The Amazing Spider-Man
41 Capitulo 41 - A Palavra do Diabo
Notas iniciais
Madrugada de segunda-feira:
O coração estava disparado, a adrenalina corria por suas veias. As mãos estavam tremendo, a visão turva. Não conseguia se concentrar, não ouvia nada. Apenas continuava batendo e batendo e batendo...
– Chega, cara! Chega! Eu já disse que não sei onde...
O Vigilante quebrou o outro braço do informante.
– Não interessa se você sabe ou não – sua voz pareceria um rugido, mesmo que não estivesse usando máscara. – Eu vou quebrar cada marginal dessa cidade até chegar ao Octopus. Me contar ou não onde ele está não vai mudar isso.
– Porra, cara, eu nem sei quem você é! Eu nunca fiz nada pra você!
– Onde está ele?
– Eu já disse que...
Um tornozelo quebrado. Os gritos de dor do marginal mantinham curiosos afastados. Contudo, era uma questão de tempo até a polícia chegar. Ou aquele verme não sabia de nada mesmo, ou mentia melhor que a maioria.
Tanto faz.
Aquela região da cidade costumava ser bem tranqüila durante a madrugada. Estava perto do cais na Zona Leste, um lugar para onde as pessoas iam quando queriam esquecer suas vidas, acompanhadas de bebida barata. Não era difícil encontrar prostitutas e agiotas por ali, mas nada muito violento acontecia. Aquela era uma das regiões marcadas pelas aparições de combatentes do crime como o Demolidor, o Justiceiro e o Homem-Aranha. O Vigilante já tinha passado por quatro bares, sempre escolhendo algum dos freqüentadores para seu interrogatório, logo após espancar e atirar na maioria. Sua paciência estava no fim. Sacou sua arma, as mãos ainda tremendo pela fúria e desprezo.
– Queísso, cara?! Guarda essa arma, brother! Eu não sei quem você é, eu não sei onde o Octopus se enfiou, não precisa fazer isso! Guarda essa arma, mano! Pelo amor de...
Outro tornozelo quebrado. O meliante estava caído, com a cara em uma poça de lama, parecendo um fantoche sem cordas. Já não conseguia gritar. Estava entrando em choque. Mas ainda ouvia muito bem.
– Me conta, ou eu atiro.
– Eu... Eu não sei... Pô, mano...
– Não vou encostar em você. Melhor correr.
– Eu... Não consigo...
– Ou você me conta, ou corre, ou eu atiro. Escolha.
– Você... Você quebrou minhas pernas...
– Não se preocupe, eu vou atirar na cabeça. E então?
Ele tentou. Primeiro, apoiando os braços no chão para erguer o corpo. Contudo, não conseguia mais movimentá-los de maneira coordenada. Tentou, então, apoiar uma das pernas no chão para ficar de pé. A dor quase o fez desmaiar. Caiu com o rosto na lama novamente, decidido a morrer e ser poupado daquela tortura.
Fechou os olhos e ficou esperando, enquanto se perguntava como seria. Provavelmente, ouviria o estampido e veria um clarão, muito antes de poder sentir dor. Então, estaria acabado. Aquele maluco iria continuar correndo por aí, espancando pessoas a esmo na tentativa desesperada de encontrar o Dr Octopus.
Não quero estar na pele do Octopus quando o Vigilante pegar ele, pensou. Toda aquela fúria só podia ser por um motivo bastante pessoal. Se ele estava disposto a torturar pessoas para encontrar Octopus, provavelmente o fim reservado para ele seria pior, muito pior que a morte.
Ele não vai atirar logo?
Abriu os olhos. Olhou em volta.
Nenhum sinal do Vigilante.
O pesadelo tinha acabado, ou estava apenas começando.
Manhã de segunda-feira:
Peter acordou naquela manhã pensando em não se atrasar. O despertador tocou uma hora mais cedo, deixou a roupa e seus papéis separados, tinha memorizado horários e linhas de ônibus e agora precisava fazer tudo sem que a tia May acordasse.
