The Anchor

2 Eu renasço. Ou quase isso.


Notas iniciais
"Keep holding on, cause you know we'll make it through, we'll make it through. Just stay strong, cause you know I'm here for you. I'm here for you." Capítulo 1! Aproveite, te vejo daqui a pouco. Boa leitura.

Capítulo 1.

Os olhos castanhos do rapaz moreno brilhavam de modo sereno, enquanto um leve sorriso em seus lábios finos espelhava o brilho em seus olhos. Ele parecia feliz, uma felicidade pura e parecendo finalmente conquistada. Apenas feliz.

— Quero que me faça uma promessa. — decidiu ele, deitando-se de costas na cama confortável que um lençol florido cobria.

A garota ao seu lado fitava o teto sem nada de interessante, os olhos escuros passeando de uma telha marrom à outra, enquanto ambas as mãos magras descansavam no peito que subia e descia, seguindo a respiração lenta. Ela não o olhava, continuava fitando o nada em especial, mas seu silêncio o deixou saber que estava ouvindo-o com atenção.

— Mas, antes de tudo, o que tem de tão interessante nesse teto? — questionou ele, a voz baixa e os olhos um pouco perdidos.

Ele olhava para o mesmo local que ela, mas não via nada de importante, ou ao menos interessante. Dessa vez, a garota aparentemente mais nova soltou uma risada curta, porém sincera. Era harmoniosa e agradável aos ouvidos, como uma canção que possuía apenas alguns segundos de duração.

— Algo realmente precisa ser interessante para atrair nossa atenção? — foi a vez dela de questionar, sem deixá-lo responder, continuou: — Digo, não pode ser apenas curioso? Estranho? Diferente?

O moreno parou, absorvendo as palavras dela, ainda visivelmente sem entender muito bem. Mas parecia acostumado com aquilo, por isso riu pelo nariz e virou-se de lado, olhando-a.

— Você não quer que eu responda isso, quer? É filosófico demais pra mim. — brincou, fazendo-a rir e finalmente olhá-lo.

O modo que ela o olhava era encantador. Como se ele fosse a única coisa boa em todo um mundo recheado de coisas ruins.

— As teias de aranha. — respondeu ela, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ele achava que ela estava respondendo coisas fragmentadas apenas para confundi-lo ainda mais — Tenho sorte. Há teias de aranha na minha casa, acho que nunca reparei. Sabe, só há teias de aranha no início do mês em casas de verdade. Casas que precisam de um adulto para limpar o teto, mas que acaba esquecendo disso. Porque está muito ocupado cuidando das crianças, fazendo a comida, consertando o carro ou levando o cachorro para passear. Essa é uma casa de verdade. Com gritos, música alta, cheiro de comida queimada e roupas espalhadas pelo chão. Eu tenho sorte de ter uma casa assim.

Ele ficou por um tempo calado, apenas observando-a com um sorriso no rosto, que ele mal percebeu estar ali. Deus, como ele tinha sorte de ter alguém como ela em sua vida. Ela era simplesmente única, para ele e para o mundo.

— Sabe, eu amo quando você tem esse tipo de pensamento. — comentou ele, sem desfazer o sorriso.

Ela o acompanhou.

— Fala sério, Cameron, você me ama por inteira. Eu sou a melhor amiga que você poderia querer. — falou, com um divertido tom convencido. Cameron riu, revirando um pouco os olhos de brincadeira — Mas, continua. Que promessa você estava falando?

Cameron se sentou na cama, enquanto a garota permanecia deitada. Ela, aproveitando a posição do amigo, deitou a cabeça em seu colo.

— Me prometa que vai ser feliz. De verdade, sabe? Que vai ser com o mundo do jeito que é comigo. Apenas você, isso é o bastante. Prometa-me que vai encontrar alguém que vai fazer seu coração bater mais rápido... — soltou uma risada curta, sendo acompanhado por ela — Que vai te fazer sorrir e se sentir a garota mais feliz do mundo. Prometa-me que nunca vai desistir dos seus sonhos, Geo. Mesmo se eu não estiver com você futuramente, quero que continue sendo você.

Geo não o questionou em relação a “mesmo se eu não estiver com você futuramente”. Ela sabia que um dos lemas de Cameron era “o amanhã é imprevisível, assim como o próximo minuto”. Geo não se imaginava sem ele, simplesmente não parecia certo.

