The Anchor
18 O desfile que deu errado. — Parte I.
Notas iniciais
O resto da semana passou incrivelmente rápido, por mais que eu não tenha dormido muito bem. Durante os dias que vieram antes de sábado me dediquei bastante às cheerleaders, finalmente colocamos em prática e conseguimos fazer uma pirâmide. A treinadora Elena estava pegando um pouco pesado conosco, mas eu entendia, já que um pouco depois do baile haveria um jogo de futebol, no qual obviamente iríamos torcer e precisávamos estar prontas.
Eu quase sempre me esquecia de que a torcida não era composta só por garotas, já que Edward estava lá. Harmony, segundo as fofocas, tinha brigado com sua namorada Laura e não estava nada bem. Provavelmente por aquele motivo ela não me atormentou muito, como sempre fazia, e até pareceu me ignorar — graças a Deus. Lizzie parecia ter voltado ao normal, mas eu sentia que ela ainda estava um pouco distante, e às vezes chegava ao colégio com olheiras profundas e a voz rouca. Eu estava preocupada.
Os ensaios com Yv iam muito bem, como sempre, estar com ele me fazia bem, ainda mais quando cantávamos juntos e dividíamos experiências, conhecimento e amor pela música. Eu e Mish passamos todas as tardes juntos — por mais que ele sempre precisasse ir embora cedo, e nunca me respondesse para onde ia, apenas persistia com a promessa de que me contaria depois do baile —, e eu sempre precisava mentir para minha mãe e dizer que iria estudar com uma amiga qualquer, já que eu não queria que ela desse uma de mãe super protetora por eu estar saindo todos os dias com um garoto. No colégio eu estava indo bem. Luke sempre me explicava algumas coisas que eu não entendia — principalmente sobre matemática —, e ele explicava muito melhor que a maioria dos professores. Por mais que o baile estivesse relativamente próximo, eu e Booker não tínhamos tido uma conversa de verdade após o anúncio do mesmo.
Eu estava um pouco ocupada com as minhas coisas e ele com as dele, mas a professora de teatro nos procurou, então teríamos que arrumar um dia para decidir as coisas da tal dança e ensaiar. Eu e Lori ficávamos juntas em todas as aulas que nós duas de fato tínhamos, no almoço, antes da primeira aula e depois da última. Fui à casa dela duas vezes, estudamos juntas e nos divertimos bastante. Ela era extremamente parecida comigo e uma garota incrível.
Eu ainda mantinha contato com meus amigos do Brasil, claro, principalmente Angeline, Leo e Daniel. Eu e Victor nos tratávamos normalmente, e com normalmente quero dizer como cão e gato, o de sempre. Provocações, deboches e desentendimentos básicos. Eu tentava ao máximo ignorar o que eu possivelmente sentia por ele — possivelmente não, eu realmente sentia —, e com tantas coisas em minha cabeça eu até conseguia.
Então, finalmente sábado. Por mais que eu estivesse relativamente — muito — cansada, graças aos dias exaustivos, e quisesse dormir durante uma semana, ainda havia o desfile de Juliet naquele dia. E eu queria ir. Minha mãe e minha tia Milleny iriam me deixar no local do desfile e me buscariam (Juliet voltaria comigo). Acordei de tarde e arrumei logo meu vestido azul em cima da cama, escolhendo um par de sapatos e deixando-os ali também. Tomei café da manhã, já que eu não queria almoçar, e tomei um banho frio, aproveitando para lavar meus cabelos. Fiquei no computador pelo resto da tarde. Assisti O Grande Gatsby pela milésima vez, sozinha, já que Jennifer não gostava do filme. Quando ele acabou, minha mãe escovou meus cabelos e cortou as pontas um pouco ressecadas. Já era noite quando tomei um banho rápido e comecei a me arrumar.
— Jennifer! — gritei, prendendo minha longa franja com um grampo, já que eu adoraria conseguir terminar de me maquiar sem meus cabelos atrapalhando. Sem resposta. Bufei. — JEEEEEEEEEEEEENNIFER! — berrei, prolongando o “e”.
Segundos depois a porta do meu quarto foi aberta, revelando uma Jennifer com uma cara maníaca. Eu quase teria rido se não soubesse que ela poderia voar em mim a qualquer segundo.
— O que é, merda? Será que eu não posso nem dormir um pouco nessa casa? — resmungou, cruzando os braços.
Seu rosto estava um pouco amassado, e eu pensei em me desculpar por ter acordado-a. Mas não o fiz. Afinal, eu adorava irritá-la (quando ela não me batia, claro).
— Você viu meu batom rosa? — perguntei, dando meu melhor sorriso em seguida.
Jennifer parou, fitando-me completamente incrédula. Suas mãos se fecharam em punhos e ela trincou o maxilar.
— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ME ACORDOU PRA SABER DA PORRA DE UM BATOM ROSA! — gritou, fazendo-me quase pular de susto e ter vontade de levar as mãos aos ouvidos.
— Ei, não chama ele de porra... — murmurei, prendendo uma gargalhada ao vê-la ficar vermelha de raiva.
Jennifer fechou os olhos com força, respirando fundo e soltando o ar lentamente pelo nariz. Eu sabia o quanto o sono era sagrado para ela. Mas digamos que eu não respeitava aquilo. Ela abriu os olhos minutos depois, e a fitei de modo impaciente. Jennifer respirou profundamente e soltou o ar novamente. Então me olhou com calma, relaxando o maxilar e os punhos.
