The Anchor
5 Me confundem com um cara.
Notas iniciais
Capítulo 4.
Senti o aroma único e relaxante de flores em minhas narinas, e aquilo me relaxou quase naquele instante. Era a prova que eu precisava. A menos que alguém da minha turma usasse aquele perfume, eu realmente estava em casa. Estava com o rosto enterrado na cama, que tinha cheiro de flores por culpa da minha mãe que fazia questão de perfumar exageradamente os lençóis e travesseiros. Minha primeira aula foi confusa. Nossa turma se juntou com outra, o que foi bom, pois fiquei uma boa parte da aula com Lea (minha amiga que conheci um mês antes de ir para o colégio por causa de uma festa de aniversário) e Jennifer. Na realidade, não foi bem uma aula. Estava mais para bagunça-total-e-de-graça.
De uma coisa eu tive certeza: no Brasil ou Estados Unidos, ensino fundamental ou ensino médio, sempre tudo seria uma bagunça. Fiz amizade com Mish, um rapaz loiro, bonito e simpático, que criara um apelido para mim. E de olhos azuis, quase esqueci. Certo, anotado. Ele e May eram da minha turma. May era uma garota legal, que conversava no celular mais do que estudava. Gostava de cores extravagantes de batons. Anotado. Muitas coisas aconteceram (como confusão de horários por causa dos professores, bagunça matinal dos alunos, eu perdida na hora do almoço, pessoas elogiando meu cabelo e me olhando estranho graças a ele), mas em todos os momentos a saudade continuava presente.
Saudade dos meus amigos, meu colégio, meu melhor amigo e da vida que eu tinha. Na sala atual eu era a garota novata, calada e considerada emo, o que eu de fato não era. Onde estava a garota do ano passado? Ela estava enfrentando sérios problemas consigo mesma. Eu resolvi que iria mudar e fingir, realmente iria fazer aquilo. Mas ainda era meu primeiro dia de aula. Eu ainda queria que houvesse algo para poder me deixar feliz na minha nova vida. Ninguém vivia de passado, por mais que fosse difícil. Ainda teria um ano pela frente.
Eu reservei aquele dia para ser calada e pensativa. Sentia falta de tudo, e eu sabia que podia fazer novos amigos, até sorrir uma vez ou outra, mas eu nunca me encaixaria naquele lugar. E não era por culpa de ninguém, era eu mesma. Estados Unidos não era pra mim. Chordwall não era pra mim. Eu nem sabia pronunciar o nome daquela cidade, não iria me acostumar a morar ali nunca.
Minha mente vagou um pouco e acabei lembrando de algo.
— Geo, vai continuar aqui próximo ano? — Talita perguntou, encostando a cabeça no peito de Pedro, já que os dois estavam deitados debaixo da escada do pátio do colégio. Eu pensei um pouco, sentindo o olhar dos dois, de Luis, Luiz e de Rita em mim.
— Claro! — sorri de lado — Meus pais estão resolvendo sobre isso.
Todos eles sorriram abertamente, eu gostava de vê-los felizes. Rita me abraçou de lado e eu sorri.
— Isso é ótimo! — Ravi apareceu atrás de mim, puxando meu cabelo de brincadeira e sentando ao lado de Rita.
— Ai, idiota. — reclamei do puxão, rindo — Eles vão dar um jeito, eu sei que vão.
E eles realmente deram um jeito. Tiraram-me do meu colégio, dos meus amigos, do meu estado, do meu país. Do lugar que eu amava e que vivia. E para que? Para tentarem a vida no exterior. Será que não puderam pensar um pouco em mim e em Jennifer? Ergui minha cabeça, sentindo o aroma se tornar mais fraco já que eu não estava com o rosto enterrado no lençol da cama.
Jennifer estava em seu quarto, minha mãe estava na casa da minha tia Milleny e meu pai, bem, meu pai estava no Brasil. Levantei-me da cama com certa dificuldade, graças à preguiça e cansaço que insistiam em continuar em meu corpo, impedindo-me fazer qualquer coisa que envolvesse me mexer. No caso, quase tudo.
Peguei meu celular branco na ponta da cama, deslizando o dedo pela tela e desbloqueando-o com uma senha meio antiga, mas que ninguém sabia. Era algo inédito. A primeira que consegui manter em segredo, mesmo tendo que me esconder para meus amigos do Brasil não verem. Joguei-me na cama novamente, porém de barriga pra cima, com um dos braços relaxando em minha barriga que descia e subia, subia e descia, no ritmo da minha respiração. Respondi algumas mensagens de Angeline, uma das minhas melhores amigas do Brasil e a que eu mais sentia falta de lá, e suspirei.