— Prometa-me. — finalizou o rapaz, fazendo-a erguer o olhar, encontrando os seus olhos escuros e pensativos.

— Para você? Qualquer coisa. — ela se levantou, sentando-se em sua frente, na cama — Então, sim. Eu prometo, Cam.

Abri meus olhos rapidamente, sentindo um grito ficar preso em minha garganta. Sentei-me na minha cama, assustada. Eu estava ofegante, minha respiração descompassada, como se eu tivesse corrido uma maratona, mas eu não saí do lugar. Senti o suor escorrer por minhas costas, por baixo da camisa branca e grande que eu fazia de camisola. Grande demais, era a camisa do meu pai. Desde pequena eu costumava usar as camisas dele quando ia dormir, ou simplesmente para ficar em casa sem fazer nada. Ele nunca reclamou, totalmente pelo contrário, me oferecia suas camisas quando eu não achava minha roupa de dormir e estava sonolenta — ou preguiçosa — demais para continuar procurando na minha gaveta ou na de Jennifer. Ou para recusar, coisa que eu nunca fiz.

Senti na mesma hora as gotas mornas escorrerem lentamente por minha barriga, ainda por baixo da camisa branca. Eu estava com calor, mesmo meu cabelo estando preso em um rabo de cavalo bagunçado e bem de última hora, apenas para dormir. Minha respiração voltou ao normal aos poucos, mas eu ainda suava contra minha vontade. Eu odiava quando transpirava muito. Passei as costas da mão em minha testa, sentindo minha pele quente, e suspirei, abaixando a mão e puxando para baixo meu lençol verde e branco com os dedos dos pés, até tirá-lo totalmente de cima de mim, chutando-o para a ponta da cama. Eu tinha certo medo de dormir com ele, já que tinha fobia de insetos e eles estavam desenhados no lençol. Mas, ultimamente, aquilo não estava me assustando ou me preocupando muito.

Corri os olhos pelo meu quarto. Nas paredes estavam fotos coladas com fita isolante branca, que eu não me importava de esconder por trás das imagens, pelos menos ficariam grudadas ali de modo mais firme.

Era daquele modo que eu queria que minha vida fosse.

Firme.

Em todas as fotos uma garota estava presente, acompanhada ou sozinha. Cabelo longo, solto e bem escovado, castanho escuro na raiz, seguindo daquele modo até meio, porém dele para baixo era de um vermelho vivo. Quase laranja. Olhos não muito grandes, de cor um pouco mais escura que a cor do café. Ao redor deles sempre estava presente maquiagem, sendo delineador, sombra, rímel ou lápis de olho. Na verdade, a cena que mais se repetia era uma sombra preta com lápis de olho também preto. Pele morena, mas não muito, pode-se dizer bronzeada. Sobrancelhas bem desenhadas, como se fossem arrumadas toda semana num salão de beleza. O que não era verdade.

Rosto afilado, nariz levemente empinado. Em todas as fotos estava presente um sorriso nos lábios meio carnudos pintados de rosa ou vermelho. Os sorrisos variavam, deixando suas emoções expostas para um bom observador, assim como o brilho em seus olhos.

Felicidade, realização, orgulho, animação. Ou simplesmente um sorriso que era um sorriso. Um simples sorriso de “hoje acordei com vontade de sorrir”, capaz de fazer alguns sorrirem de volta e outros perguntarem qual a pasta de dente que a dona do sorriso utilizava. Em duas ou três fotos, a garota que aparentava ter quinze anos — ela não tinha realmente aquela idade, mas gostava de ter na mente dos outros — fazia bico, sendo possível ler sua expressão apenas através de seus olhos. Ela era bonita e cheia de vida. Qualquer um que visse aquelas fotos coladas na parede branca e levemente suja — rabiscos — notaria as outras pessoas presentes, mas ela era o brilho principal de todas. Talvez não a mais bela das garotas que ali estavam, mas a que seria capaz de tocar o coração de qualquer um com suas palhaçadas e risada engraçada, estranha e única.