— Já procurou no inferno? — sugeriu irônica.
— Jenn, é sério! — olhei para ela e suspirei um pouco, vendo-a encostar-se na parede ao lado da porta. Eu sabia que ela não estava mais furiosa comigo, mas o que restou foi ironia. Eu estava quase pronta, apenas faltava passar o batom e calçar os sapatos. — Você não o viu?
— Primeiro, você tem dez mil batons. — exagero! — Segundo, você tem cinco mil batons rosas. — novamente exagero! — Terceiro, eu não uso maquiagem, muito menos a sua. — bem, aquilo era verdade.
— Eu sei, mas você mora aqui, poderia ter visto em algum canto ou sei lá. — suspirei, desistindo e olhando ao redor, indo até a cama que era onde minha maquiagem estava espalhada. Peguei um batom vermelho e fui até o espelho, passando-o e fechando-o, jogando na cama novamente. Suspirei um pouco, sentando-me na cama e calçando meus sapatos. Eu sabia que Jennifer estava me observando com um olhar provavelmente de tédio. Levantei-me, virando para ela e fazendo a típica pergunta: — Então, como estou?
— Como um belo projeto de vadia. — respondeu venenosamente, fazendo-me olhá-la com tédio, esperando uma resposta séria. Jennifer riu consigo mesma, parando de rir e me analisando um pouco. — Está bem, você está bonita. Quem quer pegar? Ah, é o loirinho, não é? — sorriu maldosa, dirigindo-me um olhar sugestivo.
Ri alto, negando algumas vezes com a cabeça e olhando-a divertida. Ela estava falando de Mish, já que sempre fingia esquecer o nome dele e o chamava de “loirinho”.
— Não.
— Então há alguém!
— Não é ninguém, tapada. — ri, fazendo-a me acompanhar. — Não sou você. Aliás, como está o Chris?
Jennifer parou de rir, encarando-me com uma sobrancelha erguida e uma expressão emburrada. Quase pude vê-la envergonhada, mas era impossível, já que Jennifer era tão sentimental quanto uma pedra. Chris era um garoto de olhos castanhos e cabelo castanho claro e liso que caía sobre os olhos. Mascote do time de futebol — que por acaso era um tigre dançarino. E com dançarino quero dizer que ele usava um tutu de balé — e às vezes andava com os jogadores. Era bem divertido e engraçado, do terceiro ano, e em todos os treinos das cheerleaders precisava ser expulso por Edward, já que sempre flertava com a maioria das garotas de brincadeira e roubava a atenção que deveria ser colocada na coreografia. Eu não sabia muito sobre ele, apenas que era um bom garoto e que Jennifer tinha uma quedinha por ele — sem querer Josh deixou escapar na minha frente —, e aparentemente ele também sentia algo por ela. Desde então, eu adorava irritá-la ao falar dele e do quando os dois formavam um casal perfeito.
— Vai se ferrar. — foi o que respondeu, fazendo-me prender uma gargalhada.
Jennifer resolveu rir um pouco e saiu, deixando-me sozinha no meu quarto.
Suspirei um pouco comigo mesma, indo até um grande e vertical espelho que minha mãe colocou ali, vendo como eu estava. Meu cabelo estava solto, caindo pelas minhas costas e meus ombros, e as partes em que o tom de roxo estava mais forte — no caso, as pontas — estavam levemente onduladas. Minha maquiagem era extremamente escura na parte dos olhos, e fiz questão de realçar meus cílios com bastante rímel, já que eu amava fazê-lo. Minha boca estava bem desenhada e pintada com o batom vermelho. O vestido azul era completamente lindo, aquele tipo de coisa que as mulheres classificavam como “simples, mas bonito”. Era sem alças, o que as pessoas chamavam de “tomara que caia” (tomara nada). Parecia que tinha sido feito especialmente para mim. No busto ele era preto, ou talvez fosse azul escuro, era difícil decifrar. Na parte da cintura ele era bem justo, o que dava a impressão de que eu tinha uma cintura mais fina que realmente era. E depois vinha a parte que eu considerava a mais bonita. Eram vários tecidos soltos em diversos tons de azul, mas todos um pouco escuros. Um leve brilho estava presente em todos os tecidos, algo que de longe parecia purpurina, mas obviamente não era. Não era nada muito chamativo ou exagerado, era o tipo de brilho que dava o toque final e só era possível ver realmente em fotos. O vestido ia até o meio das minhas coxas e era confortável. Era realmente um vestido bonito.
O sapato de salto preto não era muito confortável, mas era bonito, e a meia calça preta que eu usava deixou tudo mais... a minha cara. Sorri um pouco para meu reflexo, tocando de leve em meus cabelos. Eu estava me sentindo bonita. Verdadeiramente bonita. O que quase nunca acontecia, já que era raro eu conseguir me agradar e achar que estava bem em uma roupa, ainda mais quando era para um evento importante e eu sabia que todos estariam extremamente arrumados. Eu havia me arrumado pra festa de Booker, claro, mas foi diferente, era uma festa de adolescentes e não era como se alguém tivesse ficado horas se arrumando na frente de um espelho — ao menos eu não. A última vez que eu me arrumei do jeito que estava arrumada ali foi... bem antes da morte de Cam. E lá estava eu, vendo no espelho aquela garota de aparência quase adulta. Afastei-me do espelho, olhando rapidamente para a tela ligada do meu celular.
Merda. Quase atrasada.
