The Anchor

13 Sou quase sequestrada. — Parte I.


Notas iniciais
ESTOU DE VOLTAAAAA! Ia postar esse capítulo ontem, porém fiquei sem internet e blá blá blá. Mas cá estou eu. Esse capítulo tem duas partes! E HÁ UMA MÚSICA NELE! Espero que vocês gostem. Boa leitura.

Capítulo 12.

Todos provavelmente deviam ter em suas vidas aquele típico dia chato, em que não se tem vontade nem de sair da cama, e o motivo de tal sentimento fúnebre é desconhecido. Bem, aquele não era o caso. Eu tinha um motivo para estar tendo um típico dia chato.

Depois de chegar ao colégio, já com raiva do universo por saber que eu estava sem minha mochila, me dirigi para a sala de aula. Na noite anterior, depois de Victor me deixar em casa, eu percebi que estava sem meu material. Mas, adivinha? Eu não tinha o número de celular dele, ou qualquer outra forma de contato. Menti para minha mãe, dizendo que tinha esquecido a mochila na casa de Lizzie, pois estava lá estudando. Ela nem sabia quem era Lizzie, mas não questionou. Mal assisti às primeiras aulas, pois mesmo com o meu material eu mal entendia tudo aquilo, imagine sem ele.

Então, finalmente, chegou a hora do almoço, e eu mal podia esperar para encontrar aquele garoto e ter meus livros de volta. Procurei por Mish antes do almoço, também, mas segundo May ele não foi para a escola. Ela me contou que Mish estava tendo certos problemas com a família, e me vi imaginando o quanto sua família poderia ser um misto de complicada e problemática. Entre a primeira e segunda aula, fui ao banheiro e encontrei Lea. Sem muito tempo para conversar, ela me contou que estava namorando com Kelton, aparentemente do quarto ano, que eu nem sabia quem era. Confusa, pois eu sabia do tal príncipe, perguntei o que aconteceu com ele. Ela me respondeu que já haviam ficado, e que nenhum dos dois queria algo mais sério.

No almoço comi rapidamente um hambúrguer com refrigerante, e comecei a caçar Victor. Eu precisava achá-lo, e, finalmente, o achei.

— Victor! — gritei, seguindo firmemente na direção do rapaz moreno que estava sentado na ponta da mesa circular e branca, os pés descansando na cadeira a sua frente, na qual ele deveria estar sentado.

Ele ria de algo contado por um garoto que estava ao seu lado, que facilmente reconheci como Johnny, mas sua risada calculadamente sarcástica cessou quando me viu. E estava visível o meu estresse. Victor assumiu uma expressão um poucov séria. Ou melhor, dura. Ele ainda estava irritado com nosso diálogo da noite anterior, no qual o ofendi e ele aparentemente não gostou muito. Mas não era como se a opinião dele valesse de alguma coisa para mim.

— Que é? — soltou, vendo-me parar em sua frente.

Seu tom era arrastado, como se apenas estivesse falando comigo por obrigação, e aquilo fez Johnny parar de tomar seu refrigerante em lata e nos olhar, curioso.

— Minha mochila. — respondi, direta. Quanto menos tempo eu tivesse que ver a cara daquele garoto e ter que falar com ele, melhor — Ficou na sua moto ontem. E, por motivos óbvios, eu preciso dela.

Victor pigarreou algumas vezes, e só então percebi que estava se esforçando para não rir da situação em que eu me encontrava. Levou as mãos aos joelhos, encarando-me seriamente, mas um sorriso debochado ameaçava se mostrar em seus lábios finos. Johnny olhou de mim para Victor, claramente desconfiado e com um sorriso sacana na boca, e eu, a super esperta, apenas percebi naquele momento que tinha dito besteira.

— Na sua moto, ein? — sorriu maliciosamente para Victor, dando de leve um soco no braço do amigo — Quer dizer que vocês andam saindo juntos, e ninguém me diz nada! — cruzou os braços, fingindo indignação, ignorando o olhar diretamente mortal que dirigi a ele.

Preferi ignorar totalmente Johnny, se não minha mão voaria em sua cara, e ela estava ansiosa para fazer aquilo. Não sabia se em seguida Victor não o respondeu por não saber o que dizer, por preferir ignorá-lo ou porque fui mais rápida.

— Victor. — chamei — É sério. Minha mochila. Eu preciso dela.

Victor suspirou dramaticamente, encarando-me com tédio.

— Sinto muito, mas eu não vou interromper o meu almoço p...

— Você nem está comendo! — cortei, indignada.

— Para ir atrás de uma mochila. Ainda mais sendo sua. — continuou, ignorando-me — Terá que esperar, sweetie.