Tomou banho rapidamente, fez a barba com cuidado e procurou seu melhor perfume. Conseguiu se arrumar em tempo recorde. Mesmo que não tivesse acordado mais cedo, teria tido tempo de sobra. Desceu as escadas já pronto para sair, quando deu de cara com May Parker:
– Tia May! O que está fazendo acordada!?
– Ouvi o seu despertador.
– Mas... Ainda são...
– Sim, imaginei que você tivesse de entrar mais cedo no trabalho hoje quando ouvi o despertador. Então, resolvi preparar o café. Você se arrumou rápido! Alguma reunião importante hoje?
– Não, eu... Só não quero perder a hora...
– Acho que você exagerou no zelo, Peter...
– Bom... O seguro morreu de velho, né?
– Sem dúvida. Tem algo a ver com Mari?
Peter fingiu não ter ouvido, enquanto procurava a garrafa de café. Não importava o quanto o tempo passasse, falar de suas namoradas com a tia May sempre o deixava constrangido.
– Peeeteeeer...
– Oi – respondeu ele, colocando uma fatia enorme de rocambole na boca. – Hrrrffmffmm fffmmmff?
– Não fale de boca cheia e não tente me enganar, Peter.
– Ffffrrrmmmmrrr.
– Engula.
O rocambole parecia um pedaço de tijolo na sua garganta. Precisou de uma xícara de café para não engasgar. Mas o café estava fervendo. Sua situação se complicava cada vez mais...
– E então? Vai me contar?
– Bom, eu... Ahn, fiquei de pegar carona com ela...
– E aonde vão tão cedo?
– Trabalhar, ué!
– E precisava acordar uma hora dessas!?
– Bom, eu não queria me atrasar. Sabe como é, as coisas entre a gente estão começando a ficar bem legais. Eu estou sempre me atrasando pros compromissos, esquecendo de coisas que combinei... Resolvi tentar me esforçar um pouco mais agora. Causar uma boa impressão, sabe?
– Sei, sim – sorriu May. – Mas ainda acho exagero!
– O seguro morreu de velho...
Peter puxou uma cadeira para continuar tomando o café com calma. Tinha tempo de sobra e, se conhecia bem sua tia, ela não ia se contentar com respostas monossilábicas.
Era tudo uma questão de lutar contra a vontade de sair correndo dali.
– Teve notícias de Mary Jane, Peter?
A pergunta o pegou de surpresa. Não estava pensando em Mary Jane. Aliás, não falava com ela desde o confronto no metrô¹. Depois do que ela tinha passado, talvez devesse ter telefonado, mas ainda tinha seus assuntos pendentes com Ben Reilly e Mari Potter.
– Não, eu... Só sei o que você me contou, tia. Que ela foi pra Flórida com a tia Anna.
– Fiquei muito preocupada com ela.
– Imagino... Passamos por muita coisa juntos.
– Mas você parece estar muito bem agora, Peter. Não sei o que aconteceu com Mary Jane, mas você finalmente superou a separação e a crise. Pra ser honesta, eu estava torcendo pra vocês reatarem. Sempre foram um casal lindo. Mas é difícil ouvir você falar sobre a Marianne e não torcer por ela! Há muito tempo não te vejo tão feliz.
– A Mari apareceu na hora certa, tia. As coisas estão indo cada vez melhores no trabalho, melhor do que eu poderia imaginar. E nós estamos nos conhecendo melhor, está sendo muito bom. Quando eu casei com a MJ, pensei que seria pra sempre, mas...
– A vida tem que continuar, Peter. A sua e a dela. Não importa o que aconteça, vocês têm que continuar lutando para serem felizes.
– Espero que ela consiga...
– Eu também, querido. Agora corra ou vai chegar apenas meia hora mais cedo.
– Sim, senhora! – Peter engoliu o café fervendo e saiu pela porta. Voltou, pegou a pasta que tinha esquecido e saiu pela porta. Voltou, deu um beijo na tia e saiu pela porta. Voltou...
Tarde de segunda-feira:
Acordou com o vento no rosto.