Peguei uma pequena bolsa preta em cima da cama, jogando meu celular dentro e algumas maquiagens, fechando-a. Fui em direção a porta e saí do quarto, fechando-a e caminhando pelo corredor, em direção a escada. Enquanto descia os degraus, forçando-me a não cair — não, eu não sabia muito bem andar de salto —, minha mente vagou e pensei em Cam. Eu sempre pensava nele. Sorri comigo mesma, quase podendo ouvir sua voz sussurrando em meu ouvido “aproveite a noite”.
Depois de descer as escadas, lembrei que tinha esquecido meu email aberto e subi para meu quarto. Eu não queria que minha mãe lesse meus emails, o que eu sabia que ela iria fazer porque simplesmente era curiosa demais. Pois é, privacidade era algo que eu não tinha muito. Desliguei meu notebook, aproveitando para passar no quarto de Jennifer e me despedir, o que ela não gostou muito, já que novamente atrapalhei seu sono. Eu e minha mãe esperamos minha tia Milleny aparecer com o carro para nos levar até o local do desfile. Minha mãe apenas iria me deixar lá, depois me buscaria com minha tia e Juliet voltaria conosco. Tia Milleny não demorou muito, e tive que aguentar ela e minha mãe cantando músicas da Madonna de modo nada afinado durante vinte minutos, até finalmente chegarmos ao desfile, depois de uma terrível versão de Like a Virgin. Ouvi todo o discurso da minha mãe de cuide-se-você-é-apenas-uma-criança, prometi que não iria fazer nada de errado e elas foram embora, me deixando ali. Falei meu nome para uma mulher que estava na entrada do local e ela checou se eu estava na lista, deixando-me entrar então.
— Aproveite, querida. — ela sorriu um pouco para mim, e eu retribui o sorriso.
Adentrei em um pequeno corredor branco, virando-o e saindo em um lugar que mais parecia um palácio. O lugar era enorme, realmente grande, e com certeza com mais de um andar. Olhei rapidamente para cima, vendo várias escadas que levavam para os outros andares. Olhei ao redor, tentando não parecer tão fascinada, mas era um pouco impossível. Eu não estava acostumada com nada daquilo. Uma longa passarela estava no meio do salão, com várias cadeiras nas laterais, todas ocupadas. A decoração era em prata e branco, tudo muito elegante, porém moderno. Tudo era extremamente iluminado e arrumado. Eu nunca havia estado em um lugar como aquele. Provavelmente uma festa viria depois do desfile ou algo do gênero, pois algumas luzes típicas de festas piscavam aleatoriamente — por mais que naquele momento estivessem iluminando o palco e centradas nele, como se um show pudesse começar a qualquer minuto — e as cadeiras ocupavam uma boa parte do lugar, mas ainda sobravam os andares de cima e um grande espaço ali.
Ou talvez fosse algo normal em desfiles, de qualquer jeito eu não sabia. Garçons bem arrumados com ternos passavam oferecendo bebidas conhecidas e desconhecidas por mim. Havia um bar, também, com algumas pessoas sentadas perto. Não precisei olhar atentamente para as pessoas para saber que todas estavam muito arrumadas, elegância era um dos pontos principais ali. Percebi que estava parada, perto do corredor, e fui até o bar, concentrada em não cair naqueles saltos. Algumas pessoas de pé, entre o bar e a passarela, me olharam.
Eu não sabia qual o motivo, talvez fosse eu ser nova demais e aparentemente estar sozinha, ou estar de (possível) preto e azul escuro quando todos estavam usando cores mais claras. Ou, provavelmente, meu cabelo. Obviamente eu não me encaixava naquele lugar, talvez aquelas pessoas estivessem se perguntando o que alguém como eu estava fazendo ali. Ignorei os olhares e consegui chegar até uma cadeira alta e vazia do bar, sentando-me e suspirando um pouco. Olhei a passarela vazia.
Quando isso vai começar?
Eu queria que Jennifer estivesse ali comigo, provavelmente seria melhor e menos assustador se eu não estivesse sozinha. Uma mulher de vestido longo e verde passou por mim, indo cumprimentar um homem que bebia um drinque perto da escada que levava ao segundo andar. Ela era bonita, seus cabelos negros e longos combinavam com a sua pele morena, um pouco mais escura que a minha. Eu achava que a conhecia de algum lugar. Arregalei um pouco os olhos quando finalmente me toquei. Revistas. Ela era algum tipo de celebridade. Apenas naquele momento percebi que alguns fotógrafos cercavam o palco, esperando o início do desfile, e outros tiravam fotos de pessoas que sorriam como se já estivessem acostumadas. Eu conhecia a maioria delas, mesmo que de vista. Aquela mulher era famosa, e não era a única ali.
Certo, aquilo era maior do que eu imaginava que seria. Por mais que fosse um pouco aterrorizante, não pude deixar de me sentir feliz por Juliet. Ela sabia quantas pessoas importantes estavam ali? Ela sabia que aquele era um evento realmente grande? Ela sabia que tinha chegado extremamente longe, como sempre sonhou?
— Espero que saiba, Julie. — pensei alto e acabei murmurando, sorrindo um pouco comigo mesma.
O barman veio até mim. Usava uma camiseta social branca com um colete preto por cima. Seus cabelos eram pretos, e seus olhos verdes. Provavelmente tinha vinte e poucos anos. Imaginei que Lori praticamente morreria se estivesse ali. Ela tinha uma queda por homens mais velhos e bonitos.
