The Amazing Spider-Man
27 Capitulo 27 - Ratoeira
Ele ligou a TV já sabendo o que ia ouvir.
Numa escola em Ivy Town, um garoto disparou uma metralhadora contra oito colegas de classe e uma professora. Todos morreram na hora. O atirador tinha apenas onze anos.
Em um campo de prisioneiros de guerra nos Bálcãs, um general ordena o fuzilamento de todo um vilarejo de camponeses. Os disparos são feitos nos joelhos, e os soldados apenas observam enquanto os aldeões sangram até a morte.
Num laboratório em Delaware, uma pesquisadora desenvolve um vírus capaz de inutilizar todas as funções motoras em menos de 48 horas e resolve leiloá-lo na Internet.
Em São Paulo, a polícia militar executa os líderes locais do tráfico com banhos de óleo fervente. As carcaças são abandonadas em frente às casas das vítimas, para que sirvam de exemplo.
Dentro de quatro gerações, a humanidade estará extinta.
O exército israelense promove a execução sistemática de palestinos suspeitos de estarem ligados a grupos terroristas. Em resposta, os palestinos começam a se valer de homens-bomba de menos de um ano de idade.
Um padre, condenado a quarenta anos de prisão por abuso de menores, lidera uma rebelião em um presídio de segurança mínima em Santa Cruz, Califórnia, forçando a Defesa Civil a interditar a cidade após duzentos e quarenta civis serem mortos a socos e pontapés.
Neste instante, uma criança morre de AIDS ou fome na África. Um adulto é assassinado por guerrilheiros no mesmo intervalo de tempo.
Grupos terroristas iniciam uma guerra em Paris que culmina com a explosão do aeroporto Charles DeGaulle. Entre as vítimas, três membros do governo federal.
Em Nova York, uma garota de dezesseis anos morre de inanição na porta de uma instituição de pesquisas humanitárias. A instituição foi rebatizada com seu nome, Hope Scheimmer. Horas mais tarde, a instituição foi indiciada por omissão de socorro.
Lex Luthor é o presidente dos Estados Unidos da América.
Peter Parker desligou a TV e saiu para respirar o ar peçonhento que a humanidade compartilhava, numa noite de poucas estrelas e nenhuma esperança.
Longe dali... — É uma troca, entende? Se a gente conseguir levar o...
– SE a gente conseguir, mané. SE. Esse é o tipo de serviço que me dá nos nervos.
– Qualé? Tá com medinho agora, é?
– Você nunca topou com nenhum dos fantasiados, seu merdinha. Nunca tomou uma surra de um mascarado em um beco escuro, onde você só consegue ver aquela mão enluvada te esmurrando até você perder todos os dentes ou desmaiar.
– Ei, eu não sabia que você já tinha encontrado um deles!
– Foi há muito tempo.
– Qual deles?
– Esquece esse assunto, Sammy.
– Ah, deixa de ser mocinha. Conta aí. Foi o Batman? Ou o Capitão América?
– O Batman mora em Gotham, cabaço. Ele não vem pra Nova York. E sabe por quê?
– Por que?
– Por causa dos play-offs de 89. Gotham Knights e New York Giants. O time deles chegou a um play-off pela primeira vez na história e veio como favorito para...
– Você tá me dizendo que o Batman não vem pra Nova York por causa da porra de um jogo de futebol?
– Mas foi nesse dia que...
– Ah, Eddie! Cala essa boca, vai. Me diz quem foi o fantasiado que te espancou.
– O Grimm. Ben Grimm.
– O Coisa?
– Ele mesmo.
– PUTAQUEPARIUAMÃEDOGUARDA! Que diabos você fez, afinal, pra levar uma surra do Coisa?
– Surra? Que mané surra? Foi só um tapa. Acordei três dias depois, no hospital.
– Arre, égua!
– Eu roubei a bolsa de uma bacana no Mall Plaza. Pra meu azar, o Grimm estava lá fazendo compras. Fazendo compras! Eu nunca encontrei uma celebridade sequer nessa cidade, nem mesmo conheço alguém que já tenha aparecido na TV. E, numa fase de vacas magras, roubei uma bolsa justo no shopping em que o Coisa estava fazendo compras...
– Cara, você é muito zicado. Só pode ser. Quando foi isso?
– Já faz uns quatro anos. Isso pra não falar no terrorismo que fazem com o nome desse sujeito – disse Eddie, apontando para um nome em um pedaço de papel. – Isso é pior que encontrar o demônio.
– É, mas a gente não precisa encontrar o demônio. Só precisa dar comida pra ele. E a comida, nesse caso, também veste fantasia colorida.
– Eu tou fora.
– Qualé!? Até quando você vai ficar encolhido de medo sempre que falarem no nome do...
– Ei, eu posso nunca ter encontrado o cara, mas eu conheço gente que já e não voltou pra contar a história.
– Eu já disse, não precisamos nem olhar pra fuça desse desgraçado... Só precisamos de alguém que conheça esses malucos, e acho que sei de um cara...
Grandes espaços abertos.