Abriu os olhos devagar. O corpo doía, estava com fome. Precisava descansar durante o dia para continuar sua cruzada à noite. Tinha roubado alguns pães de um antigo vizinho, apenas para garantir que se manteria firme até encontrar Octopus. E estava cada vez mais próximo, tinha certeza disso. O cerco estava se fechando. Logo, teria suas mãos no pescoço do monstro que destruiu sua vida. Que lhe privou da única coisa que realmente importava.
O monstro que matou sua esposa.
Já fazia uma semana desde a morte de Heather. Compareceu ao funeral apenas como mera formalidade. Seus antigos amigos da polícia vieram lhe oferecer apoio, mas ele se manteve firme. Não queria que a piedade desviasse sua atenção. Não queria saber de manifestações de apoio, nada que o fizesse ver o que há de melhor na natureza humana. Apenas se concentrava na sua perda, na morte da mulher que tanto amou – e por quem tanto lutou, durante toda sua vida.
Concentrava-se no rosto retorcido dela, a maneira como o pescoço quebrado pendeu em seus braços, os olhos sem vida buscando alguma ajuda. Ele chegou tarde demais para salvá-la. Foi ineficiente, fraco, lento.
Era nisso que se concentrava.
Do alto do prédio onde moraram juntos por tantos anos, Semeghini tinha uma boa visão da cidade. Ficaria ali até o cair da noite, tentando encontrar mais coisas para comer, até que pudesse ganhar as ruas novamente e continuar levando em frente sua vingança. Algumas pessoas não abriam a boca nem mesmo depois de ter todos os membros quebrados. Outras, diziam algumas palavras, davam algumas pistas.
E havia aqueles que diziam tudo que sabiam só de pensar em serem machucadas.
Semeguini tinha encontrado um desses. Um contrabandista que já tinha feito alguns serviços para o Octopus. Um rato covarde, que faria de tudo para não apanhar. Conseguiu a informação de que o contrabandista, um cubano conhecido como Valdéz, estava trazendo equipamento de alta tecnologia para Octopus.
Já sabia onde encontrar Valdéz.
Manhã de segunda-feira:
– Bom dia, Mari.
– Bom dia, Peter.
Se cumprimentaram com um beijo, o que já tinha virado um hábito entre eles. Tinham se acostumado com o sabor da boca um do outro. No dia anterior, foram ao cinema assistir Ensaio Sobre a Cegueira. Não era o tipo de filme que Peter gostava, mas Mari adorava Saramago (“Quem?!”, perguntara Peter). Valia a pena fazer esse esforço por ela. Mas o cinema acabou sendo pretexto para passarem mais tempo com a boca colada no outro.
– Demorei, baby?
– Não, acabei de chegar.
– Mentiroso – disse ela, com aquele sorriso que dizia que ela já sabia que Peter tinha chegado bem adiantado pra garantir que não a deixaria esperando. Peter segurou a mão dela enquanto ela dirigia para o trabalho.
– Dormiu bem?
– Ótima, e você?
– Bem, também. Sabe, minha tia perguntou de você... Então, eu estive pensando se você não quer ir lá em casa no próximo final de semana... Sabe, ouvir histórias, comida caseira, ver fotografias... Essas coisas.
– Claro, Peter! Vou adorar!
– Que bom. Ela também. Eu também.
– E sobre aquele seu amigo, Peter? O Al Kraven²?
– Bom, é como eu falei... Mal o conheci. Não éramos exatamente “amigos”. Achei que não ia ser uma boa comparecer ao funeral. Devia ter um monte de oportunista e ex-BBB lá querendo aparecer.
– Entendo. Que coisa horrível, não?
– Putz, nem me fale.
– Você apareceu com alguns hematomas na manhã seguinte... Aconteceu alguma coisa?
– Ah, não, nada demais, só um daqueles pequenos acidentes domésticos que acontecem com a gente de vez em quando, nada grave...
