The Anchor
4 Aula dupla. — Victor.
Notas iniciais
Capítulo 3.
Victor.
— Graças a Deus! — comemorou Yv, com uma daquelas danças ridiculamente engraçadas dele (que, só para constar, não deveriam ser feitas em público), quando entrei na sala de aula.
Eu estava molhado da cabeça aos pés, dos pés à cabeça, meu cabelo negro grudava em minha testa, do mesmo modo que a camisa preta em meu peito e braços e a calça jeans em minhas pernas. Ótimo, o dia começou incrível. Pelo que percebi, mesmo eu estando atrasado, ainda não havia um professor ou professora na sala. E pelo que me lembrava, deveria ser aula de História com o professor Rubens. Apenas sabia de tal fato porque ele sempre me chamava atenção, já que eu usava mais o celular e preferia ele ao livro. O que ele queria que eu fizesse? Apenas ouvir duas palavras dele era o suficiente para sentir vontade de dormir. Bufei, indo até meu amigo e me jogando na carteira ao seu lado, escorregando um pouco e ficando meio deitado.
— Não tive culpa, chap — falei depois de um tempo em que eu observava as mesmas pessoas de sempre. Claro, alguns novatos estavam ali, mas não eram mais considerados novatos. Só se eu estivesse me referindo aos que não estavam ali no ano passado. — Meu pai saiu com o meu carro, tive que vir a pé. O dele quebrou.
— Pois é, não se pode controlar o tempo, Victor. — ele pareceu pensar, mas claro que estava debochando — O dia estava awesome. Com arco-íris, nuvens de algodão-doce, plantas de chocolate. Sabia que os raios de sol eram biscoitos? Daqueles pequenininhos! Mas, quando você estava no meio do caminho, começou a chover. E não era chuva de refrigerante. E aí v...
— Cala a boca, Yv. — cortei-o, falando uma das frases que eu mais usava. Ele soltou uma risadinha — Cadê o Rubens? — perguntei.
Não que eu me importasse, mas fui para o colégio para estudar, oras!
Nossa, Victor, você não conseguiu convencer nem a si mesmo com essa frase.
— Hum... — ele olhou ao redor, com uma sobrancelha erguida — Rubens? — perguntou, olhando dentro da bolsa azul e preta dele.
Depois no bolso da calça jeans, como se realmente estivesse procurando o professor baixinho, gordinho e com um bigode engraçado. Conhecido também como Nevor Rubens. Ou só Rubens. Revirei os olhos, claramente irritado com a atitude debochada dele. Eu sempre levava na brincadeira, até porque eu também brincava sempre, mas naquele dia eu estava me incomodando com tudo, como uma garotinha na TPM.
Mas... se era uma garotinha, por que já estaria na TPM? Certo, eu não entendia sobre o corpo feminino naquele tipo de assunto.
— Sério, dude. — suspirei, claro que ele não sabia onde Rubens estava.
Não que eu estivesse interessado em assistir a aula dele (ou qualquer outra), mas precisava sair dali e trocar de roupa. Se eu fosse naquele momento, ele provavelmente iria aparecer do nada, como sempre fazia, e eu estaria ferrado por ter saído sem pedir permissão, mesmo com um ótimo motivo. A culpa era minha se choveu?
Não, Victor, a culpa é das estrelas.
Eu precisava melhorar as minhas piadas. Eu podia imaginar os professores me culpando por aquilo, já que sempre me culpavam por tudo. Ótimo garoto eu, não?
Yv arrumou os óculos de grau no rosto, me analisando. Quem o olhasse, sem falar com ele, diria que ele era um nerd excluído e que ficava comendo sanduíche com geleia de amendoim na frente de um computador o dia inteiro. Mas Yv não era daquele jeito, era o contrário. Apesar de usar óculos, e do jeito aparentemente certinho, ele não era nem um pouco nerd, era completamente sociável e alérgico a geleia de amendoim. Além de que suas notas eram normais, e ele estudava tanto quanto qualquer outro garoto que quisesse passar de ano. Anos de amizade me fizeram saber sobre tudo que o envolvesse.
— Vai ficar assim, molhadinho? — perguntou ele, depois de alguns minutos ainda me olhando, vendo o quanto eu estava molhado.
Um sorrisinho malicioso brotou em meus lábios, e ele entendeu minha mensagem silenciosa.
— Ei! Eu não falei na malícia! — tentou se defender.
Aquele era Yv, que, por muitos, seria verdadeiramente considerado bastante certinho (em alguns momentos). Agora questione mentalmente como nós, sendo tão diferentes, poderíamos ser melhores amigos. Eu ri, negando algumas vezes com a cabeça, descrente.