Bati o pé no chão, completamente irritada. O pior era que eu não podia fazer nada, sabia que ele não iria atrás da minha mochila naquele momento. Ergui o dedo do meio da direção de Victor, dando-lhe um sorriso completamente falso e dando meia volta, não antes de ouvir Johnny gargalhar. Fui em direção a saída do refeitório, saindo no corredor que ficava logo depois e caminhando sem pressa na direção da sala de Literatura. Faltavam alguns minutos para o fim do almoço, e eu queria ir para a sala e tentar copiar o exercício numa folha qualquer, era melhor que nada e me ajudaria um pouco. O corredor estava praticamente vazio, a não ser por mim, já que todos estavam no refeitório. Ou quase todos.

— Olá.

Parei de caminhar, demorando alguns segundos para reconhecer a voz. Virei-me, vendo Harmony parada atrás de mim, não muito longe. Sua expressão era dura e analisadora, como quase sempre.

— Oi. — respondi num misto de surpresa e confusão.

Não entendi o porquê de ela estar me cumprimentando.

— Serei breve e direta, não gosto de enrolar. — anunciou, aproximando-se mais e parando exatamente em minha frente.

Ergui um pouco o olhar, já que ela era um pouco mais alta que eu, somente em alguns centímetros, o que era notável apenas quando estávamos lado a lado. A expressão de seu rosto variava de calma para dura, mas não tive muito tempo para tentar decifrá-la ao certo ou descobrir o porquê de estarmos tendo aquela conversa.

— Obviamente você sabe quem é o Victor. Mas posso refrescar sua memória. Quarterback do time de futebol, terceiro ano, moreno, olhos escuros. O aviso é claro e, tenho que dizer, previsível: fique longe dele. Não quero saber se você está entendendo o que quero dizer ou não, apenas fique longe dele. — falou calmamente, como se estivesse ensinando a uma criança sobre o certo e o errado, mas ao mesmo tempo repreendendo-a e aplicando uma lei.

Franzi a testa, fitando-a como se ela fosse completamente louca. Se ela estava possessiva daquele jeito apenas por causa de... bem, eu não sabia o motivo, mas imaginei que ela se jogaria de uma ponte se soubesse do acontecimento na enfermaria. Eu poderia ter dito muitas coisas naquele momento, ter rebatido ou simplesmente ido embora, mas não me segurei e fiz a primeira pergunta que veio em minha mente.

— Você não é lésbica não? — soltei, cruzando os braços, fitando-a com curiosidade.

Eu poderia ter gargalhado ali mesmo, mas o olhar de cala-a-boca-ou-te-mato que Harmony me direcionou fez-me subitamente mudar de idéia.

— O que exatamente isso tem a ver com o assunto? — agora ela parecia com raiva, mas eu não entendi o motivo.

Apenas fiz uma pergunta, nada de mais. Não pareceu surpresa por eu saber daquilo, como se sua sexualidade fosse um assunto tão normal pelo colégio quanto “qual o lanche especial hoje?”. Harmony mantinha o nariz empinado e os lábios contraídos, como se realmente estivesse com raiva. E ela estava.

— Sei lá, é só que você é lésbica e está me mandando ficar longe de um garoto. E parece que você gosta dele. — respondi, como quem não queria nada. Eu não era a maior fã de brigas físicas, e não queria começar uma com aquela garota. — O que é no mínimo curioso. — então parei, fitando-a, e um sorriso perfeitamente curvado nasceu em meus lábios — A não ser que você esteja dizendo isso porque alguma amiguinha sua que gosta dele deu um chilique, e ela não tem coragem de vir falar comigo.

Harmony, por um segundo, pareceu parar. E foi naquele exato segundo que percebi que acertei o chute. Alguma amiga dela gostava de Victor, e a mandou ir falar comigo para eu me afastar. Mas eu não entendia. Por que a tal garota se sentia ameaçada por mim? Eu odiava Victor mais que qualquer pessoa daquele colégio (certo, talvez não mais que Johnny. Acredito que eles ficavam empatados no quesito de qual conseguia me irritar mais), mal falava com ele, não andava com ele, quase não tinha nenhum contato com ele e não sabia o nome dele até o dia anterior àquele.

— Isso não é da sua conta. — cortou Harmony, assumindo novamente a postura rígida — Apenas fique longe dele.

Suspirei dramaticamente, descruzando os braços, vendo-a colocar as mãos na cintura.

— Parece que você não sabe que eu o odeio. E é recíproco.

Então, Harmony riu. Uma risada curta e um pouco forçada, mas ela estava rindo. Parou de rir, olhando-me como se eu fosse extremamente patética. Eu não deveria, para evitar confusões, mas me senti irritada com aquele olhar sobre mim.

— Você realmente não o conhece. — foi o que disse, parando de rir, um sorriso debochado brincando nos lábios pintados de rosa chiclete.