Mentiroso, pensou ela, ao mesmo tempo que se censurava por não estar confiando em Peter. Porém, as coisas estavam claras demais em sua cabeça. As aparições do Homem-Aranha, invariavelmente, estavam relacionadas com sumiços de Peter. Os hematomas eram apenas mais um entre os inúmeros indícios de que ele era secretamente, o herói aracnídeo. Mas por que Peter ainda não confiava nela? E se estivesse enganada? E se estivesse desconfiando do homem mais encantador que conhecera em sua vida apenas por causa de uma série de coincidências de difícil explicação?
O resto do trajeto correu em silêncio, uma situação que deixava Peter bastante à vontade. Para Mari, contudo, era uma tortura. Precisava conversar, precisava ouvir dele, mas não fazia idéia de como entrar num assunto desses sem correr o risco de parecer uma idiota. “Peter, você é o Homem-Aranha?” parecia uma péssima opção para bate-papo.
Chegaram um pouco adiantados, teriam tempo para tomar café juntos. Peter não ia admitir que já tinha comido, pra não correr o risco de perder nenhum minuto da companhia dela.
Talvez fosse a oportunidade que ela estava esperando.
Sentaram-se em um café próximo do laboratório e fizeram seus pedidos.
– Será que o Homem-Aranha foi?
– Como!?
– O Homem-Aranha. No funeral do Al Kraven. Ele esteve envolvido no tumulto, não?
– Ah, sim. Bom, difícil dizer. Talvez estivesse em sua identidade civil. Supondo que ele tenha uma.
– Você nunca desconfiou de alguém?
– Nunca me preocupei com isso. Provavelmente, se eu o visse sem a máscara, ele pareceria um cara comum, do tipo que a gente vê todo dia, talvez na vizinhança ou no trabalho e nem imagina que leve uma vida dupla...
– Como você?
Peter sorriu amarelo, estava começando a ficar preocupado. Não era a primeira vez que Mari fazia perguntas sobre o Homem-Aranha. Tinha vontade de contar para ela, mas ainda era cedo. A curiosidade dela podia ser indício de algum tipo de aversão ao Homem-Aranha. Se ela soubesse, podia se afastar definitivamente. Ainda sabia muito pouco sobre ela, mas queria confiar. Queria acabar com os segredos. Mas por que ela sempre tinha uma pergunta sobre o Aranha? Aonde ela queria chegar com aquilo?
– É, como eu.
– Ele deve deixar muita gente preocupada... Saindo por aí pra combater criminosos armados... Será que ele tem família? Alguém que fica esperando por ele todas as noites?
– Bom, talvez ele...
– Você me contaria, Peter?
– ...
– ...
– ...
– Desculpe, eu... – Mari abaixou a cabeça, envergonhada. – Deve ter sido uma pergunta muito estranha!
– Foi mesmo – disse Peter, enquanto segurava a mão dela. – Você está bem?
– Estou, sim. É só que...
– Ei, tudo bem!
– Tudo bem mesmo?
– Sim, eu só queria que a gente pudesse...
– Ah, relaxa. Eu entendo.
– Mesmo?
– Sim – disse ela, com aquele sorriso que minava toda sua vontade.
Tudo bem, ele quis dizer, é compreensível que você tenha dúvidas porque eu não sou muito bom em disfarçar. Eu só espero que você tenha paciência, que você goste de mim o suficiente para esperar até o momento certo de termos essa conversa, até que eu me sinta totalmente seguro para me abrir com você e contar toda a verdade. Não quero que você fique preocupada comigo, não quero que passe noites em claro me esperando, porque acabamos de nos conhecer. Não é o momento para isso, não ainda. Nosso relacionamento precisa amadurecer, crescer. Então, quando a hora certa chegar, eu vou te contar tudo. Eu prometo.
Eu entendo, ela quis dizer, que você se preocupe com a minha segurança e esse seja um segredo perigoso. Não deve ser fácil manter isso escondido do mundo todo e, de repente, contar para a primeira pessoa que aparece na sua vida. Eu só quero que você saiba que pode contar comigo, Peter, e, quando a hora certa chegar, eu quero estar do seu lado, quero ouvir o que você tem a dizer, quero entender, quero fazer parte. Quero ajudar. Eu não vou te amar mais ou menos por isso, mas eu só posso admirar alguém corajoso a ponto de fazer o que você faz. Só queria entender porque você ainda não tem coragem de confiar em mim.
