The 100
3 Que amigo?
Amigo...
Amigo... Aquilo martelara minha cabeça pregando uma profunda curiosidade. Quanto mais eu tentara lembrar-me mais minha cabeça latejara, parecia esmagar meu crânio, pensara em indagar Tiberius a respeito, afinal ele demonstrara conhecer meu “amigo”. Em seu lugar, se me visse tão mal, esperaria mais para tal revelação. Fora abusada há pouco, tivera um pesadelo lúcido e vivido grunhindo pra mim com ferocidade animal e depois apedrejada. Ao menos conseguira aquecer-me.
As frases que formulara na cabeça pareceram cair como pedra no estômago. O que tomara afinal? Fora realmente para me ajudar? Recostada numa árvore, vasculhara o local tão rapidamente quanto meus olhos permitiram, estranhara o fato de as plantas não brilharem ali, alguns lugares eu nunca visitara à noite e aquele fora um deles. Árvores muito robustas estendiam-se até as estrelas, o céu noturno quase sem estrelas lembrara-me de como estávamos sozinhos, ainda mais naquela época, sempre estivemos sozinhos. O solo fora forrado com pele animal por Tiberius, meu anfitrião, porém sua fala áspera evidenciara seu desinteresse pelo meu bem-estar, então, concluíra o óbvio, o lugar em que repousara pertencia a Kirie e o lugar que ela ocupara era de Tiberius. Por que ela fora tão boa comigo? Nunca nos vimos... Movera os olhos sobre Tiberius um instante, entrando numa tenda pequena afastada da luz, da forma como nossa tribo gostara de viver, escondida nas trevas. Aquele pequeno gesto com os olhos bastaram para revirar meu estômago, dera-me vertigem, a garganta incendiara, o estômago contraíra-se abruptamente e o vômito forçara sua passagem.
– Não faça isso! – Saira Tiberius apressado quando avistara-me. – Não tenho mais ingredientes pra lhe fazer outro chá.
Aquele sabor azedo preenchera minha boca, mas seguira seu conselho e fizera o possível para resistir a vontade tentadora de colocar aquilo pra fora da forma que meu corpo desejara. Meu rosto se contorcera e pude sentir uma vez mais a pedrada no meu crânio quando aquela mistura de sucos gástricos e alimentos mal digeridos rasgaram minha garganta ao descer, deitara-me inspirando tão lenta e minimamente quanto conseguira. Mal pudera acreditar naquela situação. Eu, a mais valente e mortal da minha tribo, capturada de surpresa, abusada, liberta por um verdadeiro bicho-papão o qual fizera-me correr e gritar feito uma menininha, coisa que nunca fora. Era o fundo do poço.
Tiberius voltara para dentro da tenda.
Tentara ordenar os pensamentos e descobrir se minha cabeça explodiria pondo fim aquilo. Fechara os olhos na esperança de concentrar-me melhor, mas isso parecera ampliar o enjoo. Contudo, lutara firmemente daquela vez. Cutucara cantos obscuros na minha mente a procura do mais ínfimo raio de luz como um polonês que pesca no gelo atrás de um peixe.
Onde eu ouvira aquela história? O que era um polonês? Seria minha memória voltando?
O fogo começara a baixar aos poucos. Os grossos galhos sucumbiram devagar as chamas vorazes, tombando um após o outro em estalos repentinos e acalentadores, relaxando-me, pesando minhas pálpebras. Aquele sempre fora o melhor som do mundo para mim, emanando uma paz, exalando tranquilidade, chamas dançantes transmitiram seu calor intenso ao meu corpo debilitado evaporando cada gota de tensão com um verdadeiro espetáculo, indomáveis, impiedosas, consumindo tudo pelo caminho, afugentando as sombras. A melhor terapia.
A sensação fora tão boa que aliviara minha dor, sentira como se acabasse de receber uma massagem. Um sorriso seguido de um tímido riso de alívio ganharam meus lábios. Esquecera tudo o que acontecera, quisera apenas ouvir aqueles estalos, o fogo me envolvendo.
Toda a tranquilidade, no entanto, todo o relaxamento foram soprados para longe quando sentira o odor de Kirie vindo em minha direção empurrando-me para a realidade que eu tanto quisera apagar da minha cabeça, ainda que por alguns instantes. Eu relutara em abrir os olhos, mesmo sabendo que ela me encarava bem de perto.
Subitamente um grunhido sacudira-me do chão. Meu ouvido zumbira por um tempo. Aparentemente a tentativa de ignorá-la não dera certo. Ela fizera-me gestos confusos. Eu soubera que queria comunicar-se, mas não fizera ideia do que tentara dizer, levara a mão a cabeça depois a sacudira com força como se me fosse golpear novamente, eu me afastara, ela batera no solo, talvez por frustração de não conseguir transmitir sua mensagem, até que Tiberius intervira por nós.
– Ela quer desculpar-se pela pedrada.
Kirie tornara-se para ele e de volta para mim.
Concluíra que aquele gesto representasse sua compreensão da tradução feita por ele. Ponderara sobre o pedido dela, trocáramos olhares durante alguns momentos.