— Não conheço mesmo. — respondi como se fosse óbvio. E realmente era. Qual era o problema daquela garota? Pelo amor de Deus — Diz pra sua amiga que do Victor eu só quero distância, de qualquer maneira.

Harmony sorriu vitoriosa, fazendo-me querer revirar os olhos. Soltou um “obrigadinha”, passando por mim, batendo de leve o ombro no meu. Virou o corredor, e então eu estava sozinha. Resmunguei algo como “garota maluca”, voltando a caminhar, mas uma voz me fez parar. Qual era o problema daquele corredor? Todos tinham que aparecer ali quando eu queria que ninguém aparecesse?

— Geo gorda! — gritou Lizzie, correndo e parando em minha frente, sorrindo.

Sorri de volta, agradecendo mentalmente por, daquela vez, ser alguém que eu gostava. Ela parecia feliz, o sorriso quase pulando do rosto.

— Essa sou eu. — brinquei, abraçando-a.

Lizzie se soltou delicadamente segundos depois, sorrindo de lado. Sua franja ruiva estava acima de um dos olhos, de lado, e ela vestia como sempre a calça da torcida no lugar da saia e o moletom por cima.

— Ontem a treinadora Elena chamou as garotas para uma reunião no terceiro horário, mas você faltou. — começou, e eu quis matar Victor mais que nunca. Eu não faltei, fui praticamente sequestrada, mas tentei sorrir para Lizzie, incentivando-a a continuar — Então vim dizer que teremos ensaio amanhã.

Assenti algumas vezes, entendendo. Lizzie me dirigiu um último leve sorriso antes de se afastar e virar o corredor, no exato momento em que o sinal tocou para o fim do almoço e o início da aula de Literatura.

Passei as últimas aulas do dia planejando um plano aparentemente perfeito para ter minha mochila de volta, caso Victor quisesse dar uma de espertinho ou algo do tipo. Encontrei Jennifer no corredor dos banheiros após o término da última aula, e ela me contou em poucas palavras que o professor que estava no terceiro ano (ela não me disse a matéria que ele ensinava) praticamente prendeu os alunos na sala como castigo por bagunçarem em toda a aula, e eles teriam que sair mais tarde que os outros. Irritada pelo fato de que meu plano estava parecendo começar a dar errado, segui para a entrada do colégio, indo então para o estacionamento que ficava ao lado do gramado. Encontrei o carro de Victor com a ajuda de um garoto do segundo ano, e não pude deixar de admirar o quanto aquele carro era bonito. Sorri comigo mesma e resolvi colocar logo o plano em ação.

Então ali estava eu. Talvez não fosse muito normal para os estudantes verem uma garota deitada no capô de um carro preto que nem a pertencia, mas o pessoal de BHS era até bom em disfarçar ou simplesmente não se importar. Percebi um movimento na entrada do colégio, notando depois que eram os alunos do terceiro ano finalmente sendo liberados. O sol estava bem mais fraco que antes, então percebi que estava perto de começar a escurecer. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, reconheci Jennifer e ela veio até mim. Parou em minha frente, franzindo a testa a me ver daquele modo.

— Eu nem vou perguntar o que você está fazendo aí. — resolveu.

Prendi o riso, com uma expressão falsamente admirada e agradecida por sua atitude.

— Agradecida.

— Só vim dizer que vou estudar na casa do Josh, está bem? Diz pra nossa mãe que de noite vou pra casa. A propósito, seu celular e seu fone ainda estão comigo. — falou, arrumando os cabelos longos com os dedos.

— Vai lá. — ergui um polegar em sinal de positivo, inclinando-me um pouco para frente e olhando para seu rosto, antes de deitar as costas novamente no capô do carro e levar um braço para trás da minha cabeça, descansando-a ali. — Eu estou sem bolso, então em casa você me dá.

— Você é estranha. — comentou Jennifer normalmente, olhando-me uma última vez e saindo em seguida.

Ignorei a gritaria dos alunos e conversas, assim como os olhares curiosos dos alunos do terceiro ano que passavam por mim. Por que era tão estranho o fato de que eu estava deitada no capô de um carro? Ou melhor, por que eles estavam se importando com aquilo?

Alguns minutos se passaram e me perguntei mentalmente se eu estava mesmo no capô do carro certo. O garoto do segundo ano poderia muito bem ter mentido para mim, certo? Mas, segundos depois daquele pensamento tive a certeza de que estava no lugar certo. Victor se aproximou de mim lentamente, com uma sobrancelha erguida e braços cruzados. Parou em minha frente, e me ergui, sentando no capô e fitando-o.

— O que você faz no capô do meu carro? — quis saber, analisando meu rosto rapidamente.

— Meus livros. Minha bolsa. Tudo ficou na sua moto ontem, gênio — resmunguei, cruzando os braços.

— E onde foi parar a regra de não sentar no capô dos outros? — ironizou debochado — Na minha moto também?

