The Amazing Spider-Man

28 Capitulo 28 - A Tênue Linha Escarlate


Notas iniciais
O Homem-Aranha está nas mãos de um de seus piores inimigos. Peter Parker tem que escapar do abraço mortal do temível Homem-Areia — e precisa fazer isso rápido, porque se demorar, o Justiceiro vai morrer soterrado. !

Coração retumbante no peito, sangue fervendo nas veias, gotículas de suor brotando sob a máscara. O Homem-Aranha lutava para se livrar do abraço fatal. A agilidade e a força sobre-humana pouco lhe valiam agora. Suas mãos afundavam na matéria espessa e sem vida. O minério grudava no corpo, limitava os movimentos. A pressão crescia num fluxo efervescente. O atrito parecia consumir seu uniforme. Camadas de minério se espraiavam umas sobre as outras, arrebentando como ondas, apertando mais. O jovem esticou o pescoço, tentando afastar o rosto dos grãos de areia que subiam, que ameaçavam asfixiá-lo.

Súbito, Peter Parker tombou no solo. Ele tossiu. Sua mão buscou instintivamente a face e encontrou a máscara ainda no lugar. O ar frio da noite tocou sua pele esfolada. Estava livre.

— Pensou que ia ser assim, tão fácil?

Era a voz do sujeito que capturara o herói. O criminoso que o atraíra para aquela armadilha. O facínora que pretendia matá-lo. O Homem-Areia.

— Não... Nada de moleza pra você, Aranha! Não vai ser rápido... Tem que ter dor! Derrota! Humilhação! Do mesmo jeito que você fez comigo, tantas vezes!

Alan Wilkinson retirou o gorro da cabeça. Seu cabelo estava cortado à moda militar. Os olhos se arregalaram, refletindo o brilho da lua. O riso incontido antecipava a vitória.

— Você tem que morrer na minha mão. Eu quero que me enfrente! Quero que dê o máximo que puder! Essa vai ser a sua última luta. E enquanto isso, o teu coleguinha de trabalho aí vai ser enterrado bem devagar...

O bandido apontou para o caminhão estacionado na beira da piscina seca. A carroceria ia se inclinando lentamente. A portinhola traseira estava entreaberta, permitindo que a carga de areia escorresse aos poucos. No fundo do tanque artificial havia um homem. Era o "colega de trabalho" do Aranha, segundo Wilkinson.

O Justiceiro estava amarrado a uma cadeira. Por acaso, o aracnídeo se deu conta de o quanto aquela caveira estampada no uniforme negro dominava toda a atenção. O olhar era desviado naturalmente para ela. Era difícil deixar de encará-la, e assim poder enxergar o rosto do homem que a vestia. Mas Parker viu. Debaixo de uma cortina rarefeita de areia, ele encontrou um par de olhos brilhantes e impassíveis. Aqueles olhos não expressavam temor, dúvida, arrependimento... Pareciam transmitir-lhe segurança. Pareciam dizer: "Vá em frente. Confio em você". Ou talvez dissessem: "Acaba com esse filho da puta!"

— Areinha, eu sempre soube que você era meio limitado, mas dessa vez estou surpreso. Você sempre foi burro desse jeito, ou estudou muito pra ficar assim?
— o jovem falou, se erguendo. Sua postura e o tom de voz eram de tranqüilidade, ou pelo menos era essa a intenção.

— Desgraçado! Você quer me fazer perder a cabeça. Já conheço a sua jogada!

— Tsc, tsc... Ainda não deu pra entender, né?
— Peter limpava o uniforme esfarrapado com a mão. — Vocês, vilões, pensam que todo cara que veste uniforme colorido faz parte de um "clubinho da justiça"? Tipo, sei lá, sindicato dos heróis? Com carteirinha e tudo? Esse cidadão aí não é meu colega nem aqui nem na China. Só encontrei ele umas três ou nove vezes. E, se você quer saber mesmo, eu nem vou com a cara dele...

O mercenário hesitou.

— Pois é, farinhoso... Lamento dizer, mas você fez bobagem de novo. Que tal desligar o caminhão e a gente sai no tapa sossegado, só nós dois? Hein? Pelos velhos tempos...

— Hahahaha! Pensa que eu sou tão otário assim? Já te disse, Aranha: eu mudei! Andei treinando com gente da pesada. Com os melhores! Despertei todo o meu poder. Estou mais forte, mais rápido, mais esperto.


As moléculas do rosto de Wilkinson se rearranjaram, desenhando um sorriso que tomava boa parte do rosto. Ele abriu os braços compridos, que terminavam em mãos descomunalmente grandes.

— Já você... Eu duvido que tenha mudado. Duvido que vá deixar esse sujeitinho morrer na sua frente. Não é, Aranha? Se o Justiceiro é amigo seu ou não, o que importa é que você vai tentar salvar o cara. Só que, pra isso, tem que passar por mim... — e o sorriso se alargou mais ainda.

— Como quiser, mas depois não diga que eu não avisei. — Parker retrucou, com aquele ar de indiferença que tanto irritava o Homem-Areia. Esse era o seu ponto fraco e o herói pretendia explorá-lo. — Mas me diz uma coisa... Na sua casa tem papel higiênico ou você usa espanador?

— DESGRAÇADOOO!!!!!!!!!!