Meus olhos pesaram quando coloquei o celular ao meu lado, sentindo a exaustão me ganhar de vez. Lentamente, fechei meus olhos sem nem perceber direito. Todo meu corpo relaxou e eu me senti extremamente cansada, não só pelo dia, provavelmente pelo fato de que precisei acordar muito cedo. Mal tive tempo de quase pegar no sono, já que meu celular começou a tocar. Fala sério, ninguém nunca me ligava, inventavam de fazer aquilo na hora que eu estava quase dormindo? Só podia ser obra do satanás.
— Mereço isso. — resmunguei baixinho, abrindo os olhos e pegando o aparelho, encostando o dedo no botão verde na tela, e então atendendo a ligação. — Alô? — atendi com a voz arrastada e mais rouca do que já era naturalmente.
— Nossa, desculpe senhor! Acho que liguei para o número errado e n... — reconheci a voz do outro lado da linha.
Era Lea. No começo, achei que ela estava brincando, mas depois percebi que não. Tossi um pouco e suspirei profundamente.
— Lea, sou eu — falei, minha voz voltando ao normal, mesmo esse “normal” também sendo rouca, porém menos.
— Ah, liguei certo! — ela deu uma risadinha. Não qualquer risadinha, a risadinha que só ela dava. Extremamente meiga e fofa, até um pouco enjoativa. Mas eu não me importava. Talvez me incomodasse. Só um pouquinho — Então, Geo, eu não consegui te achar na hora do almoço hoje! Lembra-se daquele assunto?
Eu parei, pensando. Eu sabia que quando se tratava de Lea, o assunto era obrigatoriamente garotos ou roupas. Logo lembrei. Lea, quando nos conhecemos, já estudava em Blanchaster, e falou que lá havia um rapaz. Ele era considerado um príncipe por todas as garotas de todo o colégio, por ser muito bonito. Esse até era seu apelido entre elas. “Príncipe”.
Lea me contou que ele era bem famoso no colégio, famoso até demais. Principalmente entre as garotas, se é que me entende. Ele era da turma dela. Lea queria ficar com ele e aparentemente ele também queria ficar com ela, mas nada acontecia e ela não queria parecer desesperada. Pelo que entendi, não rolavam sentimentos em nenhuma das partes.
— Lembro, lembro sim... — assenti, logo depois percebendo que ela não podia me ver — O que tem ele?
— Pronta pra conhecer ele amanhã?! — Lea perguntou, parecendo meio eufórica do outro lado.
Eu não sabia o motivo de toda aquela animação. Talvez ele fosse mesmo um deus grego, ou houvesse algo desconhecido por mim em jogo. Não pude evitar, eu sorri um pouco. E se ele fosse simpático? Eu poderia fazer amizade com ele, ou tentar, já que eu sempre tive muitos amigos garotos e amava a companhia deles.
— Com certeza! — eu ri — Espero que ele seja isso tudo que você diz.
— Ele é — ela fez uma curta pausa, e imaginei que foi para sorrir — Acho que vamos sair hoje, aliás. Agora tenho que ir! Até amanhã, Geo.
— Tchau, Lea. Boa sorte. — desejei, e desliguei segundos depois, podendo ouvir um beijo estalado dela e depois nada mais.
Suspirei, bocejando em seguida e pronta para bloquear a tela do meu celular e finalmente dormir, quando um barulho que eu conhecia muito bem, de apenas alguns segundos, chegou aos meus ouvidos. Olhei para o celular novamente, e fui até as mensagens. Lá estava um sms que me fez sorrir no momento que li. Como ele conseguiu meu número? Eu não fazia idéia. Mas eu sabia que era ele. Na aula de Literatura/História ele me falou sobre como usava “:3” no fim dos sms que mandava para as pessoas. Segundo ele, todos o consideravam muito gay por aquilo, mas ele estranhamente achava fofo e simpático. Mesmo se mandasse alguém para o inferno e colocasse “:3” no final, a pessoa não iria ligar. Como “vai se foder :3”. É, ele estava certo.
Oi, moça bonita. Chegou bem em casa? :3
Respondi Mish quase no mesmo instante, arrumando o travesseiro atrás de minha cabeça, perdendo o sono de repente.
Oi, moço bonito. Sim, e você? :3
Idem! Hey, gostou do seu primeiro dia de aula? :3
Foi aceitável...
Fiz o meu melhor. Te vejo amanhã, né? :3
Sim, sim.
Ok. Vou resolver umas coisas aqui e depois nos falamos, xx Geo :3
Vai lá, xoxo :3.
Depois de nos despedirmos, eu finalmente larguei o celular em cima da cama e me levantei para tomar meu banho, já que o sono me abandonou quando eu mais precisei dele.