Aquela garota nas fotos era eu. Uma versão minha um pouco mais nova, com sorrisos sinceros, cabelo vermelho, maquiagem preta, olhos brilhantes e expressões faciais variadas. Diferente da atual garota de quinze anos que, naquele momento, vivia de sorrisos forçados, cabelo roxo, maquiagem vou-colocar-a-primeira-que-eu-vi-para-esconder-as-olheiras, olhos tão brilhantes quando a escuridão e expressões faciais repetitivas. Aquela era Geovana Rocha, tão feliz e bonita quanto uma múmia, atraente apenas aos olhos mais estranhos e que estavam buscando por coisas velhas. Não querendo me colocar pra baixo, mas que diferença faria? Eu estava destruída emocionalmente, logo, aquilo afetava minha vontade de acordar todos os dias e passar horas na frente de um espelho me arrumando e analisando meu corpo. Depois das fotos — que quase cobriam toda a parede que não estava ocupada por cortinas, uma janela, o guarda-roupa ou até mesmo a porta — não havia mais nada de interessante naquela parte para ser visto.

Ao lado, uma cômoda branca com alguns livros de capa grossa em cima, revistas sobre assuntos adolescentes que já não me importavam mais. Canetas, lápis e algo que um dia fora um bonequinho, mas que naquele momento estava sem a cabeça e pintado de azul de modo mal feito, então não podia mais ser tratado como tal. Algumas gavetas pretas, com provavelmente papéis insignificantes, tentativas falhadas de escrever um diário, embalagens de doces e provas feitas no ano anterior àquele dentro dela. Perto da janela de tamanho médio, com grades e uma cortina branca e leve, havia um guarda-roupa branco e preto, grande. No chão, um tapete de cor que eu não sabia o nome. Era de cor meio neutra, se bem me lembro.

Talvez bege. Eu sinceramente mal sabia o que era bege. Uma poltrona branca e confortável no canto do local, tão convidativa que minha bunda parecia sentar lá por contra própria quando eu passava ali por perto.

Fora aquilo, detalhes normais e que eu já estava cansada de ver. Então, perdida em meus pensamentos quando olhei novamente para todas aquelas fotos, levei um susto quando uma música relativamente alta e animada demais começou a tocar. Olhei para trás, mas não sabia de onde vinha o som. Peguei o travesseiro branco e superficialmente úmido, erguendo-o e finalmente vendo o que estava fazendo todo aquele barulho. Meu celular.

Peguei o aparelho, apertando o botão que tinha acima dele, cerrando os olhos por conta da claridade que vinha dali. Deslizei o dedo pela tela um pouco arranhada e desliguei o alarme. Suspirei, vendo o aviso que aparecia em letras pretas.

Primeiro dia de aula. Ê. Acorda.

Nossa, minha animação era perceptível até nas palavras, com certeza. Olhei a hora.

7:20.

Joguei o celular em cima da cama, me levantando e sentindo o chão frio em meus pés, meus dedos se contorcendo em desaprovação. Caminhei com preguiça até a porta, sentindo minhas pernas protestarem e pedirem para eu voltar à cama, pois dormir novamente era melhor a ir para o colégio. Eu concordava com elas, claro, mas com certeza minha mãe não.

Abri a porta marrom escura, passando por ela e descendo as escadas lentamente, praticamente me arrastando, saindo então na sala. Bocejei baixinho, indo em direção ao banheiro. Peguei minha toalha branca em cima da mesa no caminho. Eu nem lembrava que ela estava ali, provavelmente minha tia não viu, pois não ouvi nada como um típico “VOCÊ DEVERIA SER MAIS ORGANIZADA!”.

Passei pelo quarto de Jennifer, vendo minha irmã mais velha lutar contra o sono para se levantar, enquanto minha tia se arrumava na frente do espelho para um dia cansativo e normal de trabalho no hotel onde ela trabalhava, que eu sempre esquecia o nome.

— Bom dia — tia Jude falou, quando me viu passar pela porta.

— Bom dia. — respondi às duas, alto o bastante para elas ouvirem, já que eu estava no corredor.

Fui em direção ao canto da sala, virando alguns corredores sem vontade, eu andava com tanta lentidão e preguiça que achei que poderia me desmanchar ali mesmo. Finalmente cheguei ao corredor que queria, caminhando em direção a uma das últimas portas. Parei na porta escura do banheiro, vendo ali algumas coisas que eu escrevi no começo do ano. Palavras soltas, escritas com lápis de cor clara na madeira escura, destacando-se.

