The Anchor

3 Bem-vinda ao futuro inferno.


Notas iniciais
Segundo capítulo! Espero que goste. Ele está pequeno, porque tem duas partes e tive que dividir para não ficar muito grande. Boa leitura.

Capítulo 2.

Eu estava no meu novo colégio, Blanchaster High School. Cheguei com Jennifer e tia Jude, que nos desejou um rápido “boa aula, meninas” e saiu dirigindo para seu trabalho no Hotel-sem-nome, deixando-nos ali. Na frente daquele enorme colégio. Se é que aquilo poderia ser considerado um colégio, pois, sinceramente, parecia muito mais que um. Mesmo eu estando com raiva por estar em um novo colégio tempos depois das aulas começarem, a primeira coisa que pensei foi “uau”, enquanto meu estômago embrulhava, como se tivesse vida própria, e eu trocava minha mochila preta e roxa de um ombro para o outro. A instituição de ensino (lê-se futuro inferno) tinha cinco andares. Na frente havia um gramado verde e bem cuidado, no qual eu e minha irmã pisávamos. Alguns alunos estavam ali pela frente, mas nenhum estava parado, apenas entravam no colégio pelo portão da frente. Eu estava parada, e sabia que Jennifer estava tão chocada quanto eu. O colégio que estudávamos antes não era nem de longe tão grande — ou tão bem estruturado — como Blanchaster. Sim, nossa matrícula foi feita poucos dias antes do nosso atrasado primeiro dia de aula, porém eu não tive vontade de ir conhecer minha mais nova segunda casa. Sobre Jennifer eu não sabia o motivo. Resolvemos entrar e conhecer tudo por dentro (e estudar, mas aquele era um detalhe passável). Despedi-me de Jennifer rapidamente e no segundo em que passei pela porta com uma parte de vidro na frente, eu descobri que estava realmente no inferno. Eu estava encarando aquele bando de macacos (conhecidos como alunos) gritarem, jogarem bolas de papel uns nos outros e rirem. Encarando também um casal que se beijava (engoliam-se) na ponta da sala, uma tentativa falhada de se esconderem dos outros, ou serem discretos.

Os outros alunos não pareciam se importar, como se já estivessem acostumados. Bem, aquela era minha classe de Literatura, segundo meu querido horário já perdido. Ao menos decorei a primeira aula antes de ele sumir em um momento que não vi. Suspirei um pouco, andando até uma carteira roxa e preta (uma pausa para comentar o quanto era legal o fato de que tudo ali era roxo e preto) no fundo da sala, tentando não ser vista. Assim como a tentativa do casal da ponta da sala, não obtive sucesso. Senti olhares sobre mim, que deduzi serem por três simples motivos.

Eu era uma novata. Uma novata um pouquinho atrasada, e eu até previa piadinhas daquele tipo. A maioria dos alunos eram veteranos, e os novatos provavelmente já estavam devidamente enturmados. Eu era a novata ali, e definitivamente não estava enturmada.

Meu cabelo era roxo, então aquilo chamava atenção. Eu não sabia se tinham outras garotas de cabelos coloridos pelo colégio, provavelmente sim, mas ali eu não vi nenhuma.

Minha cara ou o modo como eu estava arrumada. Minha expressão não era das melhores. Eu tinha amigos e professores relativamente agradáveis, tudo em meu colégio no Brasil. Então eu estava ali. Eu estava revoltada, furiosa, com uma cara de poucos amigos. “Eu era feliz e não sabia”, típica frase, naquele momento fazia sentido. E minhas roupas, bem, eu não sabia se era porque eu estava arrumada de menos ou de mais.

Sentei-me na carteira, prendendo as alças da minha mochila nas costas dela. Pensei em colocar na carteira da frente, mas não queria incomodar ninguém. Como eu era desorganizada e relaxada, dali a alguns dias minha bolsa estaria jogada no chão, como todas as outras antes dela. A bagunça na sala ainda prosseguia com seu roteiro, os baderneiros ignorando minha presença ali, mas eu ainda sentia os olhares sobre mim. Não me dei o trabalho de erguer o olhar e encarar algumas pessoas de volta. Mas ergui o olhar quando todos fizeram o mesmo, no momento em que a porta se abriu e um rapaz entrou. Os das-bolinhas-de-papel cessaram a bagunça, e por um segundo pensei que o garoto fosse algum tipo de líder de sala e fosse colocar alguma moral ali. Não sabia se ali havia líderes de sala, ao menos em meu colégio no Brasil havia. Então, como se eu tivesse apenas imaginado que a bagunça cessou, ela voltou com a mesma rapidez em que sumiu. Os garotos riram, cumprimentando o que chegou.

Ótimo, mais um. Suspirei internamente.