Acordei um pouco atrasada, pra variar. Jennifer tomou banho primeiro que eu, (ela sempre demorava demais) então fiquei arrumando minhas coisas em cima da cama, para quando saísse do banheiro não precisasse ficar procurando tudo e acabar irritando minha tia pelo atraso. Depois que tudo já estava bem organizado na cama, Jennifer saiu do banheiro e foi minha vez de tomar banho. Tomei um banho rápido e não molhei meu cabelo, finalizei a sessão higiene pessoal e desci pra sala. Comi um rápido pedaço de bolo de chocolate com suco de laranja, terminei de arrumar meu cabelo, despedi-me da minha mãe e sai pela porta da frente com Jennifer.
— Tenham uma boa aula, meninas! — gritou minha mãe, quando eu e Jennifer já estávamos dentro do carro de tia Jude.
Gritei um “obrigada!”, mas acho que ela não ouviu, pois o carro já estava em movimento. Recebi um belo “pra quê isso?!” irritado da minha tia, por ter gritado ao lado de seu ouvido. Ignorei, pegando meu celular do bolso da minha mochila e desbloqueando a tela. Nenhuma mensagem nova. O que ele estava fazendo no momento? Já estava no colégio? Na noite anterior eu e Mish ficamos conversando até tarde.
Bom dia :3
Enviar. Agradeci mentalmente por digitar rápido, pois segundos depois perdi o sinal de wifi da minha casa. Fui para minhas músicas, vendo minha enorme playlist chamada “Para acordar”. Eram músicas agitadas que eu sempre ouvia no último volume quando queria despertar, inclusive uma delas era o tema do meu alarme por motivos óbvios. Escolhi uma bem antiga, porém boa, e bloqueei a tela, guardando o celular no bolso de trás da minha calça jeans, pegando meus fones e colocando nele.
Logo eu estava desligada do mundo, incluindo o fato de que minha tia reclamava de algo — como sempre — e Jennifer fingia ouvir, como sempre. Só o que importava era Don’t Stop The Music da Rihanna, e o fato de que eu iria conhecer o tal príncipe de Lea. Além de mais um dia em Blanchaster. Depois de alguns minutos em silêncio (para tia Jude e Jennifer) e uma música que eu não lembrava o nome (para mim), minha tia estacionou em frente ao colégio, no gramado. Abri a porta do carro quando o automóvel parou totalmente.
— Tchau — falei para minha tia, talvez ela tivesse me respondido, mas não pude ouvir por causa do volume da música, que me agradava o suficiente para eu não querer tirar os fones.
Esperei Jenn sair também e vi minha tia sair dirigindo, até virar a esquina e sumir. Puxei um pouco mais a alça da minha mochila, que estava por um dos meus ombros, começando a caminhar pelo gramado verde com minha irmã ao meu lado, mesmo eu estando um pouco mais a frente. Alunos estavam por ali, do mesmo modo como no dia anterior, conversando, se beijando, rindo ou dormindo. Olhei para o lado quando recebi um tapa nada delicada na cabeça.
— Que é? — perguntei para Jennifer, meio irritada, puxando os fones para fora de meus ouvidos antes que ela mesma o fizesse sem muita suavidade.
— Tem aula de quê agora, coisa chata? — perguntou ela, afastando uma mecha de cabelo castanho de seu rosto.
Eu não lembrava qual era a minha aula, perdi meu horário no dia anterior e não tinha conseguido outro. Vi, não muito longe, um garoto que era da minha turma. Só sabia daquilo porque reconheci seu rosto, ele era baixinho e parecia ser bem mais novo do que era. Seu cabelo era liso e castanho, olhos também castanhos e pele clara. Pelo que pude perceber, ele era bem hiperativo.
— Ei! — chamei, umas seis pessoas viraram, incluindo ele.
Acenei para ele umas duas vezes, até ele finalmente perceber que eu estava chamando-o. Veio até eu e Jennifer, que estava confusa.
— Oi, oi, oi. — eu sorri de lado, tentando soar amigável — Você é da minha turma, certo?
— Hum, sim, eu acho... — ele respondeu, meio hesitante.
— Perfeito! — dei um pulinho que o fez se assustar — Qual nossa primeira aula? — perguntei, sorrindo.
— Química... — sorriu de lado.
Eu fiz uma careta. Ah, inferno!
Murmurei um “valeu!” e o vi se afastar, correndo animadamente e pulando em um amigo.
— Isso responde sua pergunta? — virei-me para Jennifer, enquanto voltávamos a caminhar, entrando pelo enorme portão e aparecendo no corredor movimentado e barulhento, graças aos alunos e professores.
— Sim. — ela assentiu levemente — Já conheceu alguém da sua turma? Porque tenho a leve impressão que você nem conhecia aquele garoto — ela riu um pouco, e eu a acompanhei.
— Mish e May. — respondi segundos depois, dando de ombros — E você?