Terminaram o café e foram para o trabalho, de mãos dadas.
Noite de segunda-feira:
Finalmente, pensou Semeghini. Ali está ele.
Valdéz passava o tempo mexendo com equipamento eletrônico. O que ele não conseguia comprar, roubava. Morava em uma verdadeira oficina de alta tecnologia, incrustada em um ferro-velho. Tudo ali parecia quebrado ou inútil, mas havia tecnologia o suficiente para tomar um pequeno país, se ao menos ele fosse capaz de se organizar. E esse era o problema.
A despeito de seus conhecimentos em engenharia, física, mecânica e eletrônica, Valdéz era incapaz de tomar decisões ou agir por iniciativa própria. Era um excelente peão para criminosos como Octopus, mas jamais conseguiria liderar uma operação. Mas Valdéz não se iludia. Não tinha delírios de grandeza. Estava ciente de suas limitações e era feliz assim. Não achava que a vaidade de dizer que tinha “dominado o submundo do crime” fosse mais prazerosa do que descobrir onde estava o defeito em um capacitor de fluxo. Não se importava com dinheiro ou uma vida de regalias, contanto que pudesse continuar fazendo o que fazia melhor.
De um prédio numa rua em frente, o Vigilante podia observar a oficina de Valdéz. Ainda sentia dores no corpo, por passar o dia dormindo em cima de telhados. Quando dormia. Se alimentava mal mas, pelo menos, não tinha se entregado ao álcool. Precisava permanecer sóbrio. Precisava manter o foco. Valdéz era apenas mais um passo. Assim que o interrogasse, saberia onde encontrar Octopus.
Por volta das onze da noite, Valdéz largou o trabalho e foi assistir baseball. Era a chance que Semeghini estava esperando. Apenas o cubano sentado na frente da TV com uma garrafa de cerveja, sem a menor chance de usar alguma arma que tivesse em sua oficina. O Vigilante desceu pelas escadas de incêndio até a rua. Atravessou e pulou a cerca da oficina. Não perdeu tempo. Foi correndo em direção à porta e a derrubou com um chute.
– Mas que...!?
– Calado!
Antes mesmo de conseguir levantar do sofá, Valdéz recebeu um soco violentíssimo, indo a nocaute.
– Isso, idiota. Durma bem e aproveite seu descanso. Quando eu começar com você, vai desejar ter morrido.
Tarde de segunda-feira:
– ... e eu aguardo os relatórios amanhã cedo. Dispensados.
Nos últimos dias, vários criminosos tinham sido espancados nos lugares com índices de criminalidade mais altos de Nova York. Na última noite, contudo, os ataques ocorreram em locais que a polícia via como potenciais “fontes de informação”. As vítimas atribuíam o rompante de violência ao Vigilante, um combatente do crime que, volta e meia, dava as caras na cidade.
Para Peter, aquilo era um péssimo sinal.
Soube pelos jornais que a esposa de Semeghini tinha sido assassinada. Na manhã seguinte ao crime, o Dr Eisner veio falar com ele em tom de pesar. Semeghini tinha indicado Peter para a polícia e Eisner acreditava que Peter e Edward fossem amigos próximos.
Não podia estar mais enganado. Semeghini era “amigo” do Homem-Aranha, a única pessoa que sabia sua identidade secreta. Oficialmente, Peter e o antigo chefe de polícia jamais tinham se encontrado.
Mas nem Peter, nem o Homem-Aranha conseguiram encontrar Semeghini para expressar seu pesar. Ele simplesmente desaparecera. Os rumores diziam que ele tinha ido para o Sul, morar com a família. Mas ninguém tinha certeza. Até que marginais começaram a ser espancados por toda a cidade, afirmando que o Vigilante, enlouquecido, estava procurando o Dr Octopus.