A voz do criminoso se tornou um rugido que parecia nascer da própria terra sob seus pés. Alan Wilkinson estava possesso! Ele golpeou o ar, num ato aparentemente histérico e inútil. Uma onda irrompeu no solo acompanhando o gesto do bandido. Era como se algo se movesse sob a superfície, viajando rapidamente na direção de Peter. O aracnídeo saltou para o lado... Ficando no trajeto de uma segunda vaga. Os fenomenais reflexos do Homem-Aranha fizeram a diferença. Ele se esquivou mais duas, três vezes.

— Qualé, Areinha? Tá achando que isso é videogame?

O herói brincava, tentando distrair o inimigo. Mas o fato é que estava em desvantagem. Aquela área, onde seria construído o playground do condomínio, tinha muito espaço aberto. Ele precisava atrair o mercenário para os prédios em construção.

No entanto, sua prioridade era o refém. Ele olhou de soslaio para a piscina... O Justiceiro já estava enterrado até os joelhos. Somente o Amigão da Vizinhança poderia salvá-lo!

O malfeitor levantou os braços. Obedecendo ao comando, o chão convulsionou e se ergueu. Dezenas de quilos de areia avançaram na direção do rapaz. Parker foi encoberto pela sombra do vagalhão. Se fugisse, talvez a onda soterrasse a piscina logo atrás dele, com Frank Castle dentro dela. O herói precisava deter o ataque.

Peter Parker ainda era jovem. Porém, em matéria de experiência em combate, já seria considerado um veterano. Ele conhecia muito bem do que seus super-poderes eram capazes. O aracnídeo procurou se concentrar ao máximo. Precisava ignorar o ruído apavorante, o tremor no solo, a visão daquela parede compacta, crescente, devoradora, rolando contra ele. Precisava confiar totalmente no Sentido de Aranha.

O jovem deixou que sua fantástica percepção guiasse o corpo. No instante exato em que o zunido na cabeça diminuiu levemente, ele voou de encontro à morte certa. O salto foi perfeito, a coluna reta, fazendo-o atingir a incrível massa de areia como uma faca. O sexto sentido indicou-lhe em que ponto a onda era menos densa. Parker atravessou o vagalhão e, ignorando a dor, surgiu milagrosamente do lado oposto. Seu punho encontrou o Homem-Areia.

— SURPRESAAAA!!!!!!

— AAAGHHHH!!


Wilkinson foi arremessado longe pelo soco. Aproveitando o momento, o Aranha correu e parou o motor que elevava a carroceria do caminhão. Entretanto, a areia continuava escoando devagar. Lá embaixo já não se podiam ver as pernas do Justiceiro. Peter tentou bloquear com teia o fluxo que vertia sobre o homem lá embaixo. Era uma tarefa simples, não levaria mais que alguns instantes.

Mas tempo era algo que ele não tinha. Parker saltou para trás no último momento. Uma lâmina rochosa emergiu da carga do veículo, rasgando o ar. A perna do herói ganhara mais uma cicatriz.

— Belo truque, Aranha. Quase não tive chance de converter o meu corpo em areia e absorver o golpe. Mas lembre que eu posso manipular a minha forma e o terreno como quiser. — o facínora se vangloriou, o braço conectado ao chão como se fossem uma coisa só.

Parker tinha que pensar rápido. O material do veículo estava escorrendo ainda mais ligeiro agora. Em questão de segundos, Castle seria sepultado vivo.

— Ah, é? E será que você consegue fazer tudo isso sem enxergar?

O Homem-Areia tentou se defender, mas foi alcançado pelo disparo do herói. Parker não economizou em fluido de teia. As fibras se sobrepunham, envolvendo toda a cabeça, pescoço e ombros do bandido, colando suas pernas ao chão. Wilkinson cravou os dedos na substância. Porém, o casulo resistiu. Seus braços também foram imobilizados. Os fios eram elásticos, pegajosos, grudando mais à medida em que lutava.

— MISERUUUUUHHHHNFFF!!!!!!!

— Ótimo. Além de não poder ver, você calou a boca. Agora vê se não atrapalha!


O aracnídeo pulou na piscina. Frank estava soterrado até o peito. O herói não perdeu tempo com sutilezas. Ele arrebentou as cordas e jogou o refém para fora do tanque. O Justiceiro teve uma aterrissagem dura, mas estava a salvo.

Parker não podia ver o que acontecia na superfície. Se visse, teria ficado ainda mais apreensivo. No momento em que o jovem resgatava o vigilante, Wilkinson estreou mais uma de suas novas e bizarras técnicas de combate.

Cabeça, pernas e braços do bandido estavam presos num resistente emaranhado viscoso. Lentamente, parte da areia do solo pareceu ser sugada por seus pés. Uma saliência nasceu no peito do criminoso. A protuberância inchou, cresceu... Até dar forma a um crânio. Olhos nasceram das órbitas. Da mesma maneira, braços curtos se destacaram do tronco e foram se alongando. As extremidades aprisionadas pela teia caíram mortas no chão, simplesmente descartadas. Levaria algum tempo, mas Alan Wilkinson em breve estaria de volta ao combate.

Enquanto isso, na piscina, o minério estava na altura do peito do aracnídeo. A poeira roubava-lhe o oxigênio. Ele não conseguia tomar impulso para saltar.

Aquela areia tinha uma textura diferente, quase pastosa.

Parecia... Areia movediça!

A única esperança era lançar uma teia no edifício mais próximo e puxá-la até sair do tanque. Foi o que fez.

O lançador de teia do pulso direito falhou.

