The Amazing Spider-Man
42 Capitulo 42 - O Coração de Peter
Notas iniciais
Terminal de Ônibus da Ponte George Washington:
Peter Parker sempre tentou enxergar os estranhos acontecimentos em sua vida sob uma perspectiva otimista. Mesmo as tragédias, mesmo as perdas, mais tarde serviram como motivação para o jovem nova-iorquino. Muitas vezes, se perguntara o quanto de sua juventude fora sacrificada em prol da cobrança auto-imposta para estar à altura das responsabilidades, de seus poderes.
Questões ainda carentes de respostas.
Mas ele sentia, em seu âmago, que haveria uma recompensa para a honestidade, para o esforço. Uma forma de gratificação por oferecer o melhor de si, por lutar sempre e jamais esmorecer.
Claro, houve dias de desânimo. Dias de derrota. Erros. E houve aqueles dias em que o universo parecia simplesmente estar conspirando contra ele.
Estava no meio de um encontro-romântico-de-meio-de-semana com sua colega de trabalho, Marianne Potter, quando o telefone celular tocou. Talvez fosse a tia May, talvez alguém do laboratório. Sequer passou pela sua cabeça que a pessoa do outro lado da linha fosse Bruce Wayne.
O Batman!
Peter pediu licença para Mari e levantou-se da mesa do restaurante tex-mex onde dividiam nachos e tacoscom guacamole. O tom da voz de Bruce do outro lado da linha deixava claro que aquele não era um contato social. A voz grave, profunda, fria como um túmulo.
Batman narrou para Peter como Edward Semeghini, o Vigilante, invadira o Asilo Arkham atrás de outro invasor – o Escorpião – que Semeghini responsabilizava pelo assassinato de sua esposa. Aparentemente, o Escorpião era inocente desse crime – mas a imprudência do ex-chefe de polícia acabou levando a uma fuga em massa da instituição. Agora, alguns dos mais perigosos e famigerados assassinos de Gotham City estavam a solta.
– Estou mandando Semeghini de volta pra Nova York. Não envolvi a polícia de Gotham, mas deixei ordens expressas para que ele se entregue ao chegar aí. Preciso que você espere por ele na rodoviária.
– Hmm. Tá. Ah, tá.
– Ele deve chegar aí em cerca de quatro horas. Esteja lá e impeça que ele faça alguma bobagem. Ele deve ir direto para a polícia e se entregar. O homem está completamente obcecado pela idéia de se vingar do assassino de sua esposa.
– Hmm. Claro.
– Entre em contato comigo se alguma coisa sair fora do planejado.
– Arrã. Beleza.
– Está tudo bem?
– Está. Está... É que... Tipo, não deveríamos estar ajudando Semeghini a encontrar o assassino? Eu meio que... entendo como ele deve estar se sentindo.
– Nós vamos ajudá-lo, não se preocupe. Preciso descobrir o que o Escorpião estava fazendo em Gotham. Você é um perito criminal agora, pode encontrar pistas que confirmem a versão dele. Infelizmente, tenho que lidar com essa fuga em massa... Desequilibrado do jeito que está, Semeghini não vai nos ajudar em nada. Ele precisa ficar fora de ação, ou vai causar ainda mais estrago.
– Entendi. Claro. Eu vou... Vou pra lá agora mesmo.
Infelizmente, Batman tinha razão. Se todos aqueles assassinos e psicopatas estavam à solta em Gotham, não era hora pra um ex-policial sedento por vingança ficar à solta por aí, de máscara e arma em punho. Talvez essa investigação com Bruce pudesse esclarecer as coisas. Peter confiava nele.
Agora, precisava pensar numa boa desculpa para se despedir de Mari.
– O que foi, Peter? Que cara é essa?
– Hmmm... Desculpe, Mari. É que... Notícias não muito boas...
– Quem era no telefone?
– Era... O médico de minha tia.
– Ela está bem?
– Está. Está, sim. Só que... Olha, desculpa, mas eu preciso ir pra casa e ficar com ela. Parece que houve um problema com a dosagem da medicação dela, acabou não fazendo o efeito desejado...
– Não, tudo bem. Eu te levo.