— Está andando lado a lado com a sua vergonha na cara. — sorri largamente, vendo-o fechar a cara — E adivinha? Nenhuma das duas está aqui.

— Fala logo o que você quer, garota. — resmungou, parecendo impaciente, o que eu acreditava que ele realmente estava.

— Você é surdo ou é burro mesmo? Eu já falei que quero meus materiais! — respondi em um tom de obviedade, descruzando os braços e apoiando-me nos meus cotovelos que descansavam no capô do carro.

Meus pés balançavam livremente no ar, enquanto eu o encarava com uma expressão emburrada.

— Sinto muito, purple. — me chamou por aquele apelido que criara, fazendo-me revirar os olhos. Era claro que não sentia — Hoje não é seu dia de sorte. Suas coisas estão na minha moto, e como você pode ver ela não está aqui.

— E onde ela está? — questionei, olhando-o.

— Na oficina.

— Então vamos! — pulei desastradamente para o chão, disfarçando minha quase queda que ocorreu em seguida.

— Para onde, exatamente? — cruzou os braços, e me senti aliviada por ele não ter percebendo minha quase queda.

A última coisa de que eu precisava era ele enchendo o meu saco e me lembrando a cada segundo que quase caí.

— À oficina. — respondi como se fosse completamente óbvio.

Fui em direção a porta do passageiro, vendo que estava trancada. Olhei de modo significativo para Victor, e então pra porta do carro preto.

— Garota, você é pirada? — perguntou depois de um tempo calado, olhando-me como se eu fosse completa e realmente louca.

Provavelmente ele achava que eu era. Bufei. O plano poderia não dar certo, mas eu não podia deixar aquilo acontecer. Victor precisava cooperar comigo para eu finalmente poder ter meus materiais de volta.

— Deixa de ser fresco, — resmunguei — o que foi? Uma garota nunca esteve no seu carrinho antes? — provoquei, dando um sorrisinho petulante em seguida.

— Acontece que, — cortou, ignorando tudo que eu havia dito. Talvez o melhor fosse ele ter ignorado mesmo — eu tenho um compromisso agora.

— Para onde você vai? — quis saber.

Eu provavelmente estava fazendo perguntas demais, e Victor parecia incomodado. Ainda não o suficiente para me mandar calar a boca. Ou então ele tinha consciência de que eu não iria obedecê-lo de qualquer modo.

— Um lugar que não é para garotas como você. — ignorei o modo debochado e provocativo que Victor usou para pronunciar o “você”.

Sorri, sem me abalar nem um pouco.

— Uma balada gay? — soltei, segurando uma gargalhada no momento em que eu percebi o que falei.

Ele até poderia rir da minha fala, pois no momento foi realmente engraçado, mas Victor não gostaria de me dar o gostinho de satisfação por vê-lo rir do modo como tive uma resposta pronta e a altura. Ele era o tipo de garoto que não era questionado, contrariado ou qualquer outro com “ado” no final. Até eu me espantava com o modo automático como as respostas vinham parar na minha boca quando se tratava de rebatê-lo ou atacá-lo.

— Idiota. — soltou Victor.

— Babaca.

— Estúpida.

— Ridículo.

— Vad...

— Cala essa boca. — o cortei, ameaçadora.

— Vem calar. — provocou.

Cerrei os olhos, trincando o maxilar. Aquele típico sorriso maldoso voltou aos seus lábios. Talvez o fato de que estávamos nos ofendendo sem nem nos conhecermos direito fosse estranho, mas nós dois apenas conversávamos daquele modo desde que o conheci. Era até engraçado de tão estúpido o modo como parecíamos ter ódio um do outro sem eu nem saber quase nada sobre ele, e ele se encontrava na mesma situação que eu. Até onde eu sabia.

— É tão difícil de entender que eu preciso do meu material? — ergui as mãos, exasperada.

Como ele conseguia ser tão idiota? Ajudar-me não era nem grande coisa. Apenas ir pegar as minhas coisas na maldita moto. Eu precisava dos meus livros, além de que se chegasse sem eles em casa minha mãe me mataria.

— É tão difícil entender que eu não ligo?

Fechei os olhos com força, segurando as têmporas, tentando acalmar a mim mesma e a minha vontade de voar no pescoço daquele garoto e enforcá-lo. Era aquilo que ele merecia. Os abri, forçando-me a tentar pensar. Mas tudo que eu via era raiva. Eu me irritava fácil demais, provavelmente Victor já tinha notado aquilo e estava se aproveitando da minha falta de paciência.

— Você é um filho de uma pu... — soltei, sabendo que provavelmente tinha realmente passado dos limites.

Eu não era o tipo de pessoa que ofendia a mãe dos outros, mas simplesmente me vi frustrada ali. Sem saber o que fazer para aquele cretino me ajudar.