Suando frio — e rezando — Parker brigou para livrar o braço esquerdo já soterrado. Com algum esforço, ele conseguiu. O jovem esticou a mão e fez o seu gesto inconfundível.

Nada.

A areia entupira a saída dos lançadores de teia.

Tentando não entrar em pânico, ele procurou, de maneira improvisada, limpar o aparelho. Se os grãos tivessem penetrado no mecanismo, seria o fim do Homem-Aranha.

O herói fez uma nova tentativa. Ele deixou escapar um suspiro de alívio quando viu o fio de teia grudar na fachada do prédio. O próximo passo era içar o corpo para fora dali. Peter já estava soterrado até os ombros.

A elasticidade dos fios era uma perigosa desvantagem dessa vez. Ele trabalhava freneticamente, mas o resultado era muito lento.

A areia alcançou-lhe o pescoço.

O queixo.

O nariz.

A última coisa que o Homem-Aranha esperava era ver uma luva negra agarrar a sua teia. Frank Castle estava na borda da piscina, puxando vigorosamente.

Parker arranjou novas forças. Sua determinação de viver era grande. Com o trabalho conjunto do Justiceiro, o Aranha conseguiu elevar o tórax... Depois a cintura... E as pernas... Até sair por completo.

Os dois caíram sentados, exaustos. Peter teve que retomar o fôlego antes de falar.

— Se você contar pra alguém que me salvou, eu te jogo lá embaixo de novo!

— Isso não é hora pra gracinhas, Aranha!
— gritou Castle, tirando as luvas impregnadas de teia pegajosa.— Precisamos deter o Homem-Areia!

— Não me diga! Já lhe ocorreu que, enquanto você estava descansando nessa piscina, eu estava tentando justamente mandar esse pateta pra...

— Como eu pego ele? Cimento? Sucção?

— Você falando em sucção mexe muito comigo, sabia? É melhor me soltar antes que comecem os comentários...

— Nós não temos... !


Um golpe violento arremessou o Justiceiro de encontro ao velho barracão. Os sacos de terra e fertilizante de jardinagem o salvaram do impacto fatal, mas aquilo podia tirar Castle da jogada. Contudo, não era com o bem-estar de seu parceiro involuntário que o Aranha estava preocupado no momento.

O Homem-Areia estava de volta... E não estava nada contente!

— Chega! Você teve sua chance... Já está na hora de aprender a me respeitar!

Com os braços enterrados no solo do canteiro de obras, o Homem-Areia gerou diversos tentáculos ao redor do Aracnídeo. As extensões tinham vida própria, serpenteavam ao redor do herói, como se aguardassem o melhor momento para atacar.

— Você se acha melhor que eu, Aranha? Vocês... "Heróis"... — o bandido cuspiu no chão, fazendo uma careta de nojo. — Vocês pensam que têm o direito de julgar todo mundo. Pensam que podem sair por aí condenando qualquer um que não se encaixar naquilo que acham que é o certo. Não tão nem aí pra quem prendem. Já se perguntou se eu não tive escolha? Se não tive oportunidade na vida? Se fui forçado a entrar no crime pra sobreviver?

— Ah, não! Agora você vai me torturar com discursozinho sociológico besta também?
— Peter disse, cercado por uma dezena de braços de areia. Os tentáculos aguardavam como animais obedientes.

— Aranha, você é um idiota. Eu sempre achei isso. Você acredita na justiça, na igualdade entre as pessoas... Mas é só um otário ingênuo que ganhou super-poderes. E só por causa deles, acha que tá mais certo que os outros e baixa porrada em quem disser o contrário. Pois eu tenho uma novidade pra você, cara! VOCÊ É UM MERDA! EU SOU UM MERDA! O MUNDO INTEIRO É UMA GRANDE MERDA!

No rosto de Alan Wilkinson havia algo maliciosamente perverso. Uma expressão diabólica, insana.

Ele tinha mudado.

Muito.

Não era mais o ladrãozinho de bancos de antes. Não era o panaca super-poderoso que podia ser derrotado com uma armadilha minimamente engenhosa.

Wilkinson era agora um assassino frio e cruel. Um monstro. Como todos os outros.

Todos.

O Justiceiro, o Carnificina, Norman Osborn, e agora o Homem-Areia. Policiais, capangas, mafiosos, políticos, militares... Todos do mesmo tipo. Todos valentões se achando no direito de resolver as coisas pela força. Todos ostentando poderes, armas e distintivos como se isso lhes tornasse melhores que as pessoas comuns, capazes de puni-las, oprimi-las.

E, no fundo, o Homem-Aranha era apenas mais um deles.

Wilkinson atacou. Sem vontade de lutar, Parker deixou-se guiar apenas pelos reflexos, esquivando-se rapidamente das lanças de areia. Elas vinham de todas as direções. Novos tentáculos surgiam do solo, obrigando-o a realizar uma série de acrobacias evasivas. Seus saltos em direção à enorme estrutura que formava o esqueleto do prédio eram seguidos de perto pela fúria do Homem-Areia.

O mercenário gritava alucinado, olhando fixamente para o borrão azul e vermelho. O Sentido de Aranha era uma vantagem mínima, já que a agilidade do Aracnídeo estava no mesmo nível que a velocidade dos ataques do bandido. Contudo, o herói estava quase esgotado. Não poderia suportar aquele ritmo.

Ao chegar às vigas de metal, Parker procurou ganhar distância, afastando-se o quanto pôde de Wilkinson. Os lançadores de teia falhavam. O herói não tinha a mesma rapidez e força de antes. Seus movimentos eram imprecisos. Mas ele se recusava a desistir.

