The 100
2 Passos na escuridão
Posta em liberdade?
Mal pudera acreditar de início. Inspirara profundamente, ainda com o corpo estremecendo violentamente contra o chão rochoso, castigando-me por ser tão fraca e não reagir, mas como poderia? O sopro gelado da morte começara a rasgar minha pele aos poucos, minha boca tornara-se tão seca quanto um deserto, a cada inspiração dos meus pulmões meu rosto retorcera e congelara, dando a sensação de que era comprimido brutalmente.
Meu salvador nada dissera, apenas cobrira-me com um manto que parecera seu, pois detinha certo calor e um odor forte que não reconheceria mesmo que tentasse com todas as forças, ao contrário deles, meu faro, embora houvesse se desenvolvido um pouco pela convivência, não chegara nem perto do que fora o deles.
Esquecera-me de dizer quando contara sobre mim que eles também tiveram suas vantagens sobre mim. Uma delas fora essa, mas vocês devem ter imaginado.
Meu herói pousara sua mão sobre a minha e soubera naquele instante quem era. Bom, na verdade, quem não era. Aquelas mãos eram pequenas para serem masculinas, mas, em um mundo, um ambiente como o meu não era seguro basear-me naquilo para concluir algo. Protuberâncias estranhas e que me enojaram mesmo no escuro brotavam de sua mão anômala desde a ponta dos dedos até o alto do ombro esquerdo, o qual me apoiara para me levantar, se eu tentasse descrever aquelas coisas pelo tato diria que pareciam pequenos cogumelos, mas só a parte de cima, acho que seria o mais próximo que poderia chegar. Primeiro porque nunca tocara algo semelhante, não na pele de alguém, e segundo porque não era sensível a luz como meus conterrâneos, tudo o que sempre conseguira enxergar lá dentro, com muito esforço, foram vultos.
Quando me pusera de pé, percebera que essa pessoa também era mais baixa do que eu, bem mais baixa. Ao mesmo tempo fora puxada pela mão deformada que me libertara, na dianteira, e seu odor atingira meu nariz em cheio como se ela estivesse decompondo-se enquanto caminhara. Suas passadas desajeitadas guiaram-me por caminhos que eu não enxergara, por vezes chutara algumas pedras, recebera cortes das paredes rochosas afiadas como lembretes daquele dia.
A caverna sob a montanha possuíra diversas câmaras, algo que não lembrara quando tentava soltar as amarras. Como saberia para onde estaria indo? De que adiantaria escapar apenas para ser recapturada ou talvez morta? — Nosso instinto de sobrevivência pode ser bem insensato algumas vezes, mas temos que tentar, sempre. A premissa básica da condição humana, acho que era isso. Sim, acho que sim. Acreditar, mesmo sem razões para tal.
Do piso úmido e áspero, do bafo gélido da morte na minha nuca que me cobrira com seu manto aos poucos, das pedras pontiagudas nascendo do solo para perfurar meus pés, fôramos à parte que eu mais detestara, a qual reconhecera pelo som das gotas de água, percorrendo as estacas rochosas acima de nossas cabeças até beijarem as poças formadas abaixo ou nossas peles desprotegidas.
Meu peito palpitara mais rápido, depois mais rápido. Ficara apreensiva, minhas mãos suaram, a temperatura voltara a cair mesmo com o manto que recebera, os olhos reviraram-se em busca do mais ínfimo raio de luz.
Aquela câmara fora o lar de muitas criaturas, morte espreitara por cada fenda, que eram muitas, nas mais variadas formas entre elas a minha favorita. Aranhas! Monstruosas e medonhas, de múltiplos olhos, algumas brilhavam no escuro em tons azuis ou verdes bem acentuados, tamanho era o seu veneno, outras eram tão grandes que corriam pelo chão, pois suas teias não suportariam seu peso, tinham pelo menos dois palmos de comprimento e as que teciam teias, faziam-nas tão longas e asquerosas que tocavam o chão bloqueando a passagem, formando verdadeiras cortinas de terror pegajosas!
Detestara todas elas, mais do que tudo, tanto quanto o que me fizeram. Não soubera na época como nomear a covardia daqueles atos.
Então, meu bom samaritano apertara de repente minha mão com força, mas talvez eu tivesse apertado sua mão primeiro. Nascera uma desconfiança em mim devido aos recentes fatos e ao ambiente no qual me encontrara. A cada passo para dentro do meu segundo maior pesadelo, meus medos fortificaram-se. Estaria eu caindo em outra armadilha?
Olhara para as aranhas que saltavam pelas paredes, brilhando suavemente, emitindo sinais de alerta a cada movimento para uma vítima desavisada ou um predador ousado. Aquilo me fizera relutar à liberdade assim como o grito sufocante preso a minha garganta, a pele formigara, a sensação fora como se elas já estivessem sobre mim lançando seu veneno, sorvendo meus fluídos.
Naquele momento desesperador, tentara murmurar qualquer coisa para me dar força, quem dera eu soubesse rezar. Não que eu fizesse isso hoje, no entanto teria sido útil aquele dia.
Novamente meu salvador, aparentando mais ansiedade do que eu puxara-me pelo braço agindo como meus olhos nas trevas e eu o seguira com o coração na boca e uma sensação de desmaio, não comera o dia todo, lutara para escapar das amarras e fora abusada. Estava fraca.