Sonhos.

Eu os tinha, claro, e todos com a mesma pessoa. Como o sonho que tive, obrigando-me a acordar minutos antes. O mesmo sorriso que nunca pude ver de verdade, a mesma voz que eu nunca pude ouvir pessoalmente, a mesma pele que nunca pude tocar. Em meus sonhos, seu sorriso era calmo e relaxado, sua voz era grave e envolvente, sua pele era quente. Meus sonhos eram complexos, ou os amava, mas os odiava. Amava porque eu o via. Tão real. Tão próximo de mim. Tão... vivo. Tão bem. Amava porque sentia seu hálito de menta perto do meu rosto, seus braços me envolvendo de modo seguro, seus lábios tocando minha testa de modo relaxante e carinhoso, que provocava arrepios involuntários em mim. Sua risada gostosa e boa de ouvir, como uma canção que nunca se tornaria enjoativa, que seria capaz de fazer qualquer um acompanhar sua melodia. Seus olhos escuros, parecidos com os meus, me fitando, como se eu fosse melhor e mais a o que eu realmente era.

Eu odiava porque ele não estava ali de verdade, odiava porque não era real. Ele não estava mais vivo, não estava mais bem. Eu nunca soube como seu hálito era; nunca soube como seria se seus braços me envolvessem; seus lábios não tocaram minha testa. Não tive a oportunidade de ouvir sua risada. Ele nunca me fitou.

Amor.

Eu ouvia muitas frases envolvendo “amor”, “ama”, “amava”, “amará”, “amo”, “amar”. Eu ouvia mais aquilo a “olá!”, de todas as pessoas. É engraçado, não é? Curioso, no mínimo. Quando você abriu os olhos pela primeira vez, viu um mundo novo. Cheio de coisas a serem exploradas, descobertas, conhecidas. Você entrou de cabeça no desconhecido, ou melhor, você caiu de cabeça no desconhecido. Se acostumar era um pouco difícil, mas você iria conseguir. Todos estavam ali por você, todos torcendo por você. E quando você disse as suas primeiras palavras, foi uma alegria só. Você não entendia o porquê, mas gostava de ver todos comemorando o fato de que você estava crescendo. Você só não sabia que crescer não era tão mágico quanto parecia ser. A vida é cruel, suas escolhas modificam em tudo no futuro, o passado nunca vai embora realmente e temos tantos problemas que nos esquecemos de viver o presente que está ali, esperando para ser vivido. Você cresce mais, preocupado demais com os próprios problemas para perceber o quanto tudo mudou. O quanto você mudou. O mundo não era mais um conto de fadas que antes existia, na realidade, ele nunca fora. Antigamente você se sentiu especial porque falou, andou, riu e chorou pela primeira vez. Mas então você notou que era apenas mais um que fizera aquilo.

Trabalhos, estudos, tudo. Tudo para quê? Pra ter uma vida boa? Mas e no final? No final você morre de todos os jeitos. Então, esse dia chega. Você deita na sua cama, esperando a morte vir e te abraçar. Está cansado de problemas, está cansado de viver. Mas então você percebe que há muito tempo simplesmente não deitava em sua cama e olhava para o teto, pensando em tudo que aconteceu. Como um choque de realidade, você pensa. Você vê tudo que desperdiçou, então toma uma decisão! Ainda não é tarde demais. Você pode virar o jogo, você vai conseguir, você vai ser mais que isso, mesmo que ninguém esteja ali comemorando e esperando por você. Você vai lutar pela sua vida. Então, a morte te abraçou. Calma para outros, aconchegante, satisfatória. Mas dolorosa pra você. Então, sim, era tarde demais.

Você esperou a morte vir, ela não apareceu. Quando você resolveu fazer algo certo, ela chegou. Imprevisível, fria, má. Abraçou-te, dizendo que tudo ficaria bem.

O que você poderia fazer? Para onde fugir? Tudo que você veria seria escuridão dali para frente, e para sempre seria assim. Em um ponto os contos de fadas estavam certos, o pra sempre existia. O “feliz” que vem antes só depende de você.