Já do outro lado da estrutura, o jovem parou para respirar. Ele olhou ao redor. O Sentido de Aranha continuava em alerta: obviamente, o Homem-Areia não tinha desistido. Mas não podia vê-lo. Foi quando dois poderosos braços o agarraram por trás.

— Achou que ia conseguir fugir, Aranha? Que era só colocar o rabo entre as pernas e correr!? Eu estou em toda parte agora, idiota! Por mais longe que você vá, eu chego lá primeiro!

O Homem-Areia surgiu. Parker ficou aterrorizado ao vê-lo desta vez. O bandido não era mais um homem, no sentido tradicional da palavra. Sua aparência era a de uma criatura mineral cuja forma apenas imitava a figura humana.

— Eu tô numa boa hoje em dia, lá onde eu vivo, sabe? Tenho dinheiro, mulher à vontade, e muito trabalho pra fazer. Melhor dizendo, muita gente pra matar. Mas tinha uma coisa que me incomodava. Você. Você, aqui em Nova Iorque, a cidade das maravilhas... Você se achando o tal, pensando que me botou pra correr.

O criminoso se aproximou mais, chegando à luz. O aracnídeo notou que Wilkinson não tinha mais pernas. Ao invés disso, uma massa indefinida se estendia da sua cintura até o solo, como se fosse um longo vestido de noiva. À medida que se arrastava, a areia do solo se misturava à matéria do seu próprio corpo. Alan Wilkinson estava conectado ao chão, fazia parte dele. Ele agora era... Uma coisa.

— Por isso resolvi voltar. Não vim só pra acabar com você, Aranha. Isso seria muito pouco. Vim pra te ensinar uma lição. Vim pra te mostrar que o mundo não é essa beleza toda que você pensa, que você luta pra defender. Depois disso, vou tirar a sua máscara. Quero que todo mundo veja o seu rosto quando te encontrarem amanhã. Vou te matar devagar, seu merdinha! Tá me ouvindo!? Devagar!!

O Homem-Aranha sentia-se cansado desse jogo. Cansado de enfrentar idiotas a cada seis ou sete meses, vendo-os voltar com as mesmas bravatas, machucando as mesmas pessoas e pedindo uma pizza no final.

Não valia a pena, se não fosse pelo método de Castle.

Mas o Aranha não era um assassino. Jamais seria como ele, não como o Justiceiro.

— Chegou a hora, Aranha. Chegou a hora...

Wilkinson parecia fazer um grande esforço. Ele dobrou os braços, retesou a boca, fechou os olhos, em profunda concentração.

— ...De você conhecer...

O Homem-Aranha escutou um ruído. Vinha de toda parte. Era baixo, sutil. Um sibilo. Um rastejar.

— ...O horror.

Peter estava se entregando ao abraço mortal do Homem-Areia. Seu corpo não reagia mais. Talvez lhe faltassem forças, já que estava exausto. Ou talvez faltasse motivação para continuar a lutar... A enfrentar a dor... O medo.

— Mas... Não é possível!

Com olhos arregalados, Alan Wilkinson observava o tecido vermelho que pendia entre seus dedos. Ele obtivera um prêmio que muitos tentaram antes, mas ninguém conseguira: a máscara do Homem-Aranha!

O pobre herói estava caído na sua frente. Derrotado. Ferido. Humilhado. Fraco. Sangrando.

Mesmo assim, o jovem insistia numa tentativa patética de preservar a identidade secreta. Danificados pela areia, os lançadores de teia em seu pulso eram incapazes de propelir o fluido normalmente. Mas Parker conseguira fazer vazar um dos reservatórios da substância. O Aranha rapidamente espalhou o material viscoso no próprio rosto. O aspecto era nojento, mas serviu para esconder suas feições.

Bastaria um golpe — um simples tapa — e o problema de Wilkinson acabaria. Mas o monstro não fez isso. O Homem-Areia ainda tentava compreender o que tinha visto. Sim... Porque, apesar do esforço do Aracnídeo, o criminoso conseguira enxergar, de relance, a verdadeira face do seu arquiinimigo.

Era só um garoto.

O super-herói que frustrara seus planos tantas vezes no passado... O alvo de tanto ódio e amargura... Era um rapaz comum.

— Não... Ahhrgh... Não me mata... — ele gemeu, enquanto arrancava os lançadores de teia dos pulsos, numa tentativa desesperada de se libertar, de respirar ar puro. Queria se livrar de tudo que o prendia: máscaras, uniformes... E do Homem-Areia.

A visão daquele jovem indefeso sensibilizaria qualquer um. Até um homem endurecido pela vida como Alan Wilkinson. Mas ele não era mais o mesmo. O criminoso se lembrou de tudo o que testemunhara nos últimos meses. Lembrou de tudo o que ele próprio fizera. Rígidos treinamentos com alguns dos mais cruéis assassinos do mundo. Missões clandestinas em território hostil. Táticas sujas de guerra. Retaliações brutais. Inocentes atingidos no fogo cruzado. Poder. Morte. Horror. Não... Wilkinson não poderia ser considerado um homem sensível.

— Sem essa de piedade, Aranha. Afinal, quando você meteu aquela pilastra na minha cabeça, cheguei a pensar que ia acabar comigo. Bem... Não sei se você conseguiria. Mas pelo menos tentou. E foi pra valer, né? Só que na hora H você amarelou. E o pior é que, no fundo, eu já esperava por isso. Sabe por quê? Porque você é um fracote. Um covarde. E o preço da covardia é a MORTE.

