me deixou ver — ela sorria de modo nada inocente. Mish ergueu o olhar, fitando-a, e ela se inclinou na direção dele, sussurrando algo em seu ouvido. Sua mão deslizou pra coxa do garoto. Trinquei meu maxilar e cerrei meus punhos de leve, atraindo a atenção de Luke quando sussurrei um “vagabunda”. Mish soltou uma risada arrastada e curta ao ouvir o que a garota sussurrou em seu ouvido, mas afastou a garota e claramente dispensou-a, voltando a fazer a atividade como se fosse a coisa mais importante. Sorri ao ver aquilo, suspirando um pouco e voltando ao normal.
— Ele é seu namorado? — a pergunta de Luke me surpreendeu um pouco.
Olhei para o garoto em minha frente, vendo que ele tinha observado toda a cena. Ri um pouco, negando com a cabeça.
— Não.
Ele assentiu e ficamos em silêncio. Passaram-se longos minutos e a atividade estava quase completa, então olhei para o rosto do meu parceiro, que lia algo no livro de Biologia e passava para o caderno. Olhei atentamente para os traços de seu rosto, e conclui que Luke me lembrava muito alguém, mas eu não sabia quem.
— Meu irmão é do primeiro ano. — respondeu normalmente, cruzando os braços e encostando-se na parede — E você está gloriosa nesse uniforme.
Meu irmão é do primeiro ano...
A resposta apareceu como se estivesse ali o tempo todo, e talvez realmente estivesse. Victor. Luke era irmão de Victor. A semelhança era visível, mas o que mais entregava o parentesco eram os olhos de Luke, extremamente parecidos com os de Victor. Luke ergueu o rosto, percebendo que eu estava o olhando há vários minutos. Pigarreei, olhando para o livro e então para ele novamente, que naquele momento me encarava com a testa franzida. Luke era claramente mais novo e seus cabelos eram mais claros que os do irmão, mas ele definitivamente era parecido com Victor.
— Você parece com seu irmão. — declarei, esclarecendo o motivo de estar olhando-o.
— Isso foi um elogio? — Luke soltou, fazendo-me parar, então riu e eu o acompanhei. Ele era mais legal que o irmão, também. — Todo mundo diz isso, e todo mundo acha que deve ser o máximo ser irmão dele. Não sei o motivo de aparentemente as pessoas venerarem ele aqui. — sorri ao ouvir aquilo, finalmente alguém me entendia! — Mas, acredite, não é nada legal ser irmão dele.
— Eu não o venero! — ergui as mãos em sinal de rendição, vendo-o rir divertidamente — Mas, por que não é legal ser irmão dele?
Luke deu de ombros, olhando para o caderno e voltando a escrever.
— Ele não me bate e nem brigamos. Mas também não passamos quase nenhum tempo juntos e não fazemos aquelas coisas de irmãos. A gente mal se fala, entende? — olhou para mim.
Parei um pouco. Eu e Jennifer não éramos necessariamente melhores amigas, nós brigávamos sempre e pensávamos diferente em quase tudo, mas ainda assim tínhamos nossos momentos de carinho. Ela poderia ser insuportável quase sempre, mas era minha irmã e eu a amava.
— Por que isso? — franzi a testa, sem entender.
Luke deu de ombros.
— Acho que ele me considera infantil, ou sei lá. Mas eu até entendo. Victor é completamente na dele, entende? — assenti, por mais que fosse bem difícil de imaginar. Victor, o grande e inconveniente pé no saco era “completamente na dele”? — Mal fala comigo ou com nossos pais, na realidade ele quase nunca está em casa, e quando está... se tranca no quarto. Eu queria ter um irmão, às vezes. Alguém para me espelhar, assim como a maioria dos meus amigos.