Durante tudo isso, algumas pessoas aparecem para você. Pessoas que te derrubam, que pisam em você, que te deixam pra baixo e te fazem questionar o porquê daquilo. Que fazem questões inconvenientes surgirem em sua cabeça. Também apareceram outras pessoas. Aquelas que te ajudam a se levantar, que te erguem, que te deixam pra cima, que te fazem questionar tudo. Que respondem suas questões.

Ele era melhor que aquilo. Ele era mais que aquilo. Ele era mais que tudo. Ele não era só mais um, ele era ele. E aquilo o fazia ser mais especial que todos. Melhor que todos, melhor que tudo. Eu o amava? Sim, eu o amava. Ele era meu melhor amigo.

Ele sempre esteve ali comigo, tão perto e tão longe. Eu o sentia comigo sempre, mesmo ele estando do outro lado do país. E naquele momento, em outro mundo.

Esperança.

Eu não a tinha mais. Qual era o significado daquela palavra?

Esperança é uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal.

Eu ficava ansiosa e preocupada. Não sabia se iria passar de ano, não sabia se ele conseguiria passar também, não sabia se no ano seguinte iríamos continuar amigos. Naquela época, aquelas eram minhas únicas preocupações. Afinal, ele estava crescendo. Mudando. Ele não me garantia nada, mas sempre me dizia “vamos ter esperança!”. Eu tinha. Ele era minha fonte de esperança. Quando ele se foi, ele a levou consigo, junto de um pedaço considerável do meu coração.

A esperança requer certa perseverança, acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário. O sentido de crença deste sentimento o aproxima muito dos significados atribuídos à fé.

Eu acreditava. Apenas um “vai ficar tudo bem” dele era o suficiente para me fazer acreditar que tudo ficaria bem. “Tudo vai dar certo” era o suficiente e até mais para me fazer sonhar e querer as coisas mais impossíveis. Fazia o desejo de conhecê-lo pessoalmente apenas crescer mais e mais dentro de mim. Tudo era possível. Enquanto ele estivesse comigo, tudo estaria bem. Fé? Eu tinha fé. Mas então, ele se foi.

Se Deus existia, por que o tirou de mim? O que eu fiz de tão ruim, o que fizemos de tão ruim? Eu rezava todas as noites para que tudo desse certo em nossas vidas, para que ele ficasse bem, foi tudo em vão? De que adiantava os pedidos, seguidos de lágrimas desesperadas? A dor nos joelhos dobrados e o gesto repetitivo com as mãos? As promessas pagas? Para onde tudo aquilo foi parar? Deus existindo ou não, não era culpa dele, afinal.

Por que ele teve que me deixar? Corri os meus olhos pensativos pela porta, vendo mais palavras como “saúde”, “carinho”, “amizade”, “vida”, “respeito”. Percebi que não estive parada ali por muito tempo, já que ninguém apareceu brigando comigo (tia Jude) ou gritando que eu estava atrasada (Jennifer). Eu não aguentava mais encarar aquela maldita porta, aquelas malditas palavras. Aquilo me machucava por dentro, muito. Como se uma faca fosse enfiada repetidas vezes no meu coração. Uma dor horrível. Mesmo com tudo aquilo que eu estava passando, eu não conseguia desejar que a dor fosse embora. Aquela dor me fazia ser quem eu era, mesmo que aquilo não valesse nada. Eu precisava da dor. Precisava sentir a dor. Ela era a minha dor, afinal. Eu estava pagando pelo que cometi. Eu era a culpada. Eu merecia aquilo.

Levei minha mão à maçaneta, girando-a rapidamente e abrindo a porta, entrando no banheiro, fechando-a atrás de mim. Coloquei minha toalha de banho branca e leve em cima de um dos ganchos que estavam na parede de azulejos brancos. Então, me virei para o espelho, vendo meu reflexo. Eu realmente levei um susto. Estava pior do que eu imaginava. Se é que aquilo era possível.

Meus cabelos pintados de roxo ainda estavam presos no rabo de cavalo folgado, algumas mechas caindo e moldando meu rosto. Se não fosse pela minha mãe me obrigando a lavar meu cabelo, ele não estaria daquele jeito. Estaria sujo, fedendo e coçando, já que eu não estava com muito ânimo. Ele estava de modo aceitável ali.

