Teus Olhos Meus
27 XXVI — Cicatrizes.
Notas iniciais
MARCOS
“Ótimo, agora ele tem como comprovar que Késsia estava certa ao nos acusar.”.
Li a mensagem sentindo o rosto queimar. Eu não conseguia assumir, mas sabia que ele tinha razão.
“Não implica com o Caio, ele não faria isso.” Respondi.
“Eu espero que não, porque se isso acontecer nós dois teremos sérios problemas.”.
“Isso não vai acontecer, ok?”
“Espero que não, agora tenho que ir. Vou aproveitar minha família. Quando eu chegar damos um jeito de nós ver e conversar melhor. Beijos... Te amo.”
“Te amo...”
E não recebi mais nenhum mensagem do meu namorado.
Eu até entendo os motivos dele está com esse receio, mas até agora nada passa de paranoia. Caio não faria isso, eu tenho certeza. Ele não me prejudicaria assim, bem, mesmo tendo deixado bem claro que jamais me daria apoio em relação a isso. O sangue é mais denso que a água, não é mesmo?
Não iria desperdiçar a minha ereção matinal com isso.
Estiquei o braço até o criado mudo do meu primo e alcancei o meu notebook. Digitei “pornô amador” e cliquei no primeiro que vi.
No mesmo instante arriei a cueca que trajava até a metade da coxa, lubrifiquei as mãos com bastante saliva e comecei a acariciar meu membro que estava cada vez mais duro. O movimento repetitivo que eu produzia com as duas mãos estava em perfeita sincronia com os atores do vídeo. Enquanto minha respiração acelerava, eu o sentia cada vez mais enrijecido e pulsante. Mordi os lábios enquanto meus pensamentos vagueavam em meio de tanta imaginação. Com os olhos semicerrados, observei os atores mudarem de posição e logo imaginei meu namorado e eu naquela posição. Eu estava prestes a chegar em completo êxtase quando um bater na porta me interrompeu.
— Posso entrar? — uma voz familiar perguntou.
Me cobri com o edredom e em seguida fechei o vídeo. Roguei para que aquele cheio tivesse pouco perceptível e respondi o chamado.
— É claro.
— Dormiu bem? — minha tia adentrou o quarto com um sorriso no rosto.
— Melhor do que eu esperava tia.
— Que ótimo — ela abriu um sorriso. — E seu primo pelo visto nem dormiu né? A cama arrumada...
— Ou dormiu na cama de alguma menina — debochei.
— Nem um pouco esperto, não é mesmo? Está aproveitando o máximo que pode — ela fez uma pausa e sua expressão mudou completamente. — Mas não é por isso que vim aqui conversar com você, meu querido.
— Está acontecendo alguma coisa tia? Está se sentido mal? — Indaguei, mas ela não respondeu, apenas esfregou as mãos como se precisasse tomar coragem pra algo. — Está tudo bem?
— Eu é quem deveria fazer essa pergunta Marcos — ela disse. — Eu sei que você não está apenas passando uns dias aqui em casa, aconteceu alguma coisa pra você abandonar o seu lar...
— Aconteceu, realmente aconteceu... — não sabia como explicar.
— Sua mãe me liga mais de uma vez ao dia pra saber notícias sua — disse. — Por que não estão se falando?
— Eu cresci e eles não aceitaram isso — havia muita verdade em minha fala. — Ou eu tirava um tempo de casa pra pensar na situação ou sairia por aquela porta pra nunca mais.
— Marcos, sua mãe está preocupadíssima. Não parece ser só brigas familiares.
— Não é nada de mais — menti. — Mas vou dar um jeito de ver mamãe e pedir que ela parede de infortunar a senhora.
— Espero que se resolvam — ela disse com um enorme sorriso amarelo no rosto.
— Obrigado por me acolher.
— Até parece, já limpei essa sua bunda branca. Jamais te negaria abrigo — ela me acariciou o rosto — Agora me deixe ir, estou indo almoçar com as amigas.
