The Anchor
19 O desfile que deu errado. — Parte II.
Notas iniciais
Capítulo 18.
Entrei primeiro que ele, ouvindo a porta se fechar quando Victor também entrou. Olhei ao redor, girando um pouco para acompanhar. Estávamos em um escritório, com certeza. O lugar era pequeno e simples, porém aconchegante. Uma estante lotada de livros; uma mesa de trabalho com um notebook em cima; uma cadeira atrás da mesa; um sofá de couro; duas poltronas e mais algumas coisas.
— Você me fez invadir esse lugar? — olhei para Victor, vendo-o rir de leve, como se não fosse nada de mais.
— Calma, não precisa partir para sexo em lugares desconhecidos, ainda nem tivemos o primeiro encontro! — ergueu as mãos em sinal de rendição, rindo debochado e fazendo-me revirar os olhos, mas prendi a risada. O mesmo idiota de sempre, claro. — O dono desse lugar é pai do meu amigo, relaxa.
Não o respondi, apenas assenti para deixá-lo saber que tinha prestado atenção. Larguei meus sapatos no chão, colocando minha bolsa em cima da mesa e indo até a cadeira giratória atrás da mesa, aquela típica cadeira de escritório. Sentei-me nela, suspirando e sentindo o quanto era confortável. Fiquei olhando para cima, um pouco deitada na cadeira, ao menos minha cabeça estava completamente deitada. Meus pés se moviam lentamente, tocando no chão e pegando impulso por mim, fazendo a cadeira girar e tudo ao redor girar junto em minha visão. Continuei olhando para cima, movendo meus pés e vendo o teto girar, e girar, e girar...
— Quer que eu esqueça o que aconteceu lá em cima? — propôs Victor, e não precisei olhar para ele para saber que ele me olhava.
Na realidade, eu até estava esperando aquilo. Ele era tão curioso quanto qualquer outro, e eu sabia que não iria esquecer. Continuei girando, pensando no que iria responder.
— Adoraria que esquecesse a minha quase queda. — respondi com um leve tom de ironia em minha voz, sentindo que estava começando a ficar meio tonta.
— Bem, obviamente houve um motivo para tal. — respondeu, e seu tom de voz deixava claro que ele estava relaxado.
Olhando rapidamente para os lados pude vê-lo sentado em uma das poltronas, olhando-me. Voltei a olhar para cima, mordendo um pouco meu lábio inferior.
— Você quer que eu te conte. — adivinhei o óbvio, e não me preocupei em disfarçar meu tom irônico de super descoberta do ano.
— Você quer me contar? — quis saber, soando mais sério do que eu esperava.
— Vai fazer diferença?
— Não posso te forçar.
Parei de girar. Continuei olhando para cima por alguns segundos, tentando fazer a tontura passar. Abaixei meu olhar, olhando para o garoto que me encarava com uma leve curiosidade.
— Por que está tão interessado? — perguntei, inclinando-me na mesa e fitando-o desafiadoramente, descansando meus braços ao lado do notebook. — E por que me segurou quando quase caí? Por que resolveu ser algo próximo de legal?
— Digamos que não tenho nada melhor para fazer. E queria que eu te deixasse cair? Além de que você parece ter uma história interessante, quero ouvi-la. — respondeu como se fosse óbvio, mas me olhou desafiadoramente, do mesmo modo que eu o olhava. — Quando estou no tédio parece que me importo. Não se iluda.
Ri, dando de ombros e murmurando um “pode deixar”. Eu não sabia se deveria contar para Victor sobre Cam, mas algo me dizia que eu deveria fazê-lo. Eu veria Victor todos os dias, assim como já via, seria mais fácil pra mim se ele soubesse. Fiquei certo tempo em silêncio, olhando para todas as coisas espalhadas na mesa de madeira. Por onde eu deveria começar? Eram tantas coisas. Eu nunca tinha falado recentemente sobre aquilo com alguém, não pessoalmente, não era como se eu soubesse o que dizer. Eu nem sabia o motivo de estar prestes a contar aquilo à pessoa mais insuportável que eu conhecia, mas, sim, eu estava. Ergui o olhar, olhando-o com certo pesar.
— Eu tinha um amigo. Seu nome era Cameron...