Meus olhos castanhos estavam caídos, vermelhos e meio inchados pelo choro da noite anterior. Aquilo não era uma surpresa, olhos vermelhos e inchados praticamente viraram uma característica no meu visual zumbi depois da morte de uma das únicas pessoas que fazia eles brilharem de felicidade. Ao redor deles estavam marcas escuras e profundas, que também viraram parte de mim por conta das noites em claro, perdida em pensamentos e com medo de dormir graças aos pesadelos frequentes.

Com certeza eu teria que depositar muito corretivo ali para esconder minhas olheiras. Meus lábios carnudos estavam com marquinhas, porque mordê-los constantemente também era um hábito. Suspirei.

— É, garota, você está a cara da derrota. — falei para meu reflexo.

Estando sozinha, pude perceber o quanto minha voz estava rouca — mais do que ela já era. Vi-me ali, com a camisa do meu pai. Abracei meu próprio corpo, tentando sentir o cheiro dele que não estava mais ali. Eu queria meu pai naquele momento, precisava dele, mas infelizmente era difícil vê-lo. Soltei-me lentamente, encarando meu reflexo. Eu havia mudado. Crescido. Mas, não. Eu definitivamente não seria como aquelas pessoas que se arrependiam de tudo que faziam. Que ficavam remoendo o passado e morrendo aos poucos. Eu não queria ser daquele jeito. A dor ainda estava ali, presente, e eu sabia que sempre estaria comigo. Como a minha própria sombra. Porém, eu iria escondê-la. Eu iria deixá-la no fundo da minha mente, no fundo do meu coração. Porque até sua sombra se esconde onde não há sol, onde há apenas escuridão. Eu iria sorrir para quem sorrisse para mim, eu iria dizer “estou bem, obrigada!”. Mesmo que tudo fosse teatro. Ele não gostaria de me ver daquele modo, ele me mandaria seguir em frente. Eu não estava fazendo aquilo por mim.

Eu estava fazendo por ele. Tudo sempre por ele. E, se eu tivesse sorte, poderia encontrar a felicidade novamente. “Ano novo, vida nova”, por mais que já fizesse alguns meses desde o ano novo. Mas, afinal, não era aquilo que diziam? Eu ainda era a garota sensível, era a garota machucada. Mas também ainda era a garota sorridente do ano anterior, a garota espontânea e feliz.

Eu criaria uma nova garota, uma nova eu. Criaria uma barreira que dividiria quem eu era de quem as pessoas iriam conhecer. Eu iria ouvir todos os “sinto muito” para quem soubesse da considerada tragédia, os verdadeiros e os falsos. Iria sorrir para todos e mostrar que eu poderia ser maior que aquilo, ao menos precisava tentar. Mesmo que não fosse de verdade. Ninguém leria meus olhos por dentro tristes, ninguém veria minha alma solitária, ninguém veria meu coração dolorido. Eu riria de piadas ruins, faria novos amigos. Talvez eu pudesse realmente ser feliz de verdade. Talvez ainda houvesse esperança para mim, para alguém com a minha dor, para alguém como eu.

Esperança.

Pisquei algumas vezes para o espelho, então, meus lábios se curvaram em um sorriso. Um sorriso falso para mim, porém totalmente convincente para quem o visse. Uma expressão de felicidade assumiu a minha que antes era de tristeza. Um brilho voltou para meus olhos. Não tão verdadeiro quanto o de meses antes à morte dele, mas aceitável. Levei minha mão para o elástico que prendia meu cabelo, puxando-o. O cabelo longo caiu por minhas costas, e o arrumei com os dedos, encarando aquela garota no espelho. Eu ainda teria que me acostumar com ela, porque querendo ou não, ela não era eu. Meu sorriso se alargou. Eu não parecia mais a garota que acordou assustada porque sonhou com o seu melhor amigo que nunca, ao menos, conheceu pessoalmente. Mas eu também não parecia mais a garota que ria de tudo e fazia palhaçadas. Um pouco de maquiagem e tudo estaria perfeito. Eu iria convencer todos. Mas, antes de tudo, eu iria convencer a mim.

— Aqui nasce uma nova Geovana Rocha. — falei, mais confiante do que eu realmente me sentia. — Por você, Cam.

Ao menos todos os anos fazendo curso de inglês serviriam de alguma coisa.

Notas finais
Cá estou eu! Então, o que achou? É aqui onde tudo começa. Até o próximo capítulo! Xoxo, Little G.