Mas não pude deixar de perceber, ele era bonito. Olhos azuis e claríssimos (tinha que admitir, eu sempre tive um fraco por garotos de olhos claros), pele clara e levemente bronzeada. Ombros largos, ele não era muito forte, cabelos loiros e bem arrumados. Ele conversava com três dos garotos, enquanto o resto saía correndo e jogando bolinhas de papel em todos, levando tapas nas cabeças quando atrapalharam o casal sanguessuga. Não sabia se agradecia ao casal por tomar uma providência e partir pra violência ou se agradecia aos garotos por terem atrapalhado aquela coisa nojenta. Um dos garotos, um moreno de olhos negros, murmurou algo no ouvido do loiro recém chegado. No mesmo instante, ele olhou pra mim, e percebi qual era o assunto dos múrmuros. Desviei o olhar quando percebi que estava o encarando, e fixei na lousa branca do outro lado da sala. Duas coisas poderiam passar pela cabeça de um garoto como aquele, e eu tive certeza quando percebi que ele se aproximava.

1- Ele iria encher meu saco apenas por prazer. E levaria um soco no nariz, porque eu não estava exatamente num bom dia.

2- Iria dar em cima de mim. Eu não era uma garota metida, não me considere uma, mas também não era uma baranga. Melhor estar com auto-estima lá no alto que estar com depressão, certo? Aquele tipo dava em cima de qualquer pessoa que usasse calcinha e tivesse coxas e busto consideráveis. Ou apenas fosse do sexo feminino, mesmo.

Antes que eu pudesse pensar em mais uma possível opção, senti que não estava mais sozinha, então olhei para o meu lado e ele já estava sentado ali. Não olhei para ele, muito menos disse algo, mas eu podia sentir seu olhar sobre mim e sua postura relaxada. Fingi atenção em uma folha de papel riscada e suja, no chão, não muito longe dali. Não sabia como, pois eu tinha um sério problema de vista, mas consegui ler algo como “Nancy e seus boquetes”. Que interessante.

— Oi — ouvi o loiro dizer, então virei minha cabeça lentamente (pode imaginar algo como a garota do exorcista, por mais escroto que seja), levando meu olhar junto, até encontrar o dele e perceber que ele estava mais perto que antes.

— Oi. — respondi, a voz calculadamente entediada, analisando seu rosto discretamente.

Ele parecia um surfista. Ele era bonito. Bem bonito.

— Novata? — perguntou, cruzando os braços e se encostando mais, já que estávamos no fundo da sala.

Sua cabeça encostou um pouco na parede, como suas costas. Eu, sem pensar muito (como sempre, aliás), respondi:

— Não. Estive aqui desde sempre. Mas meu cabelo era preto, então ninguém nunca reparou em mim.

Eu parei um pouco depois de dizer tais palavras. Aquilo deveria ter soado arrogante.

Por um lado, a pergunta dele pareceu idiota e desnecessária, não estava óbvio que eu era novata? Porém, por outro lado, ele poderia apenas ter feito uma pergunta para puxar assunto, ou realmente querer saber. E se ele também fosse novato, ou sei lá? Era uma droga, mas eu era daquele jeito, sempre analisava os dois lados de qualquer situação, até as mais simples e bobas. Então, ele sorriu. Um sorriso presunçoso, mas agradável de um jeito estranho para mim. Ele não tinha covinhas — covinhas me agradavam bastante —, mas seu sorriso era lindo.

— Hum. — ele assentiu levemente, sem desfazer o sorrisinho — Qual seu nome?

— Geo. — respondi rapidamente.

O loiro ergueu uma sobrancelha também loira, como se não estivesse esperando aquilo.

— Seu nome. — insistiu, a sobrancelha ainda erguida.

— Geo. — também insisti.

— O nome, não o apelido — pediu.

Eu ri de leve, fitando-o.

— Me chame de Geo. — falei simplesmente, dando de ombros em seguida.

— Por que, De Geo? — perguntou.

Certo, ele era curioso. Mas aquilo não me irritou. Pelo contrário, me divertiu. Sorri. E ao julgar por seu sorriso, ele também estava achando graça.

— Se me chamar pelo meu nome inteiro, eu vou te ignorar. Então, Geo. — resumi, dando de ombros novamente.

O rapaz assentiu, e pareceu pensar um pouco, olhando para o nada com uma expressão filosófica (que obviamente não deveria ser levada a sério) que me fez rir baixinho.

— De Geo — ele me chamou pelo meu apelido, como pedi, porém com um insistente “De” na frente. Ri levemente. — Qual o resto do nome? — perguntou, olhando para mim novamente.

— Vai ficar sem saber — pisquei, meio de brincadeira, meio falando sério.

— Posso viver com isso. — ele piscou de volta — Mas não tenho esses segredinhos. Meu nome é Mish.

— Mish? — franzi a testa — Qual seu nome todo?

— Vai ficar sem saber, lindinha. — imitou-me, dando uma piscadela.

Notas finais
Aqui estou eu! E então, o que estão achando? Comentários não fazem mal não viu. HAHAHA, nos vemos no próximo capítulo. Xoxo, Little G.