The Anchor

6 O desastre no banheiro.


Notas iniciais
Olá, olá, olá! Gosto muito desse capítulo, espero que goste também. Nos vemos mais tarde. Boa leitura.

Capítulo 5.

Depois de pegar meu almoço andei ainda um pouco perdida pelo refeitório enorme e barulhento, com estudantes gritando, rindo, comendo e atirando pudim para todos os lados. Corri meus olhos pelo local, procurando alguma mesa para sentar e poder comer minha comida de gorda em paz. Mish acenou para mim, sentado em uma das mesas próximas a sala dos professores. Demorei alguns segundos para vê-lo e reconhecê-lo, não teria percebido que ele estava ali se ele não tivesse acenado. Obrigada, querida miopia. Sorri um pouco, era bom saber que ele não estava com raiva de mim por causa do acidente com o celular, horas antes. Ainda bem que só arranhara um pouco, e a bateria sumira por alguns minutos, mas aquilo era irrelevante.

Andei até a mesa, vendo que ele estava acompanhado de uma garota sentada na ponta. Cabelos castanhos, tamanho médio e liso. Seus olhos eram castanho claro. A pele era morena. Usava maquiagem, mas não muito, o que chamava mais atenção era o batom. Laranja. Digitava em seu celular, enquanto pescava algo em seu prato com a mão livre. May ergueu o olhar quando me viu ali, parada, com uma bandeja na mão. Sorriu e eu sorri de volta, para depois ela voltar sua atenção para a tela do celular. Sentei-me ao lado de Mish, colocando a bandeja em cima da mesa e começando a comer como uma ogra, o que eu realmente era.

— A comida 'tá’ boa, ein? — brincou Mish, olhando para mim daquele modo divertido que sempre me deixava encantada.

Deus, seus olhos azuis eram muito lindos. Forcei-me a focar na minha comida, e não em seu rosto tão bonito.

— Na medida do possível — ri um pouquinho, quase terminando de comer.

Alguém passou por trás de mim, uma garota, pelo que pude perceber apenas por ouvir sua voz. No momento em que passou, ela soltou um alto:

— Gostei do seu cabelo!

Virei-me para agradecer, mas ela já estava se sentando em uma mesa.

— Uh... Obrigada. — murmurei para o nada, vendo Mish rir e May não prestar atenção em nada a não ser seu aparelho preto que soltava barulhinhos a cada três segundos, ela estava conversando bastante com alguém.

Uma garota subiu em cima da mesa que ficava no centro do local, onde estavam alguns garotos que praticamente babavam por ela.

— Atenção!

Seu cabelo preto e extremamente ondulado estava preso em um rabo de cavalo apertado, com algumas mechas pulando para fora e moldando o seu rosto. Sua pele era claríssima, em alguns lugares do rosto era levemente avermelhada, deixando-a próxima de fofa. Ela não tinha muito corpo, mas aquilo não importava, já que ela era bonita. Usava maquiagem também, claro. Suas roupas com certeza chamaram minha atenção. Uma blusa branca e curta, com a sigla "BHS", em roxo, no busto. Sua barriga estava a mostra, as bordas da blusa eram pretas, e alguns detalhes também. O corte da blusa atrás era normal, mas na frente havia um V de cabeça para baixo, deixando apenas o umbigo de fora. Presentes também estavam detalhes em roxo.

A saia ficava no meio das coxas, mais acima que abaixo, logo, era bem curta. Era meio rodada e roxa, com detalhes em preto, e vários cortes do meio para baixo estavam dividindo-a. Parecia com a blusa, apenas as cores trocavam de lugar. Imaginei-me naquele uniforme de líder de torcida. Eu precisava fazer aquele teste. E como se lesse meus pensamentos, a morena anunciou:

— A maioria de vocês me conhece — deu um sorrisinho convencido, e todos cessaram as conversas para ouvi-la. — Para os novatos, sou a capitã das cheerleaders. Chamo-me Harmony. Semana passada, eu e as garotas avisamos sobre os testes para entrar na torcida. Eles serão amanhã, no sábado!

Eu engasguei com a minha própria saliva, dando graças a Deus por já ter terminado de comer. Como diabos eu prepararia tudo?