— Deveria me tratar melhor, gracinha. — cortou sem se abalar. Provavelmente estava achando aquilo tão engraçado que nem estava levando a sério. Novamente o tom provocativo de deboche no “gracinha” — Você é quem quer algo de mim.

Parei. Ele estava certo, infelizmente. Victor podia — e eu achava que iria — entrar naquele carro e partir. Então eu ficaria sem meus materiais (o que não era uma opção) e ainda o irritaria (o que não seria muito bom). Para minha infelicidade e do meu orgulho, eu teria que controlar meu gênio perto dele enquanto ainda precisava de sua ajuda, assim como minha raiva que subitamente nascia quando eu estava com aquele cara insuportável.

— Olha, garoto... — comecei calma. Vi a surpresa passar como um relâmpago por seus olhos, graças ao meu tom calculadamente sereno. Parecia que eu estava conversando com uma criancinha ou pedindo um favor a alguém. — Eu só quero minhas coisas de volta. Só isso. Por favor.

Eu estava praticamente me humilhando diante daquele garoto. Para onde ele iria, pelo amor de Deus? Porque realmente parecia caso de vida ou morte, ou ele realmente não queria me ajudar e estava usando aquilo como desculpa. Ele deveria levar em consideração o fato de que eu estava engolindo todo meu orgulho e implorando. Mas ele não levou, como eu miseravelmente esperei.

— Sinto muito. — ele abriu a porta do carro, as diversas chaves brincando em seus dedos, pronto para pular no banco do motorista.

Ele não iria me ajudar, então eu iria apelar. Quando menor eu era muito boa em fazer drama e partir para apelação, aquilo deveria servir de algo ali.

— Não vai me levar? Tudo bem. — sorri brilhantemente, claramente falsa. Pulei novamente para o capô do carro, daquela vez propositalmente com força, provocando um barulho não muito agradável de metal superficialmente sendo amassado. — Não saio daqui. — resolvi convicta, cruzando os braços em frente ao peito e vendo-o bufar longamente, vindo em minha direção — Nem pense nisso! Se tocar em mim eu grito. Você não vai querer ver isso.

Victor parou no meio do caminho, encarando-me completamente irritado com minha atitude. Dirigiu um olhar ameaçador para mim, mas apenas o sustentei com o meu determinado. Eu não achei que fosse funcionar, pois ele era mais forte que eu e poderia me arrancar dali em menos de um segundo, mas Victor suspirou profundamente e me encarou com uma careta de reprovação, como se a idéia que passasse por sua cabeça não o agradasse. Então naquele segundo descobri que havia ganhado.

— Alguém já te disse que você é chata pra caralho? — resmungou, virando-se e indo até a porta do carro. Apenas sorri inocentemente, escondendo toda a minha vontade de começar a pular e fazer minha típica dança da vitória ali mesmo — Porque saiba que você é. Entra logo no carro, insuportável. — eu poderia rebater sua ofensa ou ao menos ligar de verdade para aquilo a ponto de sentir toda aquela raiva novamente, mas preferi ignorar e descer do capô do carro (daquela vez com mais cuidado, pois eu não queria cair). Victor iria desistir da idéia de me levar com ele se eu dissesse algo para ofendê-lo, e aquilo não poderia acontecer. Corri pra porta do passageiro, dando graças a Deus por daquela vez estar aberta quando percebi que estava. Pulei para dentro, fechando a porta em seguida e automaticamente colocando o cinto. — Se você encher o meu saco, eu te jogo no meio do nada. Fui claro? — Victor já estava com o cinto e bem acomodado.

Girou a chave na ignição no momento seguinte, e percebi que apenas estava esperando minha resposta para cair na estrada. Notei que havia um molho de chaves no porta-luvas, bem em minha frente, as mesmas chaves que Victor momentos antes brincava. O chaveiro era um pequeno quadrado preto com um “M” cravado em dourado. Mais abaixo estava “Victor” em letras minúsculas. Aquele era um tipo de grupo, sociedade secreta ou o que? Ele não parecia mais tão irritado como antes, mas ainda não parecia aprovar muito bem a idéia de me ter em seu carro e/ou me levar para onde quer que fosse.

— Cristalino. — respondi, e o meu tom calmo até me surpreendeu.

Não fui irônica, sarcástica, debochada ou provocativa. Apenas uma resposta boa, sem mais nada de complemento para irritá-lo. Olhei para frente, minhas mãos descansando em minhas coxas. Victor pareceu satisfeito com minha resposta, então deu a ré, saindo da vaga, e pisou fundo no acelerador.