– Mari...
O remorso brotou no estômago de Peter, prestes a explodir por sua garganta, num jato de vômito furioso e inconformado. “Eu sou o Homem-Aranha”, quis dizer a ela. “Lamento ter mentido pra você, mas eu sou o Homem-Aranha. Não era o médico da minha tia, era o Batman. Eu tenho um trabalho a fazer e lamento ter usado minha tia como desculpa pra ir embora. Eu estou apaixonado por você e não quero mais mentir, por favor, me desculpa.”
– O que foi, Peter?
– Você vale ouro, sabia?
Ela sorriu, e seu sorriso foi sincero. Sentia o mesmo por Peter. Mas não ia deixar de prestar atenção nos noticiários do dia seguinte.
Peter passou na sua casa apenas por tempo suficiente para se certificar de que Mari não estaria mais por perto quando saísse. Estava usando o uniforme por baixo da roupa, pegou um táxi até Manhattan e, só então, procurou um prédio onde pudesse se transformar no Homem-Aranha. De lá, usou suas teias para chegar até a rodoviária.
O Terminal de Ônibus da Ponte George Washington era um imenso complexo, ocupando dois quarteirões inteiros entre as ruas 178 e 179 e as avenidas Wadsworth e Fort Washington, na alta Manhattan. O terminal tem três andares: o principal, com lojas e venda de passagens; o superior, onde estão as plataformas de ônibus; e o inferior, onde está a estação de metrô e uma passagem de pedestres. Estima-se que cinco milhões de pessoas passem pelo terminal todos os anos, com um movimento de mais de trezentos mil ônibus. Num típico dia de semana como aquele, cerca de 17 mil pessoas passariam pelo local.
O suficiente para Semeghini desaparecer em meio à multidão.
Peter pensou, então, em tentar usar seu Sentido de Aranha de uma maneira diferente. Talvez, se tentassefocalizar os seus sentidos, fosse capaz de determinar onde Semeghini estava. Seria difícil, mas não custava tentar.
Fechou os olhos, levantou a cabeça, e tentou captar qualquer leve vibração ou tilintar em sua nuca. Passaram-se alguns segundos antes que Peter começasse a achar aquilo tudo muito estúpido. Abriu os olhos e teve uma visão privilegiada da ponte George Washington.
O lugar onde Gwen Stacy morreu.
Sabia como Semeghini estava se sentindo. Sabia o que significava ter um ente querido arrancado de seus braços por um monstro doentio. Conhecia perfeitamente a sensação de impotência, o desespero, o medo.
Peter nunca sentiu tanto medo na vida quanto no momento em que se deu conta de que Gwen, em seus braços, estava morta. Sentiu-se pequeno, fragilizado. Desejou morrer junto com ela. Desejou que o mundo todo morresse. E teve medo de seu desejo tornar-se realidade. Era dor demais pra uma pessoa só, sofrimento demais para uma única vida, já cercada por tragédias. Como poderia sobreviver àquilo? Como poderia continuar sem ela?
Mas continuou.
Talvez até por causa dela, continuou.
Estava feliz, seguindo em frente com sua vida. O namoro com Mari caminhava bem – apesar da sua consciência condená-lo por mentir para ela sobre o Homem-Aranha – e era afortunado por ter cruzado o caminho de uma mulher tão espetacular.
Curiosamente, Mari não fazia as outras mulheres de sua vida parecerem menores. Gwen tinha um espaço em seu coração que não poderia jamais ser tomado. Mari Potter era alguém que o fazia se orgulhar de seu passado, que o fazia entender e aceitar seu destino. Alguém por quem continuar lutando. Alguém como...
Sentiu um estalo na nuca. Algo parecido com um nervo saindo do lugar, mas acompanhado daquela sensação familiar que o Sentido de Aranha lhe trazia. Mas não era perigo, não era uma ameaça, era...
Será que seu Sentido de Aranha tinha realmente funcionado para localizar Semeghini?
Olhou para o gigantesco terminal por uma clarabóia, tentando encontrá-lo na multidão. A tensão em seu pescoço direcionou sua visão para um ponto.
Uma pessoa.
Mas não era Edward Semeghini, o Vigilante.