Então, eu contei tudo. Contei que Cam era meu melhor amigo, porém virtual. Nunca tínhamos nos visto pessoalmente, já que viramos amigos quando eu estava no Brasil (o que foi uma experiência ótima, já que naquela época eu precisava aprimorar meu inglês e Cam era americano). No dia da minha viagem para os EUA — que meus pais sempre falavam sobre, mas nunca tinham levado a sério de verdade e colocado em prática —, eu e Cam acabamos tendo uma discussão. Então peguei o avião e esperei que ele fosse me buscar no aeroporto, mas ele não apareceu. Sua irmã sim, e então ela me contou que ele tinha sofrido um acidente. Contei também que, no fim de tudo, meu lema virou “ano novo, vida nova”, sendo que Cam tinha partido durante o verão, o que era longe do ano novo. Sem sentido, eu sei. Mas no Brasil fazia sentido.
No começo foi um pouco difícil contar, eu dizia uma frase e depois parava, mas no meio da história se tornou mais fácil. Na realidade, acabei contando coisas sobre eu e Cam que ninguém sabia. Falei todos os detalhes de nossa amizade, como me senti após sua morte, tudo. Eu simplesmente me abri completamente pra pessoa que era mais improvável eu fazê-lo. Victor realmente pareceu interessado na história, e no fim de tudo eu finalmente contei o motivo de ter ficado completamente impactada ao vê-lo. Aquilo obviamente pegou Victor de surpresa, e ele ficou calado por um tempo, absorvendo tudo aquilo. Inclinou-se um pouco, colocando os cotovelos nas coxas e apoiando o rosto nas mãos, pensativo.
— Wow. — declarou, fazendo-me rir um pouco. Rir de verdade. Inexplicavelmente me senti mil vezes mais leve depois de contar aquilo para Victor, o que eu não esperava sentir. — Então eu me pareço com seu melhor amigo virtual morto.
Assenti prontamente, como se eu fosse uma professora e ele um aluno que estava fazendo um resumo do assunto que foi dado na classe.
— Isso aí. A única diferença realmente grande é o cabelo.
— Então... é melhor eu continuar com meu cabelo assim, para te fazer lembrar dele, ou continuar normal, para te fazer me ver apenas como eu? — ele pareceu confuso ao dizer aquilo, e era até um pouco adorável o modo como tudo aquilo parecia demais pra ele.
Eu não sabia muito bem como responder aquela pergunta. Respirei fundo, soltando o ar lentamente pelo nariz.
— Te ver como você mesmo não é a melhor coisa do mundo. — brinquei, fazendo-o revirar os olhos — Mas acho melhor que a primeira opção. Ao menos por agora.
Victor assentiu, levando a mão aos cabelos e bagunçando-os completamente. Como eu estava acostumada. Ele riu um pouco e eu gargalhei, vendo-o perceber que acabou bagunçando demais, e ri mais ao vê-lo tentar arrumar. Parei de rir quando ele finalmente conseguiu, e então eu estava vendo-o apenas como Victor.
— Mas... eu quero saber uma coisa. Você foi ao velório? — Victor não perguntou aquilo de um modo muito delicado, mas também não me importei.
Bem, sobre aquilo eu não tinha falado. Talvez tivesse esquecido ou algo dentro de mim não quisesse que eu dissesse. Ou, provavelmente, lembrar de uma das partes mais dolorosas de perder alguém — vê-lo num caixão — não era bem o que eu gostava de fazer. Suspirei um pouco, mordendo o lábio inferior sem muita força.
— Não. — respondi, fazendo-o erguer as sobrancelhas, um pouco surpreso — Eu... eu me arrumei pra ir, Jennifer ia comigo e tudo, mas... eu não consegui. — neguei algumas vezes com a cabeça — Eu nunca tinha o visto pessoalmente, Victor. E eu não queria que a primeira e última vez que eu o visse ele estivesse deitado num caixão e sem respirar.
Ele apenas assentiu, entendendo e assumindo uma expressão suave. Ficamos longos minutos calados depois daquele momento, e eu não sabia se era por apreciarmos o silêncio ou por não termos o que dizer um para o outro. Relaxei na cadeira, novamente deitando minha cabeça e olhando para cima. Girei algumas vezes na cadeira, ficando de lado para Victor, mas pelo canto de olho pude ver que ele parecia pensativo.
— No que está pensando? — perguntei curiosa.
Ele parou um pouco, olhando para mim e fazendo-me olhar para cima novamente, desfazendo o contato visual.
— No que você deve estar pensando. — respondeu.
Franzi um pouco a testa, mas não deixei que ele visse. Na realidade era impossível, já que minha cabeça estava inclinada para trás.