— Seu irmão não é a pessoa certa para se espelhar, Luke. — falei, vendo-o franzir a testa. Sorri de lado — E você é um garoto legal e não precisa se espalhar em ninguém pra isso. — me inclinei um pouco em sua direção, sussurrando por fim: — E não conta pra ninguém, mas você é bem melhor que ele. — dei uma piscadela, voltando ao meu lugar.
Luke sorriu largamente e nós rimos em seguida.
— Sério?
— Com certeza. — afirmei, convicta.
— Obrigado, Geo.
Sorri de lado e voltei minha atenção para o caderno, voltando a escrever. Olhei um pouco para Luke, vendo-o voltar a fazer a atividade. Era engraçado o fato de que eu estava há semanas em Blanchaster, e nunca tinha tido uma conversa de verdade com Luke, e ele era um garoto legal. Aquelas coisas eram estranhas.
Caminhei pelo corredor que levava para o refeitório, sabendo que encontraria na mesa da ponta Mish, Sophia, Lizzie e talvez May. Eu sempre me sentava com eles, e no começo éramos apenas eu, Mish e May, depois foi que Lizzie e Sophia entraram no grupo. Ás vezes até Edward ficava um pouco conosco. Assim como Yv, quando não estava com os jogadores de futebol.
O corredor estava quase vazio, se não fosse por mim e mais uma menina. Segui pelo corredor, quase o virando e já podendo ouvir a gritaria dos alunos que estavam no refeitório, mas naquele momento um garoto passou correndo entre eu e a garota que estava no corredor, derrubando algumas coisas que estavam nos braços dela, continuando a correr como se nada tivesse acontecido.
— SEU GRANDE IMBECIL! — gritou ela, mesmo ele não estando mais ali para ouvir.
Franzi a testa ao ouvi-la dizer aquilo. Sua fala teria sido completamente normal, mas ela não falou em inglês, e sim em português. Eu nem sabia que tinha outra brasileira em Blanchaster, fora eu e Jennifer. Aproximei-me dela, abaixando-me e ajudando-a a pegar as coisas que estavam no chão — um caderno, várias canetas e mais algumas coisas. Quando olhei para seu rosto a reconheci, ainda mais depois de ver que usava o uniforme das cheerleaders, assim como eu. Ela era a garota que chutou Victor na aula de educação física, eu também a conhecia dos treinos das cheerleaders, mas nunca paramos para conversar direito. Além de que eu tinha algumas aulas com ela, já que ela era do primeiro ano. Lauren, que todos chamávamos de Lori. Ela levantou e eu levantei um pouco depois, dando o caderno para ela e sorrindo de lado.
— Você é brasileira, Lori? — perguntei, achando praticamente impossível aquilo.
Ela não tinha nem um pouco cara de brasileira, por assim dizer.
— Brasileira...? — então parou, rindo um pouco e entendendo o motivo da pergunta — Eu esqueci que você é. Não, não sou. Minha mãe sim.
Assenti, entendendo. Assim como Lizzie, Lori não parecia ser a maior fã das cheerleaders e de ser uma. Mas Lizzie até parecia gostar um pouco, já que eu e Sophia estávamos com ela. Porém, Lori não. Ela sempre parecia estar nos treinos de má vontade, como se estivesse sendo forçada.
— Então... o que está achando da idéia da pirâmide com as meninas? — perguntei, não sabendo muito bem como puxar assunto.
Lori fez uma breve careta.
— Doloroso. — eu ri um pouco e ela me acompanhou — E chato, como sempre.
— Desculpa, mas — falei rapidamente e parei um pouco. Ela fez um gesto com a cabeça, pedindo continuação — por que está nas cheerleaders?
Lori parou um pouco. Não como se estivesse pensando na resposta, mas sim como se estivesse me analisando. Eu reconheci aquela expressão. Ela queria saber se eu era confiável ou não, ou se valeria a pena contar o que quer que fosse para mim.
— Não é nada de mais. — deu de ombros, segurando com mais firmeza os materiais — Fiz uma aposta, então perdi. Tive que entrar nas cheerleaders, já que era o que aconteceria se eu perdesse.