Era Mary Jane Watson!
– MJ? – Peter se aproximou hesitante, sem saber ao certo qual seria a reação de sua ex-mulher. Desde o misterioso telefonema para tia May,¹ suspeitava que sua ex-mulher estivesse nutrindo um ódio doentio por ele e pelo seu alter-ego. Durante a luta com Duende Verde no metrô,² Mary Jane ouviu o insano vilão afirmar que ela era um clone – criada em um laboratório para substituir a esposa de Peter Parker na maternidade. O choque tirou as forças de MJ, uma das mulheres mais corajosas que Peter conhecia. Ela estava determinada a deixar Nova York com sua tia Anna, deixando toda a loucura que envolvia o Homem-Aranha para trás.
Seria natural que ela estivesse com raiva.
Porém, na fração de segundo que levou para Mary Jane se levantar e abraçar Peter, ele pode notar um sorriso de alívio, entrecortado por lágrimas. Definitivamente, não era a recepção que ele esperava.
Ficaram abraçados por um longo tempo, sem se preocupar com a hora, com o lugar ou com as circunstâncias.
– Como você está, Peter?
– Eu... Bom, bem. Estou bem. E preocupado com você.
Finalmente desfizeram o abraço, mas continuaram de mãos dadas enquanto olhavam profundamente nos olhos um do outro. Não havia ressentimento ou mágoa, apenas a sensação de segurança que temos quando encontramos alguém em quem confiamos muito no momento que mais precisávamos.
– Desculpe, Peter – o sorriso de Mary Jane se desfez, enquanto ela abaixava a cabeça. – Eu... foi um choque pra mim. Eu precisava deixar tudo isso pra trás, mas não estava no humor de ficar me explicando. Já não basta minha tia...
– Eu pensei que você já tivesse ido.
– Sim, fui com a tia Anna, mas apenas porque ela não gosta de viajar sozinha. Eu ainda precisava pegar um monte de coisas minhas aqui. Já encontramos uma casa na Flórida, agora é só terminar de levar a mudança.
– MJ, você tem certeza...?
– Não tente me dissuadir a mudar de idéia, Peter. Não agora. Passei pelo inferno com essa história toda. Ainda não sei no que acreditar. Mas quero descobrir sozinha. Eu lamento muito que as coisas entre nós tenham tomado esse rumo, mas... Acho que chegou a hora, não é?
– Eu nunca vou me desligar totalmente de você, MJ. Eu ainda acho que...
– Eu sei, Peter. Eu sei. É o seu lado “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. E você se sente responsável por mim. Também me sinto responsável por você. Depois de tudo que enfrentamos juntos, isso era o mínimo. É muito triste acordar uma bela manhã e descobrir que você não ama mais uma pessoa, descobrir que estava mantendo esperança por pura inércia, pela comodidade e pelo hábito de acordar ao lado dela todas as manhãs.
– São coisas que eu nunca conseguiria dizer, Mary Jane.
– Porque você não quer magoar ninguém.
– Muito menos você.
Os dois finalmente se sentaram, aliviados por a conversa ter começado tão bem. Ainda se amavam – mas agora não era o tipo de sentimento que os faria querer passar o resto da vida juntos. Eram mais próximos do que qualquer casal pode ser, eram cúmplices, melhores amigos, irmãos. Muita coisa tinha mudado.
Não seria diferente com eles.
– Mas o que você está fazendo aqui, afinal?
– Estou esperando o Semeghini.
– Aquele da polícia? Que teve a esposa assassinada?
– Ele mesmo. Teve uma grande bagunça em Gotham e ele estava envolvido. Eu vim garantir que ele se entregue e fique longe de encrenca.
– Meu Deus... Ele deve estar sofrendo muito...
– Acredito que sim... E vou tentar ajudá-lo, de alguma forma. Mas não vou conseguir se ele continuar bancando o Justiceiro por aí.
– Alguma pista?
– Todas muito vagas. Mas sou perito criminal agora. Vou descobrir alguma coisa.
– Vai, sim. Tenho certeza. Sua vida parece estar muito boa...