— Senhorita, deseja alguma coisa? — perguntou-me, abrindo um largo e gentil sorriso, que poderia parar as ruas da cidade mais movimentada do mundo.
Sorri de volta, porém um sorriso menor e sem jeito.
— Não, tudo bem, estou bem. — dispensei, vendo-o assentir. — Na realidade... um copo d’água seria maneiro. — parei um pouco — Quero dizer, legal. Quero dizer... — fiz uma careta, me atrapalhando totalmente. O rapaz riu um pouco, mas pareceu disfarçar uma gargalhada. — Agradável. É, seria agradável.
— Tudo bem. — afastou-se, sorrindo divertido.
Ele foi até uma porta que estava na parte do bar, abrindo-a e sumindo quando entrou. Suspirei profundamente, querendo me socar. Quem se atrapalhava com palavras como “maneiro” e “legal”? Quem se atrapalhava pedindo água? Quem, pelo amor de Deus, não sabia pedir um copo d’água? Mas, pensando por outro lado, apenas eu era idiota o suficiente para falar “maneiro” em um desfile de moda de gente rica.
Garota, você é muito, muito, muito idiota...
Antes que eu pudesse continuar repetindo mentalmente “muito”, o barman retornou, colocando uma taça com água em cima da bancada. Peguei delicadamente a taça e levei aos lábios, tomando poucos goles e pondo novamente no balcão.
— Então — parei um pouco. De que eu o chamaria? Não sabia seu nome —, você conhece Juliet Costt? — perguntei para o barman, sorrindo disfarçado e apoiando de leve meus cotovelos no balcão.
Ele sorriu de leve, sem mostrar os dentes.
— Pode me chamar de Sean. — falou ele, e eu sorri um pouco. Lembrei-me de Jennifer, e de uma antiga mania nossa. Quando assistíamos filmes americanos, costumávamos comparar os nomes dos personagens, e ver quantos eram repetidos e bastante usados. Parece besteira, mas para nós não era. E não eram apenas nomes e personagens masculinos. Víamos que em quase todo filme havia um Thomas, uma Elizabeth, um Nicholas, uma Katherine, um Anthony, uma Emma, entre outros. E, claro, um Sean. — E, sim, conheço. Se estiver falando da modelo.
— Certo. Sim, ela mesma.
— Algum motivo especial?
— Ah, nada. Ela é minha prima.
Sean sorriu de lado, assentindo.
— Sean, vai pegar isso aqui pra mim lá dentro. — um homem aproximou-se de nós, vestindo uma roupa como a de Sean, e jogou um pequeno papel em cima da bancada.
— Não dá. — Sean respondeu, olhando pra mim. Eu estava pronta para interferir e dizer que tudo estava bem, eu poderia ficar sozinha, mas ele foi mais rápido: — Estou limpando o balcão. — pegou um pano que estava deixado de lado, passando-o no balcão com vontade, como se realmente estivesse limpando, o que eu sabia que era apenas fingimento.
Prendi a risada. O garçom suspirou e pegou a folha de volta, resmungando algumas coisas e entrando na porta que Sean entrou para buscar minha água. Sean parou de “limpar o balcão”, sorrindo divertido. Esforcei-me para conseguir segurar a risada, mas ficou realmente difícil quando ele começou a rir. Não resisti e o acompanhei.
— Você não precisava fazer isso. — falei uns segundos depois.
Eu não precisava perguntar para ele o motivo de ter feito aquilo, já que o motivo era óbvio.
— Precisava sim. É a primeira vez que não me falam “você, garoto do bar, vá pegar tal coisa pra mim!”. E, dude, isso irrita muito. — revirou os olhos discretamente, sorrindo meio falso para uma mulher de nariz empinado que passou por nós.
Ri. Ele era divertido, além de engraçado. Sean provavelmente não era tão velho quanto aparentava, já que não possuía mais a postura formal de antes, e estava falando até gírias. Relaxei mais, colocando minha bolsa no balcão.
— Eu te pedi para pegar água. — lembrei, sorrindo de lado.
— Mas não me chamou de garoto do bar. — sorriu de volta, e apenas ri, já que não sabia o que responder.
Ouvi um barulho e virei-me para trás, girando um pouco na cadeira e olhando a passarela. As luzes começaram a piscar rapidamente, uma música alta sendo ouvida. Aplausos. Aquele era o começo do tão esperado desfile.
A palavra certa para definir aquele desfile, ao menos a metade dele, era incrível. As roupas eram simplesmente lindas, e nem um pouco estranhas ou sei lá. Na realidade, eu poderia usar a maioria dos vestidos. Os que eram joviais. O desfile estava na metade, e eu não conhecia nenhuma das modelos. Obviamente todas eram super magras e lindas. Juliet ainda não tinha aparecido. Eu já estava no meu segundo copo d’água, enquanto conversava um pouco com Sean. Eu soube que ele estava naquele trabalho para ganhar um dinheiro extra, já que trabalhava numa oficina. Ele queria ir para NY e tentar fazer algo da vida, ter novas oportunidades. Contei que eu era do Brasil, o motivo de ter me mudado para os EUA — decisão dos meus pais — e outras coisas sobre mim, assim como minha idade. Ele quase teve um ataque ao saber que eu tinha quinze, porque disse que nunca adivinharia aquilo, já que eu parecia ter no mínimo dezessete. Eu já estava acostumava a ouvir aquilo, então apenas ri.