— É isso! Boa sorte a todas! — desejou, não parecendo muito verdadeira.

Parecia ser o tipo de garota que esperava ver você quebrar a perna, não no sentido legal de “quebre a perna!”.

— Parece que ela e a Laura voltaram, certo? — murmurou Lea, para May, que deu de ombros.

Aquilo penetrou em minha mente depois de alguns segundos. Ela era lésbica, então. Eu poderia classificá-la antes como a típica vilã de séries colegiais, mas naquele momento não se encaixava muito. Além de que fugia do clichê “loira, vadia e má”.

— Agora tira a saia e dança pra mim, gostosa! — todos ouviram uma voz masculina, vindo sabe-se lá de onde.

Um segundo depois, o refeitório explodiu em gargalhadas, inclusive meus amigos. Até eu me peguei rindo.

— Só nos seus maiores sonhos pervertidos, Johnny! — gritou Harmony de volta, sorrindo, debochada.

Mais gargalhadas. Ela desceu da mesa com a ajuda dos garotos que mais pareciam cachorrinhos.

— Aqueles em que você está rebolando em cima de mim, Harmony? — Johnny provocou, com uma risadinha maliciosa no final.

Harmony não rebateu, apenas soltou uma risada e sentou-se numa mesa com mais garotas da torcida.

— Como você é imbecil, moleque. — disse uma terceira e feminina voz.

Todos já estavam em silêncio, então não foi tão difícil ouvir, eu só não sabia a quem ela pertencia.

— Um imbecil que você já chupou — rebateu Johnny, e virando-me mais pude ver seu rosto — ou tentar.

Pelo que minha miopia me deixou ver, ele estava sentado com garotos que usavam jaquetas do time de futebol. Branco, preto e roxo, combinando com o uniforme das cheerleaders. Johnny não era muito alto, nem muito forte. Sua pele era clara, cabelos escuros. Não era nenhum deus grego, mas parecia ser bonito. Um coro de "ui", "essa eu não deixava!", "pegou pesado, ein" foi ouvido, vindo de todos os cantos. Uma garota se levantou, não podia ver muito bem seu rosto ou sua expressão, mas por seu modo de andar podia dizer que estava furiosa. Seus cabelos eram médios e ruivos, lisos, com uma franja. A pele era muito clara, e ela usava o uniforme das cheerleaders, assim como Harmony, porém com uma calça da torcida no lugar da saia.

O único barulho a ser ouvido depois foi a palma de sua mão se chocando contra o rosto de Johnny. Minha boca se abriu em "o" maiúsculo. Com certeza aqueles dois tinham um passado sujo. Mas, não podia negar, gostei da garota e de sua atitude, ainda mais como ela saiu determinada logo depois. Ri quando Johnny gemeu de dor e murmurou algo. Olhei para meu amigo, vendo-o rir consigo mesmo, provavelmente por causa da cena.

— Eu quero entrar pra torcida. — falei — E eu vou entrar pra torcida. — dei um sorrisinho, decidida.

— Certo, certo. Mas os testes são amanhã, como você bem ouviu a abelha rainha dizer. — Mish estava se referindo a Harmony, pelo que entendi.

Eu parei, pensando. Mish estava certo. Eu iria fazer o que eu fazia de melhor, além de tropeçar no meu próprio pé e comer vários pedaços de pizza numa única noite. Eu iria improvisar.

— Vou dar um jeito — dei de ombros, terminando de beber meu suco de laranja.

Antes que Mish pudesse dizer mais alguma coisa, senti mãos gélidas envolverem meus olhos por trás, impedindo-me de enxergar.

— Adivinha quem é? — ouvi uma voz meiga e calculadamente calma, como se a dona da voz estivesse se segurando para não gritar.

— Oi, Lea. — facilmente adivinhei, tocando em seus dedos.

Ela tirou as mãos de meu rosto, sentando-se ao lado de May.

— Sou eu! — falou o óbvio — Eu tenho uma novidade! — anunciou a morena, depois de dar um rápido abraço em May — e seu melhor amigo, o celular — e piscar para Mish. — Qual a melhor coisa que acontece no ensino médio? — perguntou, sendo incapaz de conter sua animação.