— Mas eu levei na malícia. — dei de ombros — E, não, eu preciso trocar de roupa.
Levantei do meu lugar, vendo que eu havia molhado a carteira. Ignorei os risinhos dos idiotas que estavam comigo naquela aula e prestaram atenção no banho que a carteira levou, por minha causa. Inferno.
— Você trouxe outra roupa? — Yv também se levantou, bocejando.
Percebi que ele estava sonolento. Yv odiava ter que acordar cedo. Sinceramente? Eu também. Por tal motivo eu dormia em quase todas as aulas. E no fim eu não precisava me preocupar, sempre tirava notas boas. Yv dizia que eu era muito inteligente, e que era algo que eu tinha por natureza. Eu chamava de sorte. Muita sorte.
— Vou sair depois daqui, esqueceu? — lembrei, finalmente conseguindo afastar meu cabelo molhado da minha testa, mas bagunçando-o mais ainda — Enfim, vamos lá — apontei com a cabeça em direção a porta, desistindo de lutar contra meu cabelo e arrumando a mochila preta em minhas costas. Aquela roupa molhada estava começando a incomodar e coçar em lugares impróprios.
Nós caminhamos entre os alunos que conversavam, riam ou simplesmente dormiam, até que fui obrigado a parar, já que um braço bateu em minha barriga. Abaixei o olhar e vi Kaya Longers me encarar, com a expressão preguiçosa e até um pouco sonolenta. Ela era a representante de sala, e estava claramente dormindo segundos, ou minutos, antes. Grande representante.
— Quê? — perguntei, vendo que ela afastou o braço rapidamente quando percebeu que minhas roupas estavam molhadas.
Limpou o próprio braço no casaco que estava em sua carteira, fazendo-me revirar os olhos.
— Eu apenas esqueci de avisar para vocês... — murmurou, a voz rouca, e bocejou em seguida, tentando não coçar os olhos para não borrar a maquiagem — Rubens está com os outros professores numa reunião de última hora. Quando ele chegar, teremos uma aula dupla.
— Aula dupla? — eu e Yv perguntamos no mesmo momento, e com aquilo cruzei os braços na frente de meu peito, esperando uma resposta.
Não me importei com a minha camisa molhada. Eu estava completamente encharcado, mesmo.
— Sim. Dois professores, duas turmas. Será uma bagunça, mas tudo bem. — ela deu de ombros, encostando a cabeça no casaco e bocejando.
— Entendi — assenti um pouco, pensando.
A idéia não parecia ser ruim, garotas de outras séries na mesma sala que a gente? Sem todas aquelas garotas que eu já estava acostumado? Nem precisava pedir duas vezes.
— Com que turma nós vamos ficar? — Yv perguntou, coçando a nuca.
— Primeiro ano — ela sorriu de lado e eu fiz uma careta.
Eu estava falando de garotas, não de crianças. Que ótimo. Aquilo iria realmente deixar meu dia melhor do que já estava. Que tipo de colégio colocava o terceiro ano com o primeiro? Nem lógica havia naquilo!
— Ótimo — suspirei pesadamente, irritado novamente com aquela notícia. Sentia que meu dia tinha tendências a piorar — Vamos lidar com aqueles pirralhos.
O primeiro ano já estava na sala não muito grande de História, assim como nosso professor de História, Rubens, e o professor de Literatura, Denis. Quero dizer que Rubens e Denis estavam ali, assim como o primeiro ano. E não que eles não eram muito grandes. Se bem que aquilo poderia se aplicar a Rubens. O que História tinha a ver com Literatura? Não fazia a mínima idéia, e achava que os outros alunos também não. Os professores falaram algo sobre os horários estarem confusos, já que seus colegas de trabalho, em sua maioria, faltaram, inclusive o professor de História do primeiro e segundo ano. Logo, eles tiveram que substituir, então os professores resolveram juntar algumas turmas para dar menos trabalho.
Eu podia imaginar os outros garotos comemorando o fato de estarem com as garotas do terceiro e quarto ano. Até as do segundo. E eu com as pirralhas do primeiro. Eles até tentaram dar as duas aulas em uma, ou sei lá, mas não deu certo. A sala não cooperava de jeito nenhum. Aqueles pestinhas do primeiro ano eram mesmo bagunceiros, então, ambos desistiram. Mas não podíamos sair da sala, nem ficar sem fazer nada, pois eles tinham uma reputação a manter — a de caras que não faziam sexo há anos —, logo todos os alunos iriam fazer um trabalho. Meu caderno estava aberto em cima da mesa, mas não havia nada escrito na folha principal, que eu nem sabia de que matéria era.