É assim que o Homem-Aranha gosta de relaxar. Riscando o céu em grandes espaços abertos. Somente entre os prédios de Manhattan ele consegue o apoio necessário para suas teias, mas nada como simplesmente pegar impulso e se lançar em queda livre, desafiando a gravidade e a própria vida.
Uma vida complicada em um mundo cada vez mais feio.
Cada vez mais escuro.
O frio abraço da morte o chamando, cada vez mais próximo...
Até que um fio de teia zombava da fatalidade, afastando-o do útero de trevas que insistia em parecer acolhedor.
Disparava, então, diversas teias, ganhando velocidade e altura, cada vez mais rápido, cada vez mais alto, até se lançar novamente aos céus como se triunfasse sobre a própria entropia. Por uma fração de segundos, sentia o corpo parar no ar, os braços abertos, vitorioso e sereno.
E a nova queda.
A descarga de adrenalina o ajudava a relaxar. Sentia uma terrível dor no estômago – sua úlcera, certamente – mas, aos poucos, ia passando. Bem como o tremor nas mãos e a incrível vontade de simplesmente desistir.
Desistir do quê?!
Sentia-se cansado, terrivelmente cansado.
Mas desistir não era uma opção. Sabia do que precisava.
O telefone tocou três vezes antes da voz com interferência da gravação jogar por terra suas ambições:
Olá, aqui é Mary Jane e, se você está ouvindo isso, é porque não estou em casa. Mas você pode deixar um recado e eu retorno a ligação assim que possível. Então, após o sinal, já sabe o que fazer, né!?
Beep!
Ele pensou por quase um minuto antes de começar a falar:
– Mary Jane, eu... Eu pensei que você estivesse em casa. Mas tudo bem, eu só...
Você atingiu o tempo limite para deixar sua mensagem.
Peter desligou o telefone e baixou a cabeça, apoiando a testa no aparelho. Achar um telefone público desocupado em uma região tranqüila de Manhattan foi fácil. O difícil foi coragem para ligar, escolher as palavras...
E admitir que fizera tudo errado.
Não, não era culpa dele. Não podia ser. Ninguém faz tanta coisa errada nesse mundo sem que haja alguma conspiração por trás. Devia ser culpa dos impostos, da falta de boas opções na TV, carência de uma dieta saudável, ou os malditos meteoros... Mas ninguém no mundo podia ser tão azarado.
Ou podia?
O som de uma briga distraiu o Aranha. Não era muito longe dali, mas foi o suficiente para disparar seu Sentido de Aranha. Seja lá o que estivesse acontecendo, merecia pelo menos uma checada. Na pior das hipóteses, ia descarregar sua neura no primeiro infeliz metido a valentão que encontrasse pela frente...
– Você me chamou do quê?!?!
– Você? De nada. Só chamei sua mãe de porca xexelenta bêbada com três tetas...
– FILHO DA...
Mike pegou uma cadeira e arremessou em Eddie, que se esquivou por muito pouco. Mas o truculento barman continuava encontrando os mais bizarros adjetivos para se referir à mãe do bebum, um velho conhecido da polícia de Nova York. Peixe pequeno para o Aranha, mas nada como uma boa briga para espairecer um pouco. Foi quando Alex e Sammy seguraram os braços de Mike, um de cada lado. Eddie quebrou uma garrafa de Jack Daniel’s no balcão e começou a andar na direção dele:
– Tá com sede? Seu filho duma porca...
– Eu vou te matar, seu corno!
– Claro, claro...
Antes de ter a chance de sequer chegar perto do bebum, o Aranha deu um grito, sentado em uma das cadeiras, com as mãos cruzadas atrás da cabeça e os pés em cima da mesa:
– Ei! O que eu preciso fazer para ser atendido nesse boteco fedorento? Será possível que tenho que dar uma surra em alguém?
Os quatro arruaceiros olharam para o Aracnídeo e, rapidamente, se entreolharam, percebendo a necessidade de se unirem contra um inimigo em comum. Alex e Sammy soltaram Mike, que pegou um taco de bilhar para tentar atingir o Aranha. Calmamente, ele segurou o taco antes que atingisse sua cabeça e, com um tranco, arrancou-o da mão de Mike:
– Tou vendo que vai ser você mesmo... Vai servir de exemplo pros demais.
O mundo pode estar ficando cada vez mais sombrio e assustador, mas nada como uma boa briga para acordar o velho senso de humor. O Aranha devolveu o taco nos dentes do meliante, que abaixou a cabeça perto da mesa. Com um forte pisão do Aracnídeo, a mesa levantou, atingindo Mike na testa e nocauteando-o.
– Próximo.
Sammy e Alex correram na direção do Aranha, que tomou impulso e se lançou contra os dois, com os braços dobrados protegendo a cabeça. Atingiu-os como um projétil, derrubando-os de imediato. Eles ainda se levantaram, buscando alcançar qualquer coisa que servisse como arma. Sammy pegou uma bandeja de metal e Alex apelou para um porta-guardanapos...
– Isso é pra limpar o melado depois que eu quebrar teu nariz?
– Não devia ter vindo aqui, Aranha!
– Ei, eu também sinto sede, sabia?! Agora vai lá e prepara uma caipora pra mim.