– Estou numa fase legal. As coisas estão dando certo, sob muitos aspectos. Acho que, finalmente, comecei a tomar as decisões certas na minha carreira. Trabalhar no laboratório, colocar em prática tudo que aprendi, não tem dinheiro que pague isso. E nem posso reclamar do salário.
– Que bom. Finalmente, livre do JJJ!
– Essa é a melhor parte! Mas e você? O que vai fazer na Flórida?
– Ainda tenho uma boa reputação como modelo. Acho que consigo algumas coisas por lá. Não estou pensando nisso ainda, pra ser honesta. Primeiro, quero colocar a cabeça pra fora da água e respirar.
– Se precisar de alguma coisa...
– Eu sei que posso contar com você, Peter. Obrigada.
Um beijo suave nos lábios de Peter marcou a despedida de Mary Jane. O ônibus dela estava prestes a sair.
Encontrá-la ali, para Peter, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido antes do que viria pela frente. Nos últimos meses, enquanto se afastava de Mary Jane e se aproximava de Mari Potter, perguntou-se várias vezes se o que achava bonito em MJ ainda estava lá. Se tudo que a tornava encantadora, especial, apaixonante, ainda estava lá. Machucava muito vê-la sofrendo, ver que ela tinha deixado tudo o que tinha de melhor para trás. Nem todo o amor do mundo poderia salvar a inocência dela agora. Mary Jane podia contar apenas consigo mesma. E vê-la forte, confiante e otimista em sua própria capacidade de recuperação, deixou Peter esperançoso de que, um dia, se encontrariam novamente para conversar e todas as coisas que achava bonitas nela seriam mais do que meras lembranças.
Mary Jane, por outro lado, se afastou aliviada por não ter chorado na frente de Peter, mas não conseguiu conter as lágrimas ao entrar no ônibus. De todas as coisas que tinha deixado para trás, se despedir de Peter foi, de longe, a mais difícil.
Semeghini desceu do ônibus desorientado. Estava cansado, com fome e quebrado por dentro. Tinha passado pelo inferno, foi humilhado e espancado. Estava cada dia mais distante de descobrir a verdade sobre o assassinato de sua esposa. Na verdade, tudo que conseguira, foi causar uma fuga em massa do Asilo Arkham, enquanto seguia uma pista falsa do Dr Octopus que o levou a confrontar o Escorpião.
Não sabia mais quem estava falando a verdade, mas não se importava mais. Expulso de Gotham pelo Batman, teve que agradecer pelo benefício da discrição. O Cavaleiro das Trevas não o entregou à polícia de Gotham. Apenas ordenou que voltasse para Nova York, onde deveria se apresentar e se declarar culpado pela fuga no Arkham.
Sua condição psicológica estava tão abalada que aceitou sem hesitar.
Batman lhe deu alguns comprimidos para tomar durante a viagem. Não sabia o que eram, mas suspeitou que fossem tranqüilizantes e ansiolíticos, talvez lithium.
Não tomou.
Contudo, sentia-se dopado pela viagem, pelos acontecimentos da noite anterior e por tudo que tinha feito de errado. Sua vida tinha se transformado em uma sucessão de fracassos. Não tinha coragem de cometer suicídio, mas desejou estar morto.
Não tinha coragem pra mais nada.
Quando chegou ao portal principal, não sabia se deveria chamar um táxi ou ir a pé. Sequer tinha dinheiro para o táxi. Foi quando sentiu um tranco na altura do ombro. Um fio de teia o puxou para o telhado do terminal rodoviário.
– Semega. Quanto tempo.
– Homem-Aranha!
– E aí? Que tal me contar o que aconteceu?
Peter teve tempo de comprar alguns cachorros-quentes e refrigerantes antes de Semeghini chegar e precisar ir para o telhado como o Homem-Aranha. Estava diante de um homem derrotado, desprovido de alma, incapaz de se expressar bem ou articular frases coerentes.
Semeghini estava morto por dentro.
Mesmo assim, tentou encontrar as palavras para explicar ao Homem-Aranha que tinha ido atrás do Escorpião por causa de algo que o Dr Octopus lhe dissera. Contou como interrogara o vilão durante o tumulto no Arkham e quase fora morto por ele. Tudo levava a crer que Octopus realmente tinha mentido mas, nesse caso, será que ele teria mesmo matado Heather Semeghini?