— Ei, dude. — chamou Yv, da carteira ao lado da minha.
Eu tinha trocado de roupa e estava seco. Meu cabelo ainda estava meio bagunçado, mas dei um jeito com meus dedos mesmo. Se eu pedisse um pente, provavelmente seria motivo de piada pelo resto da minha vida no colegial.
— Quê? — perguntei, levando meu olhar até ele.
Eu não estava olhando para algo em específico, apenas esperando o tempo passar, enquanto a vontade de pegar meu celular e usá-lo apenas crescia.
— Não vai fazer o trabalho? — perguntou ele, largando em cima do caderno a caneta azul que estava entre seus dedos.
— Eu não. — suspirei, desinteressado em fazer qualquer coisa que envolvesse escrever ou ler naquele momento, olhando ao redor com tédio.
Meu olhar se fixou em algo. Alguém. Uma garota bem mais a frente. Não podia ver seu rosto, apenas suas costas e seu cabelo. Que estava solto, era longo e roxo. Não o cabelo todo, mas do meio para as pontas. E era possível ver porque ela estava praticamente deitada na carteira, fazendo o cabelo quase tocar o chão enquanto conversava com um cara do primeiro ano. Eu o conhecia. Misha, que todos chamavam de Mish, ao menos o apelido era menos gay que o nome.
— Quem é aquela ali? — perguntei, erguendo uma sobrancelha e movendo minha cabeça levemente naquela direção, querendo que Yv seguisse meu movimento com o olhar.
— Geovana Rocha. — uma voz me respondeu, mas não era a de Yv.
Sua voz não era meigamente feminina e irritantemente fina. Virei-me, já sabendo quem estava ali. Lauren Prior, conhecida como Lori ou simplesmente “Capeta”, ela era do primeiro ano, e estava sentada do meu outro lado. Aquela garota era um dos meus piores pesadelos, fazia Álgebra se tornar uma coisa enviada dos céus e eu achar a pessoa mais irritante dali legal. Não, ela não fazia a segunda coisa. A pessoa mais irritante era ela. Antes que eu pudesse dizer algo, ela continuou:
— Interessado por uma "pirralha", Stonem? — fez aspas no ar, olhando pra mim, usando o termo que eu usava para me referir às suas colegas de classe.
Seu tom de voz era debochado, como sempre que falava comigo, do mesmo modo que o brilho em seus olhos castanhos.
— Claro que não. — resmunguei, voltando a olhar para frente — Mas o cabelo dela chamou atenção. Ao menos a minha.
— O cabelo? — Yv perguntou, depois de dar um leve abraço desajeitado em Lori.
Ele gostava dela, eu não. Só a aturava por causa dele, e porque não queria ser preso por jogar uma baixinha numa lixeira. Yv tentava ver onde a tal da Geovana estava. Ele usava óculos de grau por problema de vista mesmo ou era só de enfeite?
— A cor. — respondi — É roxo. Meio impossível não ver.
— As garotas daqui pintariam as vaginas de roxo se soubessem que você aprecia a cor. — sorriu Lori, com ironia, piscando os olhos de modo angelical.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar uma risada baixa e abafada. Tive vontade de gargalhar, mas não iria dar aquele gostinho para ela.
— Whatever. — levei minha atenção para meus dedos, brincando com um anel de prata que ali estava no indicador — E aí, pegando muitos idiotas?
Eu poderia soltar uma piada como “ah, espera, você nunca beijou ninguém”, mas da última vez que fiz aquilo ela agarrou um garoto qualquer na minha frente.
— Sei lá, pergunta pro teu pai — a garota deu de ombros, virando-se para frente.
Yv fez uma careta, tentando segurar a risada graças à resposta dela.
— Vai se foder. — mandei, olhando rapidamente para ela.
— Vou, mas não com você, pare de se iludir! — falou teatralmente e piscou um dos olhos, antes de levantar da carteira, empurrando-a propositalmente para trás, provocando um som irritante e alto, fazendo todos olharem para nós e saindo em seguida.
Ela se sentou num lugar vazio mais a frente, ao lado de Geovana e de Mish.