Peter conhecia a história. Somou dois e dois.
Precisava encontrar Semeghini antes que ele fizesse algo de que fosse se arrepender pelo resto da vida.
– Carona, Peter?
– O que? Ah, sim. Claro, Mari. Vamos.
No carro, Peter deu nova demonstração de que era péssimo em disfarçar o que estava sentindo.
– Que cara é essa, Peter?
– Ah... Nada, não.
– Certeza?
– Sim.
– Não me convenceu...
Peter sorriu e relaxou no banco. De fato, precisava se abrir com alguém. No fundo, Semeghini era um cara que não merecia passar pelo que passou... A lesão na espinha da esposa e, agora, sua morte. Mal conseguia pensar nele como um amigo, principalmente considerando que ele só o indicara para a polícia por sugestão da Gata Negra. Ainda assim, era capaz de entender a perda e o fardo que o antigo chefe de polícia devia estar carregando.
– Eu... conheci o Semeghini. O antigo chefe de polícia. Estive pensando no que ele passou, a morte da esposa... Eu não fui no funeral.
– É a segunda vez que falamos sobre funerais hoje.
– Espero que seja a última!
– Eu também!
Peter continuou falando sobre as impressões que tinha de Edward Semeghini. Qualquer coisa para desviar o assunto do fato de que precisavam de pistas que os levassem até o Vigilante. Entregar o Vigilante significaria mandar para a cadeia o homem que deu um novo sentido à sua vida. E Peter não podia nem mesmo pensar em fazer isso. Seja lá o que estivesse acontecendo, o que Semeghini estivesse passando, Peter precisava ajudá-lo.
Como o Homem-Aranha.
Pararam o carro no “ponto de encontro” onde ela pegara Peter pela manhã e começaram a conversar longamente, de maneira mais leve e despreocupada, sobre o dia que tiveram e a vida que queriam ter. Gostavam da companhia um do outro. Para Peter, estes eram momentos preciosos. Contudo, a hora passava inacreditavelmente rápido quando estava com Mari e soube então que precisava ir pra casa.
– Tem certeza que não quer que eu o leve? Já que vou conhecer sua tia...
– Não, tudo bem. Ela... Não anda muito bem de saúde. Então, vamos esperar até o final de semana, pra termos certeza que ela vai fazer repouso e estar bem quando você for em casa.
– A saúde dela parece bem frágil...
– Ah, mas ela ainda agüenta dois ou três assaltos com o Tyson, se ele não começar a chorar feito mulherzinha.
Riram juntos e se despediram. E Mari não pode deixar de pensar que aquela não seria a primeira vez que May Parker servia de “pretexto” para um sumiço de Peter. Talvez tivesse notícias do Homem-Aranha na manhã seguinte.
Noite de segunda-feira:
– Acordou? Que bom.
– Quem... Quem é você?
– Onde está Otto Octavius?
– Eu... Eu não...
O soco quase quebrou o maxilar de Valdéz. Foi quando o cubano percebeu que estava com os braços e pernas amarrados ao sofá, incapaz de se defender dos ataques do estranho misterioso.
– Vou perguntar de novo...
– Quem diabos é você!?
– Eu quero o Octopus. E você vai me levar até ele, nem que, pra isso, eu precise quebrar cada osso do seu corpo. Ouviu bem? Eu sei que você tem a informação e não estou com pressa de conseguí-la. Passei as últimas noites quebrando informantes que não tinham nada pra mim, mas aos poucos eles foram soltando pistas... Essas pistas me trouxeram até você. Então, você escolhe. Podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil. Escolha o difícil, por favor.
O Vigilante arrancou uma perna da mesa e caminhou na direção de Valdéz.
– Então... É você que...
– Sim.
O golpe atingiu Valdéz na têmpora. Para sua sorte, a mesa era velha e a madeira se espatifou. Mesmo assim, foi o bastante para um grosso fio de sangue correr pelo seu rosto.
– Vou repetir: Otto Octavius.
– Por... Por que!?
– Diga o que eu quero saber.
– Eu não...