O bandido simplesmente se desintegrou no ar. Sua carga descomunal de minério verteu inteira sobre Peter Parker. O jovem sequer conseguiu gritar.

O momento final do Aranha chegara.

Ele foi enterrado vivo.

— O Homem-Areia está certo.

Wilkinson sentiu um arrepio ao escutar aquela voz rompendo o silêncio da noite. Parecia uma mensagem vinda do além-túmulo. O chamado de um espírito vingativo que o assombrava no momento crucial em que eliminaria seu odiado inimigo. Por instinto, o criminoso retornou à forma semi-humana de batalha. Os punhos cobertos de pedregulhos se enrijeceram. Olhos loucos vasculharam a escuridão.

O Homem-Aranha tossiu, expulsando areia da boca. O simples ato de abrir os olhos era doloroso. Parker vislumbrou adiante uma imagem turva, indistinta. Era uma silhueta negra com uma grande mancha branca no meio.

— ARANHA!!! O Homem-Areia está certo. O preço da covardia é a morte.

— Jus... Justiceiro... Aaagh!!!

— Mas que merda tá acontecendo aqui afinal?
— Wilkinson esbravejou.

Frank Castle encarou os dois combatentes. Seu próprio estado físico não era muito melhor que o de ambos. Ele ficou lá, parado a alguns metros de distância, as mãos vazias. E continuou a falar.

— O Homem-Areia é um filho da puta miserável, mas ele está certo. O preço da covardia é a morte. Eu sempre achei isso.

Os outros dois homens o fitaram, incrédulos.

— Justiceiro, o que... O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ DIZENDO? FICOU LOUCO???? Aii... — Peter Parker estava atônito. Ele chegou a se perguntar se aquilo era uma espécie de alucinação.

— Nada disso, Aranha. Sempre achei que um homem precisa ter a coragem pra fazer aquilo que deve ser feito, e depois assumir as conseqüências. Todas as vezes que puxei o gatilho, fiz uma escolha. Livrei o mundo de um monstro. A outra opção seria deixar que mais um nojento continuasse ameaçando vidas inocentes.

Frank se virou para o Escalador de Paredes.

— Vocês... "Heróis"... Preferem enganar a si mesmos, mandando a escória pra cadeia. Os canalhas saem pouco tempo depois e começa tudo de novo. O sistema não funciona, Aranha! Quantas vezes você prendeu o Homem-Areia? E aí está ele, pisando no seu pescoço. É preciso decidir se você quer REALMENTE deter esses maníacos super-poderosos ou não. Fechar os olhos pra realidade é ignorância... Ou covardia.

O Homem-Aranha sentia sua sanidade escorrer junto com o sangue pelas feridas. Até que ponto um homem é capaz de suportar a angústia, o sofrimento, a dor? Seria possível que, todos esses anos, ele estivesse errado? Teria sido melhor se o Aranha tomasse a lei nas suas mãos, punisse os culpados... Como o Justiceiro faz? Ele tentava resistir àquela dúvida torturante.

— EU NÃO SOU UM ASSASSINO!!!!!

— Humpf! Eu também não, Aranha.


Parker se perguntou se aquilo não seria uma piada de mau gosto. Mas — é claro — o Justiceiro não estava rindo. Ele continuou.

— Você pensa que gosto de fazer o serviço sujo? Que gosto de andar no meio da ralé, afundado até o pescoço no lixo humano? Acha que eu não preferia um mundo em que as pessoas pudessem viver sem medo? Mas infelizmente as coisas não são assim. Existem maníacos por aí, espreitando... De olho nas nossas famílias... Nas nossas crianças! Eu decidi fazer algo a respeito. E chegou a hora de você decidir também.

O Homem-Areia baixou a guarda. Assim como Peter, Wilkinson não conseguia entender onde o Justiceiro pretendia chegar. Mas de uma coisa ele sabia: Aquela conversa trouxe ainda mais culpa e sofrimento ao Aracnídeo. Isso o agradava.

— Já te vi em ação muitas vezes, Aranha. Mesmo agora, ferido desse jeito, você é capaz de acabar com a raça desse miserável! — Castle disse.

— M-mas...

— HAHAHAHAHA! Esse doido só pode ter ficado perdido o juízo de vez.
— o Homem-Areia ironizou. — O Aranha já perdeu, cara!!! Ele não era páreo pra mim desde o começo. Agora, então... Nem teria a menor chance!

— O Aranha tem muito mais força do que ele próprio imagina. O problema é que sempre contém essa força porque não quer matar. Mas isso vai mudar hoje.


Castle encarou Wilkinson. O monstro devolveu o olhar. Apesar da diferença extraordinária entre os dois, ambos tinham uma expressão rígida, soturna, que de certa maneira os assemelhava.

— Sabe o que eu acho? Que você tem MEDO do Aranha. Por isso sente tanto ódio. Porque não importa o seu poder, ele sempre arranjou um jeito de te pôr no devido lugar. Se acha mesmo que o Homem-Aranha é um covarde... Você nem chega aos pés dele. Perto do Aranha você é um frouxo. Um fracassado. Chega a ser ridículo!

— Cara, você já falou merda demais.
— o mercenário grunhiu, o rosto vermelho de irritação. Ele fez seu braço tomar a forma de um imenso machado de pedra. — Só por causa disso vou te matar antes dele.