Ficamos por longos minutos em silêncio, enquanto minha atenção pulava de uma árvore para outra, outra, outra e mais uma que estava do lado de fora do carro, assim como casas, prédios e todas aquelas coisas urbanas. A melodia da lenta — e desconhecida por mim — música que tocava baixo na rádio parecia em leve sincronia com os segundos em que meus olhos subiam e desciam das árvores mais baixas para as mais altas, olhavam qualquer carro em uma calçada ou eu dirigia um rápido olhar para o céu. Eu gostava de saber que por ali as pessoas construíam bastante, mas ainda conservavam o verde da natureza que eu apreciava. Meu braço descansou no vidro abaixado da janela, fazendo o vento me refrescar, graças à velocidade com que o veículo deslizava pelas ruas asfaltadas. O tempo naquele fim de tarde estava bom, o que me deixou mais relaxada, pois odiava quando chovia e eu estava fora de casa. Não olhei muito para Victor em nenhum momento e nem perguntei para onde estávamos indo (eu não sabia se ele iria me levar para o tal lugar que disse precisar ir ou à oficina. E se os dois, eu não sabia qual viria primeiro), minha atenção estava na paisagem que acompanhava o glorioso pôr-do-sol. As folhas das altas árvores deixavam alguns feixes de luz escapar, o que era tão bonito que eu poderia enquadrar, por mais simples que fosse.

— Solta esse cabelo. — pediu Victor repentinamente, fazendo-me olhar para ele.

Automaticamente levei minha mão para o rabo de cavalo um pouco alto na minha cabeça, tocando-o como se houvesse algo de errado ali. Franzi a testa, sem entender muito bem, ainda mais porque foi a primeira coisa que Victor disse desde que começou a dirigir.

— Quê? — então resolvi reformular a pergunta: — Por quê?

Recolhi minha mão depois de acariciar um pouco meu cabelo, vendo Victor olhar de lado para mim e voltar sua atenção à estrada depois. Tão leve quanto à luz fraca do sol — que já estava indo embora — batia em seu rosto, ele sorriu. Olhando rapidamente para frente pude perceber que estávamos deixando a civilização para trás, o que era no mínimo estranho. Para onde estávamos indo? Preferi não perguntar naquele momento.

— Cabelo preso é broxante. — respondeu como se estivesse explicando algo a uma criança — Ao menos para mim.

Olhei-o como se estivesse sendo completamente retardado. E realmente estava. Victor possuía uma incrível habilidade de tirar assuntos do nada e colocá-los no meio de outros que não tinham nada a ver, ou simplesmente mudava de assunto rápido demais. O pior era que possuíamos aquela característica em comum.

— E o que exatamente isso tem a ver? — questionei, ainda olhando-o e vendo-o sorrir mais.

Senti uma leve dor no meu lábio inferior, e só então percebi que estava mordendo-o. Eu sempre fazia aquilo sem nem perceber, era uma de minhas maiores manias, mas não entendia o porquê de estar fazendo ali.

— Tem a ver que eu acho que não conseguirei sentir tesão em você se ficar com esse cabelo preso. — respondeu como se fosse óbvio, então continuou antes que eu pudesse perguntar qual a doença mental dele — Mas pode ser que debaixo desse uniforme você tenha várias coisas interessantes. Só dá pra ver suas coxas e suas pernas. Elas são bem interessantes. E o jeito que você morde o lábio é bem sexy. Você já mordeu umas dez vezes desde que nos conhecemos. — falou como se estivesse comentando sobre o tempo lá fora ou o que comeu no almoço.

Gesticulava com uma das mãos enquanto falava, dirigindo com a outra e dividindo a atenção, olhando para mim e pra estrada. Ri incrédula, mas absurdamente achando um pouco de graça naquilo. Ele dizia aquelas coisas com tanta naturalidade que parecia que me conhecia há anos para ter toda aquela intimidade, e não há dias. Infelizmente não pude deixar de me sentir um pouco envergonhada graças ao comentário dele sobre minhas coxas e pernas, além da minha mania de morder o lábio. Não era como se eu esperasse ouvir aquilo, mas deveria, porque vindo de Victor tudo era possível. Eu havia mesmo mordido o lábio tantas vezes ou ele estava apenas brincando, já que me viu morder momentos antes? E desde quando aquilo era sexy?

— E o que leva você a pensar que terá que sentir tesão em mim? — assumi uma expressão sutilmente ameaçadora, como um “toma cuidado com o que vai responder”.

Ele soltou uma risada curta e um pouco arrastada, aquela pitada de ironia sempre presente.

— Ocasiões futuras. — respondeu, parecendo me provocar um pouco.

Na realidade, tudo que Victor dizia para mim soava como um deboche, provocação ou coisa do gênero. E eu fazia o mesmo, logo nós dividíamos o profissionalismo na língua da ironia e sarcasmo, assim como o prazer de irritar um ao outro. Infelizmente no quesito de ser o mais irritante Victor ganhava facilmente.

— Vai me estuprar? — debochei, rindo em seguida.