Ela me salvara, mas quase transformara minha cabeça numa pasta, não tivera motivos para tal, ou talvez tivesse, isso também era algo a se pensar, provavelmente se tratasse de autopreservação – quem sabe? Sentimentos conflitantes apoderaram-se de mim, não pretendera ser ingrata, mas, infelizmente, toda vez que olhara para ela lembrara apenas do que me fizeram, as paredes frias e ásperas esfolando minha pele lentamente, aqueles rostos deformados mergulhando entre meus seios, cheirando meu pescoço, línguas lambendo, lágrimas... As lembranças se chocaram com a culpa da ingratidão. Rancor e culpa, fora difícil fazer emergir daí a gratidão.
– Ela se arriscou por você. – pronunciara-se mais uma vez Tiberius. – Sei que passou por um pesadelo, mas o mínimo que pode fazer é expressar gratidão. – terminara, com um olhar duro.
Meu olhar mergulhara no solo em busca da minha dignidade, vasculharam incansavelmente até desistirem da busca. As palavras ditas por ele me enforcaram pouco a pouco.
Voltara novamente os olhos para ela quando ele passara seu sermão. Fora como ver-me num espelho. Vira a mulher dentro dela, uma que talvez nunca sentisse o calor de um homem, não que fosse algo essencial, mas ainda assim era triste, um ser humano-ilha ao qual poucos poderiam chegar, que talvez jamais fosse descoberto ou fizesse amigos. Fôramos o avesso uma da outra. Eu também fora um monstro, mas só naquele momento pudera encarar o que estivera tão oculto debaixo da minha carne, sempre caçando, matando, preparando armadilhas, tomando o que precisasse de quem quer que fosse lançando-os a própria sorte. A gratidão fizera-se ausente em mim bem como a compaixão, como nunca me ensinaram a senti-las assim eu vivera.
Contudo, Tiberius convencera-me com suas palavras, como se com elas perturbasse a superfície daquilo que eu sempre pensara ser meu reflexo e revelasse minha verdadeira identidade, uma face terrível e obscura da qual avistara apenas o sangue rubro gotejando de seu sorriso sádico, olhos cobertos pelos longos cabelos negros volumosos e ressecados reforçaram sua animalidade, uma besta que passara-se por gente. Ela sorrira para mim das trevas do meu coração e quisera corresponde-la, mas não conseguira, entretanto isso não desmanchara sua expressão macabra, pois ela confiara cegamente que nos veríamos novamente. Naquela época, desejara que ela estivesse errada.
Despedira-me das sombras e o mundo colorira-se diante de mim outra vez, com a fogueira crepitando e Tiberius a alimenta-la a fim de que durasse apenas mais algumas horas, provavelmente até que meu amigo secreto aparecesse, afinal minha tribo não fora conhecida como espíritos da noite atoa. Kirie ainda aguardara uma resposta minha com paciência e ingenuidade, aquilo começara a derreter o invólucro de gelo do meu coração e este vertera pelos meus olhos. Entendera que eu era a pobre criatura, não tivera ninguém por mim a não ser por interesse e nunca estivera com alguém pelo mesmo motivo. Ajoelhara–me, secara as lágrimas escondendo o rosto olhando para o chão, não conseguira encará-la após tantas atitudes tolas. Ignorara o forte odor de seu braço, sua horrível aparência esquelética e o rosto desfigurado, abraçara-a da maneira mais gentil que conseguira. Kirie também me envolveu com seus braços sem muita coordenação, ou talvez estivesse emocionada, nunca soubera qual dos dois.
Tiberius observara a cena e acrescentou:
– Ela é minha irmã... – pausou. – e nem mesmo eu a abracei com tamanha ternura.
Surpreendera-me com a revelação, mas imaginara algo do tipo, então sorrira e respondera:
– Porque você nunca a entendeu.
Embora eu fosse só por motivos distintos dos dela, compreendera-a verdadeiramente.
Tudo passara, a dor de cabeça, o rancor, o medo, no entanto ainda não lembrara do meu amigo misterioso. Pra onde ele me levaria? Como nos conhecêramos? Fora impossível acalmar-me completamente até que ele surgisse. Então...
Ouvira um galope distante, distanciara-me suavemente de Kirie, os instintos imperaram, meus olhos como os de um felino rasgaram a noite entre árvores e arbustos guiados pelos sons captados pelos ouvidos e logo pudera ver um vulto, era a hora de descobrir quem era o outro convidado.
Sua montaria adentrara cada vez mais na luz, mas o rosto do cavaleiro estivera coberto, vislumbrara apenas seus olhos castanhos que pareciam crepitar como nossa fogueira. Ele pulara do cavalo com grande destreza, num único movimento, cumprimentara Tiberius e os dois cochicharam algo que não pudera ouvir.
O convidado misterioso então tirara o capuz e a máscara que usara, virara-se para mim:
– Pronta?
Chocara-me quando mesmo sem a máscara não o reconhecera. Como poderia toda aquela minha confusão ser resultado daquele único golpe? Fora difícil acreditar...
Porém eu estava livre...
O jogo seria diferente ali...
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