– Semeghini, olha... Eu...
– Eu sei. Tenho que me entregar.
– Eu conheço... Sei o que você está sentindo. Já passei por isso.
– Ela estava morta quando cheguei...
– Eu a vi sendo assassinada. Acredite, eu conheço a sensação. E quero muito te ajudar. Mas, pra isso, você vai ter que se entregar. Nesse estado, você pode piorar – e muito – as coisas. Você está desorientando, raciocinando mal, cego de raiva e culpa... Nessas condições, é um milagre que você tenha saído com vida do Arkham. Então, não quero que você deixe monstros como o Octopus se aproveitarem da situação. Não quero ninguém usando sua tristeza contra você. Entendeu bem? Eu quero que você se entregue, numa boa, e deixe que eu e o Batman cuidamos do assassino de Heather, quem quer que seja ele. Eu torno a entrar em contato com você se precisar, faço o que estiver ao meu alcance pra te ajudar no tribunal mas, até lá, você precisa ficar fora dessa investigação, ou seu envolvimento pessoal pode...
– “Envolvimento pessoal”? Você está sendo... Está... Aranha, como você reagiria se, quando mataram a suamulher, aparecessem dois caras mascarados cujo nome você nem sabe, dizendo que é melhor você “ficar de fora”? Como acha que estou me sentindo? Eu não durmo há dias, não sei o que é uma refeição decente desde que Heather morreu, não consigo... Não consigo...
– Você vai ter que confiar em mim. Eu não tinha ninguém se oferecendo pra me ajudar na época. Tive quelidar com isso sozinho. Acredite, não foi fácil. Sei que, o que estou pedindo pra você, não é fácil. Mas seja sensato. É a coisa certa a ser feita. Nós podemos encontrar o culpado. Mas não queremos que você morra por isso, eu não quero que você morra.
Semeghini se calou.
O Homem-Aranha tinha razão. Em seu coração, ainda era um policial. Ainda acreditava que os culpados seriam punidos dentro da Lei.
– Então vamos. Eu preciso me entregar.
Quando se levantaram, contudo, viram o manto noturno ser rasgado por um clarão. O estrondo de uma explosão veio logo em seguida.
– Que diabos...!?
– Avenida Amsterdam. O que tem lá, Semega?
– O campus da Universidade Yeshivah. Vamos, a gente tem que...
– Ei, ei! Você precisa se entregar, tá lembrado?
– Eu posso ajudar!
– Você não vai...
Outra explosão. Se a Universidade estava sendo atacada, não era o momento de discutir. Além do mais, no meio da madrugada a universidade devia estar praticamente vazia. Não tinha como o Semeghini estragar tudo.
– Ok, vamos lá. Mas estou de olho em você.
O Aranha achou estranho ter falado com alguém que considerava um amigo daquele jeito. Mas não restava dúvida de que Semeghini precisava ser tratado com rédeas curtas. Não podia quebrar a confiança do Batman deixando o Vigilante fugir, mas ele não parecia estar planejando isso. Se ele tentasse, podia usar seu Sentido de Aranha para...
Espere aí, Peter pensou consigo. Foi meu Sentido de Aranha que localizou MJ na rodoviária? Será mesmo que eu posso usá-lo de outras formas?
Aquele parecia um bom momento para descobrir. Enquanto se balançava entre os edifícios da Avenida Amsterdam carregando Semeghini, tentou focalizar seu Sentido de Aranha nas explosões no campus. Tudo que sentiu foi uma grande confusão.
Ao chegar ao campus, descobriu o motivo.
Arrasa-Quarteirão, Cara-de-Barro e Amídala tratavam de causar o maior estrago possível, destruindo paredes, arremessando bancos, arrancando hidrantes do chão. O Chapeleiro Louco e o Ventríloquo detonavam explosivos, prestes a colocar o prédio abaixo. Dr Phosphorus incinerava tudo que tocava, deliciando-se com as chamas. O Crocodilo aterrorizava os funcionários que conseguia encontrar, arrancando membros, devorando vidas.