— Você ia contar algo ou perguntar algo? — ergui as duas sobrancelhas, já que não conseguia erguer só uma sem fazer uma careta ridícula.

— Responde! — Lea ignorou minha pergunta.

— Eu, pelo menos, não sei. — Mish falou, enquanto se espreguiçava.

May concordou silenciosamente com ele, apenas movendo a cabeça, sem desviar os olhos do celular. Lea bufou, irritada.

— Uma festa! — respondeu sua própria pergunta, como se fosse óbvio.

Eu soltei um "uuuuuh", como uma completa retardada, fazendo meu amigo dar uma risada.

— Me deixa adivinhar, a festa é dos por-favor-use-saia-na-minha-frente-e-me-deixe-te-comer? — chutou ele, irônico.

Lea revirou os olhos.

— Como é? — franzi a testa, olhando de um para o outro, pedindo uma explicação.

— Ele quer dizer os jogadores de futebol. — explicou ela, e meu deu um sorrisinho significativo.

Lembrei-me de que o "príncipe" dela fazia parte do time.

— Parece legal! — sorri para os dois.

— Eu não vou. — Mish se apressou em dizer.

Fiz um biquinho que costumava convencer meus amigos.

— Ah, vamos! Vamos! Vamos! Vamos! — implorei, olhando para ele como uma criancinha querendo um doce.

— Não posso, De Geo. — ele ficou sério de repente — Reunião de família. E essas festas não são pra mim.

Suspirei, desfazendo o bico. Eu entendia a parte das reuniões de família, mas, por algum motivo, não acreditei muito nele. Preferi não insistir, não me sentia íntima o suficiente para aquilo.

— 'Tá’, você que sabe. Se ele não vai, também não vou. — decidi, olhando para as garotas, mesmo querendo ir.

Estava apenas brincando, mas elas pareceram acreditar, vi a expressão incrédula de May, pela primeira vez ela largou aquele celular.

— Quê? — quis saber, incrédula — Nem vem! Você vai sim!

— May ‘tá’ certa! — apoiou Lea — Vamos, vai ser legal!

Suspirei, olhando para os três.

May e seus olhos insistentes; Lea e seu biquinho que implorava; Mish e sua expressão estranhamente séria.

— Tudo bem, eu vou dar um jeito de ir. Hoje? De que horas? — perguntei para Lea, ignorando a dancinha da vitória que ela e May fizeram, sentadas.

— Sim. Dez horas. — respondeu ela — Pode levar a Jenn.

— É, eu não poderia ir sem ela, mesmo. — dei de ombros.

Ser irmã e filha mais nova era um saco.

— Bem, garotas, se divirtam lá. — sorriu Mish, brevemente, levantando-se da cadeira em seguida.

— Onde você vai? — perguntei, enquanto via pelo canto do olho May e Lea conversarem animadamente sobre roupas e sapatos.

— Tenho que resolver algumas coisas, De Geo. A gente se vê na aula. — respondeu, dando o assunto por encerrado e se afastando da mesa, virando-se e começando a andar.

— Mas nós nem temos a próxima aula juntos! — tentei protestar, mesmo sem nem saber que aula viria a seguir, mas ele já estava passando por outra mesa.

Bufei, deixando as garotas conversarem em paz e levantando-me, indo atrás de Mish. Elas não disseram nada, e poderia dizer que nem notaram minha saída. Qual era o problema dele? Em um momento estava normal, no outro ficava sério e misterioso. Passei por algumas mesas barulhentas, vendo que meu amigo loiro quase virava o corredor mais a frente. Um garoto, de costas, apareceu na minha frente de repente. Não consegui desviar dele, e antes que eu pudesse fazer mais alguma coisa, ele se virou, e algo me acertou em cheio. Quero dizer, acertou meu busto em cheio. Parei instantaneamente, abaixando a cabeça para ver o que me acertou. Toda a minha blusa estava suja. Bem no centro, minha barriga e meu colo. Meu queixo caiu. Eu via aquilo acontecer sempre em filmes de colegial e séries adolescentes, mas não achei que um dia fosse acontecer comigo.