Fios grudaram em meus cabelos, prenderam-se em meu manto e em minha confiança. Os olhos procuraram freneticamente, porém só puderam enxergar manchas coloridas que se moviam pelo breu, os ouvidos captaram o ruído pavoroso e asqueroso dos fios pegajosos se rompendo, enquanto meus lábios... Tiveram o prazer de degustar aquela coisa nojenta. Aquilo já estava por todo o meu corpo, quanto mais avançávamos mais nos embrulhávamos naquela coisa.
Meu guia puxara-me mais uma vez, no entanto com mais energia, aumentáramos a passada tentando manter a discrição tanto quanto possível simultaneamente visando afastar nossas predadoras que começaram a saltar sobre nós, congelando meu sangue a cada golpe do seu peso. Tivemos de golpeá-las enquanto corríamos.
Passáramos pela câmara dos horrores, mas ainda estávamos cobertos com amostras dele. Chegáramos a um canto mais tranqüilo, tivéramos apenas que vencer um labirinto natural para chegar a passagens minúsculas pelas qual tivemos de rastejar, nos espremer, andar lateralmente e escalar paredes. Sinceramente, não saberia dizer como aquele pessoal fora tão franzino.
Aquela altura eu avistara os primeiros sinais de que realmente estava livre.
Plantas que brilhavam no escuro sugiram, a luz atingira meus olhos como uma alfinetada como todas as vezes em que passara muito tempo na caverna, o ar frio e afiado ainda machucava, mas agora trouxera o aroma de uma nova vida. A felicidade apoderara-se de mim de modo tão avassalador que nublara minha mente e seqüestrara minha gratidão.
Finalmente colocara meus pés naquela relva. Ajoelhara-me, encolhera-me como um tatu e agarrei aquele mato coberto de um gelo fino que agulhava meus dedos quase dormentes. Então, voltara-me para agradecer meu salvador e para minha surpresa... Era uma mulher.
Jamais havia visto tal criatura! O braço esquerdo era mesmo coberto por aqueles caroços, umas protuberâncias estranhas, pareciam a casca de uma árvore e produziam um odor repugnante que parecera intensificar-se com aquela imagem horrenda. Quando mirara sua face o pesadelo aumentou, meu olhar se perdera. Uma face esquelética e assustadora terminara em terríveis olhos negros com pouco ou nenhum brilho mostrara-se para mim sobre a luz da lua. Dentes tortos e disformes tentaram preencher a boca igualmente deformada, num formato semicircular. Sua respiração era muito empenhada em empurrar o ar para os pulmões, tarefa difícil que parecia rasgar sua garganta de dentro para fora.
Constatara que se tratava de uma mulher através de seu corpo nu. Ossos finos e ombros estreitos lutaram para sustentar o próprio peso.
Ela começara a grunhir e avançar em minha direção, um som raivoso, arrepiante e gutural. Quisera falar algo, pensara eu, ao passo que minhas pernas desejaram levantar e correr. Pudera sentir meus olhos saltarem das órbitas conforme ela se aproximara, meu corpo sendo puxado pelos braços aflitos, deixara cair o manto no chão e arranhara-me a cada braçada para longe da criatura em pequenas pedras pelo caminho.
Subitamente ela pulara sobre mim ao que eu virara de costas para ela gritando, debatendo. Ela buscara pelo terreno e encontrara uma pedra com a qual acertara minha cabeça...
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Acordara algum tempo mais tarde, com um inchaço na têmpora que sangrava. A aberração estava a minha frente junto de uma fogueira grande e acolhedora, cheiro de carne pairara no ar em harmonia com a fumaça e as fagulhas, estalos suaves da madeira sendo consumida pelas chamas induziam novamente ao sono, mas tivera levantar, não era hora de relaxar.
Com o corpo ainda relaxado fora difícil, porém conseguira sentar-me. Ao fazê-lo minha cabeça girara, começara a latejar e tentei aliviar pressionando o local onde fora atingida pela pedra, então um homem viera até mim.
Ele era mais forte do que os outros, no entanto, estivera longe de ser como eu. Ainda tinha a pele pálida, o rosto embora não fosse tão magro ainda estampava a desnutrição, seus dentes pareciam mais saudáveis e suas deformidades tanto na face como no resto do corpo não eram tão grandes. Vestia peles de animais mortos como o resto de nós, a pele de um leão cobrira-o da cabeça até as costas, sendo a boca do leão uma espécie de touca, a calça era de couro cozido, somente o peito franzino ficava ligeiramente exposto, bem com os braços. Ele me dera outra coberta.
– Obrigada. – Agradecera sem saber ao certo como reagir.
– Não deve agradecimentos a mim... – Respondera.
Logo percebera que ele era diferente, quase como eu, pois soubera se comunicar com perfeição.
– Agradeça a ela. – Acenou com a cabeça – Foi idéia dela salvar você.
A culpara caíra sobre mim como um raio.
Ele se afastara e apanhara-me um pouco de alimento, oferecera-o para mim numa travessa de argila.
– Como...
– Meu nome é Tiberius e ela é Kirie. – Interrompera.
– Obrigada... Aos dois – Engolira um dos pedaços da carne praticamente inteiros, já que a mastigação aumentava as batidas dentro da minha cabeça. Levara novamente as mãos a cabeça, gemendo, ao que ele me oferecera algo para beber.
– Vai aliviar a dor.
Não parecera provável, mas quisera muito acabar com aquele incômodo. Experimentara aquela água suja, com gosto de barro e urina de algum animal, era um gosto indescritível e assim o descreveria.
– Seu amigo logo virá buscá-la. Esteja preparada quando ele chegar.
– Amigo? – Pensara.
Não me lembrara de amigo algum...
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