No olho da tempestade, o Coringa gargalhava, histericamente.
– É tudo culpa minha – balbuciou Semeghini.
O plano era simples.
Assim que colocaram o pé fora do Arkham, roubaram uma van e começaram a dirigir, o mais rápido possível, para Nova York. O Coringa agregou um pequeno bando de maníacos, sua nova “gangue”, para levar o terror até a bela Manhattan. “Primeiro o Al Qaeda, agora é a nossa vez!”, teria gritado, várias vezes, enquanto dirigia a van. Os relatos davam conta de postos de gasolina destruídos, caronistas atropelados e uma garota seqüestrada, que serviu para satisfazer a índole maníaca do Coringa durante o trajeto.
O Palhaço gargalhava e gargalhava e gargalhava...
Ao chegarem em Manhattan, precisavam escolher um alvo. A Universidade Yeshivah é uma instituição particular, com seis campi em Nova York e um em Israel. Fundada em 1886, é uma renomada instituição de pesquisa, em 50° lugar no ranking das melhores universidades norte-americanas. Ela oferece um currículo único – criada pela filosofia do moderno judaísmo ortodoxo do Torah Umaddah, que significa “estudos religiosos e seculares”. Ela combina o melhor em educação acadêmica contemporânea com os ensinamentos atemporais da ética da Torah.
E foi justamente em frente ao campus da Avenida Amsterdam que um policial resolveu pedir para que a van da gangue do Coringa parasse, suspeitando dos gritos que vinham de dentro.
O policial foi o primeiro a ser assassinado.
– Bom, já que estamos aqui – disse o Coringa – vamos aproveitar pra começar a tocar o terror em Nova York, certo? Que tal se a gente colocasse essa universidade no chão?! Hein?
A Faculdade de Medicina Albert Einstein e a Faculdade de Direito Benjamin N. Cardozo tinham testemunhado a Guerra do Vietnã, a queda do Muro de Berlim, o 11 de setembro.
Mas nada como aquilo.
– Vamos transformar este lugar num inferno! Hahahaha!
O Chapeleiro Louco e o Ventríloquo pareciam patéticos, mas eram muito mais perigosos do que a maioria dos marginais que Semeghini já tinha enfrentado. Estavam no mesmo nível que Octopus e o Escorpião, seja em crueldade ou contagem de corpos. Contudo, estava desarmado e não duraria muito contra um peso-pesado do nível do Cara-de-Barro. Precisava, pelo menos, impedir que as explosões continuassem.
Acertou o Chapeleiro Louco na cabeça com um pedaço de pau, nocauteando-o por trás. Porém, quando se aproximou do Ventríloquo, viu que o boneco de Scarface tinha uma metralhadora.
– Entregue-se.
– Ouviu só, goneco? O gonitão aí quer que a gente se entregue!
– Sr Scarface, talvez seja melhor...
– Cala a goca, goneco! Vamos nos livrar desse inguecil...
Semeghini pensou que a metralhadora fosse de brinquedo, mas não era. A rajada de tiros o atingiu no braço, antes que pudesse se esquivar. Continuou saltando para longe dos disparos, com a pouca força que lhe restava. Quando esteve no Arkham, não parou para pensar no assunto. Agora, diante de alguns de seus mais perigosos e violentos criminosos, começou a se perguntar que inferno seria capaz de gerar tanta loucura. Arremessou o pedaço de pau com o braço bom, atingindo em cheio o boneco de Scarface.
– Senhor... Sr Scarface? O senhor está bem?
– Melhor se entregar, maluco.
– Ora, seu...
Arnold Wesker, movido por uma lealdade cega ao demônio nascido em sua mente, investiu contra Semeghini. O ex-policial não estava preparado para um confronto físico. O Ventríloquo parecia frágil, até patético, mas é notório que a loucura pode desencadear força fora do comum.
As mãos do Ventríloquo se fecharam ao redor de sua garganta. Foi com muito esforço que conseguiu lhe atingir com uma joelhada entre as pernas. Aquilo lhe garantiu a oportunidade de nocauteá-lo com um direto no queixo.