Eu estava ali, no meio do refeitório, suja de leite condensado e bolo de chocolate. Tentei limpar aquela sujeira toda, mas apenas melei minhas mãos de leite condensado. Eu estava furiosa, e extremamente envergonhada, pois podia ouvir todos os estudantes gargalharem. Não olhei para trás, mas imaginava as expressões chocadas de May e Lea. Mish já virara o corredor, alheio a toda aquela confusão. Eu iria matar alguém, e seria quem fez aquilo comigo. Ergui a cabeça, vendo quem foi o desgraçado que me acertou com um bolo.

— Quem foi o desprovido de cérebro q... — comecei.

Eu parei, encarando aquele deus na minha frente. O garoto não ria escandalosamente da minha cara, como a maioria dos estudantes ali — inclusive seus amigos —, mas eu percebi que se não fosse por meu olhar de maníaca ele estaria rindo histericamente, como todos os babacas presentes. Sabe quando você está indo roubar um brigadeiro de uma criança na festa de aniversário dela, e quando está quase lá, vê um brigadeiro mais bonito que os outros? Sabe, que não estava amassado, maior e com bastante granulado? Era daquele modo que eu me sentia, o garoto era como se fosse o brigadeiro mais bonito da mesa de doces. Péssima comparação. Confesso.

Seus cabelos eram negros e lisos, bem penteados para o lado, escondendo sua testa.

Os olhos eram tão escuros quanto os fios sedosos, e continham alguns brilhos que eu reconheci. Malícia, deboche e humor. Sua pele era extremamente clara, mas não ia pra palidez. Ele era alto, mas não muito. Porte atlético, com alguns leves músculos, mas de um modo quase natural, como se não fosse muito à academia e tivesse o corpo que gostaria de ter. Nada exagerado ou considerado exatamente adulto. Seus lábios eram finos, quase como o dos outros garotos, porém um pouco mais rosados.

Eu tinha certeza que ele estava beijando alguém minutos antes daquilo. Vestia uma camisa branca e justa, com a jaqueta do time de futebol por cima. Uma calça jeans escura. Nos pés, All Star branco e preto. Eu sabia de tudo aquilo porque estava olhando-o de cima à baixo várias vezes. Bem discreta. Claro. Aquele garoto lembrava-me alguém, mas eu não conseguia saber quem. Era difícil conseguir me concentrar, graças a tudo que estava acontecendo ao redor no momento.

— E lindo. — acrescentei, sem nem ao menos notar, e quando notei, já tinha falado.

As pessoas ainda riam, mas de modo menos histérico, e eu não estava mais com tanta vergonha. Tentei ignorar os flashes que vi e os irritantes barulhinhos que os celulares produziam quando uma foto era tirada.

O moreno me olhava, e um sorrisinho convencido nasceu no canto de seus lábios.

Seu olhar passou rapidamente pelo meu corpo, fixando-se em meu decote, que não era muito grande, mas era possível ver um pouco do que o sutiã escondia. Decote que estava sujo. Senti-me extremamente desconfortável com a atitude dele, e pigarreei, chamando sua atenção de volta para seu rosto. Lembrei-me de que, mesmo ele sendo muito lindo, eu estava furiosa. Deu certo, assumi minha postura de eu-quero-matar-você, de novo.

— Qual o seu problema, garoto?! — soltei, e ele segurou uma risada, o que me deixou com mais raiva ainda.

— Você que estava correndo como uma maluca por aí. Não tenho nada a ver com isso. — rebateu.

Sua voz era calma e aveludada. E, minha santa que guia todas as garotas de cabelos coloridos, ele tinha sotaque! Ele era britânico! Eu poderia desmaiar ali mesmo, se ainda não estivesse suja e, claro, com raiva. Eu precisava me lembrar daquele detalhe.

— Que pessoa fica comendo bolo na hora do almoço? Você tem o que, cinco anos? — cruzei os braços, e aquilo me fez sujá-los.

Bufei, batendo o pé com força no chão e descruzando meus braços, irritada.

— Só pra constar, eu não estava comendo. — ele ergueu uma sobrancelha.