— Josh, Cohan, Mary, Yv e Taissa — respondeu ela.
Aquilo me surpreendeu um pouco. Jennifer era legal com a maioria das pessoas, mas não era exatamente sociável.
— Não sei quem são. — torci o nariz.
— Nem eu sei os seus.
Rimos um pouco, e então mais a frente consegui ver uma pessoa que sorria brilhantemente para mim. Virei-me para minha irmã e a abracei rapidamente, pegando-a de surpresa. Segundos depois ela percebeu o motivo do abraço e do meu visível afastamento, soltando uma risadinha.
— Vai lá, conquistadora — brincou, e eu revirei os olhos, rindo em seguida.
— Boa aula, Jenn. — desejei, sorrindo de leve e afastando-me, andando até o garoto, que conversava com seus amigos.
Eles cessaram a conversa no momento em que me juntei ao grupo, estavam falando sobre mim ou sobre coisas de garotos?
— Oi — sorri para o loiro, que sorriu de volta.
Ignorei seus amigos que me fitavam, alguns me olhando de cima a baixo, analisando-me. Nada discretos ou educados.
— Oi — ele cumprimentou.
Murmurou algo para os garotos, eles sorriram rapidamente para mim, alguns de modo que não gostei muito, antes de se afastarem e sumirem virando o corredor. O loiro passou um de seus braços por meus ombros, abraçando-me de lado, e eu sorri um pouco com aquilo.
— Vamos pra sala! — falou Mish animadamente, dando um beijo estalado em minha bochecha e me levando até a classe de Química com ele.
Encostei minha cabeça na parede fria da sala quase totalmente silenciosa, se não fosse pelo professor — de, no momento, biologia — explicando algo que eu não entendia; os alunos murmurando coisas; rindo baixinho entre si e o barulho de canetas caindo no chão quase sempre. Mish estava na carteira ao meu lado, digitando coisas rapidamente em seu celular, discretamente, para o professor não ver.
Quando perguntei com quem ele tanto conversava, ele me disse que era com um amigo que não via há muito tempo. Depois preferi não perguntar mais nada e ficar em silêncio. Então, minha atenção rastejou por baixo das carteiras roxas e pretas, bolsas jogadas no chão, bolinhas de papel e canetas, parando em um grupo de garotas que estavam no meio da sala. Garotas que ficavam todas as aulas fofocando coisas que eram interessantes apenas para elas, passando maquiagem no rosto como se não houvesse amanhã e arrumando seus decotes nada discretos.
Pude ouvir um pouco da conversa delas, na realidade ignorei boa parte do que ouvi, já que elas estavam falando sobre a bunda de sei-lá-quem. Mas depois um assunto que me interessou começou. Algo sobre testes para cheerleaders. Enquanto eu morava no Brasil, sonhava em um dia ir para os Estados Unidos e ser líder de torcida. Por mais que fosse um pouco bobo, a maioria das garotas já havia pensado naquilo. Eu achava que dançava bem, e seria bom me distrair um pouco de toda aquela confusão ao meu redor.
— Mish. — chamei, fazendo-o finalmente me olhar e deixar o celular de lado — O que acha das cheerleaders? — perguntei, olhando para ele e ficando numa postura aceitável, diferente da relaxada de segundos antes.
Ele parou um pouco, pensando, até que deu de ombros e respondeu:
— Gostosas. Mas são superficiais, chatas e irritantes. Em sua maioria.
Mish voltou a olhar para o celular, e eu bufei, pegando-o de suas mãos. Ele olhou para mim e abriu a boca para protestar, mas eu fui mais rápida em falar:
— Eu estou pensando em fazer o teste para entrar — dei um sorriso, mostrando os meus dentes.
O loiro parou por alguns segundos, sendo pego de surpresa.
— E você sabe dançar? — perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Um pouco — respondi, colocando o celular dele em meu colo, sem deixá-lo pegar de volta.
— Então entra, ué. — sorriu ele, daquele modo travesso que me fazia sorrir — ‘Tô’ louco pra ver você numa saia curta.
Bati em sua cabeça, e ele riu, tentando me abraçar para pegar seu celular de volta. O empurrei de leve no peito, apenas para afastá-lo.
— Vai assistir meu teste? — perguntei, olhando esperançosa para ele.
Eu me sentiria bem melhor com alguém conhecido assistindo.
— Vou tentar. — ele sorriu para mim, se inclinando e beijando a ponta do meu nariz.
Corei um pouco, sorrindo de lado e ficando alheia a tudo ao meu redor por alguns segundos. Viramos rapidamente para frente quando ouvimos o professor reclamar de nós dois, e o celular de Mish acabou caindo no chão com um barulho de algo se quebrando. É, eu poderia me considerar morta.
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