— Claro que não. — Victor riu de leve, o mesmo tom de sempre. Olhou para mim, virando o rosto de lado e esquecendo a estrada por curtos segundos — Eu não faria isso, além de que apelar para estupro é apenas quando a outra pessoa não quer.

Olhei para ele de lado, revirando os olhos e recostando na poltrona, decidindo que iria ignorá-lo.

— O que você gosta de ouvir? — perguntou Victor, como se tudo estivesse perfeitamente normal para ele.

Sem exatamente um motivo aparente, questionei-me mentalmente se ele levava ao menos alguma coisa a sério.

— Música. — sorri cínica.

— Nada previsível. — ironizou — Pega uns CDs aí no banco de trás.

Pigarreei sugestivamente, olhando-o sem me mover. Victor sorriu sarcástico, nos lábios uma curva que não durou muito tempo.

— Por favor. — acrescentou.

Soltei o cinto de segurança e inclinei-me para trás, apoiando uma mão no estofado macio e buscando os três CDs que vi ali, perto de uma jaqueta de couro e uma jeans. Meu olhar prendeu-se a uma pulseira delicada, no momento em que meu inclinei mais e peguei os CDs. Rapidamente vi três dos vários pingentes, sendo o primeiro um pequeno canivete, o segundo um olho e o terceiro um J. O repentino silêncio de Victor não passou despercebido por mim, assim como a impressão de que alguém estava olhando para minhas coxas. Era óbvio quem era aquele alguém.

— Por favor, me diga que não está olhando para a minha bunda. — resmunguei o pedido, voltando para a poltrona e jogando os CDs de qualquer jeito no colo dele.

— É algo inevitável, meus olhos foram sozinhos! — defendeu-se parecendo sério, mas eu podia ver que ele estava debochando, como sempre — Mas se serve de consolo, não estou olhando mais.

— Não serve, mas isso sim. — dei-lhe um tapa fraca na sua bochecha, vendo-o virar o rosto para o outro lado e trazê-lo de volta após, encarando-me.

— Adoro o tipo violento. — comentou provocativo, olhando rapidamente os CDs e bufando em desagrado, jogando-os no banco de trás novamente e voltando sua atenção pra estrada.

Aparentemente não era o que ele esperava.

— Então namore uma lutadora ou espiã. Até ladra. — rebati.

Victor caiu na gargalhada, eu não resisti e o acompanhei. Ele ligou o som do carro, mudando algumas vezes de estação de rádio, procurando alguma que o agradasse. Uma música invadiu meus ouvidos e senti meu coração acelerar no momento em que gloriosamente a reconheci. Highway To Hell – AC/DC. Era uma das músicas que eu mais cantava com meu pai quando estava no Brasil.

Living easy, livin' free

Season ticket, on a one way ride

Asking nothing, leave me be

Taking everything in my stride

A cabeça de Victor se movia no ritmo da música, enquanto meus dedos tamborilavam do mesmo modo em uma de minhas coxas. O vento não muito forte varria algumas mechas que escapavam do rabo de cavalo da frente do meu rosto, acariciando minhas bochechas.

Don't need reason, don't need rhyme

Ain't nothin' that I’d rather do

Going down, party time

My friends are gonna be there too

Comecei a murmurar a música apenas para mim, sabendo que Victor não estava ouvindo e agradecendo mentalmente por aquilo. Vi-me o olhando rapidamente, vendo o vento bater graciosamente em seus cabelos negros e bagunçá-los, enquanto ele parecia estar focado em olhar pra estrada. Eu não podia me permitir pensar no quanto ele era bonito. Droga, eu estava pensando.

I’m on the highway to hell

On the highway to hell

Highway to hell

I'm on the highway to hell

Não consegui me controlar e comecei a cantar, destinada a não olhar o garoto ao meu lado e focar apenas na paisagem do lado de fora. Eu estava com um pouco de vergonha por estar cantando ali, mas já havia começado.

No stop signs, speed limit

Nobody's gonna slow me down

Like a wheel, gonna spin it

Nobody's gonna mess me 'round

Olhei para Victor e vi que ele me olhava de canto, sorrindo. Continuei cantando, então o encarando e perdendo toda a vergonha. Ele moldou com os lábios a frase você sabe cantar, como se fosse algo extraordinário, fazendo-me rir de leve e olhar rapidamente para baixo, minha voz mesclando-se com a do vocalista. Preparei-me para cantar o verso seguinte, mas fui interrompida.

Hey, Satan!

Payin' my dues

Playin' in a rockin' band

Hey mama! Look at me

I'm on my way to the promise land

A voz de Victor não era nem de longe como a de Yv. Era mais rouca e ainda mais presente, o que me pegou totalmente de surpresa. O modo como cantou aquilo foi simplesmente perfeito, sua voz era perfeita, e era claro que ele não precisava fazer esforço para cantar bem. Era algo natural. Tão natural quanto seus olhos que me peguei olhando por demorados segundos.