— Nisso tudo. — respondi — Tudo isso com Cam.
— Quando falou sobre ele, não pareceu depressiva nem nada. — falou ele, e aquilo me pegou de surpresa.
O que ele queria dizer?
— Por que eu deveria parecer?
— Porque é como as pessoas reagem à morte. — respondeu rapidamente, como se fosse algo óbvio. Olhando pelo ponto de vista dele, até que era. — Então... você superou?
— Como poderia superar totalmente? Digo, como as pessoas superam algo como isso? — pareceu que eu estava falando comigo mesma, e talvez fosse um pouco — Eu estou tentando superar, e até que estou indo bem, mas nunca vou superar totalmente.
— Sinto muito. — Victor me surpreendeu ao soltar aquilo, não muito alto.
Ri um pouco, não como se estivesse achando graça naquilo tudo, mas sim como se ele estivesse sendo bobo.
— Não sente não. — respondi normalmente, ainda olhando para cima. Era impossível ele sentir, ele nem mesmo o conhecia. As pessoas costumam dizer “sinto muito” quando descobrem sobre a morte de alguém próximo a alguém que elas conhecem, mas poucas vezes são verdadeiras. Eu não gostava de ouvir aquilo, preferia ouvir nada. — Você nem o conhecia.
— É. — Victor concordou de prontidão, fazendo-me girar na cadeira que estava de lado, ficando de frente para ele. Olhei para seu rosto, ficando em uma posição normal na cadeira — Mas eu conheço você.
Eu me calei. Simplesmente não tinha uma resposta pronta, e não conseguiria dar uma diante daquele olhar intenso. Eu não sabia como ele conseguia dizer tantas coisas com apenas um olhar. Não sabia como ele conseguia me olhar de um jeito como se estivesse vendo a minha alma. Eu não sabia reagir diante daquele olhar, simplesmente não sabia. Relaxei na cadeira, sem respondê-lo, olhando para cima novamente. Eu nunca iria admitir, mas aquela era a minha forma de fugir.
— Afinal, o que está fazendo aqui? — perguntei o que eu deveria ter procurado saber há tempos.
— Meu irmão. — Victor respondeu, fazendo-me olhá-lo de canto. — Ele é amigo de uma das modelos, ou sei lá. Queria vir, minha mãe não queria deixá-lo vir sozinho, fui obrigado a acompanhar. Porém... – sorriu de lado, de modo até um pouco sedutor. — Você está aqui. A idéia não foi de total ruim.
Ri pelo nariz, revirando um pouco os olhos.
— Minha prima é uma das modelos. — respondi a pergunta que ele não fez.
— Quem?
— Juliet Costt.
Victor parou um pouco, pensando. Levantei da cadeira, fazendo-a ranger um pouco, e andei lentamente pela sala. Parei na frente de uma estante com vários documentos e livros. Toquei delicadamente no primeiro da fileira, arrastando meus dedos pelo resto, sentindo as folhas finas dos documentos e as capas duras dos livros.
— Ela é bem bonita.
Olhei para Victor, franzindo a testa. Então ele a conhecia.
— Não me diga que já ficou com ela. — falei incrédula, eu não pensaria daquele jeito se outra pessoa dissesse que conhecia Juliet, mas, bem, era Victor.
Eu não tinha nada a esperar dele. Ou melhor, tinha tudo.
— Não fiquei com ela. — ele riu um pouco, mas pareceu que estava falando a verdade — Só falei que ela é bonita, meu Deus! E é de família.
— É, Jennifer é bonita mesmo. — sorri petulante, sabendo que obviamente ele estava falando de mim, ainda mais pelo jeito que sorria.
— Eu não estava falando da Jennifer.
Victor se levantou, vindo em minha direção. Ele continuava sorrindo de modo provocativo, e eu poderia sustentar aquele sorriso dele, mas não sabia o que ele poderia fazer. Na realidade, eu estava com medo do que eu poderia fazer. Discretamente dei um passo para trás, voltando a olhar para os livros.
— É desse jeito que você ganha as garotas? — perguntei debochada, como se ele fosse patético.
Victor não se abalou, parando exatamente em minha frente. Não olhei para seu rosto, continuei encarando a estante. Eu sabia que não seria nada bom pra mim se eu o olhasse. Eu tinha consciência do poder que o olhar dele tinha sobre mim, o poder que infelizmente ele tinha. Não precisei olhar para ele para saber que estava me encarando, eu sentia aquilo. E o arrepio na espinha que senti foi apenas uma confirmação. Victor encostou-se na estante, de lado, cruzando os braços e encarando-me.