Dessa vez, foi um murro no nariz. O impacto atordoou Valdéz, que se viu lavado em sangue.
– Está bem, está bem! Eu falo! Pare, eu falo!
Semeghini sorriu.
Foi tão fácil quanto tinha imaginado. Para garantir que Valdéz não ia prevenir Octopus de sua chegada, o Vigilante o nocauteou e arrancou todas as linhas telefônicas. Provavelmente, ia dormir por muito tempo ainda, mas precisava se certificar. Queria garantir que Octopus não saberia que ele estava chegando.
Foi quando pensou nos criminosos que deixou viver. Se bem conhecia o submundo, Octopus já sabia. Mas que escolha tinha? Matar os informantes, se entregar à loucura e virar um psicopata, como Frank Castle?
Não. Por mais que estivesse se consumindo em dor e ódio, não ia simplesmente sacrificar vidas como os criminosos que, por tantos anos, colocara atrás das grades. Ia matar Octopus, e apenas ele. Depois, tudo estaria terminado. Depois, poderia se entregar à Justiça, sair da cidade ou qualquer outra coisa.
Mas apenas Octopus morreria.
O criminoso estava escondido no subsolo de um prédio em Coney Island. Ninguém pensaria em procurar o vilão em um edifício qualquer. Octavius conhecia os donos do lugar e, certamente, se valeu de algum tipo de “troca de favores” para ser deixado em paz. Mas Semeghini sabia muito bem o que significava confiar em um demônio como Octopus. Por um momento, começou a se perguntar, se pudesse voltar atrás, o que faria.
Ter aceitado o acordo de Octopus lhe deu os melhores dias de sua vida. Eram apenas ele e Heather, se recuperando, reconstruindo sua vida de casal. Tudo era perfeito. Tudo era mágico.
O preço a pagar, porém, foi alto demais.
Não sabia se seria capaz de continuar vendo Heather presa a uma cama, incapaz de falar, andar, sorrir ou amar. Mas a lembrança do rosto dela após ter sido assassinada era algo muito pior.
O que Octopus fizera foi muito pior.
E ele ia pagar!
Começou a pular de um telhado para o outro. Ainda ia demorar para conseguir chegar a Coney Island, mas isso não o deteria. Não ia esperar outro dia. Precisava correr, mesmo que chegasse lá cansado. A sede de vingança o impediria de fraquejar.
Correu como nunca.
Subiu sorrateiramente em uma balsa para Coney Island. Conhecia os barcos, os horários e quais balsas costumavam fazer vista grossa para intrusos. Só precisava chegar do outro lado.
Foi fácil encontrar o prédio. Não era um moderno centro empresarial, apenas uma construção antiga, com várias famílias morando. Procurou uma janela ou qualquer coisa que lhe desse uma vista lá de dentro. No beco lateral, encontrou um armário usado pela companhia telefônica. Abriu-o e começou a arrancar o equipamento. Àquela hora da madrugada, esperava que ninguém notasse os telefones mudos. Quando removeu todos os circuitos, forçou as mãos por baixo do armário, até encontrar a entrada que as equipes de manutenção usavam para reparar cabos subterrâneos. Puxou uma alavanca em forma de “Y”, removendo o armário e abrindo caminho para uma escada.
Desceu, e sua descida foi uma jornada ao inferno.
Encontrou o demônio sentado tranquilamente, seus tentáculos segurando um copo de whiskey e um charuto.
– Você demorou.
– Monstro...
– Sente-se.
– Eu não vim aqui conversar, desgraçado! Eu vim matar você!
– Por favor, eu não quero ser acusado de ser um mau anfitrião. Sente-se. Aceite uma bebida.
– Seu...
Antes que pudesse sacar a arma, contudo, o Vigilante foi atingido no rosto pelo copo de whiskey que um dos tentáculos segurava. O vidro cortou sua fronte e o sangue encheu seus olhos, cegando-o. Não houve tempo nem mesmo para entender o que tinha acontecido: Octopus estava sobre ele e, usando os tentáculos, o desarmou e o colocou numa cadeira, voltado para seu assento. Estava imediatamente de frente para Semeghini, segurando-o firmemente. Outro tentáculo arrancou sua máscara. O último pegou mais um copo de whiskey.