Filho da mãe! Até ele sabia erguer uma sobrancelha e eu não. Passei por ele, ignorando-o e querendo ir o mais rápido possível para dentro do banheiro feminino e me limpar, ou tentar. Porém, o garoto me parou, agarrando meu braço sem força. Olhei para ele, com uma cara de “quem você acha que é?”. Antes que eu pudesse falar algo, ou puxar meu braço, ele foi mais rápido em abrir a boca:

— Precisa de ajuda? — perguntou, dando um sorrisinho sacana em seguida.

Eu franzi a testa, olhando-o confusa.

— Ajuda em quê? — cuspi as palavras, puxando meu braço em seguida.

— Limpar sua blusa. Toda, se preferir. — o sorriso se tornou maior.

Eu queria dar um murro na cara dele.

— Uma desculpa para pegar nos meus peitos? Que cavalheiro. — dei um sorriso de desdém, vendo os amigos dele, jogadores de futebol, rirem de sua cara.

Ele ignorou, e ainda sorria, apenas para me irritar.

— Quer ir a uma festa hoje à noite? — perguntou, como quem não queria nada.

Certo, ele tinha sérios problemas. Nem me conhecia. Mas eu sorri mais que ele.

— Desculpa desfazer sua alegria em me convidar, mas eu já fui convidada por outra pessoa.

E, com aquela bela frase, sai andando em direção à saída do refeitório, deixando-o para trás.

Eu achava que uma garota de cabelo roxo correndo pelo corredor principal do colégio, (com a blusa suja de bolo de chocolate e leite condensado) não estava no roteiro de sexta-feira do diretor de Blanchaster High School. Tentei ignorar todos que me olhavam estranho, jovens que riam e outros que levavam expressões surpresas nos rostos. Mas, claro, todos estavam com os malditos celulares nas mãos. Eu sabia que no dia seguinte, ou até mesmo naquele ainda, eu iria ser o alvo de piadas e provocações de todo o colégio. Eu odiava aquilo, odiava ser o centro das atenções de modo negativo. Quando mais nova, passei muito por coisas daquele tipo. Coisas que preferia não relembrar, não expor, não comentar. Entrei em um dos corredores, provavelmente era um dos únicos que estava vazio. E era o que eu estava procurando.

A entrada do banheiro feminino estava mais a frente, sem ninguém circulando por ali.

Sem hesitar, corri até lá, sentindo-me cansada por ter corrido tanto. Adentrei o banheiro, respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, com os braços apoiados nos joelhos, o corpo curvado enquanto eu buscava o oxigênio para preencher meus pulmões suplicantes.

Ergui meu tronco e olhei ao redor, dando graças a Deus pelo local estar realmente vazio. As portas de cor cinza das cabines estavam fechadas. Andei em direção as pias brancas, abrindo a torneira de uma delas e pensando no que eu iria fazer. Eu precisava limpar minha blusa, ou ao menos esconder a mancha que ficaria no tecido quando eu limpasse. Eu não tinha nenhum casaco ou jaqueta, também não havia levado outra blusa para o colégio. Como eu poderia prever que aquilo iria acontecer? Bufei, olhando para meu reflexo e observando minha blusa. Peguei um rolo de papel higiênico, rasgando um pedaço e dobrando-o, limpando meu busto e o pouco do meu pescoço que também estava sujo. Certo, eu estava sozinha no banheiro feminino, eu precisava limpar minha blusa, como faria aquilo com ela no corpo? Joguei o papel higiênico no lixo, colocando o rolo em cima de uma das pias e puxando minha blusa para cima, tirando-a. Coloquei-a em cima da pia, onde a água ainda saía pela torneira.

Seja o que Deus quiser.

Recomendação importante: Não façam aquilo em casa.

Deus só podia estar de brincadeira com a minha cara. O que aconteceu em seguida foi um estrago enorme, resultando em uma blusa estragada e uma Geovana totalmente furiosa. Minha blusa estava ali, em cima da pia com a torneira fechada, ainda molhada. Primeiramente, eu tinha decidido que iria passar uma água apenas onde estava sujo. Mas, bem, tudo estava sujo. Ela, que era uma de minhas favoritas por ter sido dada pelo meu pai, estava imunda e totalmente fora de cogitação para uso.