Ao contrário do que o Homem-Areia esperava, Castle não tentou argumentar nem correr. Simplesmente tirou a blusa rasgada... O colete à prova de balas... E ficou nu da cintura para cima. O tórax exibia escoriações recentes. Seus dedos sujos deixaram trilhas de sangue, suor e areia na pele ferida. Ele desenhou um X no próprio peito.

— Essa é a idéia. Eu aposto a minha vida.

— Como é?????

— Vem até aqui e tenta me matar. Seja homem! Me ataca, olho no olho! Aposto que o Aranha ainda é capaz de levantar dali e enfiar esse machado no seu rabo.

— Justiceiro... Mas isso é loucura!
— o Aracnídeo implorou. — Eu não posso deter ele. FOGE DAQUI!!!!

— Tá apostando muito alto, seu filho da puta! O Aranha já era!

— Quantas vezes você já não repetiu isso nos últimos anos?


Finalmente, a expressão do Homem-Areia mudou de uma quase consternação para ódio puro e simples. Mas o que mais o irritara não era o fato de Castle estar ali se expondo, provocando-o.

Não, nada disso.

O pior é que ele estava certo.

Já tinha contado o Aranha como carta fora do baralho inúmeras vezes, e em todas fracassara da maneira mais lamentável possível. Era péssimo admitir, mas era verdade. Quanto mais próximo o herói parecia da derrota, mais espetacular era a forma como ele dava a volta por cima. E, por uma fração de segundo, passou pela cabeça de Wilkinson que atacar o Justiceiro poderia ser a motivação de que o Aranha precisava para virar o jogo.

Mas isso não poderia detê-lo. Hoje, ele faria as coisas acontecerem de forma diferente.

Ia matar o Justiceiro primeiro, a qualquer custo.

— CHEGOU A TUA HORA!!!!! — bradou o maníaco.

— NÃÃÃÃOO!!!!! — Peter Parker se desesperou.

O golpe foi duro, violento, esmagador. O machado de pedra cravou fundo no solo.

Mas Castle desviou com segurança. Não foi tão difícil. A batalha contra o Homem-Aranha realmente tinha esgotado a energia de Wilkinson. Ele estava mais vagaroso, seus movimentos não tinham precisão.

A fúria cresceu no peito do criminoso. A massa arenosa se arrastou como uma gigantesca lesma na direção do Executor de Assassinos.

O Aracnídeo tentou se levantar. Uma agulhada de dor atravessou seu peito. O rapaz sentiu as pernas amolecerem e foi ao chão novamente.

— Aaahgh... Droga, ele vai acabar com o Justiceiro...

"Mas que cheiro é esse?"


O jovem herói buscava em seu corpo forças que já não existiam mais. Os músculos ignoraram o apelo do cérebro. Sua visão escureceu, a imagem indo e voltando. O mundo não parava de girar. O Homem-Aranha estava derrotado. Era inútil insistir, ele sabia disso. Parker mal conseguia se manter consciente.

"Ugh, que fedor horroroso!"

O herói ficou surpreso ao ver Castle escapar dos ataques. Ele sinceramente não esperava que o Homem-Areia estivesse tão extenuado pelo combate. Frank desviava, mas não fugia. Continuava provocando Wilkinson. Mas isso não animou Peter. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, os poderes do mercenário prevaleceriam.

"O cheiro está ficando ainda pior".

— Vamos, Aranha...
— o Amigão da Vizinhança murmurou, tentando convencer seu organismo massacrado a se erguer. — Não posso... Uuuhhng... Não posso ficar parado enquanto o Homem-Areia... AAAII... — o tormento quase lhe roubava o fôlego. — ...Mata alguém na minha freeente...

Nova tentativa. Mais um fracasso. O Aracnídeo não conseguia nem ficar de pé.

"Parece... Cheiro de estrume"!

O sentido de aranha disparou. O rapaz sabia o que isso significava. O Homem-Areia realmente se cansara de brincar com machados e marretas. Frustrado, o assassino começou a atacar o Justiceiro através do solo.

Parker cerrou os dentes, aflito, assistindo à cena. Braços de areia surgiram do nada. Crateras tentavam engolir Frank. O vigilante recuou até os escombros do barracão onde estivera preso. O monstro irrompeu em meio às tábuas. Ao absorver a areia do solo para dentro de seu corpo, Wilkinson derrubava tudo no caminho. Pás, ferramentas e utensílios foram revirados. Um líquido escuro jorrava de galões abertos. O odor pungente da substância preencheu o ar.

Os tentáculos fecharam o cerco. O bandido encurralou Castle.

— Meu Deus... Aaagh... Agora o Justiceiro... Não tem a menor chance...

O jovem herói percebeu o vigilante tirar algo do bolso da calça. Castle ergueu a palma aberta na direção de Wilkinson. Era um punhado de fino material azul, que se destacava à luz da lua.

Sem poder fazer nada, Parker viu o Homem-Areia erguer, lenta e pesadamente, seus dois braços disformes.

Se não estivéssemos falando do Justiceiro... O Aranha poderia jurar que ele tinha um sorriso nos lábios.

A cabeça do Aracnídeo parecia explodir, com seu senso de perigo tilintando como nunca. Um novo odor invadiu as narinas de Peter. Seu coração se encheu de espanto quando finalmente se deu conta do que estava acontecendo.

— HOMEM-AREIA! PÁRA! Não faz isso, senão VOCÊS DOIS VÃO MORREEEER!!!!!

— Hã?