I'm on the highway to hell

Highway to hell

I'm on the highway to hell

Highway to hell

Estávamos cantando juntos. Ele olhava pra estrada, eu alternava olhar de seu rosto para frente. Não era algo ensaiado, esperado ou qualquer outra coisa. Estávamos apenas cantando. Juntos.

Don't stop me!

Ergui-me do banco, ficando de joelhos ali e tocando euforicamente uma guitarra invisível, após praticamente gritar a frase de três palavras. Victor caiu na gargalhada, e eu o acompanhei enquanto fingia estar fazendo um solo de guitarra. Sua risada foi verdadeira e contagiante.

I'm on the highway to hell

I'm on the highway

I'm on the (highway to hell)

I'm on the highway to hell (highway to hell)

Yeah I'm going down anyway. I'm on the highway to hell

Cai sentada na poltrona, ainda rindo com ele. Naquele momento me senti bem na presença de Victor, o que era inédito e completamente inesperado. Ele ainda possuía um sorriso no rosto, fazendo-me automaticamente acompanhá-lo. Inexplicavelmente. Eu estava com a cabeça encostada no banco quando Victor estacionou em frente ao que facilmente reconheci como uma oficina mecânica, mais ou menos quarenta minutos depois de cantarmos Highway To Hell. Aquilo serviu de resposta para as dez vezes em que perguntei para onde estávamos indo, e ele obviamente não respondeu em nenhuma delas. Um homem barrigudo usando uma blusa branca e suja de graxa, que claramente era pequena demais para ele, aproximou-se de nós com um sorriso no rosto. Limpou as mãos em um pano que estava no ombro antes de colocá-las no capô do carro. Mesmo ele estando do lado de Victor, eu podia sentir o cheiro de cigarro que ele emanava. Victor pareceu não se incomodar.

— Bills, onde está a moto? — perguntou o garoto, apoiando o braço no vidro abaixado do carro.

— Grande Victor! — falou Bills, parecendo não notar minha presença ali — A moto não está pronta ainda, você sabe.

Victor suspirou.

— Eu sei. É que me esqueci de tirar uma coisa de lá antes de te dar, sabe? Aí preciso pegar de volta. — esclareceu Victor, também parecendo que estava parcialmente me ignorando.

Bills coçou a cabeça careca, coçando então o queixo depois.

— A moto está lá dentro, e a chave está com o Carl. Passe aqui mais tarde. — resolveu, dando de ombros.

Franzi a testa, olhando dele para Victor. O garoto não teve tempo para responder, pois finalmente Bills me notou.

— Olha só! Quem é a bonitinha? — sorriu, mostrando dentes não muito bonitos — Ela é novidade.

Victor soltou uma risada curta e arrastada, que pareceu um pouco forçada.

— Ela não está a venda. — foi o que respondeu.

A aflição me invadiu quando ouvi aquilo. Victor estava brincando, certo? Que negócio era aquele de “a venda”? Provavelmente eu estava parecendo uma garotinha assustada, encolhida no banco e olhando para Bills como se ele fosse totalmente assustador. O mais velho soltou uma risada maldosa com aquilo, que me fez sentir certo nojo. Eu queria meus materiais, mas queria ainda mais sair dali. Victor continuou como antes, mas não sorria mais. O carro ainda estava ligado, então ele apenas colocou novamente as mãos no volante.

— Certo. Volto mais tarde. — resolveu, vendo Bills se afastar do carro. Victor olhou rapidamente para mim e falou: — ‘Tá’ vendo? Não dá para pegar agora e...

— Ei, Stonem! — chamou Bills, interrompendo-o e fazendo-me olhá-lo, vendo que o homem sorria ainda mais — Como está a J? Não tenho a visto com você mais!

Victor parou com aquilo. Simplesmente parou. Seus dedos pareceram congelar no volante, enquanto seus olhos perdiam o foco e ele se mantinha ereto no banco. Estava repentinamente mais pálido, e eu jurava que ele havia parado de respirar por alguns segundos.

— Victor? — sussurrei um pouco assustada e completamente confusa.

Ele não me respondeu, apenas apertou ainda mais o volante e deu meia volta, voltando ao normal, mas sua voz soou diferente ao responder Bills:

— Ela está bem. — foi o que falou, antes de acelerar e ir embora dali, levando-me consigo sem direito de questionar.

Notas finais
O próximo capítulo sairá próxima semana, guys! Porém, tenho uma novidade. Há um grupo no facebook, onde posto as atualizações e tudo o mais sobre as minhas fanfics (no momento o grupo está focado em The Anchor). Aqui o link. /groups/658737297581621/?fref=ts. Coloquem "www.facebook.com" na frente e sejam felizes! Apareçam lá sz, até os leitores fantasmas! Xoxo, Little G.