— Vou ao banheiro. — avisei, pegando uma bolsa. Parei um pouco. — Toilete. — corrigi, rindo de leve e vendo-o me acompanhar, assentindo. — Foi um prazer, Sean.
— Digo o mesmo, Geo.
Obviamente eu tinha dito meu nome a ele, já que realmente conversamos depois do início do desfile. Levantei-me da cadeira, sorrindo de lado para Sean, logo no momento em que Juliet apareceu no palco, usando um vestido preto de mangas longas. Abri um largo sorriso ao vê-la, e acenei um pouco, mas ela estava concentrada em olhar para frente e manter uma expressão séria.
— LINDA! ELA É LINDA, NÃO É NÃO? ELA É A MINHA NAMORADA! — um garoto que estava do outro lado da passarela gritou, fazendo todos olharem para ele.
Franzi a testa. Namorada? Eu não sabia que Juliet estava namorando. Ele continuou dando ataques, sem se importar em ser discreto, e prendi a risada depois que a surpresa passou. Pensei em ir até ele, mas iria esperar o desfile acabar para Juliet nos apresentar. Afastei-me do bar e andei um pouco, tentando não parecer perdida, procurando a droga do banheiro. Será que era no andar de cima? Merda. Parei de andar quando ouvi vários aplausos explodindo pelo salão, e olhei pra passarela. Todas as modelos estavam nela, assim como Juliet, e uma mulher sorrindo no meio delas. Todos aplaudiam e os fotógrafos faziam seus trabalhos. Estava acabado.
Fui rapidamente para mais perto da passarela, aplaudindo e rindo do “namorado” de Juliet, que praticamente dava surtos. As modelos saíram da passarela, por trás, sendo seguidas então pela mulher. As luzes coloridas que estavam voltadas para o palco apagaram, e o mesmo ficou escuro. Mais aplausos e alguns assobios.
Estávamos todos no andar de cima. Como imaginei, houve uma festa após o desfile. Nada extravagante ou do tipo balada, e sim algo mais sério e não-eu. Eu estava sentada em uma mesa, no canto do salão, mas não estava sozinha. Juliet me apresentou aos seus amigos e seu namorado, e todos tinham sido legais comigo. Era bom saber que eu não era a única jovem ali. Alex, namorado de Juliet, estava sentado na mesa com uma cadeira vazia ao seu lado, onde Juliet antes estava, pois naquele momento estava cumprimentando pessoas e tirando fotos. Ele era completamente divertido e descontraído, tinha cabelos pretos e lisos acima dos olhos, cobrindo a testa. Olhos castanhos e pele clara. Andrew, amigo do casal, estava sentado ao lado da namorada Diana. Andrew possuía a pele morena, porém não muito, era algo mais como bronzeado. Assim como eu. Seus cabelos eram escuros e seus olhos castanhos, assim como Diana. Porém o cabelo dela era extremamente longo, do tipo que ia até depois da cintura. A festa não estava completamente chata, mas não fazia o meu tipo de festa. Com certeza. Pessoas conversando, tirando fotos, servindo-se de salgados e doces que tinham nomes esquisitos e de gente rica. Eu não sabia onde Sean estava, mas sabia que estava trabalhando, então preferi ficar na mesma mesmo e não ir atrás dele, não queria atrapalhá-lo.
— Então, Geo, você passa muito tempo com a Julie? — Alex puxou assunto, fazendo-me olhar para seu rosto.
— Não muito agora. — respondi sincera.
— Ela está sempre ocupada, não é? — ele suspirou um pouco, fazendo-me franzir a testa. — Fico feliz por ela. Você sabe, ela sempre quis ser modelo. Eu sempre a parabenizo quando, bem, quando nos vemos. — parei um pouco, sentindo certa mágoa na voz de Alex. Diana e Andrew de repente pareceram desconfortáveis. Alex provavelmente percebeu, porque sorriu pra mim e mudou de assunto: — Eu soube que você conheceu meu primo. Sean.
Arregalei um pouco os olhos, surpresa. Alex viu minha expressão e riu. Então Sean e Alex eram primos? Nossa. Naquele momento descobri o significado de mundo pequeno. Ou talvez Juliet tivesse arrumado para Sean, como um favor a Alex. Eu não sabia.
— Sim, conheci. — assenti prontamente.
— Ele me disse que você é do Brasil. — Alex comentou — É verdade?
— Sim.
— E como é lá?
Andrew olhou para Alex incrédulo, como se o amigo estivesse sendo completamente idiota.
— Alex. Eu já fui ao Brasil várias vezes, você sabe como é lá. — Andrew franziu a testa.
Não respondi a pergunta de Alex, já que o que Andrew disse foi o suficiente para me fazer calar. Diana riu um pouco pelo nariz.
— Dude, eu estou tentando puxar assunto com ela. — Alex falou como se fosse completamente óbvio, e foi a minha vez de rir um pouco, sendo acompanhada pelo trio. — O ignore, Geo.
— Não a mande me ignorar! — Andrew pareceu extremamente ofendido, porém de um modo divertido — Ignore-o, Geo!
— Ela vai ignorar você! — Alex rebateu, cruzando os braços e olhando para o amigo de modo ameaçador.
— Você!
E uma discussão entre os dois sobre quem eu deveria ignorar começou, fazendo-me ficar entre querer rir e me calar. Enquanto os dois quase saiam nos socos, pude analisar um pouco de Alex. Ele com certeza era o tipo de Juliet. Alex era realmente divertido, e eu sabia que Juliet precisava de diversão em sua vida, já que a carreira de modelo era tudo, menos fácil. Era bom saber que alguém estava cuidando dela, e se certificando de que ela não parasse de comer ou explodisse de estresse. Juliet sempre teve certos problemas com o próprio corpo, e me peguei imaginando se Alex sabia sobre aquilo.