Todos da família já ouviram falar dessas a migas de titia pelo menos uma vez na vida, mas nunca ninguém as viu. Por isso começou a circular um boato que essas supostas amigas na verdade não se passa de um amante... Mas quem sou eu pra julgar, não é mesmo? Espero que ela se divirta no almoço com as amigas, mesmo ela tendo... interrompido a minha punheta.
[...]
São 20h01, marquei 20h com Antônio no restaurante que sempre vamos.
Por que diabos ele está TÃO atrasado?
Nesses eternos 1min em que eu esperava várias coisas se passavam pela minha cabeça. E se ele resolvesse me largar só porque contei para Caio?! Não. O Antônio que eu conheço jamais faria isso, pelo menos eu acho que não.
Eu poderia ficar aqui dizendo tudo que estava passando pela minha mente n esse exato momento, mas... LÁ ESTAVA ELE.
Lindo como sempre, trajando uma camisa de gola azul anil por baixo de um casaco de lã cinza. A cada passo que dava em direção a mim eu conseguia sentir seu perfume e imaginar nossos lábios se tocando cada vez mais intensamente. Infelizmente, eu sabia que nada disso iria acontecer.
Levantei, o abracei e com toda descrição do mundo deixei um pequeno chupão em seu pescoço.
— Boa noite — disse.
— Boa, né? — havia algo de diferente no tom da sua voz.
Ignorei aquilo e sentei. Logo apareceu o garçom que sempre nos atendia e pedimos o de sempre.
Pedi que comêssemos antes de começar a discutir sobre o que eu fiz e ele concordou , no mesmo instante comecei a perguntar sobre sua viajem e ele narrava entusiasmado e eu demonstrava interesse em ouvir cada passo que ele deu. Esse era o Antônio que eu conhecia, o que quando estava junto de mim parecia esquecer todos os demônios dentro de seu peito.
Quando acabamos de comer, ele pediu mais um suco de melancia e ficou me encarando por um instante.
— Minha mãe e minha irmã estarão aqui amanhã pra te conhecer, da faculdade vamos direto lá pra casa e você arruma lá mesmo.
— Que?
— É... Insistiram tanto que não soube recusar.
— Mas e se elas não gostarem de mim?
— Ai o problema será delas. Quem namora você sou eu, não elas.
— Você é um amorzinho — apoiei minha mão em cima da sua sobre a mesa.
— Eu sei, eu sei — ele riu. — Mas agora podemos conversar sobre o que aconteceu?
— Não aconteceu nada, eu só estava cansado de mentir para o meu melhor amigo desde que eu, porra, nasci.
— Pra que está aumentando o tom de voz? — ele questionou.
— É porque me sinto intimidado e até mesmo em desvantagem.
— Desvantagem?
— Sim! Desvantagem — afirmei. — Todos seus amigos sabem sobre nós, até sua família e eu não posso contar pra nenhum dos meus amigos.
— Poder você pode, se tem coragem é outros quinhetos.
— Pensei que você sabia o quão novo e difícil é pra mim, mas pelo visto eu estava errado.
— Marcos, você tem todo o meu apoio, mas poderia pelo menos ter me contado.
— Eu contei.
— Depois que já tinha feito.
— E agora eu tenho que te pedi permissões pras coisas? — respirei fundo. — Se quiser controlar a vida de alguém vai jogar The Sims ao invés de namorar porque não vou me acorrentar a você e fazer tudo que espera que eu faça.
— Tudo bem. Ótimo.
— Ótimo.
Deixei uma nota em cima da mesa e saí andando. Peguei o primeiro táxi que passou na avenida e pedi para ele correr o máximo que podia.
Ao adentrar a casa dos meus tios, tudo estava escuro e silencioso.
Devo estar sozinho. Pensei.
Fui para o banheiro jogar um pouco de água no rosto na tentativa de me acalmar. Não estava dando certo.
Comecei a pensar em tudo aquilo que havia acontecido e uma onda de ódio subiu por todo o meu corpo.