Ofegante, cansado, quase morto por um criminoso que classificara minutos antes como “patético”. Ainda tinha muito trabalho pela frente. Porém, o Chapeleiro Louco o atingiu por trás, com o mesmo pedaço de pau que usara antes.
O Homem-Aranha mal sabia por onde começar. Psicopatas, assassinos e aberrações estavam à solta. Inimigos do Batman. Assassinos com uma contagem de corpos que, somada, atingia facilmente os quatro dígitos.
Lembrou-se do Carnificina.
Posso lidar com isso.
A primeira coisa era estabelecer prioridades. Por mais perigosos que fossem, tinha que salvar vidas primeiro, garantir que ninguém fosse se machucar no confronto. Para isso, precisava deter o Crocodilo.
Waylon Jones nasceu com uma estranha doença de pele, uma mutação que o deixou com o aspecto de um crocodilo urbano. Tendo enfrentado o Batman diversas vezes, Croc fugiu do Arkham pela última vez em direção ao Louisiana, onde o Monstro do Pântano lhe ofereceu abrigo e chance de poder se entregar completamente à fera dentro de si.
O Crocodilo descobriu, ironicamente, que era mais monstro do que fera. Voltou a Gotham e começar a contrabandear armas, traficar drogas e aliciar garotas. Virou um respeitado chefão no submundo do crime, forjando alianças e devorando os que ficavam contra ele. Isso durou até ser preso pelo Batman novamente.
Mesmo se julgando humano, não tinha esquecido o sabor da carne.
Fazia isso por mera crueldade.
O Homem-Aranha não podia permitir que isso continuasse. Croc estava segurando meia carcaça de um segurança do campus, enquanto puxava uma mulher dos destroços. Ela estava aterrorizada e gritava muito, enquanto Croc exibia suas presas ensangüentadas para ela.
Um impacto, um clarão e, de repente, o sabor de sangue que Jones sentia, era do seu próprio sangue. Um chute certeiro do Homem-Aranha quebrou vários de seus dentes.
– Ah... O herói local... É um prazer, Homem-Aranha! – gritou o Crocodilo, largando a mulher aterrorizada e a carcaça semi-devorada.
– Não posso dizer o mesmo.
O Homem-Aranha sabia que o Crocodilo o mataria rapidamente na primeira oportunidade. Precisou apelar para seus golpes mais violentos, usando sua velocidade e agilidade para ficar fora do alcance de suas presas e garras. O ataque realmente estava surtindo efeito. O monstro sentia os golpes e rosnava de dor, mas ainda faltava muito para que fosse derrotado. Num momento de descuido, o Crocodilo finalmente agarrou o Aracnídeo, pretendendo esmagá-lo em seu abraço.
– Admita... Você nunca enfrentou nada como eu!
– Pra... Pra falar... a verdade... teve o Lagarto... Você é só... uma cópia... de segunda mão!
O Crocodilo pareceu não ter gostado daquele comentário, apertando ainda mais seu abraço. Mas era justamente com isso que o Homem-Aranha estava contando. Cego pela raiva, Croc não percebeu que o Aranha atingiu suas patas com teias, puxando-as em um violento solavanco. O Crocodilo caiu e o Aracnídeo aproveitou para encher sua enorme boca com teia.
– Vamos ver quem é o próximo...
O Homem-Aranha não precisou procurar muito. O Sentido de Aranha rapidamente o avisou de alguém se aproximando por trás.
O mais perigoso deles.
O Coringa.
– Ora, ora, ora... Vejam só quem veio para jantar...
– Já chega, Coringa! Essa loucura termina agora!
– Agora eu vou matar você...
O Coringa não estava rindo, mas o Homem-Aranha nunca o encontrara antes. Não conhecia seu modus operandi. Tudo que sabia era, se queria sair dali com vida, precisava tirar o Coringa de cena. O Palhaço investiu contra ele, desferindo uma série de socos e chutes que implicavam em treinamento em alguma arte marcial. Não condizia com o que sabia a respeito do Coringa. Os golpes dele eram fortes, dolorosos. Não era a toa que Batman respeitava esse canalha.
Foi quando um forte jato de lama atingiu o Homem-Aranha pelas costas, arremessando-o de encontro a uma parede.