— Eu acho melhor você ignorar os dois. — Diana sussurrou para mim, inclinando-se um pouco por cima da cadeira que Juliet deveria estar.
Fui puxada para fora dos meus pensamentos, e nem percebi que já estava ignorando-os. Olhei para Diana, vendo-a sorrir divertidamente, e retribuí o sorriso no mesmo momento.
— Acho que já fiz isso. — sussurrei de volta, vendo-a rir e olhar rapidamente para os rapazes, que ainda insistiam em discutir.
— Eles são assim todo o tempo. — comentou ela, revirando discretamente os olhos, ainda olhando para eles. Segurou um pouco na cadeira vazia ao meu lado, não querendo cair da que estava, ao lado da vazia. — Minha rotina é ignorá-los.
Soltei uma risada baixa. Era óbvio que eles realmente eram daquele modo toda hora, mas também era claro que eles se divertiam daquele jeito. Olhei para Diana com atenção, e depois para Andrew. O modo como ela olhava para ele era inquestionável. As pessoas costumam dizer que os olhos de alguém brilham quando tal pessoa vê quem ama. Os olhos de Diana não brilhavam, mas mostravam serenamente amor. Sorri de leve comigo mesma e olhei um pouco para baixo, era o que eu costumava fazer depois de sorrir daquele jeito. Mesmo que eu não soubesse o que aquele significava. Talvez... envergonhada. Mas por que eu estava envergonhada? Acho que amor era uma coisa que eu via pouco, talvez graças ao fato de que meus pais estavam distantes um do outro, praticamente divorciados, por mais que não admitissem. Eu só sabia que amor de verdade era algo que eu não estava acostumada.
Às vezes eu me pegava imaginando como seria sentir verdadeiramente amor, sem ser amor dos/por meus amigos e meus pais. Parece bobo, eu sei que sim, mas não era. Minhas tias diziam que adolescentes não podiam amar de verdade, mas eu não concordava. E ao ver os olhos de Diana, tive a certeza de que minhas tias estavam erradas. Eu sabia que adolescentes podiam amar de verdade, eu só não sabia se eu podia amar de verdade. Se alguém poderia me amar de verdade.
— O que foi? — novamente, Diana me trouxe de volta à terra.
Percebi que eu olhava para o nada, provavelmente com uma expressão pensativa. A garota aparentemente mais velha que eu me olhou curiosa, e ao olhar rapidamente para os garotos pude ver que não discutiam mais, e sim tentavam comer os doces estranhos que nos serviram antes.
— Nada... — respondi, olhando-a e arrumando um pouco meu cabelo, afastando-o da frente do meu rosto. — Nada de mais. É só que é bonito o jeito que você olha pro Andrew.
Diana pareceu surpresa, provavelmente porque não esperava que eu notasse o modo que olhava para o próprio namorado. Okay, pensando daquele jeito foi meio estranho eu ter notado, mesmo. Mas a garota sorriu de lado, o rosto assumindo um tom levemente rosado.
— Obrigada. Eu acho. — ela riu um pouco e a acompanhei, vendo-a voltar à posição inicial em sua cadeira.
Levantei-me lentamente, arrumando meu vestido e recolhendo minha bolsa que estava em cima da mesa. Olhei para os três, um ao lado do outro, e pude ver a mão de Andrew descansando na coxa de Diana — a qual estava livre de tecido —, com a palma para cima e a mão menor dela por cima de sua, seus dedos entrelaçados. Sorri um pouco e discretamente, murmurando um “vou ali” para Diana, que assentiu. Não me despedi dos garotos, já que iria voltar, e eles também estavam ocupados demais tentando comer aqueles doces estranhos que tinham cheiro de... pé. Eu e meu brigadeiro tradicional agradecíamos, obrigada.
Eu não sabia para onde iria, apenas sabia que precisava sair dali, pois eu não conseguia ficar sentada e quieta por muito tempo em lugar algum. Respirei fundo, tentando preparar meus pés para novamente sofrerem a dor de andar de salto alto. Para mim o maior desafio não era tentar me manter equilibrada naquele salto alto, mas sim tentar manter minhas pernas eretas a cada passo que eu dava. O que apenas era pior porque elas já estavam doloridas. E digamos que o fato de que meu pé estava sendo praticamente esmagado ali não fosse muito bom ou confortável.
Afastei-me da mesa, olhando ao redor e procurando algum lugar para ir. Tudo o que eu vi foi o que eu já estava cansada de ver. Gente rica e importante, comidas estranhas, bebidas chiques e fotógrafos. Fui até a escada, mas não me atrevi a tentar descê-la, já que uma queda não passaria despercebida. Ou passaria, ao menos pelos fotógrafos, já que eu não era famosa ou qualquer outra coisa. Mas, de qualquer jeito, seria um mico. Eu estava acostumada com micos, mas não com tudo... aquilo.
— Agora é o momento em que aparece um garoto lindo, acostumado com isso tudo, e diz “bem vinda ao meu mundo”? — murmurei, suspirando em seguida e apoiando-me no corrimão da escada.
— Acho que você anda vendo muitos filmes. — uma voz relaxada e debochada me fez parar, na realidade me fez congelar.