— Apostou com quem?
— Victor Vincent Babaca Stonem.
— Ah. Explicado. — sorri de lado, entendendo.
— E você? Por que está na torcida? — ela me surpreendeu com a pergunta — Você parece gostar, mas não consigo te ver como uma cheerleader como... sei lá, a Harmony. Desculpe. Ninguém merece ser comparado com aquela Barbie lésbica.
Nós paramos, então caímos na gargalhada. Lori pareceu ser bem parecida comigo, mesmo que aquela fosse a nossa primeira conversa de verdade.
— Nada contra as lésbicas, tudo contra a Harmony. — falamos na mesma hora, e rimos mais ainda.
Aos poucos me acalmei, sorrindo e rindo um pouco.
— Eu não estou para torcer. — respondi sua pergunta, vendo-a franzir a testa, curiosa — Porque, fala sério, a última coisa que eu quero é torcer por idiotas como Victor correrem em um campo atrás de uma bola voadora. — Lori riu alto e concordou com a cabeça, ri — Mas eu gosto de dançar, de verdade. E os uniformes são até bonitinhos, vai!
Lori olhou para si mesma, depois para mim. Fez uma careta de brincadeira, mas ela se desfez e a garota riu, assentindo.
— São sim. — concordou.
Então me lembrei que meus amigos estavam me esperando na mesa, ainda.
— Eu estou indo almoçar. Vamos? Depois você guarda isso aí. — apontei para os materiais em seus braços, pegando o caderno para ajudá-la.
— Tudo bem. — assentiu e viramos o corredor.
As últimas aulas passaram exageradamente lentas e cochilei em quase todas, se não fosse por Mish que me manteve acordada nas poucas aulas em que fazia comigo. Nas outras eu estava com Lori, mas ela não se preocupou em me manter acordada, na realidade ela que me incentivou a dormir. Após o término da última aula, me despedi dos meus amigos e não esperei Jennifer, já que eu precisava ir à costureira e ela iria para casa.
Esperei um ônibus que demorou um pouco para passar, me deixando impaciente, mas ele finalmente apareceu e eu o peguei. Sentei sozinha ao lado da janela, no fundo do ônibus. Durante o caminho pensei sobre o acontecimento com Mish na aula de Biologia. Aquilo não poderia acontecer. Não era certo, simplesmente não daria certo. Eu gostava de Mish, de verdade, ele era um ótimo amigo e realmente incrível, mas eu não queria estragar nossa amizade e atacá-lo com meus dramas. Ele não merecia, e eu sabia que provavelmente ele já tinha problemas demais. Eu nunca fui boa com relacionamentos, na realidade nunca tive um de verdade.
Eu já havia realmente gostado de vários garotos e também confundido sentimentos em relação a outros, mas quase nunca era correspondida, e nunca dava certo. Mas meus pais nunca me deixariam namorar, principalmente meu pai, além de que eu não pensava muito naquilo. Relacionamentos sérios nunca foram para mim. Nada sério era para mim. Eu era despreparada demais para manter algo. Eu não poderia ter sentimentos por Mish ou tentar algo com ele, acabaria decepcionando-o e mostrando o quanto eu era estupidamente inexperiente com tudo. Minha mente vagou por um tempo, enquanto eu encarava o sol do lado de fora do ônibus, criando contra minha vontade um rosto na minha cabeça. Outro problema, alguém em especial, infelizmente. Victor. Sacudi um pouco a cabeça, me forçando a não me lembrar daquele beijo e pensar em qualquer outra coisa que fosse.
Desci do ônibus na parada perto da casa da minha tia Milleny. Depois de um tempo passei pela esquina de sua rua, mas não fui à sua casa, apenas segui direto até completar duas ruas depois da sua. Segundo minha mãe, era ali onde a costureira morava. Perguntei a algumas pessoas, já que eu não sabia qual era a casa, mas não demorou muito para eu acabar de frente a uma casa branca. Toquei a campainha duas vezes até uma mulher de meia idade, com óculos de grau na gola da blusa e cabelos pretos me atender. Rapidamente expliquei quem eu era e o que eu estava fazendo ali, então entrei.