– Não! – gritou o Coringa. – Cara-de-Barro, seu idiota! Ele era meu!
– Nós temos que sair daqui, a polícia está chegando!
– Mas...
– Coringa, o que deu em você?
Subitamente, o palhaço pareceu voltar ao seu humor maníaco, irrompendo numa gargalhada. Saiu correndo na frente do Cara-de-Barro e entrou na van.
– Vamos embora, crianças! Ainda temos muito que fazer por esta cidade infernal!
A gangue do Coringa, exceto o Ventríloquo, correu para a van enquanto Semeghini ia socorrer o Homem-Aranha. Até mesmo o Crocodilo fugiu, arrancando bolas de teia de sua boca.
– Aranha, você está bem?!
– Precisava ver... *ai*... o outro cara...
– Eles fugiram.
A situação era caótica. A nata dos criminosos de Gotham estava à solta em Nova York, disposta a espalhar o terror pela cidade. Não sabia se podia lidar com isso, mas tinha certeza de que podia morrer se tentasse sozinho.
Assassinos, monstros, psicopatas.
O Coringa.
Pegou Semeghini e usou sua teia para alcançar um prédio próximo, antes que a polícia chegasse. Estava diante de um dilema, sem muitas opções para resolvê-lo. Contudo, não estava mais sozinho.
Pegou o telefone celular e ligou para um número impossível de ser rastreado.
– Bruce? É o Peter.
– O que aconteceu?
– Os fugitivos do Arkham... Eles vieram pra Nova York e o Coringa está liderando uma cruzada de destruição aqui. Acabaram com uma universidade e escapei por pouco de ser morto.
– Estou a caminho.
– Você... Está vindo pra cá?
– Claro. Não foi pra isso que você me ligou?
– Na verdade... Na verdade, eu liguei pra avisar que tenho um reforço comigo. Eu não tive tempo de levar o Vigilante pra polícia, e não acho que vá fazer isso agora. Ele pode ajudar.
Houve silêncio do outro lado da linha. O tipo de silêncio que pode tanto significar “depois não diga que eu não avisei” quanto “ótimo, precisamos de toda ajuda possível”.
– Mantenha-o longe de encrenca até eu chegar, Peter.
– Tá. Ok. Bruce, eu... Obrigado.
Batman não respondeu, mas Peter não estava esperando que isso acontecesse. Depois de tudo pelo que Semeghini tinha passado, talvez lutarem juntos fosse a oportunidade ideal para que ele colocasse a cabeça no lugar. Talvez não precisasse se entregar. Se Batman o visse lutando, talvez considerasse que ele só precisa de algo pra focar sua fúria.
– Semega, a gente precisa de uma refeição decente. Nós vamos pegar a gangue do Coringa.
– Mas eu...
– É a sua chance de provar que pode ser útil, superar a dor. O Batman está vindo pra cá, então não pise na bola. Ou eu mesmo me encarrego de você.
– Você falou igual ele agora...
– Caralho, Coringa! O que deu em você?! Ficar perdendo tempo com o Homem-Aranha...
– Cale a boca, Cara-de-Barro! Eu teria matado aquele inseto se você não tivesse interferido! Cadê o Ventríloquo?
– Foi preso. Tinha um cara lá com um pedaço de pau, pegou nós dois, mas eu peguei ele. Mas nem a pau que eu ia carregar o Wesker – disse o Chapeleiro Louco.
– Não importa. Chegou a hora de vingarmos a morte do Vagalume! Não sei onde podemos encontrar o Escorpião nesta cidade maldita, mas sei onde podemos encontrar os amigos dele! Vamos matar todos, como ele fez com o nosso amigo! Vamos invadir a Balsa! Hahahaha!
– Hmmm... Já é hora do chá?
Longe dali, o Escorpião acaba de voltar a Nova York. Viajara durante horas escondido em um caminhão. Precisava chegar ao seu covil e arrumar ajuda. Sabia que estavam atrás dele. O Coringa, o Batman, o tal Vigilante. Se todos eles se juntassem, não ia durar muito tempo.
Precisava de ajuda.
Ia atrás do homem que o colocara nessa. Ia atrás do Dr Octopus.
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