Eu não precisava me virar para saber a quem a voz pertencia. Mas, por Deus, aquilo só podia ser brincadeira. Será que em todo lugar que eu estava, ele também estava? Como aquilo era possível? Ele só podia estar me seguindo. No minuto em que cogitei aquela opção, pude ouvir sua voz em minha mente dizendo:
Não se ache tão importante assim, Geovana.
Eu tinha certeza que seria o que ele me diria caso eu o acusasse de estar me seguindo. Era óbvio que não estava, mas aquilo era coincidência demais! O mundo só podia estar contra mim, com certeza. Não me importei em fingir um sorriso ou resmungar, apenas me virei e o encarei. E, se eu não havia congelado antes, eu o fiz naquele momento.
O garoto que estava em minha frente não parecia Victor. Quer dizer, sim, parecia ele, e era, mas não como eu estava acostumada a ver. Ele parecia outra pessoa, que eu sabia exatamente quem era. Tantas semanas tentando descobrir quem Victor me lembrava, tantos dias tentando decifrar aquele mistério, e finalmente eu consegui. Todos os dias, quando o encontrava onde quer que fosse, eu sabia que já tinha visto aqueles olhos em algum lugar. Mas eu nunca consegui saber onde.
Meu coração parou de bater — apenas para se tornar absurdamente acelerado em seguida — e minha mente deixou tudo mais lento, como eu via nos filmes, mas aquilo era real. Eu não podia acreditar. Meus dedos apertaram o corrimão com força, e não me importei em estar parecendo completamente chocada e surpresa. Eu estava. Aquilo era completamente impossível. Simplesmente. Impossível. Impossível. Na realidade, eu não sabia o que a palavra significava, eu não conhecia os limites de nada. Eu não podia julgar muitas coisas, não podia dizer que elas eram impossíveis. Mas era coincidência demais, era assustador. Era impossível.
O cabelo escuro de Victor não estava bagunçado como de costume (fora no primeiro dia que o vi no refeitório), e sim penteado para apenas um lado, como eu costumava ver nos mocinhos ricos de alguns filmes antigos. No refeitório Victor estava com o cabelo para o lado, arrumado, mas ali era diferente. No refeitório o seu cabelo cobria sua testa, mas ali não. Ele vestia uma camiseta branca e um blazer preto por cima, mas não era aquilo que me importava. Meus olhos estavam fixos em seu rosto, e eu não me importei com o olhar completamente curioso que Victor me dirigiu.
O ar dificilmente corria por meus pulmões, e o motivo não envolvia o fato de que ele estava ridiculamente bonito. Como eu não percebi antes? Como fui tão idiota a ponto de não notar a semelhança, a ponto de não assimilar? Victor só tinha mudado o cabelo. Eram apenas cabelos diferentes, de resto os dois eram muito parecidos. Alguns traços do rosto de Victor eram diferentes, mas eram realmente parecidos. Puta merda, como eu nunca percebi? Cameron. Victor. Eu não sabia mais quem estava em minha frente. Meu coração se apertou, pois por um segundo o imaginei ali. Eu nunca o conheci pessoalmente, e aquilo só fez com que sua morte se tornasse mais dolorosa. E então ele estava ali. Não ele, mas alguém quase idêntico a ele. Meus ouvidos estavam zunindo, e eu sentia tantas coisas ao mesmo tempo que não conseguia explicar, ou ao menos entender. A voz de Victor saiu distante quando ele resolveu dizer algo:
— Eu sei que as garotas costumam paralisar diante da minha beleza, — falou sarcástico, olhando rapidamente para minha mão que apertava o corrimão. Apenas percebi aquilo porque ainda olhava fixamente para seu rosto. — mas você já passou dos limites, farm girl.
Aos poucos o mundo voltou a girar normalmente, e eu percebi que ainda estava na festa pós-desfile. O barulho das pessoas conversando se tornou audível. Assim como os brindes, as risadas. Os rostos ganharam foco. Eu não estava sozinha com ele ali, como antes achava que estava. Eu queria responder Victor, mas minha voz simplesmente não saiu. Aos poucos minha respiração se normalizou e meus dedos afrouxaram o aperto no corrimão. Victor me fitava de modo impaciente, e eu o olhava como se tivesse visto um fantasma. E, de certo modo, tinha. Todo meu corpo formigava, e não de um modo bom, mas sim de um modo agonizante. Eu me senti mais fraca, e talvez pudesse desmaiar ali. Eu não me importava. Pela primeira vez na vida, não tive vontade de chorar. Eu só precisava sair dali, precisava respirar ar puro, precisava absorver tudo aquilo. Eu precisava... tocá-lo. Precisava entender como aquilo estava acontecendo.
Minhas pernas se tornaram mais fracas, e não pude manter-me firme. No segundo seguinte, as mesmas não resistiram e fraquejaram, e se não fosse por Victor eu teria caído. Seus braços me envolveram com rapidez e uma delicadeza que eu nunca tinha visto antes vindo dele. Sentido. Eu não resisti, não relutei, apenas fechei meus olhos com toda força que pude e deixei que ele me mantivesse em seus braços. Eu só queria que ele me mantivesse em seus braços. Eu tinha consciência de que Cam não estava ali, e sim Victor, mas aquilo não me impediu de me deixar ser acolhida por ele. Pelo contrário, eu não deveria, mas eu quis ser acolhida por Victor. Eu sabia que sentia algo por ele, por mais que eu tentasse fugir, mas naquele momento tudo estava tão mais estranho e confuso. Intenso.