— Desgraçado — bradei.
No mesmo instante cerrei o punho e o levei com extrema força até o espelho que imediatamente se espatifou pela pia. Alguns segundos percebi o que havia acontecido, minha mão sangrava pelo corte que eu havia adquirido.
— Que diabos está acontecendo aqui? — Caio adentrou o banheiro. — Ai minhas bolas, vem pro meu quarto que eu faço um curativo ou vejo se preciso te levar pro hospital.
— Nunca achei que seu curso de primeiros socorros seria útil.
— Vai caçoando, palhaço — Caio parou de falar, retirou tesoura, antisséptico, ataduras e gazes. — Me dê a mão.
Estiquei a mão. É, pelo visto o negócio estava bem feio. Todos os nós dos dedos estavam vermelhos e feridos. Havia sangue espelhado por toda mão que começava a secar. Uma luva vermelha.
Caio balançou a cabeça negativamente.
— Você é um idiota.
— Obrigado — disse observando o que ele fazia.
Encurvei o corpo e cerrei os olhos e o vi pegar uma pinça pra retirar um pedaço de vidro que havia ficado alojado ali.
Ele jogou o líquido ardido em meus cortes.
— Não poderia usar algo que não ardia.
— Não.
— Por que não?
— Fará bem você sentir um pouco de dor, assim vai pensar no erro que cometeu.
— Eu poderia ir ao hospital e eles me dariam anestesia, você sabe.
Meu primo começou a limpar minha mão com as gazes.
— Se quiser que eu explique a meus pais porque isso aconteceu, fique à-vontade — ele começou a me dar um pequeno ponto onde o vidro havia penetrado.
— Não sabia que meu soco ao espelho o perturbaria tanto.
— Primeiro, me explique porque fez isso a si mesmo.
Expliquei. Envergonhado, mas expliquei.
Era perceptível em seu rosto que ele não estava contente com o que acabara de ouvir.
— Nunca vou conseguir concordar com isso, nunca — ele se concentrou em analisar a minha mão. — Por que você faz essas coisas a si mesmo? Não em relação a ter socado o espelho e tudo mais, mas a maneira que você tem se submetido a ele. Por que você está se punindo? Eu, por mais que ache isso abominável, sei que não podemos controlar os sentimentos.
Sua voz estava firme.
— Por que vocês estão juntos, afinal? — ele questionou.
— Porque ele é o único que consegue me entender, é o único que eu posso ser eu mesmo, não ter mais segredos.
— Porra! — Ele me fitou nos olhos. — Eu não acredito que você escondeu isso de mim, eu achando que estava fazendo algo de errado, mas... Era só você com medo de me contar, medo de mim, seu melhor amigo.
— Você sabe porque eu tinha medo.
— O sangue é mais denso que a água — ele me puxou pra um abraço. — Eu te respeito pelo homem que você é, independentemente de suas escolhas.
— Olha, isso não é uma escolha, é uma condição.
— Claro que é uma escolha, uma opção.
— Quando você escolheu ser hétero?
— Sempre foi assim, você sabe. E sempre foi com você também, até você começar a faculdade.
— Mas eu não escolhi, eu nasci assim. Só nunca tinha conhecido alguém que despertasse esse desejo em mim.
— Explica-me isso.
O contei sobre a Escala de Kinsey e ele afirmou ser 100% hétero exclusivo.
Eu acreditei, afinal, conheço o primo que tenho.
— Mas vai ficar tudo bem, se não ficar eu dou um mata leão nesse professorzinho egocêntrico.
— Não fala assim, ele é parte da família.
— Não me lembra uma coisa dessas, eu o amo.
— É, então reza pras coisas se resolverem ou ele irá se ver comigo.
Ele levantou e bagunçou o meu cabelo, guardou a caixa e começou ir em direção ao banheiro.
— Caio, posso te pedir uma coisa?
— Claro.
— Não conte sobre nada disso pra ninguém.
— Não irei, não gostaria que fizessem o mesmo comigo.
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