– Aceite uma bebida.
O tentáculo arremessou o whiskey no rosto cortado do Vigilante, que não conseguiu conter um rosnado de dor. Octopus riu.
– Você é um péssimo visitante! Mas, considerando que não foi convidado, tampouco pediu licença, vamos deixar as cerimônias de lado. Afinal, você não veio aqui para conversar, não é mesmo?
– Desgraçado...
– Isso... Não se contenha...
– Me solte...
– Vamos. Lute!
– Me solte, seu filho da puta! Eu vou matar você!
– Muito bem, Semeghini, muito bem... – riu o Dr Octopus. Semeghini estremeceu. Talvez aquele monstro fosse mais do que pudesse lidar. Otto Octavius era um assassino frio. Impiedoso. Cruel. O Vigilante não dormia bem há dias, não se alimentava direito e estava cansado. Foi pego de surpresa. Seria morto a qualquer instante.
Iria para junto de Heather.
– Antes que você se consuma em sua fúria, seu policial idiota, devia ter feito sua lição de casa direito. Eu imaginei que você viria atrás de mim no instane que soube da morte de sua mulher. Obviamente, cego pela raiva, você não conseguia pensar em outra coisa que não fosse vingança, não é? Em entrar aqui como um touro furioso e me matar. Não é mesmo? Foi incapaz de colocar a cabeça no lugar, raciocinar e tentar enxergar o óbvio. Não é mesmo?
– Do que você...?
– Idiota. Não percebe? Você sequer analisou os fatos. A polícia toda me ligou ao crime por sua causa, mas você não foi capaz de pensar um pouco mais além. Qual foi o seu primeiro grande caso na polícia de Nova York? O que lhe deu notoriedade, abrindo as portas para suas promoções? Qual foi o primeiro super-criminoso que jurou se vingar de você?
– Não...
– Sim!
– Não pode ser...
– Não seja cego! Quem foi? Qual o nome dele?
– O Escorpião...
– Exato! Acha que eu quero toda a polícia atrás de mim, em “respeito e consideração” a seu antigo capitão? Acha mesmo que eu sairia daqui pra matar uma mulher, quando poderia acabar com você da mesma forma, com a mesma facilidade? Acha que tenho tempo pra tanta futilidade? Você e o Homem-Aranha têm muito em comum, “Vigilante”. Ambos me subestimam. Subestimam meu intelecto e o que sou capaz de fazer. Subestimam meus objetivos. Você é patético. Aterrorizou o submundo por dias até conseguir me encontrar, quando podia simplesmente ter usado os recursos da polícia ao seu favor. A troco de quê? Apenas para ter uma morte sem sentido em minhas mãos. Percebe a ironia? Por mais que você tente fugir de seu destino, seu destino vai até você. Herói? Você não passa de um arremedo de...
– Octopus... Cale-se!
O Dr Octopus não estava preparado para o que veio a seguir. Os braços do Vigilante estavam presos acima do cotovelo, mas ele ainda tinha liberdade o suficiente para alcançar os bolsos em seu cinto. Não era exatamente um “cinto de utilidades”, mas tinha algumas ferramentas bastante úteis. Entre elas, as cápsulas que geravam clarões instantâneos. Conseguiu acertá-la bem entre os olhos de Octavius. O reflexo fez com que ele libertasse o Vigilante, que pode apanhar sua arma novamente. Mas aquilo não era tudo. Não tinha subestimando Octopus, jamais faria isso.
Tinha levado consigo um pequeno disruptor sônico, um aparelho simples, mas bastante eficiente. Ele gerava um pulso em alta freqüência que anulava o controle de Octopus sobre seus tentáculos.
Tudo que Semeghini precisou fazer foi se aproximar.
– Onde está ele?
– Seu... Seu desgraçado...
– Onde está o Escorpião?
– G... Gotham...
Gotham City!
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