— Isso é você que tem que responder. — respondeu minha pergunta, o tom de voz calmo e despreocupado.
— Então você vai ter que fazer bem mais que isso. — respirei fundo e ergui o olhar, empurrando Victor e afastando-o de mim, vendo-o rir enquanto eu ia até a mesa.
— Olha só, ela sabe provocar. — debochou ele, fazendo-me revirar os olhos.
Ficamos em silêncio por certo tempo depois daquilo. Eu não sabia o que ele estava fazendo para estar tão calado, mas eu estava de costas para ele e olhando algumas coisas em cima da mesa.
— Posso te perguntar uma coisa? — questionei, quebrando o silêncio e virando-me para fitá-lo.
Victor novamente estava sentado na poltrona, quase deitado. Relaxado. Eu não sabia o motivo de estar prestes a perguntar aquilo, mas eu simplesmente precisava saber. Por mais que Victor fosse bem convincente em provar que era um canalha de verdade, uma parte de mim queria acreditar que era uma máscara. Ou que ao menos ele já tinha se apaixonado por alguém. Era impossível que não. Certo?
— Você já perguntou. — respondeu ele, fitando-me com graça.
Revirei os olhos, murmurando um “é sério isso?”.
— ‘Tá’, posso te fazer uma pergunta fora essa?
— Não, nunca estuprei ninguém. — chutou ele, rindo da minha expressão horrorizada. — Certo, nunca roubei ninguém. — reformulou a resposta. Riu mais a me ver lhe dirigir um olhar impaciente. — Mentira, mas enfim ‘né’. Okay, vá em frente.
No último segundo, pensei melhor na pergunta que eu estava prestes a fazer. Porém, eu não queria fazê-la de cara. Era óbvio que Victor iludia e magoava muitas garotas. E também partia o coração delas. Eu tinha curiosidade em saber se ele já tinha passado por aquilo. Às vezes as pessoas magoavam as outras porque já tinham sido muito magoadas. Por mais que eu achasse que apenas alguém parecido Victor conseguiria magoá-lo — se é que existia uma garota igual ou pior que ele —, minha mente insistia em querer saber.
— Você já teve o seu coração partido? — me senti completamente estúpida ao perguntar aquilo, porque simplesmente não fazia sentido “coração partido” e “Victor” na mesma frase, se não o envolvesse partindo o de alguém.
Na realidade, pareceu que eu estava em um típico jogo de verdade ou desafio. Victor ergueu uma sobrancelha — eu ainda tinha inveja dele por ele conseguir fazer aquilo e eu não —, sendo pego um pouco de surpresa. Mas no segundo seguinte voltou a sua expressão normal, coçando a nuca.
— Sabe qual a pior parte de ter o coração partido? — perguntou ele, e eu quase engasguei de surpresa. Então, sim, alguém já tinha partido o coração dele! Mas o que mais me surpreendeu foi o tom de voz de Victor. Era normal, como se ele não se importasse em falar sobre sentimentos. Eu precisava dizer que ele estava me surpreendendo um pouco, até. Não respondi, porque eu sabia que era uma pergunta retórica. — Não se lembrar de como se sentia antes de alguém parti-lo.
Por um segundo pensei em soltar um “quem foi a revolucionária que conseguiu te fazer sofrer? Porque eu preciso parabenizá-la!”, mas pigarreei e não falei. Parei um pouco, pensando no que ele tinha dito. Eu nunca, e repito, nunca, imaginaria ver Victor Stonem falando daquele jeito. Nunquinha.
Se bem que por mais que ele parecesse relaxado, eu sabia que ele não queria falar de verdade sobre aquilo. Era perceptível. Era mais como se ele estivesse pensando alto. Talvez ele não gostasse de falar sobre sentimentos, ou achava que eu não entenderia.