Meus dedos tocaram de leve no seu blazer, deslizando para dentro e tocando em seu peito por cima da camiseta. Ele apertou um pouco mais um braço ao meu redor, levando o outro para minha cintura e fazendo eu me manter de pé, por mais que estivesse sendo sustentada por ele. Respirei fundo, sentindo o cheiro natural incrível que ele possuía. Lembrei-me do dia na praia, quando saímos juntos. Quando estávamos na moto, eu senti pela primeira vez o cheiro de Victor que era... irresistível. Senti o mesmo cheiro ali, porém mais forte, mais intenso, mais presente. Eu não me importei se nós não estávamos sozinhos, sinceramente, eu não me importei com nada naquele momento. Eu achava que Victor, àquela altura, já teria feito quinhentas perguntas para mim, mas ele se manteve calado. Inexplicavelmente, surpreendentemente. Eu sabia que ele estava completamente confuso e surpreso, mas pareceu respeitar meu silêncio.
— Ei... ei. — ele murmurou. Abriu a mão do braço que estava passado pelos meus braços, que me encolhia contra ele como um filhote assustado, seus dedos frios tocando de leve em meu ombro. Victor acariciou um pouco aquela região, provocando-me um arrepio na espinha. Seu tom não era irônico, sarcástico, debochado ou os outros que eu estava acostumada. Era calmo, e se eu não o conhecesse diria que ele parecia preocupado. Parou de acariciar meu braço e o apertou de leve, subindo para meu ombro e fazendo-me encolher mais — se é que fosse possível — diante de seu toque frio. — Você... você quer sair daqui? Vamos sair daqui, está bem?
Assenti fracamente. Não abri meus olhos, eu não queria abri-los. Eu não estava com medo de ver seu rosto, na realidade eu queria vê-lo. Eu queria analisar todos seus traços e me fascinar com a semelhança, para depois eu poder ter medo. Mas o principal motivo para eu não querer abrir meus olhos, era que eu não queria ver a burrada que eu estava fazendo. Eu estava buscando conforto nele, consolo, eu estava abraçando-o como se minha vida dependesse daquilo. Era provavelmente a coisa mais idiota que eu já tinha feito.
Victor aos poucos me livrou de seus braços, mas segurando-me firmemente com suas mãos, tentando certificar-se de que eu não despencaria. Abri meus olhos, olhando para o chão e respirando profundamente, tentando me manter de pé ali. Eu me senti um pouco melhor, e preferi pensar que o abraço dele não tinha nada a ver com aquilo. Olhei para meus pés, vendo que eles e minhas pernas tremiam um pouco, ameaçando fraquejar novamente.
— Foda-se essa merda. — murmurei, sentindo Victor recolher as mãos quando achou que eu conseguiria ficar de pé sozinha.
Abaixei-me um pouco, sentindo alguns — poucos — olhares curiosos sobre mim, apenas as pessoas que estavam mais afastadas da festa estavam vendo aquilo, já que eu estava no topo da escadaria. Em questão de segundos me livrei do par de sapatos torturantes, e sentir um pouco (já eu estava de meia calça) do chão frio em meus pés foi mais relaxante que qualquer outra coisa. Prendi os sapatos em meus dedos, balançando-os um pouco, e suspirei novamente. Ergui o olhar, vendo que Victor me olhava. Pior, ele sorria. Como se tivesse gostado da minha atitude nada-lady. Controlei meu coração para não disparar ao olhar para aquele garoto, eu não podia me permitir sentir assustada por ele ser tão parecido com Cameron. Eu não poderia levar aquilo para o lado ruim. Eu precisava me convencer de que havia um lado bom naquilo, e que Victor não era Cameron. De jeito nenhum, ao menos as personalidades eram completamente diferentes.
Cam estava morto, eu já tinha encarado, e estava superando aquilo muito bem, mas tudo poderia ir por água abaixo graças ao fato de que um sósia dele — que só percebi ser sósia semanas depois — convivia comigo todos os dias. Mas eu nunca tinha conhecido Cam pessoalmente, nunca pude me sentir próxima de verdade dele, e querendo ou não eu acabaria me sentindo daquele dia em diante. Por mais que fosse um pouco assustador, eu não conseguia imaginar aquilo como algo completamente/extremo/tão ruim. Não se eu pensasse direito. Era confuso, mas nada na minha vida era muito normal.
Não precisei dizer nada para Victor, e ele não se atreveu a falar qualquer coisa. Desviei o olhar e virei-me, descendo as escadas com extrema facilidade e nada de muita dor, apenas o desconforto de ter os meus dedos ainda doendo um pouco. Eu sabia que ele estava me acompanhando, e me perguntei se Victor realmente queria ir para qualquer lugar comigo, ou se apenas queria porque não tinha nada melhor para fazer. Vindo dele, eu apostava na segunda opção.
— Vem. Por aqui. — ele falou quando acabamos de descer os degraus.
Victor foi em direção a um corredor que provavelmente levava aos banheiros. Eu o segui, e quando chegamos ao corredor me vi em frente a três portas. Victor abriu uma delas e olhou para mim, olhando de modo significante para dentro e depois para mim novamente. Ele sorriu. Eu não fazia idéia do que me aguardava.
Eu não sabia o que havia lá dentro, mas não era todo dia que Victor Stonem era cavalheiro, ou ao menos tentava ser. Ao menos ao que que pareceu, mas eu não tinha muita certeza de nada quando se tratava dele.
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