— Que merda, inferno! — desisti de tentar fazer minha blusa voltar a ser o que era.

Virei-me para o espelho, vendo meu reflexo. Eu estava ali, parada, com uma expressão carrancuda. Estava sem blusa, deixando a mostra uma boa parte dos meus seios graças ao meu sutiã vermelho com renda preta, meia-taça. Suspirei, derrotada, o que eu iria fazer? Provavelmente iria ficar dentro do banheiro até o fim da última aula, então ligaria para minha irmã para ela pedir ajuda a um de seus amigos, para alguém me emprestar um casaco ou algo do gênero. Mas por que ligar para ela depois? Eu ligaria naquele momento!

Puxei meu celular do bolso do meu jeans, desbloqueando a tela rapidamente e discando um número. Levei o aparelho ao ouvido, ouvindo-o chamar repetidas vezes. Caixa postal. O universo estava conspirando contra mim. Tive vontade de jogar meu celular no chão, mas me controlei, afinal a culpa não era dele. Guardei-o no bolso novamente, tentando me acalmar e reunir meus pensamentos, afastando os que envolviam torturar alguém para aliviar o estresse. Eu precisava achar uma saída.

Ouvi passos do lado de fora e no mesmo momento me virei, olhando para onde alguém provavelmente iria aparecer. E foi aquilo que aconteceu. Rápido demais para eu poder me virar sem a pessoa me ver — e ver mais do que eu queria que visse —, chocante demais para eu conseguir dizer algo. Meus olhos se arregalaram e eu cobri meu busto com os braços, cruzados em frente a ele, para o ser que estava parado atrás de mim não ver nada naquela área, eu estava de costas, mas bem na minha frente havia um enorme espelho.

Atrás de mim estava um garoto.

Um garoto.

Um garoto que eu não conhecia.

Um garoto que eu não conhecia no banheiro.

Um garoto que eu não conhecia no banheiro feminino.

Um garoto que eu não conhecia no banheiro feminino que me viu de sutiã.

Não pude ver muito bem seu rosto no momento em que ele apareceu, por eu ter me virado rápido demais, mas claro que era um garoto. Naquele momento, olhando para o espelho, eu podia ver tudo. Primeiro, meu rosto. Ele estava completamente vermelho, e eu queria me espancar por aquilo. Minhas bochechas chamavam mais atenção, por estarem mais vermelhas que todas as outras áreas de meu rosto. Segundo, o rapaz parado ao lado da primeira pia. Ele tinha a altura média, e sua pele era clara. Seu cabelo era castanho e arrumado, como se ele o penteasse sempre. Seus olhos eram castanhos e pareciam culpados e constrangidos, por trás dos óculos de grau, como se ele fosse um garotinho que fez algo de errado e foi pego em flagrante. Suas bochechas estavam adoravelmente rosadas. Ele mordia o lábio inferior mais e mais a cada segundo, parecendo apreensivo. Desviei meus olhos de seu rosto, no reflexo, olhando para baixo.

— Por que você está de sutiã? — foi a primeira coisa que saiu de sua boca, e me surpreendi com sua voz calma e seu tom suave.

Apontei pra pia onde minha ex-blusa se encontrava, enquanto meu outro braço escondia a parte exposta de meu corpo. Recolhi o braço, cobrindo-me novamente.

Ele olhou para lá, então suspirou, entendendo e coçando a nuca levemente.

— O que você faz no banheiro feminino?! — eu quis saber — Você é um garoto! — exclamei, encostando minha testa no espelho e fechando os olhos, como se quisesse entrar na parede.

E eu realmente queria, para poder sumir dali.

— Minhas roupas, meu cabelo e meu corpo indicam que sim, sou um garoto e... — começou, parecendo constrangido novamente. Então, parou. — Espera!

Virei um pouco a minha cabeça, para ver mais de perto o que ele estava fazendo. O garoto estava tirando seu moletom preto e roxo, com The Heart Never Lies escrito em preto no centro, ficando apenas com uma camisa preta e justa por baixo. Estendeu a mão, com o moletom nela, em minha direção. Eu franzi a testa, olhando de sua mão para seu rosto.