– Eu vou te quebrar!
– Deu duro? Tome um dreher.
O Aranha apenas o arremessou em cima de Sammy, que tentou se defender com a bandeja. Os dois acabaram arrebentando uma mesa próxima. Foi a vez de Eddie voltar para a briga, saltando sobre o Aranha por trás e tentando agarrá-lo. Eddie dava socos desengonçados, sem atingir o Aracnídeo efetivamente, mas desequilibrando-o bastante. Ambos caíram e rolaram pelo chão.
Aliás, o Aracnídeo rolou Eddie pelo chão, que ainda tentava acertá-lo. Ele finalmente conseguiu segurar uma perna do Aranha e parou de levar chutes:
– Pára! Pára! Foram eles que começaram!
– Não perguntei. Solta minha perna.
– Eu só tava me defendendo, eu juro!
– Solta minha perna.
– Eu prometo que vou me comportar!
– Laaaarga!
O Sentido de Aranha avisou que Sammy e Alex estavam atacando de novo, mas Eddie continuava segurando sua perna. Resolveu bater com mais força, para nocauteá-los de vez, mas foi empurrado para um canto e, tropeçando numa cadeira, caiu sentado:
– Isso foi constrangedor... Agora eu fiquei bravo!
– Você vai ficar é quietinho, Aranha...
– Ah, não! Você, não!
– Eu mesmo, Aranha... O Tucão!
O Tucão apontava uma arma para o Aranha, fazendo pose de corajoso. Estava fora do alcance do Aranha, que continuava caído no chão, e poderia atirar antes que ele se levantasse. Foi quando o herói pensou em usar a teia para desarmá-lo ou cegá-lo, mas desistiu da idéia por um simples motivo.
O Sentido de Aranha tinha parado.
Nenhum alerta de perigo, nada que pudesse ser considerado uma ameaça. O Tucão não ia atirar, não tinha a menor intenção de fazer isso. Uma vantagem que o Aranha podia muito bem aproveitar:
– Por favor, não me mate.
– Isso, Homem-Aranha! Implore!
– Sou jovem demais para morrer.
– Hahahahah! Isso mesmo!
– E depois, se eu for morto pelo Tucão, me expulsam da Liga da Justiça.
– Hahahah... Hã!? Como assim?
– É que fica chato, sabe? Depois de tantos anos de carreira... Ser morto justo pelo... “Tucão”. Sabe como é, queima o filme.
– Cala essa boca, palhaço! Eu não tou pra brincadeira! É o fim da linha pra você!
Por mais que o Tucão ficasse nervoso, o Sentido de Aranha estava sereno como uma noite de outono. Aquilo tudo estava muito estranho, e o Aranha queria entender o por quê.
– Sim, senhor Tucão. Vou fazer tudo que o senhor mandar, senhor Tucão.
– É isso mesmo. Rapazes, amarrem-no.
– Com o quê, Tucão? – perguntou Mike, recobrando a consciência.
– Com corda, oras.
– Isso aqui é um bar – gritou Eddie. – Não uma loja de ferragens!
– Porra, arruma alguma outra coisa pra amarrar esse cara!
– Posso sugerir duréx? – interrompeu o Aranha. – Eu sou alérgico à cola do duréx, duvido que fosse ter forças pra escapar com o corpo todo coçando. Uma vez eu...
– Quieto! Arranquem o fio do telefone, é bem resistente. Ele nunca vai conseguir arrebentá-lo.
– Tem razão, senhor Tucão. Sua sabedoria me surpreende novamente, senhor Tucão.
– Já mandei você calar a boca, Aranha – disse o Tucão, enquanto o Aranha era amarrado por Mike e Alex. – Deu muito trabalho armar essa briga pra atrair você pra cá. Mas o Sammy e o Eddie tinham razão, a dica é quente. Você vai render muita grana pra nós, nós vamos matar dois coelhos de uma cajadada só e ainda vou conseguir que palhaços como o Demolidor aprendam a me respeitar!
Ah, ele vai te respeitar muuuito, pensou o Aranha.
– Não sei se te mato agora ou...
– Ai que meda.
– Porra, Homem-Aranha, eu já te mandei calar a porra dessa boca, seu porra!
– Ei, olha o linguajar! Você é um garoto. Não devia falar palavrões. Além do mais, convenhamos... Eu tou sendo capturado pelo Tucão, pô! Ninguém merece... Vai fazer o que comigo, me colocar numa daquelas máquinas de tortura e morte lenta e agonizante e me deixar sozinho enquanto eu, habilmente, escapo?
– Não, seu cretino. Muito melhor do que isso. Vamos dar cabo de todos os nossos problemas essa noite. Chega de sermos aterrorizados por ameaças como você. O Jameson tem razão...
– Ei! Que eu saiba, o criminoso aqui é você!
– Não começa. Rapazes, vendem-no. Vamos levá-lo para o Willie... William...
Quem?, pensou o Aranha, antes de ter a sua visão encoberta por um capuz preto. Sentiu, então, quando foi colocado no porta-malas de um carro. O Sentido de Aranha, lentamente, começava a dar sinais de que a encrenca estava apenas começando...
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