Cansei de fitá-los e olhei para um lugar que estava perto da carteira do professor (no caso, professores). Ali estava ela. Sentada com as pernas cruzadas, os braços descansando na mesa. As pernas longas e coxas grossas aparecendo, por conta do vestido curto e justo que ela usava. No busto havia um decote, deixando uma parte considerável de seus seios aparecerem. Desde que a conheci eu havia percebido que ela era bonita, mas atualmente eu não prestava muita atenção em seu rosto. Seu corpo parecia mais interessante aos meus olhos. Muito mais interessante.
Lea.
Estava conversando animadamente com uma garota que eu havia visto vagamente quando entrei na sala. Na chamada dos alunos, eu soube que seu nome era Jennifer. Era bonita, mas não era meu tipo, até porque no momento eu estava de olho em Lea.
Jennifer era novata, um pouco atrasada. Minha testa se franziu quase que automaticamente quando vi Geovana, a novata do primeiro ano, se aproximar das duas. Ela estava de costas, então eu ainda não podia ver seu rosto. Ela abraçou Lea, as duas soltando risadinhas, e deu um leve tapa na cabeça de Jennifer. Ouvi Lea soltar um divertido “as irmãs mais retardadas do mundo”, e então parei.
— Elas são irmãs. — pensei alto demais e acabei murmurando, só percebendo que o fiz quando senti o olhar confuso de Yv sobre mim.
Agora perceba que quando eu estava entediado, me desesperava em achar algo para me distrair. Estava prestando atenção em duas irmãs que não tinham nada de especial, ignorando o fato de que uma delas tinha o cabelo roxo.
— Quem? — perguntou ele.
— As novatas.
— Que novatas?
— Porra, Yv! — bufei — Pra quem usa óculos você ‘tá’ bem cego, ein.
Ele riu, pigarreando um pouco.
— Calma, amor! — falou, a voz calculadamente aguda — Não fique estressadinho. Vem aqui que eu te acalmo.
Eu acabei entrando na onda dele, como sempre, e também ri.
— Tudo bem. — ri levemente — E eu estava falando da Geovana e da Jennifer.
Yv parou, então entendeu. E quase pude ouvir um coro de “aaaaaleluia! Aleluia! Aleluia!”.
— Ah! — sorriu de lado — Sim, elas são irmãs. A Jennifer é bem legal e n...
— Espera. — cortei — Quando você falou com ela?
— Há alguns minutos atrás — respondeu como se fosse óbvio.
— Como eu não vi isso? — perguntei meio incrédulo.
— Você estava ocupado demais olhando pra bunda da Lea, Stonem — ele ergueu os polegares, em um sarcástico sinal de positivo.
Eu ri, dando um tapa no ombro dele.
— É um local interessante para se olhar, chap. Quando eu transar com ela, te conto como é ver aquela bunda sem nenhum pano.
Na realidade, muito interessante. Yv revirou os olhos, descrente.
— Você não pode ter todas, Victor. Quando vai entender isso?
Eu até poderia responder aquilo, mas um garoto baixinho e de cabelos castanhos que estava sentado em minha frente se virou, encarando-me com um papelzinho na mão. Não o conhecia, então acreditei que fosse um garoto qualquer do primeiro ano.
— Para você. A Lea me mandou te entregar. — anunciou ele, baixo, a voz um pouco fina.
Reprimi um “engrossa a voz, moleque!”, mas soaria escroto até para mim. O garoto estendeu a mão e eu peguei o papel. Sorri um pouco em agradecimento, vendo-o se virar. Abri o pequeno papel, com a testa franzida, reconhecendo a letra de Lea logo de cara. Bem caprichada, com um coraçãozinho no lugar no pingo normal do “i” e redondinha. Tirando a parte do coraçãozinho e pingo do “i”, eu poderia muito bem ter descrito a bunda dela.
Certo, Victor, foco.
Estiquei totalmente o papelzinho dobrado, finalmente lendo o que estava escrito. Não me incomodei com o fato de que Yv se inclinou para ler também.
Quer testar a resistência e conforto dos novos móveis da minha casa hoje? Preciso de ajuda para saber o quanto a minha cama aguenta. Xoxo.
Lea.
Um sorriso extremamente convencido e satisfeito cresceu em meus lábios, e olhei para Yv, que parecia chocado.
— Man, isso foi bem direito! — exclamou, ainda pasmo.
Meu sorriso se alargou ainda mais.
— O que você falou sobre eu não poder ter todas, mesmo? — provoquei, e percebi que ele não iria rebater. Ele nem tinha o que dizer — Pois é, meu bom amigo, parece que meus planos para hoje vão ter que ser deixados para outro dia. Vou ajudar uma boa amiga. Afinal, coitadinha, não pode testar todos os móveis sozinha.
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