— Sério? — murmurei meio incrédula.

Porém, não esperei que ele respondesse, não queria que ele mudasse de idéia. Com certo esforço, com medo de me virar ainda sem estar devidamente vestida, estiquei o braço e peguei o moletom, vestindo-o com rapidez e desespero em seguida. Suspirei, finalmente parando de me sentir nua. Virei-me para o rapaz, sorrindo um pouco constrangida e me aproximando dele.

— Obrigada. Sério mesmo — agradeci, e ele sorriu para mim, sereno.

— De nada. — deu de ombros — Acho que você precisa mais que eu.

— Segunda-feira eu devolvo! — apressei-me em dizer — E eu lavo. — acrescentei.

Ele riu, achando graça, e levou as mãos aos bolsos de seu jeans.

— Tudo bem. — deu de ombros novamente — Sou o Yv.

Ótimo, eu não.

Nossa, Geo, como você é hilária.

— Sou Geo. — apresentei-me, então, parei — Não viu o show no refeitório? — perguntei, franzindo a testa.

— Show? — uma expressão confusa se formou em seu rosto.

— É, um jogador de futebol sujou minha blusa. — ri sem humor — Por isso eu estava aqui, desesperada.

Yv sorriu com afeto e calma, e eu senti que era impossível ficar com raiva perto dele, ou dele.

— Então, desculpe — suas palavras pareciam sinceras, mas eu não entendia o motivo/a razão de terem sido usadas.

— Por quê? Você não fez nada. — lembrei, em um misto de confusa e incrédula — Ele que deveria me pedir desculpas.

— É, eu não fiz... — concordou, deixando-me mais confusa ainda — Mas eu sou amigo dos jogadores. E sei que nenhum deles vai te pedir desculpas, principalmente o que te sujou, então, peço desculpas por ele.

— Bela atitude. — elogiei — Mas ele ainda vai me pedir desculpas, um dia.

Eu ri um pouco, sendo acompanhada por ele.

— Você é amigo deles? Estranho. Não se ofereceu para pegar nos meus peitos. Quer dizer, me ajudar com a blusa suja. — ironizei, revirando os olhos.

— Digamos que eu sou um pouco mais respeitoso. — ele não parecia estar brincando, mas deu um sorrisinho de canto — Agora eu tenho que ir, te vejo por aí? — perguntou, começando a se afastar.

— Certo, sim — acenei, mesmo ele estando ainda perto de mim.

Yv sorriu e virou-se, pronto para sair do banheiro.

— Espera, você ainda não me falou o motivo de estar no banheiro feminino! — lembrei, andando até ele rapidamente.

Ele se virou, e deu uma risadinha, meio sem graça.

— É porque os espelhos daqui são maiores — respondeu.

Aquilo só podia ser brincadeira. Eu segurei uma risada, até que percebi que ele falava sério. Olhando bem para Yv e suas roupas, ele tinha mesmo uma cara de garoto vaidoso e arrumadinho. Sorri, entendendo e acenando pela segunda vez, e novamente ele estava próximo de mim. Yv soltou uma risadinha, virando-se e saindo do banheiro.

Suspirei, virando-me e olhando-me no espelho. O moletom ficou um pouco largo demais, mas estava bom.

— A propósito, Geo, gostei do cabelo! — ele gritou, do lado de fora, fazendo-me levar um susto.

— Obrigada! — gritei, de volta, rindo em seguida e arrumando meu cabelo por cima do moletom preto e roxo que combinava com ele.

Eu iria matar Mish por ter saído do nada e ter me feito ir correndo atrás dele, iria matar o retardado do bolo por ter sujado minha blusa, e iria matar Jennifer por não ter atendido o celular. Mas, primeiro, eu tinha uma aula (que eu não sabia de que era) para ir.

Notas finais
Cá estou eu, euzinha, euzona -q. Então, quero saber a opinião de vocês, como sempre. Nos vemos no próximo capítulo, sweeties! Xoxo, Little G.