Naquele momento eu me vi sentada em um sofá confortável, com uma xícara de chá em minha mão. Eu não bebia chá, na verdade odiava, mas o que eu não fazia para prezar minha educação, certo? Não tanto. Sorri um pouco amarelo e coloquei a xícara em cima da mesinha de centro, deixando claro que eu não gostava de chá, mas sem precisar dizer nada. Sorri um pouco, vendo a mulher pegar meu vestido que estava em cima do sofá e colocá-lo em seus braços.
— Querida, não tive tempo de terminá-lo. Estive lotada de trabalhos. Importa-se se eu o fizer agora? — sorriu um pouco.
— Não, tudo bem. Não estou com pressa. — eu realmente não estava.
Estava com sono, o que era diferente, porém tão importante quanto. Mas não custava nada esperar um pouco. Ah, merda, eu sempre estava com sono mesmo, de qualquer jeito. A mulher se afastou de mim e foi pra área da casa, deixando-me sozinha na sala espaçosa e aconchegante, com cheiro de chá. Encostei-me mais no sofá, relaxando nele e pegando uma revista que estava em cima da mesinha de centro, analisando a capa sem muito interesse. Justin Timberlake. Eu até gostava dele, mas não estava com vontade de ler sobre o tal. Levantei-me, correndo os olhos pela sala. Algumas fotos de crianças estavam em porta retratos que enfeitavam as estantes, que talvez fossem filhos da costureira ou algo do tipo. Eu não podia ver o resto da casa, mas desconfiei que tudo fosse tão organizado e branco como a própria sala. Móveis claros, paredes brancas, chão branco, teto branco. Era uma casa bonita, mas eu não conseguiria morar ali. Era absurdamente limpo, organizado e... branco.
Caminhei um pouco, olhando para trás para ver se alguém estava me observando. Não havia ninguém. Continuei andando, até seguir por um corredor vazio. Minhas pernas pareciam conter vida própria, e eu sabia que não era muito educado invadir a casa de alguém daquele jeito, mas minha curiosidade e meu tédio eram maiores. Virei, saindo do corredor e parando na frente de várias portas brancas. Quartos, obviamente.
— Aí está você!
Virei-me rapidamente, surpresa, dando de cara com a mulher, que naquele momento tinha o óculos de grau no rosto e meu vestido em mãos. Ela não parecia irritada, pelo contrário, sorria um pouco. Me senti extremamente envergonhada e sorri sem jeito.
— Ahn... desculpe. Não quis invadir sua casa — ri um pouco e ela negou algumas vezes com a cabeça, como se não houvesse problema.
— Aqui está o vestido. Pode entrar e prová-lo. — ela abriu a porta atrás de mim com a mãe livre, empurrando-me de leve para dentro do quarto e entrando depois de mim. Não me surpreendi ao ver um quarto claro, extremamente limpo e organizado. — Sinta-se a vontade, e qualquer coisa é só me chamar. Quando estiver pronta pode ir me chamar na área, estarei arrumando outro vestido. Mas não se envergonhe. Pode chamar. — sorriu simpática.
Ela foi até a cama do quarto e deixou o vestido ali. Assenti, erguendo meus dois polegares em positivo. A costureira me deu uma piscadela e saiu pela porta, escorando-a e não fechando-a. Não me importei em fechar a porta, já que provavelmente a mulher estava sozinha em casa e a escorou, de qualquer modo. Olhei ao redor, suspirando um pouco. Não me prendi aos detalhes do quarto, o que prendeu minha atenção foi um enorme espelho no canto do mesmo. Era possível ver todo o meu corpo, já que ele era realmente grande e na vertical. Tirei a mochila das minhas costas, jogando-a na cama e percebendo só então que ainda estava com ela. Provavelmente eu já estava acostumada com o peso. Olhei meu reflexo no espelho, passando os dedos algumas vezes no meu rosto, querendo me livrar de qualquer resquício de maquiagem que estivesse nele, a não ser pela maquiagem escura nos meus olhos. Desfiz o rabo de cavalo folgado que prendia meu cabelo, fazendo um mais firme e prendendo-o melhor. Fiquei certo tempo analisando meu corpo, mordendo meu lábio fracamente.