— Não é preciso ter o coração partido para isso. — me encostei um pouco na mesa, sem ter certeza se continuaria falando ou não. Mas eu já tinha começado, então teria que continuar. Parei um pouco, olhando-o. Seus olhos pareceram me desafiar. Ele pareceu me desafiar. “O quanto você é experiente nisso?”. Eu não sabia qual meu nível de experiência em amor, provavelmente não muito alto, porém eu era experiente em pensamentos. — Quando você para de gostar de alguém é o suficiente para se sentir assim. Eu poderia gostar de alguém, um amor incorrespondido, então depois de certo tempo eu simplesmente pararia de gostar da pessoa. No início seria um alívio. Mas depois eu não conseguiria me lembrar de como eu me sentia. Eu... eu lembraria que foi ruim, claro, obviamente sofri por amar e não ser amada, mas talvez, apenas talvez, eu poderia sentir falta de sentir... algo. Sabe? — Victor me olhava tão atentamente que me senti um pouco envergonhada. Cocei a nuca. Murmurei a última frase, querendo parar logo de falar: — Qualquer coisa melhor que o vazio.
Ele ficou calado por um tempo. Então, me surpreendendo, riu um pouco. Sorri de leve, vendo-o parecer considerar minha resposta.
— Eu nunca me senti assim. — confessou.
— Nunca se apaixonou? — finalmente perguntei o que eu queria saber antes, mas no momento nem fazia mais sentido, porque ele já tinha me dito que havia tido o coração partido.
Victor negou algumas vezes com a cabeça, querendo dizer que entendi errado.
— Não. Nunca tive vontade de voltar a me sentir do jeito que eu me sentia. — corrigiu.
— Por quê? — me vi perguntando.
— Quando você se apaixona, gosta, ama, tanto faz. Você vira dependente de alguém. E eu não quero depender de ninguém. — respondeu simplesmente, claramente dando o assunto por encerrado. — Quer voltar à festa? — propôs ele, me pegando de surpresa com a rapidez que mudou de assunto.
Porém, assenti. Se ele não queria mais conversar, eu não iria insistir.
— Vamos lá. — dei de ombros, abaixando-me e rapidamente calçando aqueles sapatos da tortura, que antes estavam jogados no chão.
Quando terminei de calçá-los arrumei um pouco meu cabelo com os dedos, pegando minha bolsa em cima da mesa. Suspirei um pouco e fui até a porta. Victor abriu e eu saí primeiro, olhando ao redor por nenhum motivo em especial. Corredor vazio.
Victor se colocou ao meu lado e voltamos para o salão principal. Agradeci mentalmente por estar vazio, já que todos estavam na festa, porque dois jovens saindo de um escritório — um deles com o cabelo totalmente bagunçado, sendo que entrou com ele arrumado — talvez não fosse ser muito bem visto.
Rapidamente subimos as escadas — digamos que eu estava mais focada em não cair, então não subi tão rápido — e voltamos à festa. Olhei rapidamente pra mesa onde o pessoal estava antes, e nenhum deles estava ali. Eu sabia que Juliet só poderia ir para casa no fim da festa, e Alex não a deixaria — e Andrew não deixaria Alex, e Diana não deixaria Andrew —, então eles deviam estar em algum outro lugar.
Eu não era a única que estava procurando alguém. Victor olhou ao redor algumas vezes.
— Eu vou procurar o peste do meu irmão. — falou quando percebeu que eu o olhava com curiosidade, revirando os olhos em seguida.
Eu estava pronta para dizer algo “ele não é um peste”, mas Victor saiu mais rápido do que imaginei. Suspirei um pouco, caminhando até a outra parte da festa, que eu ainda não tinha ido. O segundo andar era realmente enorme. Duas pilastras dividiam as duas partes da festa. Passei no meio delas, indo parar na outra parte. Era igual a primeira, a decoração a mesma, porém as pessoas eram diferentes. Era ali onde quase todas as modelos estavam, e provavelmente era onde Victor estava antes, o que era a resposta para eu não tê-lo visto. Fui até um sofá claro no canto da festa, já que todas as mesas estavam ocupadas por pessoas desconhecidas.
Um homem estava sentado no sofá, ocupando uma parte dele. A primeira coisa que reparei era que ele se vestia de modo diferente da maioria dos outros homens da festa. Não usava blazer, terno ou calça social, e sim uma camiseta azul de mangas, um cachecol e uma calça jeans. Ele possuía pele clara e uma barba rala, cabelos pretos e curtos. Ele, mesmo de longe, sorriu pra mim. Por algum motivo algo dentro de mim se revirou de um jeito desconfortável, e até um pouco assustador. Como se alguma coisa quisesse me alertar de algo. Não o meu estômago, mas sim algo em meu subconsciente. Algo que eu ignorei e que não me impediu de me aproximar do homem para me sentar ao seu lado no sofá que, aparentemente, era o único lugar disponível para sentar.
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