O facínora hesitou.

"O que ele quis dizer com... VOCÊS DOIS vão morrer?????"

Na frente do criminoso, estava o Justiceiro. Imóvel. Desarmado. Sem saída.

O mercenário olhou para trás. O Homem-Aranha permanecia caído no chão, gritando para ele.

— Esse cheiro... É fertilizante! — Peter gritou.

Confuso, o bandido espiou em volta. Havia restos do depósito — madeira, folhas de zinco, vasos de plantas e ferramentas de jardinagem. Só então ele notou os sacos de adubo. Cada um tinha capacidade para vinte quilos. Mas estavam vazios.

— Não desperdice o fôlego, Aranha. Ele é ignorante demais pra entender o que isso quer dizer.

— Ora, seu...

— Agora escuta aqui, monte de lixo! Esse pó na minha mão é cloro. Se você me atacar, ele vai cair no chão e inflamar o óleo diesel.

— Diesel? Mas...

— Isso mesmo. Enquanto você estava distraído com o Aranha, eu tirei o combustível do caminhão, pus em galões e trouxe pra cá. Quando você destruiu o barracão, entornou tudo nos próprios pés.

— Então é isso? FOGO? É tudo o que você é capaz de fazer? HAHAHAH! Ô maluco, fique sabendo que nessa forma o meu corpo inteiro é feito de mineral! Acha mesmo que o fogo vai acabar comigo?

— Não. Não vai. Mas o calor vai iniciar uma reação em cadeia com o fertilizante químico que eu espalhei por aqui, causando uma tremenda explosão. ISSO sim vai acabar com você.


Wilkinson parou de rir.

— Você usa o material do terreno como se fosse sua própria carne. Só que, junto com a areia, você absorveu o fertilizante químico e o diesel. Isso te transforma numa bomba ambulante.

O rosto confiante do criminoso esmaeceu.

— Pra dizer a verdade eu nem preciso iniciar o fogo. Se você continuar se mexendo, o próprio atrito entre os grãos do seu corpo pode causar uma faísca. E aí... Adeus Homem-Areia.

Gotas de suor brotaram na testa do assassino.

O marginal tinha sob seu comando toneladas de areia e rocha, pele quase invulnerável, garras mortíferas... Enfim, ele era uma invencível máquina de combate.

No entanto, Alan Wilkinson não podia mover um dedo.

— MENTIRA! Você não faria uma loucura dessas! Se isso tudo fosse verdade, você também morreria na explosão!!!

O olhar severo de Frank não se alterou.

Por um momento, o ameaçador gigante de pedra pareceu estremecer.

As peças foram se encaixando na mente de Wilkinson. Ele se lembrou de ter ouvido falar, durante o treinamento no Oriente Médio, sobre terroristas que usam fertilizante químico para fabricar bombas. Eles aproveitam o nitrato de amônio do produto para, em associação com óleos combustíveis leves, criar um explosivo de grande poder e baixíssimo custo chamado ANFO. O caso mais famoso foi o de Timothy McVeigh, que em 1995 explodiu um prédio do governo federal em Oklahoma City, matando 168 pessoas.

E agora, o terreno onde o mercenário pisava — assim como o próprio corpo dele — estava saturado daquele material. Bastava uma centelha... E o criminoso seria completamente pulverizado.

Ele imaginou se poderia suportar tamanha agressão. Mesmo se por um milagre saísse vivo... Sua consciência ficaria dissipada pelo terreno inteiro.

O bandido levaria meses — talvez anos — para se recompor novamente.

Um destino pior que a morte.

— Você só tem uma saída, canalha. — o Justiceiro rugiu. Seu rosto tinha um aspecto sombrio. — Voltar à forma humana.

Os segundos se arrastaram. O Homem-Areia não se mexia — ele mal respirava.

— VAMOS LOGO! Meu braço já está ficando cansado. — Castle avisou. Alguns grãos de cloro verteram perigosamente nos escombros.

O gigante encolheu diante dos olhos do Justiceiro e do Homem-Aranha. Grandes porções de areia se espalharam à sua volta, retornando ao solo de onde não deveria ter saído. Sem a massa agregada que o cobria, o monstro perdeu volume rapidamente. Surgiram cabeça, braços, tronco, e por último, pernas.

Alan Wilkinson finalmente apareceu — em carne e osso.

O Justiceiro arremessou o punhado de cloro para longe do óleo diesel.

O bandido percebeu que essa era a sua chance.

Ele não poderia voltar à forma de areia, pois havia o risco de inflamar a mistura dentro do seu corpo.

Mas Wilkinson estava longe de ser um fracote. Na sua forma humana, o Homem-Areia tinha 1,84 metro de altura e pesava 108 quilos. Ele enfrentara muitos adversários super-poderosos em sua carreira. Lutara ao lado dos Vingadores. Recebera treinamento de combate no Oriente Médio. E acima de tudo, ele era um homem!

Frank, por sua vez, estava ferido, cansado e faminto.

Wilkinson aplicou toda a força num único golpe fatal na garganta de Castle.

Ele gritou ao sentir o braço girar para o lado errado.

Não importava o quanto Wilkinson havia treinado ou que tipo de truque sujo usaria contra o Justiceiro. Frank Castle era um veterano da mais sórdida das guerras. "Truque sujo" não era o suficiente para descrever o que Castle era capaz de fazer.