Quando mais nova eu era extremamente magra, o que me incomodou bastante. Na medida em que fui crescendo eu comi de tudo, mas nunca consegui engordar. Não naquela época. Porém, nos últimos quatro ou três anos, meu corpo começou a mudar e parei de implicar tanto com ele, já que comecei a ganhar mais carne e deixei de parecer uma anoréxica. E nos últimos dois anos ele realmente começou a se desenvolver, o que era completamente normal e me deixava feliz por me sentir... bonita. Como todas as minhas amigas. Depois da morte de Cam eu não quis comer ou fazer qualquer outra coisa, eu não me importei em voltar a ser extremamente magra, mas minha mãe sim. Ela me forçou a comer, e quando eu engolia a comida eu estava fazendo por ela, porque eu sabia que ela se importava. No fim de tudo desenvolvi um corpo mais evoluído que os das garotas da minha idade, com curvas nos lugares certos e me deixando com uma aparência mais velha e madura. Não era um corpo perfeito, na realidade estava longe de ser, mas eu gostava dele. Não me perguntem como consegui fazer a proeza de partir de quase-anoréxica para consideravelmente-gostosa.
Geovana, se eu não fosse você, eu te pegaria.
Ri com aquele pensamento, puxando delicadamente para cima a blusa do uniforme das cheerleaders e jogando-a na cama, ao lado do vestido. Desci a saia curta, levando-a até meus tornozelos e passando por meus pés, deixando-a no chão mesmo. Meu sutiã meia-taça tinha a estampa de típicos animais de fazenda. Minha calcinha era preta e sem nada de especial, a não ser por um pequeno laço vermelho desenhado atrás. Ri olhando-me no espelho. Aquele sutiã não era nem um pouco sexy, pelo contrário, era completamente broxante e infantil. Tudo culpa minha, que deixei minha mãe comprar peça íntima pra mim sozinha, por preguiça de ir comprar com ela.
Fui até a cama, pegando o vestido e analisando-o um pouco, voltando para o espelho. Abaixei-me, colocando as pernas dentro do vestido e começando a subi-lo delicadamente, tomando o cuidado de não rasgar. Quando chegou no meio das coxas eu abri o zíper que tinha na lateral dele, logo subindo facilmente. Passei meus braços pelas aberturas, lutando para fechar o zíper em seguida. Não consegui e desisti, com medo de acabar quebrando, então apenas segurei no tecido mesmo, apenas para ver como estava. Sinceramente, eu nem lembrava onde ele antes estava rasgado antes, então parecia bom. Dei de ombros, tirando-o rapidamente e colocando na cama.
Sentei na cama, passando os dedos com delicadeza pelo tecido do vestido, sorrindo um pouco ao ver as camadas de tecido que ele possuía. Eu gostava dele. Era bonito. Então senti que estava sendo observada por alguém, e praticamente pulei da cama e olhei pra porta. Antes que eu pudesse ao menos piscar, ela se abriu e revelou alguém que eu definitivamente não esperava encontrar. Soltei um grito surpreso, agarrando o vestido e colocando-o colado ao meu corpo, já que era maior que o uniforme. Mas não serviu de muita coisa, já que o vestido e os tecidos estavam bagunçados, um por cima do outro. Minhas bochechas queimavam e eu apenas queria sumir dali e me livrar do olhar dele. Era impossível que ele estivesse ali. Aquilo não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo.
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