O Homem-Areia estava de joelhos, tentando colocar o braço de volta no lugar. Desacostumado a sentir tanta dor, tudo que pensava era em como Castle o havia enganado, tratando-o como o Aranha sempre o tratara: um idiota sem cérebro. Mas humilhar um adversário não era o estilo do Justiceiro. Somente dessa vez, ele abriria uma exceção.

— Foi por muito pouco, dessa vez. — disse o Justiceiro, puxando o braço quebrado do Homem-Areia, apesar dos gritos do vilão. — Você chegou mais perto do que muita gente grande, Wilkinson. Mas cometeu um erro fatal: me subestimou, achando que podia me amarrar, babar o seu plano maluco e me deixar pra morrer. Se fosse o Aranha, ele te enrolava numa daquelas teias dele e te largava pra polícia. Adivinha só o que eu tenho em mente pra você...

O punho do Justiceiro desceu sobre o rosto de Wilkinson, que, seguro pela outra mão de Frank, sequer podia cair no chão. Os socos eram inclementes. Uma vez. Duas. Três.

A poucos metros dali, o Homem-Aranha observava a cena. Não sabia se faltavam-lhe forças para reagir à fúria de Castle, ou se não se importava mais.

Quatro. Cinco. Seis...

Afinal, o Homem-Areia tinha se tornado um assassino extremamente perigoso. Talvez não tivesse tanta sorte contra o vilão da próxima vez. Se o Justiceiro desse cabo dele, talvez pudesse...

Sete. Oito.

Dormir tranqüilo?

Nove.

Matar o Justiceiro também?

Dez.

Matar todos os outros? Norman Osborn, o Dr Octopus, Electro, Abutre, Venom?

Onze.

Flash Thompson?

Doze.

A si mesmo?

Treze.

— P-pare...

O Justiceiro pareceu não ouvir o lamento do herói. Mas, por um segundo, hesitou em continuar surrando o Homem-Areia. A face do vilão tinha se transformado numa massa sangrenta. Talvez estivesse inconsciente, o que para ele seria um alívio. Longe da dor.

Longe da fúria.

Longe do Justiceiro.

Castle olhou para o Aranha, que tentava se manter de pé, escorado no que sobrou do barracão. Ele podia ser derrotado facilmente. Tinha diversos ferimentos, possivelmente ossos quebrados. Estava ofegante. Ia durar menos que Wilkinson. Mesmo assim, o Aracnídeo reuniu suas forças para dizer:

— Solte-o...

Uma coisa estava bem clara para o Justiceiro: a determinação do Aranha o levaria para a morte um dia. Chegou a desejar estar presente apenas para poder dizer ao Aracnídeo "eu avisei!", mas esse era um pensamento pequeno demais diante do quadro. Derrotar o Aranha não era nada. Matar o Homem-Areia na sua frente também não seria difícil.

Mas era a força de vontade de Peter Parker que fez Castle hesitar.

Se tinha uma coisa que o irritava, era o discurso politicamente correto — e hipócrita — dos fantasiados. Regras de conduta que, tinha certeza, nem eles seriam capazes de cumprir numa situação extrema. Era fácil para o Superman ou o Capitão América falarem em preservar a vida, já que a morte não parecia ter significado para eles. Mas encarar a morte de frente não era tarefa das mais simples — e sobreviver para contar a história deixava suas seqüelas.

Como o Homem-Aranha reagiria?

O que significaria para ele testemunhar um assassinato a sangue-frio, após lutar tanto para salvar a vida do Homem-Areia e do Justiceiro?

Como se ele já não tivesse visto mortes antes. Como se já não tivesse encarado a fria realidade. Que diferença faria matar Wilkinson? O crápula certamente ia voltar, como todos os outros, ainda mais perigoso.

"E, um dia, Aranha... Um dia, eles vão te pegar."

O Homem-Aranha continuava avançado. Ainda que fracassasse em sua tentativa desesperada de salvar o velho inimigo, não seria por falta de tentar. Em resposta aos pensamentos do Justiceiro, Parker concentrou suas forças para dizer:

— Não... Essa noite... Não assim...

— Um dia ele vai acertar o alvo, Aranha. Eu, você... E todas as pessoas a quem você protege com a máscara. Hoje ele passou bem perto. Foi pura sorte não estarmos mortos. E da próxima vez?

— Deixe-o...

— Você sabe que não tenho escolha.

— Eu... Não estou... Te dando escolha, Castle!


Era isso mesmo o que o Justiceiro tinha ouvido. O Homem-Aranha ainda estava disposto a lutar. Aquilo bastava para saber que ele ainda não estava pronto para encarar a morte daquela forma. O Homem-Aranha não queria ter sangue em suas mãos, mesmo de um crápula como Wilkinson.

Castle também tinha algo dentro de si, conclamando-o a não arrastar o Aracnídeo para o abismo.

Não lutar.

Não essa noite.

Castle largou o corpo massacrado do Homem-Areia.

Ele caminhou sem pressa até um Dodge Dart estacionado no terreno da obra. O automóvel estava com a chave na ignição — a gangue do Tucão fugira tão rápido que nem se preocupou com isso. Frank deu a partida e o motor velho tossiu duas vezes até ligar. Assim que chegasse a um telefone público, o Justiceiro chamaria a polícia para socorrer o Homem-Aranha e prender Wilkinson.

Castle deu uma última olhada.

Parker continuava lá. De pé. Sem fraquejar.

Não havia mais nada a ser dito entre os dois. O Justiceiro foi embora.

O herói Aracnídeo esperou o carro sumir de vista antes de desabar no chão.